VOC FAZ O AMANH
MARCELO CEZAR
(ESPRITO MARCO AURLIO)

SINOPSE

Ao enfrentarmos a vida na Terra, esquecidos do passado, somos envolvidos por crenas sociais de aparncia, que conduzem ao materialismo, ao preconceito, a luta de 
classes e a completa inverso dos valores espirituais que trabalham para o bem de todos. Mas a vida e muito mais do que parece, e trabalha para que cada um desenvolva 
seus potenciais latentes. As iluses vo se desvanecendo e fazendo contraste para que a verdade fique esclarecida. E dessa forma que vamos adquirindo lucidez, aumentando 
nosso senso de realidade, percebendo nossos enganos. Reconhea que o poder de conquistar a felicidade esta em suas mos. Se desejar progredir sem sofrer, assuma 
seu desejo de ficar no bem, jogue fora as iluses, no tenha medo do futuro, porque VOC FAZ O AMANH e pode faz-lo muito melhor!

ZBIA GASPARETTO


Ao cair da tarde, uma nuvem escura cobriu a cidade. No demorou muito para que os relmpagos cortassem o cu e o barulho ensurdecedor dos raios assustasse algumas 
pessoas. De repente a tempestade desabou com imensa fria sobre os quatro cantos da capital paulista. Alguns pedestres corriam, tentando inutilmente proteger a cabea 
com as mos; outros adentravam bares, padarias, lojas ou disputavam lugar sob as marquises, procurando se proteger das gotas espessas que caam sem cessar. Muitas 
ruas e avenidas ficaram alagadas; os servios de bondes e nibus foram interrompidos e o catico trnsito parou de vez. As luzes se apagaram e se acenderam algumas 
vezes, conforme a intensidade dos troves. A maioria dos bairros ficou sem energia eltrica. Era sempre assim, havia anos: as chuvas de fim de vero atrapalhavam 
sobremaneira a vida dos paulistanos. Miguel estava em p, encostado na janela. Ficou observando as grossas gotas de gua que chicoteavam o vidro de uma das janelas 
de seu escritrio, num edifcio comercial de luxo na Avenida Paulista. Distraiu-se um pouco com a entrada da secretria em sua sala. Ao verificar que o fim do expediente 
se aproximara, ele a dispensou, sem desviar os olhos da janela. Queria ficar sozinho. Precisava desesperadamente encontrar uma sada. Naquele momento, Miguel sentia 
medo, puro medo. Um medo forte do futuro, de como seria sua vida dali em diante, cuja origem comeou com uma catstrofe econmica que abalara suas estruturas meses 
atrs. Expliquemos melhor o que acontecera a Miguel. At anos atrs, comprar aes da Companhia Paulista de Estradas de Ferro era excelente aplicao de capital. 
Quem possusse determinada quantia de dinheiro na Caixa Econmica e outro tanto num outro banco, ganhava boa remunerao, algo em torno de oito por cento ao ano. 
Toda vez que a Companhia aumentava o capital, o cidado comprava um lote de aes e os dividendos aumentavam em escala progressiva. Era uma beleza. A solidez da 
empresa e os dividendos das aes eram altamente sedutores. Todavia, vieram no decorrer dos anos  inflao, os encargos assistenciais, as trocas de governadores 
e muitos outros problemas, e a Companhia Paulista de Estradas de Ferro entrou em crise financeira. O patrimnio, economicamente falando, era formidvel. Mas, quanto 
aos dividendos, deixaram de remunerar e a empresa no podia apelar para aumento de capital. Assim, o valor das aes foi baixando vertiginosamente na Bolsa de Valores. 
Em junho de 1961, o mercado financeiro sofreu terrvel baque. O governo do Estado expediu decreto desapropriando cinqenta e um por cento das aes da Companhia 
Paulista. Alm de estatizar a empresa, segundo os jornais, o governo adquiriu o controle de um patrimnio gigantesco por quantia irrisria. E o pobre do Miguel investira 
a totalidade de seu dinheiro, tempos atrs, em aes da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Agora, como acionista, teve de vender foradamente suas aes ao 
governo por um valor muito, mas muito baixo. Concluso: Miguel viu todo o seu p-de-meia, construdo ao longo de quase trinta anos, derreter em meses. Ele entrou 
na Justia, contratou advogados. Em vo. E, para piorar a situao, o presidente da Repblica renunciara ao cargo. O pas parecia uma bomba-relgio prestes a explodir. 
Miguel lembrou-se de Ramrez. Seu rosto paralisou tamanho o dio. Por que fora acreditar naquele vigarista? Alguns amigos o alertaram sobre a reputao de Ramrez, 
entretanto sua ganncia era desmedida. Para investir todos os seus recursos em aes da Companhia Paulista, Miguel recebeu de Ramrez uma "bonificao de mais de 
dois milhes! Era muito dinheiro na poca. 
- Sempre desconfiei de dinheiro que cai do cu. Por que confiei nesse homem? Por qu?
Miguel cerrou o punho e teve vontade de arrebentar a vidraa  sua frente. Deu-se uma tapa na testa, culpando-se por ter cado no conto-do-vigrio. Quantas e quantas 
vezes amigos prximos o haviam orientado a diversificar suas aplicaes? Mas agora era tarde, tarde demais. O que mais incomodava Miguel, no entanto, era a pobreza. 
Perder tudo, amigos, status, casa, conforto, regalias. Ele viu sua vida ir para o buraco. Fazia dias que pensava numa soluo, mas no tinha o que fazer. Em breve 
a Caixa Econmica iria penhorar sua casa no bairro do Pacaembu. O aluguel do escritrio de engenharia estava atrasado havia meses. O proprietrio entrara com ao 
para a desocupao do imvel comercial. Miguel estremeceu. Afastou-se da janela com movimentos bruscos. Rodou nos calcanhares e jogou o corpo sobre a cadeira de 
couro, pensativo. Miguel Gouveia Penteado, cinqenta e seis anos bem conservados, engenheiro civil, casado, pai de dois filhos adultos, passou nervosamente as mos 
sobre os cabelos prateados. Olhou impaciente para um dos cantos da mesa e seus olhos fixaram o porta-retratos. Ao avistar o rosto da jovem, seus lbios esboaram 
leve sorriso. Ana Paula sempre fora a filha predileta. Quantas e quantas vezes havia brigado com Guilhermina, sua esposa, por causa de Ana Paula? Disse em alto tom:
- Voc sempre foi pssima me. Se ao menos tratasse sua filha como trata Luis Carlos! Mas no! Implica com a menina desde que ela veio ao mundo. S porque Ana Paula 
no correspondeu s suas expectativas, oras?
Miguel balanou a cabea para os lados. Tinha pena da filha. E muito mais agora. Tentara ser um pai amoroso, cobria Ana Paula de mimos e conforto. Educara os filhos 
a serem totalmente dependentes de seu dinheiro. Gabava-se, antigamente, de dar gorda mesada e comprar tudo o que queriam. Ana Paula contentava-se com muito pouco. 
Sentia-se constrangida em receber mesada j adulta. Ultimamente tencionava procurar emprego, sentia vontade de ser independente, de viver a prpria vida. Luis Carlos 
acomodara-se e s queria saber de farra. Metia-se s em confuso. s vezes Miguel se perguntava se no havia estragado ou corrompido a ndole dos filhos, tamanha 
a proteo.
- Eu quis dar a eles tudo o que no tive tudo aquilo que meu pai no me deu. Ser que fiz algo errado? - perguntava-se, aflito. E agora? Com que cara iria falar 
com os filhos? No tinha a mnima noo de como iria encar-los, principalmente Lus Carlos. Guilhermina era caso a parte. Como contar a esposa que estavam falidos? 
Ela era bem capaz de esfol-lo sem do nem piedade. Guilhermina era geniosa, tinha temperamento forte. Ela tambm o alertara sobre a diversificao das aplicaes. 
Ele no lhe dera ouvidos. Pela primeira vez na vida tinha de dar o brao a torcer para a esposa. Mas ela era fogo! Imagine Guilhermina saber que haviam perdido tudo! 
Ela iria ass-lo vivo isso sim. 
Miguel estava cansado, sentia-se no limite de suas forcas. Havia sete meses que tentava, sem sucesso, ganhar uma concorrncia, uma nica obra que fosse do governo 
federal. Isso pelo menos poderia amenizar sua penria. Se ganhasse uma obra, teria tempo para pensar no que fazer. Mas que nada! Qualquer empresrio que tivera contatos 
ou ligaes com o antigo presidente estava agora metido numa espcie de lista negra feita pelo alto escalo do novo governo. As portas do Planalto estavam-lhe definitivamente 
fechadas. Ele sentia-se agoniado. Tamborilou os dedos na mesa. Sua respirao estava entrecortada. O empresrio, corpo alquebrado, inclinou-se e pegou novamente 
a carta. Releu-a pela ensima vez. O novo governo rescindira o ltimo contrato com a sua construtora.
- Maldito Jnio! - bradou. - Renunciar a Presidncia sem mais nem menos? Nestes ltimos sete meses o novo secretrio de Obras no quis me atender, nenhum senador 
quis me receber, o primeiro-ministro desapareceu. O presidente Joo Goulart  figura inacessvel. O Ramrez desapareceu. Eu no o encontro. Ele tem de me dar satisfaes 
sobre essas aes amaldioadas!
Ele deu forte murro na mesa.
- Meu Deus, e eu?! O que fazer? Todas as dvidas contradas esto em meu nome...
Miguel cobriu o rosto com as mos, num gesto de extremo desespero. Era o fim de tudo: da fama, do prestgio, dos jantares, dos conluios com figures do governo. 
E o pior: era o fim do dinheiro, de um patrimnio construdo ao longo de mais de trinta anos de trabalho. Ele mordeu os lbios com fria, sentindo o gosto amargo 
de sangue. O desespero apossou-se dele. Agora no adiantava mais pensar em nada. De que adiantava pensar no que poderia ter feito antes? J estava feito. O passado 
estava morto, enterrado. Preferia morrer a viver daquela maneira. Morrer! Por que no? Sim! A soluo dos problemas era essa mesma. Por que se resignar e viver pobremente? 
Por que se desesperar a toa? Descer o padro de vida? Nunca! Ser alvo do escrnio da sociedade? Nem pensar!
-  isso mesmo, no tem outra sada - disse para si, em tom desesperador.
Miguel consultou o relgio: seis e trinta da tarde. Ele pegou uma caixinha ao lado do porta-retratos. Tirou de l uma pequena chave, levantou-se e caminhou at o 
cofre. A chuva continuava castigando a cidade, sem piedade. Os relmpagos ficaram mais intensos, como se estivessem a par do que viria a seguir. Miguel estremeceu 
ante os troves. Todavia, vestido de co-agem, meteu a chave no cofre, abriu-o, certificou-se e, antes de pegar, hesitou:
- Devagar ou rpido?
Rangeu os dentes controlando a ansiedade. Decidiu:
- Rpido.
Num gesto digno de cena de cinema, Miguel fechou os olhos e mordeu os lbios. Encostou o cano metlico bem prximo do peito, na altura do corao e apertou o gatilho. 
Bum. Um tiro seco e fatal. Suzana era uma jovem bem bonita. Alta, de corpo bem-feito, possua olhos grandes e amendoados, os cabelos castanhos e lisos cados na 
altura dos ombros. Ela chamava a ateno por onde passava. Sabia disso e, por essa razo, no era de dar confiana? A maioria dos homens a olhava como objeto de 
prazer, mas ela se impunha e s vezes chegava a bater boca com algum engraadinho mais afoito. Por esse motivo, vestia-se com roupas sbrias. Nada de decotes ou 
saias curtas. Precisava ser o mais discreta possvel. Acredita que, dessa forma, passaria despercebida e chamaria ateno o menos possvel. Suzana conclura o curso 
de secretariado e trabalhava havia trs anos no escritrio de Miguel. Esse tinha sido seu primeiro emprego. Ela sentia carinho especial pelo patro. A jovem era 
simptica ao espiritismo, porquanto seu pai era trabalhador num centro esprita no bairro em que residiam. Entendia um pouco de mediunidade e, particularmente, sentira-se 
perturbada naquela fatdica tarde. No conseguia identificar ao certo o que sentia. Chegou a passar mal depois do almoo, mas, atarefada, responsabilizou a refeio 
pelo mal sbito.  Como todo fim de tarde, Suzana bateu levemente na porta. Viu Miguel parado em frente  janela.
- O senhor precisa de mais alguma coisa?
- No, obrigado.
Suzana sentiu o ar de a sala sufocar-lhe. O ambiente estava carregadssimo. Os plos de seu corpo se eriaram. Ocultou o que sentia e perguntou, aparentando serenidade:
- Est tudo bem, Dr. Miguel?
De costas, olhos fixados num ponto qualquer da rua, ele respondeu:
- Est sim, minha filha.
- Tem certeza?
- Pode ir. Parece que a chuva est baixando.
- Se quiser, posso ficar mais um pouco.
Miguel foi categrico:
- No! Por favor, Suzana. Eu vou receber um velho amigo que esta prestes a se desquitar da esposa e quer se abrir comigo - mentiu.
- Preciso de privacidade.
- Est certo. At amanh, Dr. Miguel.
- At.
Suzana passou pela sua mesa, pegou a bolsa e saiu. Chegou a portaria do prdio desgostosa. Sentia algo muito estranho. Percebera que o chefe no estava bem e, pior, 
que o ambiente no estava nada bom. Isso ela vinha percebendo fazia dias, mas hoje estava insuportvel. Pensamentos pavorosos as saltaram a mente no decorrer da 
tarde. Tudo muito esquisito. A moa chegou at a calada, e a chuva, embora menos intensa, continuava caindo e atrapalhando as pessoas. Ela lembrou-se de que tinha 
uma sombrinha guardada na copa e voltou para o escritrio. Ela pegou a sombrinha e, ao se dirigir a porta de sada, ouviu o barulho seco e assustador. Sentiu pavorosa 
sensao, um aperto no peito sem igual.
- Meu Deus!
Suzana ficou sem ao. Por instantes no sabia como agir.
- Dr. Miguel no pde ter feito o que estou pensando. Isso no!
Fez o sinal-da-cruz e estugou o passo. Chegou perto da porta da sala do patro, colocou a sombrinha numa mesinha ao lado, meteu a mo na maaneta, contou at trs, 
respirou fundo e abriu. A cena a sua frente era terrvel. Havia sangue espalhado pela parede, respingado na janela, na cortina, na mesa, um verdadeiro horror. Seus 
olhos apavorados seguiram mecanicamente o ambiente at cruzarem com o corpo de Miguel, cado no cho, de costas; era visvel o buraco ao redor do peito e o dedo 
indicador direito ainda preso ao gatilho do revlver. Suzana levou a mo a boca, assombrada. Fechou os olhos e imediatamente fez sentida prece. Depois mais calma, 
perguntou em tom pesaroso, como se Miguel pudesse ouvi-la:
- Dr. Miguel, por que esse gesto extremo? Por que uma atitude to radical? Por que eu no cheguei a tempo de impedi-lo?
Suzana comeou a sentir calafrios, enjos. Sentiu forte vontade de rezar e orou com fervor. Ficou alguns minutos em prece at que os calafrios desaparecessem. Mais 
calma, dirigiu-se at sua sala e ligou para a polcia. A morte de Miguel foi destaque nos principais jornais do Pas. Ele sempre aparecia em notinhas nas colunas 
sociais. E a havia excelentes ingredientes para vender jornal: gente da alta sociedade, fama, falncia e suicdio. Os jornais tripudiavam sobre o velho homem, achincalhando-o 
pela atitude nefasta e por deixar a famlia a mngua. Um verdadeiro circo dos horrores. Guilhermina balanou a cabea para os lados. No podia acreditar no que via. 
A foto dela e de Miguel juntos, sorrindo, estampada na primeira pgina do jornal. Num acesso histrico, ela amassou e rasgou o jornal a sua frente, espalhando com 
fria os pedaos pelo quarto. Estava irritada. O marido sempre fora um fraco, a convivncia mostrara isso, e essa atitude tresloucada na verdade no a chocara. Mas 
se matar no escritrio? Gerar publicidade negativa sobre a famlia? Onde Miguel estava com a cabea para cometer um desatino desses? Enquanto se arrumava para o 
velrio, seus pensamentos voltaram no tempo. A famlia de Guilhermina perdera toda a fortuna na grande crise que abalara o mundo com a quebra da bolsa de valores 
de Nova York em 1929. Esperta e muito bonita, Guilhermina passou a caar um marido, de preferncia com posses. Muitos que freqentavam seu crculo de amizades perderam 
tudo, e ela teve de ir atrs de novos-ricos. Naquele tempo, novo-rico era geralmente imigrante ou filho de imigrante que comeava a fazer fortuna no Pas, a custo 
de muito trabalho e muito suor. Esse fora o caso da famlia de Miguel. Filho de portugus que chegara ao Brasil sem um tosto nos bolsos, o rapaz crescera pobre, 
com muitas dificuldades. Logo seu pai prosperou nos negcios e ele teve condies de cursar uma boa faculdade. Graduou-se engenheiro e montou pequeno, porm rentvel 
escritrio. Miguel era bonito. Pele branca, cabelos bem pretos e lisos, uma montanha de pelos espalhada pelo corpo, tipo msculo, viril. As meninas suspiravam 
por ele. Entretanto era inseguro e facilmente manipulvel. Guilhermina, com seu faro aguado, encontrou em Miguel uma pedra bruta que, bem lapidada, lhe renderia 
timos frutos no futuro. Com sua beleza e charme, cortejou-o e em pouco tempo, mesmo a contragosto da famlia de Miguel, casaram-se. Guilhermina fez do marido gato 
e sapato durante os anos em que estiveram casados. Com traquejo e requinte, ajudou Miguel a crescer profissionalmente, atravs das amizades travadas por ela nas 
rodas sociais. Sim, porque Guilhermina perdeu o dinheiro, mas muitas de suas amigas seguiram o mesmo caminho e se casaram com novos-ricos. Elas eram mulheres vindas 
de famlias tradicionais, de estirpe, e isso era muito valorizado na alta sociedade paulistana daqueles tempos. Guilhermina casara sem amor. Com o passar dos anos, 
seu casamento transformou-se num fardo. A vida estava boa, ela podia manter seus luxos, porm faltava vio, cor, e Guilhermina queria mais, muito mais. Chegou  
concluso de que estava na hora de arrumar novo pretendente. Mesmo prxima da meia-idade, ainda conservava bela aparncia, chamava a ateno. Havia at amigos do 
filho que suspiravam por ela. Ciente de sua beleza e convicta de sua esperteza, alguns anos atrs ela passou a dar suas puladas de cerca. Todavia Guilhermina apaixonou-se 
por um sujeito meio gngster, aquele tipo de homem malandro que enfeitia muita mulher por ai. Embora fosse notvel aproveitador, Ramrez tinha tudo para conquistar 
uma mulher: alto, esbelto, pele morena, cabelos negros.  Ramrez chegara por nossas bandas logo que o general espanhol Francisco Franco promulgou a Lei de Represso 
ao Comunismo e  Maonaria, em 1940. Ramrez era simptico a Repblica. Por essa razo, teve seus bens confiscados e precisou se exilar, indo primeiro ao Mxico 
e alguns anos depois para o Brasil. Isso se deu na poca em que as prostitutas ainda eram cadastradas pelo governo. Ah, sim, porque houve um tempo em que as profissionais 
do sexo eram cadastradas com ficha, foto e tudo o mais pelo governo. Anos depois, os bordeis sob o controle do governo foram fechados por decreto. Milhares de prostitutas 
foram atiradas s ruas da noite para o dia. Surgiu ento o trottoir - forma de prostituio em que a mulher se oferece publicamente, na calada. Ramrez, malandro 
de carteirinha, viu a uma mina de ouro. A rea invadida pelas prostitutas recebeu o nome de Boca do Lixo (*) e o espanhol passou a controlar a prostituio na rea. 
Fez muito a custa das meninas. Com o passar dos anos, alm de controlar a Boca, montou bordeis clandestinos com a ajuda prestimosa de polticos e policiais corruptos 
que tinham livre acesso aos bordeis; em troca dos servios das meninas e de bebida grtis, eles evitavam que autoridades competentes pudessem prejudicar o negcio 
ela maneira que fosse. 

(*) Quadriltero compreendido pelas ruas e avenidas Timbiras, So Joo, Baro de Limeira, Duque de Caxias e Largo General Osrio, cujo nome conhecido do paulistano 
 Boca do Lixo ou Quadriltero do Pecado, onde se fixara a prostituio de rua na cidade de So Paulo a partir da dcada de 1950. (N.E.)

Mulherengo, Ramrez colecionou um punhado de amantes at conhecer Guilhermina. Ento se juntou a fome com a vontade de comer. Ele era rico, mas no tinha prestgio 
ou status. Ramrez precisava se infiltrar na alta sociedade, todavia no tinha sobrenome ou outra condio que pudesse ajud-lo nesse intento. E Guilhermina parecia 
o alvo certo, porquanto ela era bem relacionada, materialista ao extremo e era a mulher ideal para lhe abrir as portas da alta sociedade. Por essa, e to somente 
essa razo, Ramrez foi, aparentemente, deixando de se envolver com outras mulheres e elegeu Guilhermina sua nica companheira. Guilhermina casara sem amor. Trocara 
o sentimento pelo dinheiro. De repente, quando Ramrez apareceu em sua vida, todo aquele sentimento represado por anos veio  tona, muito forte. Ela apaixonara-se 
por Ramrez e pela sua gorda conta bancria. Guilhermina estava por demais envolvida e, quando Ramrez quis se aproximar de Miguel, ela acreditou que a aproximao 
contribusse para que o marido jamais suspeitasse da ligao dela com o gngster. Para facilitar a aproximao, a fim de travar amizade com Miguel e faz-lo interessar-se 
pelas aes da Companhia Paulista, Ramrez cobria a amante de jias, era galanteador, tratava-a como uma rainha. Chegou um ponto em que Guilhermina se sentiu segura 
e pronta para se separar de Miguel. Esperaria somente at o fim do ano. Ao lembrar-se disso agora, preparando-se para o velrio, Guilhermina falou em alto tom, entre 
gargalhadas:
- Miguel sempre foi um idiota! Bem que desconfiei. Era fraco demais para agentar esse tranco. No iria mesmo conseguir viver com pouco. Ainda bem que tenho Ramrez. 
Agora sou viva e no precisarei mais de subterfgios para andar livremente a seu lado. No precisei nem do desquite. No serei nem mesmo malvista. Malvista... Essa 
palavra ficou martelando em sua cabea. A morte de Miguel at que era uma boa notcia, mas suicdio? Por que o fraco do marido no esperou um pouco mais? Alm de 
tudo, o suicdio de Miguel poderia atir-la no lodo social, era ato condenvel por todos. Sem dvida que com o tempo a poeira iria baixar e as pessoas logo se esqueceriam. 
Mas sempre haveria algum apontando para ela e falando baixinho: "O marido dela foi um fraco, matou-se, coitada dela..." Isso era demais para seu ego descomunal. 
Guilhermina rangeu os dentes com raiva.
- Por que no se matou em casa? Por que no tomou um vidro de calmantes ao deitar-se? Poderia nos poupar de constrangimentos desnecessrios. Teramos tempo de abafar 
o caso. Ramrez traria um desses mdicos que fazem abortos naquelas prostitutas e facilmente poderamos adulterar o atestado de bito, fazendo constar morte acidental. 
No entanto, Miguel foi fazer isso no escritrio? E ainda por cima nem esperou a secretria ir embora?
Era impossvel afirmar ter sido um acidente, porquanto os policiais foram categricos: Miguel se suicidara. E mesmo que Guilhermina calasse a matraca dos policiais 
com um punhado de dinheiro, o Instituto Mdico Legal j havia feito a autpsia e informado ao bando de jornalistas a causa da morte. A rea esfumaada na regio 
do peito e a quantidade de nitrito nos dedos no deixavam dvidas: Miguel cometera suicdio. Guilhermina tinha mpetos de arrancar os cabelos da pobre Suzana, colocando 
sobre os ombros da secretria a culpa pelo estardalhao que a morte de Miguel causara na imprensa. Ela passou um pouco de p no rosto e desceu as escadas, falando 
e gesticulando:
- Por que aquela secretria foi ligar logo para a polcia? Por que no ligou antes para nossa casa? Tinha de dar com a lngua nos dentes e causar essa celeuma em 
nossas vidas?
- Calma me - redargiu Luis Carlos, um tanto abalado com a morte sbita do pai. - Suzana no fez por mal. Sentiu medo, e o impulso foi ligar para a polcia. No 
creio que ela tenha tido inteno de macular a imagem de papai. Suzana, alm de boa funcionria,  tima pessoa. Guilhermina levou as mos ao rosto, fingindo desespero.
- O que ser de ns? Alm de falidos, carregaremos a mancha do ato covarde de seu pai.
- No fique assim, me - suplicava o rapaz, olhos marejados.
Guilhermina continuava seu teatro:
- Miguel nunca deveria ter feito isso. No pensou em ns? So imaginou como um ato desses poderia nos prejudicar a reputao? Se ao menos pudssemos abafar o caso...
- O estrago est feito - tornou o jovem, as lgrimas escorrendo pelas faces.
- No fique triste, meu filho.
- Como no? Perdi meu pai de uma maneira brutal. Eu o amava.
Ela abraou-se ao filho.
- Voc vai superar meu bem. Luis Carlos continuou, desolado:
- Descobri que estamos sem dinheiro algum e...
- Calma... Tudo se resolve.
- Agora terei de trabalhar, me. Que maada! Guilhermina agarrou-se ao filho.
- No! Isso no. Voc no nasceu para trabalhar. Nasceu para brilhar, mandar e ser servido.
Ele estava chocado.
- Mas o que fazer? Estamos arruinados. Adeus, farra; adeus, mulheres.
Guilhermina abraou-o novamente e passou delicadamente a mo pelos seus cabelos.
- Voc  to bonito... No, definitivamente o trabalho de qualquer espcie no combina com voc.
- Mas a realidade  cruel. Terei de trabalhar.
- Eu vou lhe sustentar.
- Como? Papai contraiu muitas dvidas. Nossa casa esta penhorada pela Caixa Econmica. E tem mais...
- Mais o que? - inquiriu ela, fingindo ainda preocupao.
- Aqueles dois milhes foram bloqueados pelo governo. No nos sobrou absolutamente nada. Estamos no zero. s vezes penso que deveria fazer o mesmo que papai.
- Como assim?
- Meter uma bala no peito e pronto. Prefiro isso a ser pobre.
Guilhermina teve um sobressalto. Era muito apegada ao filho.
- Vire essa boca para l! Voc e meu filho precioso. Sem voc, no sei o que fazer. Se no o tivesse ao meu lado, no suportaria tamanha humilhao. Seu pai foi 
um fraco e mereceu esse fim. Gente fraca no merece viver. Se seu pai tinha tantos amigos no governo, por que ningum lhe estendeu a mo? Por que no o avisaram 
sobre a estatizao da Companhia Paulista?
- No sei.
- S os espertos sobrevivem, meu filho. Ponha isso definitivamente na sua cabea.
- Mas seria fcil acabar como papai, no acha?
- At poderia ser uma sada. Morrer e pronto. Afinal, a vida  uma s e, quando morremos, acabou. Mas terminar uma vida com a reputao manchada, sendo achincalhada 
e chamada de covarde, de fraca ou at mesmo de louca? Nunca! Vamos arrumar um jeito de sair desta.
- Voc est muito confiante. Est em choque com a morte de papai.
- No, meu filho - mentiu ela. - Preciso ser forte. Temos de nos unir. No posso e no quero me desequilibrar. Conto com seu apoio.
- Sabe que pode contar comigo. Entretanto estamos falidos tornou ele em tom entristecido e desesperado.
- Vamos arrumar uma maneira.
- Tem alguma ideia?
- Um bom casamento, por exemplo.
- Quem iria querer se casar comigo?
- H vrias garotas ricas no seu p.
- Na pindaba em que estamos? Elas vo se afastar, com certeza. Elas preferem um feio rico a um pobreto bonito como eu.
- Voc me conhece - afirmou Guilhermina, olhos brilhantes.
- Voc vai me ajudar, me, tenho certeza.
Guilhermina estalou um beijo em sua fronte.
- Sempre existe uma tonta, uma garota rica com a auto-estima l no cho. Deixe que eu trate disso mais tarde.
Guilhermina olhava para o filho com desvelo e intimamente ria da ingenuidade de Luis Carlos. Ele era o filho mais velho e predileto de Guilhermina. Crescera cercado 
de conforto e mimos, e agora, aos vinte e seis anos de idade, torrava o dinheiro da mesada com mulheres e jogatina. Estudou advocacia por presso do pai, contudo 
trancou a matrcula no terceiro ano. A faculdade no lhe dava tempo para farrear. Isso era desumano, acreditava. E Luis Carlos tambm nunca quis saber de pegar no 
batente. De vez em quando participava das reunies em que Miguel molhava a mo de polticos para ganhar uma licitao. Embora fosse bonito e sedutor Luis Carlos 
era muito fcil de ser levado na conversa, o tipo maria-vai-com-as-outras. Todavia o rapaz era figura das mais requestadas em festas, jantares e, acima de tudo, 
pelas mulheres em geral. Numa enquete realizada pela revista O Cruzeiro, Luis Carlos Amaral Gouveia Penteado ganhava - disparado do segundo lugar - o ttulo de solteiro 
mais cobiado pelas jovens casadoiras do Pas.
- Antes de pensar no futuro de Luis Carlos, precisamos decidir sobre o velrio e o enterro.
Guilhermina estancou o pensamento. Ela e o filho viraram o pescoo em direo a voz na entrada da sala. Guilhermina fez muxoxo e replicou voz alteada:
- Ah, voc! O que foi?
-  que... Que... Que... Te... Temos de pensar...
- Pensar em qu?
- B... B... Bom...
- Pare de gaguejar - bramiu Guilhermina.
- H... H...
- Fale como uma pessoa normal!
- Be... Bem...
- No me diga que est abalada?
- N... No...
- No me venha com suas fraquezas numa hora como esta.
Os olhos de Ana Paula estavam vermelhos e inchados de tanto chorar. Ela estava de fato abalada com a morte do pai. A ela no cabiam julgamentos. Quer tenha sido 
morte natural, acidental ou suicdio, seu pai morrera. Ela o amava de verdade. A jovem sentia-se triste porque a me e o irmo, ao invs de estarem solidrios na 
dor, condenavam a atitude de Miguel e se preocupavam to-somente com a imagem social deles. Era como se o pai nada significasse para eles, como se fosse um nada, 
um brinquedo que parou de funcionar e pronto. Ela tornou num fio de voz, chorosa:
- Luis Carlos, voc no est abalado? No  possvel que no esteja triste com a morte de papai.
O jovem baixou a cabea. Naquele momento sentiu uma ponta de remorso. Luis Carlos no era to apegado ao pai. Chorou bastante ao receber a notcia e at agora a 
pouco estava em lgrimas, mas, quando estava envolvido com a me, mudava o comportamento. Guilhermina tinha uma ascendncia muito grande sobre o filho. 
- Desculpe maninha.  muita coisa acontecendo ao mesmo tempo a morte estpida de papai, a perda de nossos bens...
Guilhermina cortou o filho:
- Deixe de dar explicaes. Sua irm  sentimental ao extremo. Chora por qualquer coisa.
Ana Paula respirou fundo. Encarou a me e falou, com dificuldade:
- O ve... Velrio...
- O que foi menina?
- Qu... Qu... Quem vai cuidar do ve... Ve... Velrio?
- Isso no  trabalho nosso. O Ramrez est providenciando tudo. Seu pai ser velado na Assembleia Legislativa e enterrado com pompa. Ainda no nos tiraram o poder 
por completo. - E, virando-se para o filho: - Precisamos ter acesso ao nmero de telefone de Maria Teresa Goulart. No acha que seria uma ideia fascinante a nova 
e jovial primeira-dama no velrio de seu pai?
- Acha mesmo, me?
- Sim, meu filho. A imprensa iria adorar. Conseguiramos destaque nos principais jornais do Pas e diminuiramos o constrangimento em que seu pai nos meteu. 
Ana Paula no sabia o que dizer. Estava por demais abalada e at chocada com o descaso da me sobre a morte do pai, tratando aquilo como um espetculo circense, 
desprovida de qualquer sentimento. Ela caiu novamente em prantos. Guilhermina fuzilou-a com os olhos:
- Pare de chorar dessa maneira, por favor! Controle-se. No quero que seja motivo de ateno no velrio ou mesmo no enterro. Quem brilha nesta casa sou eu. E, de 
mais a mais, trate de se arrumar. Nunca se esquea de que uma mulher tem a obrigao de estar bonita sempre, no importa a situao. Embora no possa exigir milagre 
da natureza - Guilhermina falou em tom de deboche -, pelo menos se vista com apuro e use culos escuros, porque quando se enerva, alm de gaguejar, voc fica levemente 
estrbica. E mantenha o coque, pelo amor de Deus! Sua aparncia deve estar no nvel de uma Gouveia Penteado e jamais de uma maltrapilha, como agora. 
Ana Paula nada respondeu. Luis Carlos levantou-se e abraou-se a irm.
- Mame est nervosa. No ligue para o que ela lhe disse. Vamos, eu a ajudo a se arrumar.
- No ser necessrio. Quero ficar sozinha.
- Tem certeza?
- Sim. Obrigada.
Ana Paula desprendeu-se do irmo e se retirou da sala. Soluando muito, subiu as escadas e trancou-se no quarto. Sentou-se a frente da penteadeira e desfez o coque. 
Olhou demoradamente para sua imagem refletida no espelho. Lembrou-se da infncia, da adolescncia. Gostava de ficar sentada por entre as rvores do amplo jardim 
da casa, costurando, fazendo bordados - adorava trabalhos manuais -, o que irritava a me sobremaneira. Como  que uma menina bem-nascida e bem-criada, ao invs 
de brilhar nas colunas sociais, trocava os holofotes da fama por bordado e costura? Para Guilhermina, isso era provocao, ou at mesmo castigo. De tanto a me pegar 
no seu p, Ana Paula largou os trabalhos manuais, deixou de fazer o que gostava. Sentia-se feia; acreditava aparentar mais do que seus vinte e dois aninhos de idade. 
Ela tinha alguns traos de Guilhermina, como os olhos e o queixo saliente. Aparentemente Ana Paula era do tipo comum; no possua rara beleza, como a me ou como 
Luis Carlos. Ana Paula cresceu acreditando-se feia e sem modos ou requinte. Guilhermina ajudava a alimentar essas crenas de feira de Ana Paula, tratando a filha 
com secura, evitando lev-la s festas, eventos e jantares. Ao contrrio, estava sempre com o filho a tiracolo. Adorava desfilar ao lado de Luis Carlos. Guilhermina 
julgava-se perfeita, a melhor esposa, a mais bonita e elegante. Adorava descobrir - e descobria - fatos comprometedores da vida do pessoal da classe A e dava as 
informaes bombsticas aos colunistas sociais em troca de notas e fotos suas, alm de sigilo sobre seu caso extraconjugal. A sociedade sabia de seu romance com 
o espanhol, mas todos tinham medo da lngua ferina dela. Por isso, nada comentavam. E foi desse modo, por exemplo, que Guilhermina conseguiu permanecer durante anos 
seguidos ao lado de Teresa Sousa Campos e Lurdes Cato na lista das mulheres mais elegantes do Pas. A filha, de acordo com seu ponto de vista, s lhe trouxera aborrecimentos. 
Desde sempre. Ela queria um filho somente. A segunda gravidez fora indesejada, ela passara muito mal, engordara bastante. O parto fora difcil e, aps o nascimento 
da menina, Guilhermina levou muito tempo para que seu corpo voltasse ao normal. Passara tanto nervoso que seu leite empedrou no primeiro ms. Guilhermina sentia 
dores horrveis e culpava a pequena Ana Paula pelas dores nos seios. E isso no foi o suficiente. Ana Paula cresceu diferente de tudo aquilo que ela imaginara. Tornou-se 
uma menina recatada, com poucas amizades. No gostava de se arrumar com apuro e, ao invs de torrar o dinheiro da mesada, depositava-o na poupana. Miguel, o pai, 
enchia-a de mimos e carinho. Amava-a profundamente, e Lus Carlos mantinha com a irm um convvio aprazvel, desde que longe da me, porque Guilhermina sempre criava 
caso quando os via juntos. Sentia muito cime. Lus Carlos era seu tesouro, e jamais poderia dividi-lo, principalmente com a prpria filha. O tom na voz de Guilhermina 
sempre assustara Ana Paula. Desde bebezinho ela registrara os gritos da me, a sua impacincia, a sua irritao. Ana Paula demorou muito para falar e, quando comeou 
a balbuciar as primeiras falas, sempre que se dirigia a me gaguejava. E isso foi se acentuando com o passar dos anos. Toda vez que avistava a me, seu corao disparava, 
seu estrabismo se acentuava, a gagueira vinha forte. Tinha pavor de encarar a me, de lhe dirigir a palavra. Guilhermina a dominava sem esforo. Havia um misto de 
ternura e dio entre ambas. Desde sempre. O sentimento de animosidade era recproco e, com o tempo, passaram a conversar somente o necessrio. Ana Paula espantou 
os pensamentos, assuou o nariz e disse em voz alta:
- Paizinho, onde quer que esteja, saiba que eu o amo muito. Voc faz muita falta. Eu No o condeno...
Ana Paula baixou a cabea, e as lgrimas, insopitveis, escorriam pelas suas faces. Minutos depois, mais controlada, levantou-se e trocou de roupa. Arrumou-se segundo 
as exigncias de Guilhermina, procurando ficar apresentvel ao grande pblico. Abriu a caixinha de grampos e refez o coque. Esforou-se para ficar elegante, a fim 
de no atrair os olhares e comentrios reprovadores da me. O velrio de Miguel estava apinhado de gente. Dezenas de jornalistas, fotgrafos, emissoras de rdio 
e televiso davam toda a cobertura do evento fnebre. A primeira-dama no apareceu, o que irritou Guilhermina sobremodo.
- Tenho de mostrar aos jornalistas e s pessoas em geral o quanto estou desolada, triste. Preciso fazer o papel da viva chocada, inconsolvel - repetia para si.
Ana Paula ficou prxima ao caixo o tempo todo, no desgrudando dele um minuto sequer. Mesmo com a urna lacrada, ela ficava ali, como se de alguma maneira pudesse 
sentir o pai presente. Luis Carlos fazia a parte social, a mando da me. Guilhermina o proibira de derrubar uma lgrima que fosse. Ele era agora o homem da famlia 
e tinha de se portar como um Gouveia Penteado. Luis Carlos concordou. Nunca ousara contrariar a me; fez tremendo esforo para no chorar. Quando a emoo vinha 
forte demais, ele pretextava ligeiro mal-estar e corria at o banheiro. Trancava-se no cubculo e extravasava sua dor, chorando copiosamente. Depois de algum tempo, 
lavava bem o rosto, respirava fundo e voltava para os cumprimentos. Guilhermina estava preocupada. Adorava o filho, mas precisava e queria casar-se com Ramrez. 
Luis Carlos estava maduro e pronto para casar, acreditava ela. Isso seria uma boa ideia. Era s abrandar um pouco seu cime. Arranjaria uma nora tonta, bem fcil 
de ser manipulada, e estaria tudo resolvido. Ramrez j tinha dado sinais de que no iria sustentar Luis Carlos tal qual fizera Miguel. Guilhermina era geniosa, 
mas no batia de frente com Ramrez. Alm de apaixonada, havia o dinheiro do espanhol na jogada. Na verdade, ela estava numa sinuca de bico. Amava o filho acima 
de tudo, mas no podia perder o excelente partido que Ramrez representava. Ela passou a noite inteira pensando numa maneira de resolver essa situao. Ela era inteligente 
e logo teria uma ideia brilhante. Foi durante o enterro, quando o caixo estava sendo depositado no mausolu da famlia, no cemitrio do Ara, que Guilhermina teve 
um lampejo. Cutucou o filho e perguntou baixinho:
- Aquela l no canto no  a Maria Cndida, filha do Otto e da Zara Henermann?
-  ela, sim. Por qu?
- Est sozinha. Cad os pais?
- Os pais esto tratando de negcios na Argentina.
- Ela no  de todo feia, no acha? Luis Carlos procurou disfarar o sorriso.
- Voc est pensando em qu?
- Em nada, meu filho, nada. Mas ela  solteira e milionria, no ?
- Ningum quer saber dela.  muito feia.
- Bobagens! O que importa  a conta corrente dela. Precisamos nos aproximar da famlia Henermann. O que acha?
- Eles so judeus, me.
- Quem disse?
- O pai dela tem tatuado no pulso o nmero pelo qual era designado no campo de concentrao, durante a Segunda Guerra Mundial. Faz questo de mostrar a todos, sempre 
que tem oportunidade.
- E da? Jesus no foi o rei dos judeus?
- Sim, mas judeu e catlico, nos dias atuais, no combina muito.
Guilhermina conteve o riso.
- Est tudo certo, Luis Carlos. Por dinheiro voc se converte, eu me converto para nenhum judeu botar defeito. - Me!
- Luis Carlos, meu filho, no vislumbro muitas alternativas para ns - mentiu. - Sua irm no tem a beleza necessria para arrumar um pretendente rico,  altura 
de nossa famlia. E depois de todo este vexame no vai haver ningum que queira se casar com sua irm.
- Comigo vai acontecer o mesmo. O nosso meio social  hipcrita. Veja quantos amigos meus que no vieram ao enterro. Sumiram todos. No somos mais interessantes 
para a classe A. Guilhermina meneou a cabea negativamente para os lados.
- Voc  diferente.
- No sou me. Eu e Ana Paula estamos no mesmo barco.
- No queira se comparar  sua irm! Voc  bonito, sedutor... Puxou a mim.
- No est querendo que eu me aproxime da Maria Cndida, est?
- Ainda no. - Ela baixou o tom de voz. - Agora precisamos parar de falar. As pessoas esto nos encarando. Vamos at aquele canto - apontou - para receber os psames. 
No meio da balbrdia, Suzana pedia licena as pessoas a sua frente e depois de muito esforo aproximou-se do tmulo. Trajava um conjunto preto, cabelos presos num 
rabo-de-cavalo. Estava acompanhada de simptico jovem, usando um costume preto de corte impecvel. A moa fez singela orao e em seguida dirigiu-se a Ana Paula.
- Meus sentimentos.
- Obrigada.
- Sinto muitssimo pelo ocorrido.
Suzana a abraou. Mesmo tendo visto Ana Paula muito poucas vezes - falavam-se mais ao telefone -, Suzana sentia grande carinho por ela. Sabia que a filha amava Miguel 
de verdade e que aquelas lgrimas eram de fato sinceras, bem diferentes das de Guilhermina. O moo atrs de Suzana cumprimentou Ana Paula.
- Meus psames.
Ela assentiu com a cabea.
- Sou irmo de Suzana. Meu nome  Fernando. Admirava muito seu pai.
Ana Paula, pela primeira vez desde a tragdia, esboou um sorriso. Simpatizou com o rapaz. Em seguida, baixou os olhos pesarosos. Continuou atenta ao trabalho dos 
coveiros. Mesmo sendo um momento doloroso, queria ficar ali at que terminassem o servio. Na verdade, Ana Paula estava com medo de voltar para casa. Seu companheiro, 
seu amigo, seu protetor, estava sendo enclausurado naquele frio e portentoso mausolu, para sempre. O que seria de sua vida dali para frente? Suzana e Fernando, 
aps cumprimentarem os funcionrios do escritrio, dirigiram-se at a viva.
- Sinto muito, Dona Guilhermina.
Guilhermina fez um gesto com a cabea, porm nada disse. Luis Carlos adiantou-se:
- Estamos muito abalados. Mame est inconsolvel e um pouco sedada pelos calmantes. Por favor, preferimos ficar a ss.
Suzana e Fernando foram para um canto do cemitrio, cada vez mais apinhado de gente.
- Vamos orar pelo falecido - sentenciou Suzana.
- Dr. Miguel precisa de muita orao - redargiu Fernando. - Estou sentindo uns calafrios, o ambiente est carregadssimo.
- Primeiro no se esquea de que estamos dentro de um cemitrio. A energia no local no chega a ser elas mais sutis - disse ela sorrindo. - E, para piorar o panorama, 
s h duas pessoas que esto sentidas de verdade com a desencarnao do Dr. Miguel.
- Percebi que Ana Paula est inconsolvel. Luis Carlos est tentando segurar a emoo, mas tambm est com os olhos inchados.
- Sim - concordou Suzana. - O resto das pessoas est mais interessado em aparecer nos jornais de amanh, nas revistas da semana; querem fofocar, ou mesmo tripudiar, 
sobre o ocorrido. 
Suzana e Fernando, embora tivessem educao catlica, eram simpticos ao espiritismo. O pai deles era devotado medianeiro numa casa esprita. Tentava convencer os 
filhos a seguirem a doutrina de Allan Kardec, mas no encontrava meios de convenc-los. Fernando no compactuava com determinadas pregaes do recinto, questionava 
muita coisa, inclusive alguns tpicos da doutrina esprita. Uma noite fora repreendido pelo palestrante do centro esprita. Fazia perguntas demais e orava de menos 
- segundo o palestrante. Os irmos foram diminuindo sensivelmente as visitas ao centro. De vez em quando tomavam um passe, mas no se interessavam pela palestra. 
E, ademais, tinham suas vidas para seguir e dispunham de muito pouco tempo para freqentar o local. Preferia comprar livros que tratassem de maneira sria a reencarnao, 
a vida aps a morte. Tinham maneiras muito parecidas de observar a vida. E, pela sensibilidade educada atravs do estudo e da observao dos fatos, Fernando e Suzana 
sentiam que havia algo meio estranho no comportamento de alguns dirigentes daquele centro. No conseguiam identificar o que era, mas no simpatizavam com o local. 
Entretanto, como estavam sempre abertos ao conhecimento espiritual, no esqueceram o que o pai lhes dissera antes de sarem de casa para o enterro:
- Ao adentrarem o cemitrio, peam mentalmente ajuda aos socorristas do astral que ali se encontram.
- Pode deixar pai - concordou Suzana. - Sei que numa situao dessas o mais importante  orar pelo falecido, a fim de que espritos abnegados que trabalham no cemitrio 
possam ajud-lo no desenlace, se isso for possvel.
- Ou mesmo que amigos da espiritualidade maior possam desligar os ltimos laos que prendem o Dr. Miguel ao corpo fsico, se  que esses espritos do bem tm permisso 
para tanto - ajuntou Fernando.
Fernando e Suzana no tinham condies de explicar, mas sentiam naquele exato momento que Miguel precisava de muita, mas muita orao, pois muito provavelmente seu 
esprito ainda estava preso ao corpo fsico. Na verdade, os dois irmos eram dotados de extrema sensibilidade, e aqueles calafrios que Fernando sentia como veremos 
adiante, tinham razo de existir... Adlia terminou de coar o caf e colocou o bule sobre a mesa. Torceu as mos no avental, consultou o relgio no alto da parede 
e correu para acordar o marido. Subiu ligeira a escada, dobrou o corredor. Entrou no quarto:
- Est na hora, meu querido.
Odcio levantou-se meio tonto. Dormira muito mal. Tivera pesadelos horrveis. Entretanto tinha de pegar no batente. No podia dar motivos aos patres. A situao 
econmica do Pas no estava nada fcil. A inflao corroia os salrios e pipocavam greves em todos os setores, a todo o momento. Ele estava bem empregado na metalrgica 
do Dr. Roberto Marzolla. Era torneiro mecnico, ganhava bom salrio. Levantou-se com dificuldade, calou os chinelos e respondeu com voz amvel:
- J vou, meu bem.
- O caf est na mesa. Lave-se e se vista logo.
- Acordou o Fernando?
- Vou acord-lo agora mesmo.
Adlia dirigiu-se at o quarto dos filhos. Abriu a porta bem devagar, entrou p ante p para no fazer barulho. Chegou perto da cama de Fernando, abaixou-se e sussurrou:
- Filho, est na hora de acordar.
Fernando espreguiou-se deliciosamente. Adorava quando a me o despertava daquela maneira carinhosa. Estalou um beijo na testa de Adlia.
- Bom dia, me.
- O caf est servido.
- Vou me arrumar.
- Eu tambm - tornou Suzana. Adlia virou-se para o lado.
- Filha, fiz o possvel para no lhe acordar. Perdo!
- Estava acordada fazia uma meia hora, mais ou menos.
- Durma mais um pouco. No carece acordar to cedo.
- Vou comprar o jornal e procurar emprego.
- Deixe isso para o fim de semana. No se preocupe.
- Quero arrumar trabalho.
- O que seu pai e seu irmo ganham d para nos manter. E, ademais, voc j me ajuda muito aqui em casa.
- Eu continuarei ajudando voc, como sempre fiz.
- Mas, filha...
Suzana sentou-se na cama. Alisou os cabelos. 
- Nem, mas, nem meio, mas. Temos o fim de semana, se esqueceu? Quando trabalhava no escritrio do Dr. Miguel...
- Disse bem, quando trabalhava, mas no est mais trabalhando l.
- J faz um ms, me.
- E da?
- Da que preciso arrumar alguma coisa. No posso e no quero depender do papai ou mesmo do Fernando.  meu dinheiro faz falta aqui em casa.
- Ela tem razo, me - tornou Fernando. - Suzana  muito inteligente para ficar dentro de casa.
- Pode descansar um pouco. No precisa acordar to cedo.
- Preciso, sim - disse a moa ao mesmo tempo em que se levantava da cama. - E depois, quando eu arrumar emprego? Vai ser difcil acordar cedo de novo. Prefiro manter 
o hbito.
- Domingo  o melhor dia para procurar emprego nos classificados.
- Hoje tambm  dia.
- E se no tiver nada de interessante? - perguntou Adlia, contrariada.
- Se no tiver nada, vou tirar as cortinas da sala e dos quartos. Esto implorando por um tanque!
- Eu posso lev-las  tinturaria. Seu Hiroshi me d desconto - replicou Fernando.
- Obrigada, mas eu mesmo posso lav-las. Na hora que precisar, de verdade, solicitarei os servios do seu patro.
- Se est to disposta assim, sinta-se a vontade - disse o irmo, entre sorrisos.
Adlia no sabia o que dizer. Sentia-se recompensada, competente. Conseguira criar os filhos a duras penas, e eles se transformaram em adultos responsveis, trabalhadores 
e, acima de tudo, carinhosos. Era uma bno, e ela no deixava de agradecer a Deus todos os dias.
- Como sou feliz! Vocs so filhos maravilhosos!
Suzana e Fernando levantaram-se da cama e abraaram-se  me, estalando um beijo em cada bochecha rosada de Adlia. Odcio passava pelo corredor naquele momento 
e seus lbios esboaram leve sorriso.
- Que Deus abenoe a minha famlia e meu sagrado lar.
Durante almoo de confraternizao, meses depois, poca de fim de ano,  que surgiu uma informao bem interessante. Odcio estava terminando a refeio quando avistou 
Olga, a secretria do Dr. Roberto Marzolla - o dono da metalrgica -, despedindo-se dos colegas, emocionada. Odcio gostava da moa e levantou-se para cumprimentada. 
- O que foi pequena? Vai sair de frias?
- No, seu Odcio. Estou partindo.
- Partindo? Como assim?
- Hoje  meu ltimo dia aqui na metalrgica.
- Por qu? Voc  to competente, o Dr. Roberto tem tanto carinho por voc, gosta muito do seu trabalho. No posso crer que ele a tenha demitido.
Olga balanou a cabea.
- No fui demitida.
- Ento, o que foi? - perguntou ele, apreensivo.
Ela sorriu. Achava graa no tom paternal com que Odcio tratava as meninas na metalrgica.
-  que o Helinho me pediu em casamento.
-  mesmo?
- Ficamos noivos - disse ela, levantando a mo direita e mostrando num dos dedos o anel dourado. - Preciso correr com o enxoval. Vamos nos casar daqui a seis meses.
Odcio abraou-a com carinho.
- Minha filha, parabns!
- Obrigada.
- Helinho  um homem de bem. Sero muito felizes.
- Eu o amo muito. Quero encher de filhos nosso futuro lar. Adoro crianas. E ele tambm no concorda que eu continue trabalhando. Vou me tornar dona de casa! - disse, 
empolgada.
- Profisso das mais importantes. Na verdade, o lugar da esposa  em casa.
Olga riu-se.
- Eu me acho capaz de conciliar as duas funes.
Odcio pendeu a cabea para os lados.
- No concordo. Lugar de mulher  dentro de casa, cuidando do lar.
- Entretanto a Adlia trabalha no centro esprita.
Odcio estufou o peito de satisfao.
- Isso  exceo. Minha esposa faz caridade, ajuda os necessitados. Trabalho dos mais nobres.  edificante e ajuda a diminuir as dvidas contradas em vidas passadas.
-  uma maneira de entender a reencarnao. Eu penso diferente. No acredito em dvidas ou resgate. Isso est l no Evangelho. Como no acreditar?
- Cada um enxerga as coisas de acordo com suas crenas. Acredito que somos perfeitos, e Deus no nos colocaria no mundo para sofrer ou pagar dvidas. No somos um 
carn - ela riu-se.
- Fomos criados somente para a felicidade, isso sim.
Odcio fez um esgar de incredulidade. Olga percebeu e procurou dar novo rumo a conversa. Odcio tinha suas ideias e no gostava de ser contrariado.
- Sabe Odcio, muita coisa mudou desde que voc se casou. Vou parar de trabalhar, no momento, por opo. Quero me dedicar a casa,  famlia. Sempre trabalhei por 
necessidade, nunca por gosto. Helinho ganha muito bem. E no me sinto menos por depender dele.
- Eu a admiro muito Olga. Sempre tem uma resposta inteligente. Sabe o que quer. - Odcio baixou o tom de voz. - E, tambm, depois dos assdios do filho do patro...
Olga franziu o cenho.
- No gostaria de falar a respeito.
- Por qu?
- Isso faz parte do passado. Bruno estava perturbado e assediava qualquer uma que fosse.
- Tem certeza de que no est deixando a empresa por conta disso?
- No. Desde aquele dia em que Helinho o pegou pelo colarinho...
- Eu me recordo desse episdio. Foi bem ali - apontou Odcio - no porto de sada.
Helinho fez bem: tinha de defender sua noiva e, acima de tudo, a sua honra.
- O bom  que nunca mais fui assediada. E Bruno agora est em longas frias. Toda vez que fica perturbado, faz tratamento l no centro e parte em seguida para a 
Europa. J vimos esse filme antes.
- Dei muito passe nesse garoto. Graas a mim ele melhorou.
- De nada adiantam os passes se ele no mudar o comportamento.
- H amigos do astral inferior que o perseguem. Bruno no tem culpa do assdio dos amiguinhos inferiores.
- Claro que tem!
- Ele  um pobre coitado, Olga. Tenha piedade dele.
- Coitado uma ova! Diz isso porque ele no assediou sua filha. Queria ver se o Bruno desse uma de assanhadinho para cima da Suzana.
Odcio ficou vermelho. Nunca pensara nisso.
- Mudemos de assunto - disse ele, sem saber o que responder.
- Desejo tudo de bom para voc, Odcio. E quero Suzana e Fernando no meu casamento, alm da Adlia.
- Conte com nossa presena.
Abraaram-se novamente. Olga perguntou a queima-roupa:
- Suzana j arrumou emprego?
- Ainda no. A situao no est nada fcil.
- O Dr. Roberto no mandou o departamento pessoal abrir vaga. Disse que trata disso depois que voltar de frias. Se quiser, eu posso falar com ele, sem compromisso. 
Voc sabe que a indicao ajuda muito, ainda mais para um cargo que exige discrio e responsabilidade, como o meu.
Os olhos de Odcio brilharam emocionados.
- Faria isso por minha filha?
- Gosto muito de Suzana, de vocs todos. O tratamento que recomendou  minha me foi to importante para o fortalecimento dela... Somos muito gratos  ajuda que 
nos prestou quando estvamos sem esperanas, quando os mdicos abandonaram o caso, dizendo que a medicina no tinha mais o que fazer por mame.
- Essa  minha misso. Ajudar os necessitados.
- E curou minha me.
Odcio riu vaidoso.
- Nasci com esse dom. Ser mdium no  nada fcil, mas eu uso de minha mediunidade para ajudar as pessoas. E a minha misso nesta encarnao.
Ficaram conversando amenidades, at que Olga por fim despediu-se do restante dos colegas e se foi. Odcio no via a hora de transmitir  filha a possibilidade de 
emprego na metalrgica, local em que trabalhava havia mais de dez anos. Adorava seu emprego. O Dr. Roberto Marzolla era um bom homem. Inteligente, culto e, acima 
de tudo, trabalhador. Chegara adolescente ao Brasil. Como a grande massa de imigrantes italianos que aqui chegou, sua famlia desembarcou com uma mo na frente e 
outra atrs. Depois de muito labutar, fundou com um dos irmos a metalrgica, que, graas ao fortalecimento da indstria automobilstica nos ltimos anos, prosperava 
cada vez mais, tornando-se uma das mais conhecidas da capital paulista. Roberto tambm no se importava com os costumes ou crenas dos empregados. Tinha a mente 
aberta. Embora catlico no praticante, simpatizava com tudo o que estivesse relacionado  espiritualidade. Tinha admirao por Odcio, porquanto freqentava o centro 
esprita onde seu prestimoso empregado trabalhava havia alguns anos. O dono da metalrgica entrou no carro, contornou os portes da indstria e parou pouco adiante, 
prximo ao ponto de nibus.
- Odcio!
- Como vai?
- Esqueci de me despedir de voc, meu caro.
- Que  isso, Roberto? Com tanta gente querendo cumpriment-lo... Mas logo outro ano vai se iniciar e estaremos juntos novamente.
- Isso sim. Funcionrios como voc me do alegria em continuar a fazer esta empresa crescer.
Odcio baixou a cabea comovido.
- Obrigado.
- Odcio, meu caro, sempre lhe serei grato. O que fez pelo meu filho Bruno no tem preo. Fomos a mdicos e hospitais, gastei fortunas... E voc o curou de novo.
- Eu no curei ningum. Sou instrumento da espiritualidade, nada mais.
- Mas sempre lhe serei grato.
- Ele vai ficar muito tempo na Europa?
- Mais um tempo.
- Bruno precisa de novos ares.
- Sabe como ... Essas perturbaes deixam o meu menino muito cansado, esgotado. Nada como a Europa para lhe recompor as foras.
- E as moas culpam o Bruno pelos assdios...
Roberto coou a cabea. Ele tambm acreditava que as moas eram culpadas, at saber da histria envolvendo seu filho e Olga. Ela sempre fora uma secretria acima 
ele qualquer suspeita, extremamente discreta e educada. Quando soube do assdio do filho, preocupou-se para valer. Odcio cortou seus pensamentos:
- Bruno  vtima indefesa.  atacado por foras invisveis do astral inferior. O pobre coitado no tem culpa. Coisa ele outras vidas.
- Disso no entendo patavina. Entretanto, voc  o responsvel por meu filho estar vivo e bem.
- O que  isso, Roberto? Essas coisas fazem parte do meu carma.
- Mais uma vez, obrigado.
A vaidade ele Odcio atingia as alturas toda vez que recebia esse tipo de elogio. No havia dia que fosse em que Roberto no o agradecesse pela cura elo filho. Isso 
deixava Odcio embevecido e orgulhoso ele seus dons medinicos. Ele at teria prazer em continuar a ouvir mais elogios, entrementes estava ansioso demais em relao 
 vaga deixada por Olga. Assim que apareceu uma brecha na conversa, ele pigarreou e tornou:
- Fiquei sabendo de uma vaga de secretria.
- Olga conversou comigo.
-  mesmo? - perguntou surpreso.
- Sim. Por que nunca me disse que sua filha estava procurando emprego? E que era secretria?
- Porque uma coisa no tem nada a ver com a outra. No confundo as coisas.
- Meu velho e bom Odcio  ntegro como sempre.
- Esse  meu lema - disse entre sorrisos.
- Sua filha tem boa experincia?
- E como! Trabalhou por trs anos no escritrio do Dr. Miguel Gouveia Penteado... - Ele baixou o tom de voz. - Aquele pobre coitado que se matou!
Roberto abriu e fechou a boca.
-  mesmo? Ela trabalhou para aquele sujeito?
- Sim.
- Para quem trabalhava na regio nobre da cidade... No sei. Sua filha se importaria de trabalhar numa metalrgica, aqui na Mooca?
- Para Suzana no importa o local. Minha filha  boa funcionria. Muito competente. S no trabalha mais no escritrio do Dr. Miguel porque, depois da morte dele, 
a empresa foi  falncia.
- Fiquei sabendo pelos jornais. Ento faamos o seguinte: assim que eu retornar das festas de fim de ano, pea a ela que venha falar comigo. No lhe prometo nada, 
mas no vou abrir vaga de secretria antes de conversar com sua filha. Combinado?
- No sei o que dizer...
- No diga nada, homem. Se no fosse voc, Bruno estaria internado num sanatrio. Sabe disso. Voc salvou meu nico filho - disse o homem, quase s lgrimas.
Apertaram-se as mos e o nibus se aproximou. Odcio fez o sinal e logo subiu no veculo. Ao sentar-se, disse para si: 
- Que Deus o abenoe, meu amigo.
Os meses que se seguiram  morte de Miguel foram bem diferentes para cada membro de sua famlia. Muitos ttulos foram protestados e muitos credores foram  cata 
de Guilhermina, na esperana de rever algum crdito. Entretanto Guilhermina estava lisa, sem nada. No havia maneira de arrancar dinheiro dela. Agora ela estava 
nas mos de Ramrez. Ele era seu porto seguro, que lhe dava carinho, apoio e muito, mas muito dinheiro. Condenada pela sociedade por se unir a um tipo feito o Ramrez, 
Guilhermina deu de ombros. Estava mesmo cansada de representar o papel ele viva exemplar e, num ato de irritao extrema, fez um pacto com jornalistas da imprensa 
marrom. Contaria os podres da sociedade, dando nomes e tudo, em troca de no ter seu romance publicado em jornal ou revista que fosse. A imprensa deveria esquec-la; 
nunca mais uma nota, uma matria depreciativa, qualquer comentrio. Em contrapartida, revelou a jornalistas segredos os mais srdidos que corriam por baixo da alta 
sociedade paulistana. O escndalo da fofoca foi de grande porte, fez muito estrago. Casais se separaram, empresas quebraram, polticos foram presos, maridos descobriram-se 
trados da noite para o dia. Tudo causado pela lngua ferina de Guilhermina. Ela sentiu-se vingada e passou a freqentar o mundo de Ramrez, formado por gngsteres 
e contraventores. O tempo foi passando, e tudo voltou ao normal. Os credores, aos poucos, sumiram de vez. Ramrez arrematou em leilo a casa do Pacaembu. Passou 
a pressionar Guilhermina para que o filho se casasse com moa rica. Estava cansado de sustentar aquele almofadinha. A fim de no contrariar seu novo companheiro, 
Guilhermina passou a maquinar uma maneira de arrumar um excelente partido ao filho. Ela estava apaixonada por Ramrez e no iria contrari-lo de maneira alguma. 
Chegar  alta sociedade no podia mais, visto que o dio que muitos nutriam por ela ainda era grande. Muitos socialites jamais a perdoariam pela falta de decoro 
e pelas revelaes inenarrveis que meses a fio divertiram milhares de leitores vidos por escndalos. Guilhermina tinha de tomar uma atitude rpida, porquanto Ramrez 
estava desgostoso com a situao de dependncia de Lus Carlos. Tentara lhe arrumar servio, mas nada. O rapaz recebeu proposta de um colega de seu pai, penalizado 
com a situao financeira precria dos Gouveia Penteado, para trabalhar numa firma de advocacia como assistente, visto que ele nunca havia advogado na vida e tampouco 
conclura os estudos. Lus Carlos tomou a proposta como uma grande ofensa. Ele era filho do Dr. Miguel; merecia um cargo melhor, oras! Indignado e sem a mnima vontade 
de trabalhar, o rapaz entregou-se  jogatina,  bebida e aos prazeres sexuais. Numa dessas aventuras nas casas de prostituio de luxo da capital, evidentemente 
controlada por Ramrez, Lus Carlos conheceu Guadalupe, uma profissional do sexo que mudaria a sua vida. Guadalupe era mulher intensa, vibrante, estupendamente bela. 
Seus cabelos avermelhados e levemente encaracolados desciam-lhe at o meio das costas; sua pele era predominantemente alva e rosada nas extremidades; seus olhos 
negros eram hipnticos e sedutores. Possua um par de seios capaz de causar rebulio por onde passava. Enfim, Guadalupe era uma mulher belssima, do tipo que leva 
um homem apaixonado a cometer loucuras. Guadalupe viera da Andaluzia, Espanha, para trabalhar no Rio de Janeiro, convidada por um tio que era um dos proprietrios 
do badalado Hotel Vogue. A beleza da moa chamava tanto a ateno dos hspedes, que em pouco tempo ela fora convidada a fazer programas de cunho sexual, e passou 
a ganhar muito dinheiro com o trabalho fcil. Logo Guadalupe estava muito bem de vida, pois o que faturava na cama com os hspedes era infinitamente maior que seu 
modesto salrio como concierge do hotel. Entretanto ela no guardava um tosto sequer. Usava todo o seu dinheiro para comprar vestidos, casacos, sapatos, maquiagem, 
perfumes, jias. Estava sempre impecavelmente bem arrumada, e isso aumentava ainda mais o desejo dos clientes em t-la nos braos, uma nica vez que fosse. Afinal 
de contas, a aparncia, para esse tipo de trabalho, conta sobremaneira. Infelizmente o sonho durou pouco. Alguns meses se passaram, e a bela vida de Guadalupe sofreu 
um baque pelo fogo que devorou o hotel. As pessoas se atiravam das janelas, os bombeiros no conseguiam dominar as labaredas. O caso do Hotel Vogue foi notcia no 
mundo todo. Morreu artistas, turistas nacionais e estrangeiros, inclusive o tio de Guadalupe, que ela mesma viu se atirar l do alto, num gesto desesperador e trgico. 
A moa perdeu emprego e clientes. Sua tia, uma espanhola rgida nos conceitos, dominada pelo moralismo, soube da vida dupla da sobrinha e botou-a para correr de 
casa dois dias depois do sepultamento do tio. Sobraando uma mala e vontade de recomear, Guadalupe chegou a So Paulo. Perambulou pela cidade, hospedou-se num hotel 
modesto no centro e, numa noite em que vagava em busca de um cliente, conheceu Ramrez. A paixo entre ambos foi instantnea. Guadalupe era impetuosa, manipulava 
os homens, entretanto se perdia toda quando tava com Ramrez. Ele tinha fora e a dominava. E Ramrez tambm se sentia perturbado ao lado dela. Mulher nenhuma o 
havia feito se apaixonar daquela forma. Guadalupe no precisava fazer nada. A qumica entre ambos era natural. Dessa paixo nasceu um cime doentio de ambas as partes, 
todavia Ramrez estava farto das casas de prostituio. Aquilo era pouco para ele. Soube, por alto, que o trfico de drogas estava dando muito mais dinheiro. Quem 
entrava no negcio ficava milionrio da noite para o dia. Mas havia um empecilho: Ramrez precisava chegar ao topo da classe A, infiltrar-se no meio de polticos 
corruptos, gente da alta sociedade que lhe levaria at os responsveis pela distribuio de drogas no Pas. Ele precisava de uma mulher da sociedade, e Guadalupe 
no era essa mulher. Embora estivessem loucos de paixo, decidiram que o melhor era dar um tempo no envolvimento e traaram um plano para logo mais  frente voltarem 
a ficar juntos, para todo o sempre. Guadalupe aceitou a proposta de trabalhar numa das casas de prostituio, como gerente do estabelecimento. Poderia amar Ramrez 
o quanto quisesse, sem despertar suspeitas, e o deixaria livre para conseguir seu intento: o de arrumar uma milionria que o levasse  classe A. Em paralelo, Guadalupe 
passou a dar suas investidas em Lus Carlos. O rapaz era bonito, bem-nascido, rico. Haveria tempo suficiente para se envolver com o rapaz, at talvez casar-se com 
ele. Depois de arrancar muito dinheiro dos Gouveia Penteado, ela pediria o desquite e iria viver com seu verdadeiro amor. Aps a morte de Miguel, da falncia da 
empresa e agora que o rapaz dependia de Ramrez e no fazia nada para melhorar na vida, ela foi se enjoando. No momento certo o dispensaria, sem sombra de dvidas. 
Naquela noite, Luis Carlos chegou cabisbaixo, entristecido. Foi direto aos aposentos de Guadalupe. Ela sorriu maliciosa e abraou-o por trs.
- Estava saudosa - disse ela, com forte sotaque. - Voc no me parece bem.
- No estou mesmo.
- O que foi?
Luis Carlos a beijou com carinho.
- No sei mais o que fazer.
- Mas e o emprego com o amigo de seu pai?
- Aquilo no  para mim.
- Sei, sei corazn, mas pelo menos com esse salrio poderia pagar algumas contas.
- No.  muito pouco. Eu tenho sobrenome, minha famlia  de estirpe.
- No  bem assim. Embora a imprensa no revele o nome, todos sabem que foi sua me quem causou escndalo na sociedade.
- Mame no devia ter dado com a lngua nos dentes.
- No devia mesmo. No imagina os comentrios maledicentes que ouo a seu respeito. Sorte de ela estar sob a proteo do Ramrez, caso contrrio j teria sido morta.
- Isso tem me atrapalhado bastante. As pessoas me olham torto.
- Por que no aceita um emprego de Ramrez?
- Ah, no...
- H tantas maneiras de ganhar dinheiro neste submundo. No posso me sujeitar a qualquer empreguinho.
Guadalupe torceu o nariz. Luis Carlos no movia uma palha para melhorar, para crescer, subir na vida. Era dependente demais. Entretanto ela tinha de continuar a 
seu lado. Havia feito um trato com Ramrez. No podia esmorecer. Guadalupe suspirou e fingiu amabilidade:
- Por que no tenta se adequar  mesada de sua me? O que mame me d no cobre mais as despesas.
- Eu lhe quero tanto.
- Eu tambm - asseverou-o, abraando-a e beijando-a longamente.
- Estou cansada de levar esta vida.
- Voc podia abrir um negcio desses. J tem experincia e clientela. No precisa mais do Ramrez. Podemos ganhar bastante dinheiro juntos.
Ela riu gostoso.
- Como quer que eu faa uma coisa dessas?
Estou sem dinheiro. Sabe que vivo bem, tenho meus luxos, mas muito do que ganho vai para as mos de Ramrez. E, se eu abrir um prostbulo, terei de pagar-lhe um 
percentual.
- Nunca vai conseguir se livrar desse aproveitador.
- No fale assim dele. Graas a Ramrez voc tem onde cair morto.
- Mas  um sovina, mo-fechada. Poderia me dar participao nos lucros, j que agora pretende se casar com minha me.
- O tempo cuida de tudo. Temos de ter calma.
Luis Carlos a olhou de travs. Conhecia bem esse jeito de Guadalupe.
- O que est tramando?
Guadalupe virou os olhos negros, passou a lngua entre os lbios. Estava excitada com uma ideia que martelava sua cabea havia tempos.
- Sabe que sou louca por voc - disse, mentindo.
- Sei, e como sei! - Luis Carlos sorriu. - Mas seu cime me atia. Adoro mulheres voluntariosas.
- Si, si. Mas pelo nosso futuro abro mo de sua fidelidade para comigo.
Luis Carlos nada entendeu. Afinal de contas, como uma mulher louca de cimes pelo amado o entregaria de bandeja a outra mulher? Ele foi categrico:
- O que est aprontando?
- Tenho um plano mirabolante. Tenho certeza de que vai dar certo. Vamos nos dar muito bem.
- O que ? - perguntou ele, desconfiado.
- Depois lhe conto. Agora te quero.
Guadalupe disse isso e avanou sobre Luis Carlos. Ela sabia que o dominava na cama. Ele era facilmente manipulado pela me, mas dificilmente outra mulher conseguia 
o mesmo. E, a fim de no despertar suspeitas, o melhor que Guadalupe tinha a fazer era se deitar com ele, mesmo a contragosto. Fazia parte de seu plano. Isso ela 
devia a Ramrez. Jamais trairia seu amado. Precisava seguir  risca tudo o que planejaram. Nada poderia dar errado. Aps amarem-se, Luis Carlos acalmou os brios. 
A desconfiana sumiu, e ambos entabularam conversao. Guadalupe lhe exps o que tinha em mente. O rapaz sentiu-se inseguro.
- No sei se vou conseguir.
- Como no, corazn?
-  arriscado.
- Juntos alcanaremos o cu.
- Por que quer minha me metida nessa histria?
- Para nos ajudar. Sua me est louca para que voc se case com uma moa rica. Sei que eu jamais seria pretendente para voc. A nica maneira de eu ser aceita por 
sua me  traar um plano e fazer com que voc o siga. Dona Guilhermina vai me adorar, e, assim que dermos o golpe em Otto Henermann, seremos ricos e no mais nos 
desgrudaremos.
- Acha que esse plano mirabolante pode dar certo?
- Si. Deixe comigo, corazn.
Luis Carlos beijou-a levemente nos lbios.
- Obrigado. Voc apareceu em minha vida no momento certo.
- Si, si.
- No sei mais viver sem voc ao meu lado.
- No diga isso - fingiu ela, em tom emocionado.
- Voc  a mulher de minha vida!
Guadalupe virou o rosto para o lado e esboou um sorriso malicioso, de quem sabia muito bem o que estava tramando. Ana Paula, formada em Letras, foi  cata de trabalho. 
Estava difcil, pois ela no tinha experincia e, para atrapalhar ainda mais a sua vida profissional, os colgios tradicionais  da cidade lhe fecharam as portas, 
devido ao zunzum que a morte elo pai ainda repercutia na sociedade. Ela no era dada a gastar todo o dinheiro da mesada e fizera boa poupana. Usou parte dessa reserva 
e comprou livros para estudar e se preparar para um eventual concurso da prefeitura. Essa era a nica sada para ela. Prestaria o concurso e iria lecionar na periferia. 
No era bem o seu sonho, mas pelo menos poderia se virar e levar sua vida. Ela andava bastante pensativa nos ltimos tempos. Sua vida havia mudado da gua para o 
vinho. O convvio com a me beirava o insuportvel. Estava na hora de tomar uma deciso. Numa tarde, teve uma brilhante ideia. Tinha muitos vestidos que nunca usara, 
e poderia vend-los para fazer mais dinheiro e sair de casa, segura de que teria como se sustentar por alguns meses. Remexeu em todos os armrios, passando a tarde 
a cata do que poderia vender. Mesmo Ana Paula no freqentando lugares badalados, a me enchia-a de vestidos. Guilhermina no se considerava uma mulher perdulria, 
mas precavida. Nunca saberia se iria aparecer ocasio em que tivesse de vestir a filha com apuro. Ao fim de algumas horas, Ana Paula terminou de juntar um punhado 
de vestidos. Respirou aliviada.
- Pronto. No preciso de tanta roupa. Posso ganhar um bom dinheiro com esses vestidos caros que mame me obrigava a comprar.
- D-se por satisfeita, filha ingrata.
Ana Paula levou a mo  boca e virou-se para a porta do quarto, atnita.
- Ma... Mame... No quis... di... Dizer...
Guilhermina bufou de raiva.
- Sempre procurei manter seu guarda-roupa abastecido de peas caras, finas e de grife.
- No...
- Por que gosta de me irritar? O que tem contra mim?
- Na... Na... Na... Nada - disse a garota por fim, num esforo tremendo.
- Voc me irrita demais, Ana Paula. Quando gagueja, me tira do srio. O que estava falando a sozinha?
- Nada de mais.
- O que vai fazer com essas roupas maravilhosas que lhe dei?
A garota fechou-se em copas. Ana Paula tinha pavor de confrontar a me. Guilhermina ficava ainda mais irritada e tripudiava sobre o medo da filha.
- Se eu fiz uma pergunta, exijo uma resposta - tornou enrgica, quase aos berros.
- O dinheiro est aca... aca... - Ana Paula suspirou. Inalou o ar profundamente e continuou: - O dinheiro est acabando. No conse... gui ainda arrumar empre... 
pre... go. 
- No consegue emprego porque no tem beleza, tampouco talento.
- No... No  bem assim...
- Como no? Estudou e no consegue arrumar nada?
- Luis Carlos tamb... Tambm no consegue. 
- No queira botar seu irmo no meio da conversa! Ele tem se esforado.
- Eu tamb... Tambm.
- Tentado nada.  uma parasita.
- Eu? - espantou-se a jovem.
- Sim, voc mesma. E, se quiser mesmo dar aula, vai fazer como? Imagine gaguejando na frente dos alunos?
Ana Paula respirou fundo. Sem encarar a me de frente ficava mais fcil falar. - Geralmente eu s fico assim na su... su... sua frente.
- Voc  frgil demais. Tambm, foi educada e mimada por um pai fraco... S podia dar nisso.
- No fa... fale a... assim dele.
- Ainda bem que agora temos o Ramrez. Esse, sim,  homem de verdade.
Ana Paula tinha pavor s de ouvir o nome do espanhol. Tremia toda. E com razo. Ramrez, quando queria, era um tipo de causar medo. Algum tempo atrs, Ana Paula 
pegara a me conversando com o amante pela extenso do telefone. Chocada e desiludida, a jovem decidiu seguir Guilhermina e descobriu o endereo em que o casal se 
encontrava. Tratava-se de belo apartamento na Rua da Consolao, prdio distinto, de famlia. Por mais ingnua que pudesse ser Ana Paula sabia o significado daquelas 
sadas da me, duas vezes por semana, e que tomavam  tarde no apartamento. S podiam ser para encontros amorosos com aquele desclassificado. E sabendo de tudo isso? 
Contava para o pai? Como agir? Ana Paula amava Miguel e temia uma reao violenta caso ele descobrisse a traio da esposa. Sofria pelo pai. E, agora que Miguel 
morrera, sentia-se culpada de no ter antes participado a ele esse consrcio chulo entre Guilhermina e Ramrez. Guilhermina a cutucou novamente:
- Ei, em que mundo est? Estou falando com voc.
-  que... Que... - Ana Paula ficou nervosssima, e estava difcil abrir a boca sem gaguejar.
- Com a morte de seu pai, tudo mudou. Vai ter que conviver com a nova realidade.
- Dif... fcil.
- Acostume-se, pois Ramrez vai se tomar seu padrasto muito em breve.
Ana Paula gritou:
- No! Isso nunca!
Guilhermina riu-se.
- Quando fica nervosinha e histrica consegue falar direito, no? At para gaguejar  fraca. No convence.
- Ele, no!
- No me interessa se vai gostar ou no. Vamos viver juntos. Trate de se acostumar. Luis Carlos logo se ajeita,  sedutor e bonito. Voc - ela deu de ombros -  
gaga, chata e sem atrativos suficientes para atrair um bom partido!
- Por que me tra... tra... Trata assim?
- O que posso esperar de voc?
Ana Paula rebateu:
- O que pode esperar de Luis Carlos?
Guilhermina riu alto.
- De seu irmo posso esperar muita coisa. Luis Carlos  bonito, sedutor, logo se casar com moa rica e vai ter uma vida de luxo. Quanto a voc... Oras, olhe-se 
no espelho, criatura!
- Beleza no  funda... Fundamental. E no me acho feia.
- Continue se iludindo.
- No me ilud... do.
- Nunca se deu conta de que voc sempre vai ter uma vida medocre?
Ana Paula emudeceu. Baixou a cabea, entristecida. Guilhermina continuou com seus improprios: 
- Voc nunca representou nada para mim. Foi uma coisa que eu tive que saiu de minhas entranhas com a capacidade intelectual limitadssima e a beleza advinda da famlia 
horrorosa de seu pai. Voc  muito insegura, dependente demais, no tem brilho prprio. Infelizmente tenho de estar sempre ao seu lado, decidindo, vendo o que  
melhor para voc.
Ana Paula no tinha como se defender da me. Guilhermina estava certa: ela no fazia nada por si, tinha medo de enfrentar a vida, no tinha traquejo como a me ou 
beleza como o irmo. Ana Paula se sentia uma pessoa limitada, incapaz de decidir por si prpria. Guilhermina continuou:
- S no lhe mando embora de casa porque minhas amigas iriam fazer comentrios maledicentes a meu respeito. J no chega a morte estpida de seu pai e a entrega 
desta casa para a Caixa Econmica. Mas lhe digo uma coisa: ou voc aceita a realidade e aceita Ramrez aqui em casa comigo, ou... 
Ana Paula fez fora para emitir som:
- Ou...
- Ou ento, querida, de um rumo em sua vida. Siga seu caminho. Eu no sou obrigada a conviver com um ser triste e desprezvel ao meu lado.
Com a cabea baixa, Ana Paula conseguia falar sem gaguejar:
- Estive pensando em me mudar. Em levar minha vi... Vida.
- Graas!
-  sim.
- At que enfim pensou como uma pessoa inteligente. Voc  adulta, pode se virar.
- Pensei no pensionato...
- Se quiser, eu mesma a levo at o pensionato da Dona Guiomar, na Rua da Glria.
Ana Paula no sabia o que dizer. Parecia que sua me torcia para que ela mesma tomasse essa deciso. Por que Guilhermina no lhe amava de verdade? O que poderia 
fazer para ganhar o carinho e respeito da me? Agora que o pai se fora, Ana Paula se sentia sozinha, como se no tivesse mais famlia. Mal via o irmo, porquanto 
ele estava sempre metido na farra. Era ntido o tremendo sacrifcio que Guilhermina fazia para se aproximar ou mesmo conversar com ela. Guilhermina balanou a cabea 
para os lados e retirou-se, sem dizer mais uma palavra. Para ela era difcil a convivncia com a filha. Guilhermina tentara bastante uma aproximao pacfica com 
Ana Paula, entretanto havia uma repulsa, uma raiva que ela at mesmo se culpava em sentir. Afinal de contas, uma me deve amar igualmente seus filhos. Mas isso Guilhermina 
no conseguia. Estava alm de suas foras.
- Por que tenho tanta raiva? O que acontece? Ela no me fez nada para eu me sentir assim...
Enquanto isso, no quarto de Ana Paula, a jovem jogou-se pesadamente sobre os vestidos. Ao mesmo tempo em que as lgrimas escorriam sem cessar, ela pensava, pensava. 
Sem a me por perto, deixava de gaguejar.
- Meu Deus! O que fazer? Eu no suporto esse Ramrez, e minha me me despreza no me ama. Luis Carlos est perdido, desorientado, no tem condies de me ajudar. 
Preciso arrumar um emprego e sair de casa o mais rpido possvel. Se ao menos tivesse meu pai por perto!
Ela tornou a chorar copiosamente, aos soluos. De repente, uma leve brisa adentrou o quarto e tocou-lhe delicadamente a face. O esprito reluzente de uma senhora 
acariciava-lhe os cabelos em desalinho.
- No tema, minha menina. Vov Albertina est aqui ao seu lado para dar-lhe foras. Voc precisa reagir. Foi voc quem a escolheu como me. Sabia que a convivncia 
no seria nada pacfica. Entretanto farei o possvel para ajud-la.
O pranto foi diminuindo aos poucos e logo a garota sentiu gostosa sensao. Enxugou as lgrimas e, vencida pelo cansao, adormeceu. Roberto entrevistou Suzana assim 
que retornou das frias de fim de ano. Aps uma hora de conversa, ele simpatizou bastante com a moa.
- Confesso que estou surpreso com suas qualidades profissionais e com a sua educao. Perdoe-me - ele tossiu - e no leve este comentrio como um acinte, mas nunca 
pude imaginar que Odcio tivesse uma filha to competente e bonita.
Suzana riu-se.
- Meu pai  um senhor distinto, bonito, e minha me tambm  muito bonita. Tive a quem puxar.
- Pelo jeito, voc no tem um pingo de modstia!
- No  questo de modstia, Dr. Roberto, mas de valor. Se eu no gostar de mim, quem vai gostar? Sou nica no mundo. No existe outra Suzana, como tambm no existe 
outro Roberto - fez apontando para o jovem senhor. - Somos nicos, diferentes, exclusivos. Temos de nos valorizar por sermos obras nicas da natureza. E tento cada 
vez mais aceitar e compreender essa realidade. Por conta de minha beleza, eu me fecho com medo de ser um mero objeto na mo dos homens.
- Mulher bonita  sinal de encrenca - tornou ele, sorrindo. - Entretanto, a aparncia  fundamental.
- Sim, senhor.
- Tambm trabalha com seu pai l no centro esprita?
- No tenho freqentado lugar algum. Trabalhei e estudei algum tempo no centro que meu pai freqenta, mas acabei me afastando. Tenho estudado sozinha. A vida me 
tem sido uma tima professora.
- Aquele centro  muito bom. Meu filho foi curado l, alis, pelo seu pai.
Suzana remexeu-se na cadeira.
- O centro  muito bom, mas h disputa entre os mdiuns. Uns querem aparecer mais que outros. Isso no  bom e atrapalha a harmonia do local. Meu pai  duro, apegou-se 
ao espiritismo por conta do "aqui se faz, aqui se paga".
- E no  bem assim?
- No.
- Os espritas dizem que estamos no mundo pagando por erros do passado.
- No para mim. A vida  muito mais rica muito sbia. Essa histria de pagar, de dbitos, faz com que eu me sinta errada e culpada o tempo todo. No acredito que 
estejamos aqui no mundo para isso.
- No?
- No. Somos espritos em evoluo, em crescimento e amadurecimento constantes, estamos melhorando sempre. Eu e papai temos vises bem diferentes acerca da espiritualidade. 
Questo de ponto de vista. 
- Mesmo assim, constituem bela famlia.
- Somos uma famlia - ela ressaltou. - E, como uma verdadeira famlia, vivemos em harmonia, nos amamos, nos ajudamos. No vou dizer que no temos problemas, claro 
que temos. Somos humanos! Mas sabemos o limite de cada um, nos respeitamos muito. O bom relacionamento familiar   base de tudo. A harmonia dentro de casa impede 
que energias desagradveis adentrem nossa casa. E, de mais a mais, eu amo a minha famlia.
- Fico contente, porquanto tambm amo a minha - devolveu-o, sorrindo. - Embora pequena, com um nico filho, vivemos muito bem.
Suzana olhou para o porta-retratos na mesa de Roberto. Perguntou com graa:
- Essa  sua esposa?
- Sim, Rafaela - disse ele entre sorrisos.
- Muito bonita. Jovem.
- Casamo-nos muito cedo. Minha esposa  adepta do espiritismo, entretanto no concorda com a maneira como trato meu filho. Diz que eu passo demais a mo sobre a 
cabea dele.
- Dona Rafaela me parece bem lcida.
- Voc ter a oportunidade de conhec-la. - Roberto levantou-se: - Bem, estamos aqui conversando, e, embora adorasse continuar nossa palestra, o tempo urge. Tenho 
importante reunio logo mais. Ser que poderia correr com a papelada e comear a trabalhar amanh mesmo?
- Adoraria! - ela exclamou.
- Desculpe a urgncia, Suzana, mas sem secretria no sou nada. Veja: retornei ao trabalho hoje e estou completamente perdido. Passe no departamento de pessoal o 
mais rpido possvel, sim?
Suzana levantou-se e estendeu-lhe a mo.
- Muito obrigada, Dr. Roberto. Darei o melhor de mim, tenha certeza.
- Acredito em voc.
A jovem saiu da sala de Roberto Marzolla com largo sorriso nos lbios. Informou-se onde ficava o departamento em que seu pai trabalhava e correu para lhe dar a notcia.
- Papai, consegui!
Os olhos de Odcio brilharam emocionados.
- Estava aqui pedindo aos nossos protetores que o Dr. Roberto a empregasse. Puxa filha, como estou feliz!
Eles abraaram-se comovidos.
- Vou ganhar excelente salrio. Poderei pagar uma empregada domestica para fazer faxina em casa. Fico feliz s de pensar que a mame no vai precisar pegar no pesado. 
E, alm do mais, ela ter bastante tempo para se dedicar e acompanh-lo ao centro. Fico to mais aliviada!
- Sempre pensando em ns...
- Claro! Somos uma famlia.
- Uma linda famlia.
Odcio disse isso e olhou para o alto, em agradecimento aos cus. Maria Cndida estava sentada  beira da piscina, os pezinhos s vezes brincando com a gua. O dia 
estava muito quente e ela queria se refrescar um pouco. Em instantes, jogou-se na gua. Nadou um pouco e, ao sair, avistou a me.
- Poderia pegar a toalha ali na mesa para mim, por favor?
Zara apanhou delicadamente a toalha e levou-a at a beirada da piscina.
- Estou com pressa, filha.
- Por que a pressa?
- Eu e seu pai iremos ao jantar dos Silveira Melo.
- Ento vou me arrumar.
- Eu e seu pai vamos jantar. S ns dois.
- Tambm quero ir. Eu sempre saio com vocs.
- Hoje, no. Eu e seu pai temos assuntos a tratar durante o jantar que no lhe dizem respeito.
- Vou ficar sozinha aqui neste casaro?
Zara estendeu o brao para que a filha sasse da gua. Ajudou-a se enxugar.
- J disse uma, duas, mil vezes: voc precisa sair com pessoas da sua idade, enturmar-se com as meninas e meninos as sua gerao.
- Para que? Para ser motivo de piada?
- Isso faz parte do passado. Por que no tenta? Por que no liga para a Lurdinha?
- Ela reclama do meu cabelo e diz que eu tenho de arrumar um marido. Lurdinha s pensa em casar. Estou farta do mesmo assunto.
- Lurdinha est certa. Toda moa sonha em se casar um dia. Voc tambm no sonha com isso?
- Claro! Mas como?
- Como o qu? - indagou Zara.
Maria Cndida irritou-se.
- Voc est de brincadeira comigo?
- Que nada!
- Me, acorde para a realidade! Olhe para mim. Acha que algum pode um dia se interessar por uma mulher feia como eu?
Zara moveu a cabea para os lados. Beijou a fronte da filha.
- No adianta implicar com a aparncia. S isso no conta.
- No conta para voc. Voc  bonita. Nunca homem algum olhou para mim. Quer dizer, depois do escndalo com o Augusto...
Maria Cndida de repente entristeceu-se. Aquela histria ainda lhe feria o corao. Zara abraou-a.
- No fique triste por conta daquele caa-dotes. Voc ainda vai arrumar um bom moo, se casar e ser feliz.
- Ah, se isso um dia se concretizasse...
- O futuro nos promete muitas surpresas. Voc ainda vai me dar razo, um dia.
- S se eu mudar de rosto, comprar um novo - riu-se Maria Cndida.
- Pois voc precisa se dar mais valor - retrucou Zara. -  bem-nascida, rica, culta... J lhe disse que podemos consultar um mdico e providenciar uma cirurgia, 
talvez.
- Tenho medo de ficar desfigurada. Iremos aos melhores especialistas da Europa.
- No quero. Tenho medo. Quero ficar com voc e papai.
- Hoje, no. Lamento.
Maria Cndida rangeu os dentes, contrariada. A me nunca a impedira de sair com ela e o pai. Por que agora a estava privando da companhia deles?
- J sei: est com vergonha de mim.
- De onde tirou isso?
- Voc me acha feia.
- O que  isso, minha filha?
- Vou ser motivo de escrnio no jantar. Tem vergonha de mim, sim.
- Jamais pensaria uma coisa dessas, meu amor.
Maria Cndida colocou o roupo e saiu chorando, deixando a me em estado preocupante.
- Preciso ligar para meu primo Ernani em Uberaba - pensou Zara. - Ele  excelente psiquiatra e poderia ajudar muito a minha filha! Entretanto, Otto mal pode ouvir 
falar no nome dele. Acha que Ernani  um charlato, depois que se envolveu nos trabalhos do sanatrio esprita. Mas o que posso fazer? Meu corao de me no me 
engana... Eu s confio no Ernani.
No houve alternativa seno levar Maria Cndida ao jantar. Porque tinham assuntos adultos a tratar, Zara e Otto deixaram a filha, logo aps a ceia, na ante-sala, 
em companhia de um dos filhos do anfitrio. Maria Cndida pegou uma revista ele moda e sentou-se na ponta do sof. Era muito tmida e no queria conversa. Um rapaz 
veio caminhando at ela. Sentou-se bem perto. Maria Cndida sentiu as bochechas arderem. 
- Voc sempre foi assim? - perguntou ele, num sorriso irnico.
- Assim como?
- Assim, oras. Desse jeito.
- No entendi.
- Aposto como voc nunca namorou.
- Isso no  da sua conta.
- Ningum iria querer namor-la.
- Isso no  problema seu - disse ela, cabea baixa.
- Voc  muito feia.
Maria Cndida levantou-se irritada.
- Quem  voc para falar assim comigo?
- Voc  feia, muito feia.
- Pare de falar!
O rapaz deu uma gargalhada.
- Voc  horrorosa. Devia ser proibida de sair na rua.
- No fale assim comigo - disse ela, em tom choroso.
- Seus pais deveriam intern-la num sanatrio. L  lugar de gente feito voc.
- Ora, seu...
Ela levantou-se para dar-lhe uma tapa, mas o rapaz foi mais rpido e acertou-lhe um safano no rosto. 
- Voc est na minha casa, sua ordinariazinha. Alm de feia, no tem modos. Nem sei como seus pais a agentam. Voc  repulsiva!
Maria Cndida deixou-se cair na poltrona e chorou convulsivamente. Seu rosto ardia e nele, por algum tempo, ficou a marca dos dedos do rapaz. O jovem ria a valer 
e, de repente, ela levantou-se e saiu correndo, gritando pelos quatro cantos da casa, assustando seus pais e muito mais os anfitries.
- Levem-me daqui, pelo amor de Deus! Quero ir para casa.
Otto e Zara, constrangidos com o ocorrido, tiveram de sair s pressas.
- O que foi? - perguntou a me, atnita, j dentro do carro.
- Nada.
- Como, nada? Sair dessa maneira descontrolada?
- Ningum gosta de mim. Sou feia e nunca encontrarei algum que me ame - dizia entre lgrimas.
- Algum lhe falou algo?
- No!
- O filho da Elza lhe disse algo desagradvel? - perguntou a me, extremamente preocupada.
Maria Cndida cobriu o rosto e voltou a chorar. Sempre fora assim, desde sempre. Era as mesmas histrias, ela sempre sendo a vtima. Seus pais no agentavam mais 
tanta humilhao. A menina completara vinte e dois anos de idade, mas comportava-se como uma adolescente ferida em todos os sentimentos, como se seu corpo fosse 
revestido por fina camada de proteo. Tudo para Maria Cndida era triste e muito mais dolorido. Para seus pais, tratava-se de menina frgil e sensvel. Zara sempre 
tratou a filha como se fosse uma boneca de porcelana, rodeada de mimos e convenincias. Sabia que, no mundo em que vivia, a aparncia conta muito, e, por falta de 
sorte, Maria Cndida nascera sem atributos fsicos que pudessem chamar a ateno dos homens. E, quanto mais se dava conta de que no era bela, mais odiava a si mesma. 
Efetivamente, aquela seria a ltima vez que o casal levaria a filha para participar de um jantar. Desta vez Zara reconheceu que a filha necessitava de ajuda mdica. 
Estava na hora de consultar um especialista. Maria Cndida estava passando dos limites.
- Vou ligar amanh mesmo para o Ernani.
- Aquele desmiolado, no - redargiu Otto.
- E o que fazer? Ernani  de confiana - tornou Zara.
- Mas unir medicina e espiritismo? Isso no d certo.
- Sempre gostei dele. Acredito que meu primo possa ajudar a nossa filha.
- Mas o caso de Maria Cndida  mdico e no tem nada a ver com essas crendices. Eu no falo com o Ernani h anos. Afastamo-nos dele desde que ingressou naquele 
sanatrio.
- O caso de nossa filha inspira cuidados - tornou Zara, com a voz preocupante. - Esse sanatrio seria uma boa...
- Isso, no! - bramiu Maria Cndida, lembrando-se de que o garoto havia lhe dito algo sobre sanatrio.
- Est vendo? - tornou a me. - Voc se descontrola muito fcil. Qualquer hora dessas pode cometer uma besteira.
- Era prefervel. De que adianta continuar viva se ningum me ama, ningum me quer?
- No  assim - tornou Otto, entristecido.
- , sim, papai. No sei mais o que fazer. No tenho amigos.
- Precisa sair mais - tornou a me.
- Para qu? Para ser motivo de chacota? - Maria Cndida falava com voz entrecortada pelo choro - Eu no sou amada, sou um nada, isso sim. De que adianta continuar 
a viver dessa maneira?
A jovem chorava copiosamente. Seus pais estavam tambm no limite de suas foras. Sempre fora assim, desde que ela nascera. E no conseguiam vislumbrar um futuro 
tranqilo para a filha amada. Aps se amarem e se saciarem, Luis Carlos deu a devida ateno ao plano de Guadalupe, entretanto no sabia o que dizer.
- Estou meio atrapalhado.
- Entendeu ou preciso detalhar mais?
- Entendi. Mas fazer um negcio desses?
- Por ns, corazn.
- Eu sei, mas vai ser difcil de encarar. No gosto de brincar com o sentimento das pessoas. Guadalupe deu uma gargalhada.
- Agora no  momento de sentimentalismo barato. E o dinheiro, onde fica?
- Com o amor no se brinca - replicou ele, apreensivo.
- Luis Carlos, precisamos seguir com esse plano. Voc no vai enganar ningum;  s para abocanhar o dinheiro da famlia, mais nada.
O jovem coou a cabea, pensativo.
- Mas e se ela no topar?
- Ela vai aceitar. Um bonito como voc lhe dando sopa... Maria Cndida vai se apaixonar perdidamente.
- E o pai dela?
- Deixe, que de Otto eu tomo conta. Eu o conheo muito bem.
- Ele desconfia de algo?
- No. Isso  segredo de Estado. Mas no momento certo vou contar, e a voc entra na jogada.
- E se ele no der crdito para as chantagens?
- Ele vai dar bastante crdito. Pode acreditar. Disso depende a vida desse sujeito. Se ele tentar algo contra ns, estar perdido.
- Espere um pouco - tornou Luis Carlos, transtornado. - Como voc soube de tudo?
Guadalupe riu a valer.
- Tive alguns clientes que trabalhavam nas embaixadas. No foi muito difcil fazer os contatos e descobrir. Entretanto o governo no est preocupado com a farsa. 
No querem confuso, preferem ficar calados.
- Isso  grave, Guadalupe.
- No  problema nosso. O que importa no momento  que levemos adiante o que traamos. E semana que vem voc vai colocar sua parte no plano em prtica.
- J na semana que vem?
- No quer botar a mo no dinheiro? No quer ser independente?
- Quero viver bem, isso sim.
- Ento vai ter de fazer um pequeno sacrifcio.
- Acho a vida muito injusta. No fui preparado para trabalhar. Pensei que fosse morrer com mesada, passar a vida toda dependendo do meu pai.
- Seu pai se foi, a fonte secou. Vamos procurar outra fonte.
- Bom, se for para ficar de braos cruzados, sem fazer nada e levando vida de rei, eu fao o sacrifcio.
Guadalupe sabia poder contar com Luis Carlos. Era um bom moo, mas, quando se tratava de dinheiro, ele topava qualquer parada. E, de agora em diante, precisava manter 
a mente do rapaz tranqila e serena, pronta para ser manipulada e atender ao desejo de cumprir com o plano que ela mesma havia traado. Albertina, esprito lcido, 
procurava inspirar a neta a fim de que a moa pudesse manter uma conduta elevada. Por isso, tentava estimular Ana Paula a no continuar vivendo sob o mesmo teto 
que Guilhermina, cuja presena por si s perturbava a garota sobremodo. Albertina sussurrava-lhe nos ouvidos palavras de conforto e estmulo, incentivando a garota 
a vender boa parte do seu luxuoso guarda-roupas. Ana Paula, pela afinidade com a falecida av e tambm por manter valores ntegros, embora emocionalmente fragilizada 
pela perda do pai, acatou os conselhos e, para fria da me, organizou o ch na casa de Lurdinha e ps  venda todas as suas peas. 
- No imaginava que voc tivesse tanta coisa boa, vestidos to lindos - disse Lurdinha, olhos brilhantes ele cobia diante daquelas peas de corte impecvel, nunca 
antes usadas.
- Mame sempre foi muito exagerada, sabe? Eu no podia em hiptese alguma repetir um vestido nas poucas reunies, eventos ou festas a que fui convidada a participar. 
Para Dona Guilhermina, repetir roupa sempre foi sinal de vulgaridade, falta de classe.
- Sua me tem razo. Uma mulher chique deve estar sempre muito bem arrumada.
- Mas, se o vestido  lindo e pouco usado, por que no repeti-lo? Acho tudo um gasto desnecessrio. 
- Concordo com sua me. Por que repetir roupa, Ana Paula? Precisamos estar sempre impecveis.
- Acho desnecessrio. Eu, por exemplo, onde iria usar essas roupas hoje? A minha vida mudou muito, Lurdinha. Voc  rica; eu  que no sou mais.
Lurdinha baixou o tom de voz:
- Meu pai est perdendo muito dinheiro. Os negcios no vo nada bem. E, ademais, eu tenho meus irmos para dividir herana. Eu quero muito mais, oras.
- No quero saber de ficar  cata de homem rico.
- Sempre h chance de arrumar um partido. O Beto est disponvel.
- Nunca gostei dele. Jamais me uniria a um homem sem um amor.
- Nem eu. Quero me apaixonar por um homem rico - sentenciou Lurdinha.
- H vrios ao seu redor.
Lurdinha fez ar de mofa.
- Muitos so infantis, comportam-se feito animais. Eu quero um homem refinado, de verdade, de preferncia mais maduro.
- Cuidado com tanta exigncia!
Lurdinha mudou o tom da conversa. Ana Paula nunca entenderia o que tinha em mente.
- A propsito, no vai se arrepender de ter vendido essas peas?
- De maneira alguma!
- Sua me no vai ficar brava? - inquiriu Lurdinha, um tanto desconfiada, afinal de contas, rarssima vez Ana Paula desprezou os conselhos da me e fez o que realmente 
queria.
- Mame no se importa com nada que no seja seu prprio umbigo e Luis Carlos.
- No vi mais o seu irmo.
- Luis Carlos est perdido, pobre coitado. Sempre foi muito dependente de papai. Agora que no tem mais mesada, est sem saber o que fazer. Ele precisa mudar seu 
jeito de encarar a vida. Infelizmente, no tenho como ajud-lo no momento. Ele se recusa a mudar e eu tenho de tomar conta de mim, mudar de vida. Os olhos de Lurdinha 
ficaram estticos por instantes. Ela imediatamente perguntou:
- Como assim? O que quer dizer com "mudar de vida"?
Ana Paula fitou um ponto indefinido da sala. Sem olhar para a amiga, tornou:
- Ultimamente tenho sonhado com minha av Albertina. So sonhos to reais! Parece que eu realmente a encontro.
- Voc sempre foi muito ligada  sua av.
- Sim. Sempre a amei.
- E o que vocs conversam no sonho?
- Difcil dizer. S sei que tenho acordado
mais serena, mais tranqila. Tenho sentido muita paz e confiana. s vezes me lembro de um ou outro dilogo, mas  difcil concatenar meus pensamentos. Na verdade, 
s consigo mesmo e registrar as boas sensaes no momento em que desperto. Lurdinha baixou a voz:
- Sabia que voc pode mesmo estar se encontrando com a sua av?
- Imagine! Ela morreu. 
- Pode, sim.
- Isso  sandice.
- No! - Lurdinha baixou novamente o tom de voz. Olhou para os lados para se certificar de que no havia empregados por perto. Por fim, disse: - Tenho freqentado 
um lugar onde as pessoas se comunicam com os espritos.
- Verdade?! - assustou-se Ana Paula.
- Sim. Mas bico calado.
-  um centro esprita?
- Um terreiro.
- Fala srio?
- Hum, hum.
- Lurdinha! - falou Ana Paula em tom preocupante. Sempre metida com essas bobagens...
Lurdinha riu.
- Vou te contar um segredo.
- Pois conte.
- Lembra que fiquei para recuperao porque a madre no me suportava?
- Lembro.
- Fui nesse lugar e pedi para que fizessem um trabalho. A madre caiu doente, quase morreu. As provas foram suspensas e eu passei de ano - riu satisfeita.
- E voc acredita que a doena da madre tem a ver com o trabalho que voc pediu?
- Acredito.
- No  fantasioso demais?
- De maneira alguma. J fiz outras coisinhas, pedidos os mais diversos, e sempre d certo.
- Tenho medo dessas coisas.
- Pois eu no - disse Lurdinha toda sorridente. - E, se me apaixonar por um homem, tenha certeza de que vou pedir reforo para os espritos.
- Cruz credo!
- Voc tem de ir comigo l dia desses.
- No gosto desses assuntos.
- Bom voc  quem sabe. Se precisar, pode falar comigo. Eu tenho acesso direto ao pai-de-santo.
-  mesmo?
- Ele me adora. Faz trabalhos para mim, atende meus pedidos, e o melhor de tudo  que ele faz amarrao de homem como ningum. Vem gente do Brasil e do exterior 
atrs dele.
Ana Paula bateu na mesinha trs vezes.
- Que horror! Voc acredita nessas coisas?
- Acredito, sim. No nas balelas de espiritismo, mas em resultados concretos, palpveis. Pai Thomas disse que, o dia em que eu encontrar meu prncipe encantado, 
 s ir at l que ele faz o servio de amarrao. Isso me deixa to segura!
Ana Paula riu a valer.
- Pai Thomas? Isso l  nome de pai-de-santo?
Lurdinha fechou o cenho.
- Isso mesmo: Pai Thomas. Ele  ingls, cansou da vida aristocrtica e resolveu dedicar-se aos trabalhos com os espritos aqui no Brasil.
- Isso me parece charlatanismo.
- Ele tem poder. Se um dia voc precisar, eu a levo l. Conte comigo.
Ana Paula sentiu sensao desagradvel. Aquele assunto a estava deixando tonta. Levantou-se e despediu-se rapidamente de Lurdinha. Apanhou a bolsa, algumas peas 
de roupa que no vendera e tomou um txi. Chegou a casa, deixou os vestidos sob a cama. A conversa com Lurdinha a deixara irrequieta. Desde que o pai morreu ela 
intimamente questionava se a vida no continuaria aps a morte. Passou a ler um ou outro livro sobre o assunto, mas superficialmente. O que Lurdinha dizia era diferente, 
assustador at. Desde adolescente ia a tudo quanto era cartomante, centro esprita, terreiro, etc. Convidava Ana Paula com insistncia, mas esta sempre arrumava 
uma desculpa e no ia. Ana Paula no se sentia bem e por isso evitava jogos de carta, leituras em borra de caf e coisas do gnero. Ela passou a mo pela testa como 
a afastar os pensamentos. Procurou tomar uma ducha reconfortante e pensar no que fazer de sua vida dali em diante. Aps o banho, ela deitou-se na cama para descansar, 
e logo o telefone tocou.
- Al, Tnia? Quanto tempo! Como vai?
- Bem. Mas que surpresa agradvel! Voc sumiu. Seus pais disseram que voc havia regressado para a Bahia.
- Mentira, Ana Paula. Estou bem e em So Paulo mesmo. Tive discusses com meus pais, algumas divergncias, e sai de casa.
- Srio? O que aconteceu?
- Mame quer que eu entre para um convento. Logo eu! Ambas riram. Tnia prosseguiu:
- Acabei de concluir meu curso de enfermagem. Trabalho no Hospital das Clnicas. Estou to feliz!
- Que bom! Fico contente.
Conversaram amenidades, mataram a saudade do tempo de escola. At que Tnia mudou o tom de voz. Disse sria:
- Liguei porque estou pensando em voc h algum tempo, desde que seu pai morreu.
Ana Paula entristeceu-se.
- Foi muito duro, mas estou me recuperando aos poucos.
- Ns nos dvamos bem no ginsio e por uma srie de fatores nos separamos. Agora que somos adultas e donas do prprio nariz, poderamos nos encontrar e, quem sabe, 
retomar nossa amizade. 
- Estou precisando mesmo de novas amizades.
- Sonhei com voc e sua av algum tempo atrs. Desde esse dia tenho muita vontade de falar com voc.
Ana Paula estremeceu levemente.
- Sonhou comigo e minha av?
- Sim, Dona Albertina era o nome dela, no?
- Isso mesmo. Entretanto voc h conheceu muito pouco.
- O suficiente para me lembrar dela no sonho - declarou Tnia.
- E de que se tratava o sonho? - indagou Ana Paula, curiosa.
- No me recordo ao certo. Lembro-me dela muito bonita, uma luz bem clara ao seu redor. Ela me falava algumas coisas e pedia para que lhe transmitisse o recado. 
Voc estava ao meu lado, sria, um tanto alheia a tudo.
- Foi s um sonho, Tnia, nada mais.
- Para mim foi mais que isso.
- Acha mesmo?
- Voc acredita em vida aps a morte? - perguntou Tnia, de supeto.
Ana Paula remexeu-se na cama. Pensou um pouco e respondeu:
- Desde que meu pai morreu, tenho pensado vagamente. Mas tenho medo.
- Por que motivo?
- Fico confusa com o assunto.
- Gostaria de conversar melhor a respeito?
- Voc conhece bem isso?
- O qu?
Ana Paula estava um tanto tensa.
- Ah, no sei, Tnia. E que, como voc conhece bem o espiritismo, poderia me explicar melhor o mundo espiritual, se  que ele existe.
- Claro que existe - sentenciou  amiga.
- Voc fala com tanta convico!
- Porque  a verdade, oras.
-  tudo meio fantasioso. Tnia mudou o tom de voz:
- A propsito, voc acha que Dona Albertina, mulher to fina e lcida, de repente morreu, apagou e virou p? De que a adiantou ter vivido, experienciado uma srie 
de situaes, passado provaes, e depois acabar tudo assim, num estalar de dedos?
- Nunca imaginei as coisas por esse ngulo. Se fosse mesmo assim, a vida seria muito injusta.
- Por certo. Se ao morrer nada mais existisse, ento Deus nos faria nascerem todos ricos, belos e perfeitos. Mas diante de tantas desigualdades, de tantas diferenas, 
parece-me que a vida deva ser muito maior do que imaginamos.
Ana Paula suspirou. Lembrou-se da av, e seus olhos marejaram. Se isso fosse verdade, ento ela no estava sonhando, mas estava mesmo se encontrando com a av querida.
- No sei se  verdade tudo isso, mas sabe que sinto conforto em saber da possibilidade de vida aps a morte?
Tnia deu uma risadinha.
- Eu tenho me interessado muito pelos assuntos espirituais. Minha vida mudou bastante desde que comecei a estud-los.
- Acha que poderamos nos encontrar e voc me tirar algumas dvidas?
- Iria adorar. Mudei recentemente e, assim que estiver bem instalada, eu ligo novamente. Por enquanto estou na casa de uma amiga de minha tia.
A conversa deixou as duas mais animadas. Ana Paula retrucou:
- Penso em ganhar meu prprio dinheiro, ser independente. Eu tenho vinte e trs anos de idade, sou recm-formada. Est na hora de sair de baixo das asas da me, 
concorda comigo?
- Eu sempre quis ser independente, ter meu prprio dinheiro tambm. Esse foi um dos motivos que me fizeram sair de casa. E mame queria que eu me tornasse freira...
Ana Paula esforou-se para sorrir. As vezes tinha vontade de jogar tudo para o alto, arrumar um pretendente e ficar quieta cuidando de casa e filhos. Entretanto 
sua me a deixara bastante insegura, afirmando que ela no tinha beleza suficiente para prender homem que fosse. Nesse instante Tnia retrucou do outro lado da linha:
- Voc fica muito  merc do que sua me quer.
- Como assim?
- Sua me  mulher de excelente gosto, finssima. Minha me procura imit-la em tudo, guarda recortes de revistas e jornais que falam de Dona Guilhermina. Faz tempo 
que no a vejo nos jornais. 
- Minha me arrumou encrenca com o pessoal da classe A. Fez fofoca, revelou segredos, criou animosidade entre as pessoas. E por conta disso desconta tudo em cima 
de mim - tornou Ana Paula, sentida.
- Vocs duas tem srios problemas de relacionamento.
- Isso sempre foi assim, desde que nasci.
- Voc sempre se deixou dominar por sua me.
- Ela  mulher forte.
- Nasceu filha dela justamente para deixar de ser fraca e assumir sua fora.
- No entendi.
- Quando nascemos, atramos um lar que seja compatvel com nossas crenas, nossa maneira de enxergar a vida. Se voc, em vidas passadas, foi muito negligente com 
sua vontade, no se imps, no usou de sua firmeza, a vida ento a coloca num lar em que vai haver uma me ou um pai bem autoritrio, estilo mando, a fim de que 
voc assuma seus valores, tome posse de si e mude suas crenas, tornando-se uma pessoa mais segura de si.
Ana Paula no sabia o que dizer. Ela se sentia exatamente assim, sem firmeza suficiente para encarar a me. Tinha medo de enfrentar a ira de Guilhermina. Tnia continuou:
- E onde fica a sua vontade?
- No entendi - respondeu Ana Paula, surpresa com a conversa, porquanto fazia anos que Tnia no a via.
Como a amiga lhe falava assim to abertamente e sem rodeios algo que ela mesma temia em confrontar? Albertina estava prxima a Tnia, sugerindo-lhe que dirigisse 
palavras de fora e estmulo  neta querida.
- Voc sempre se comparou  sua me, e isso  muito duro, porque  difcil competir com nossa me, ainda mais quando ela brilha demais.
- Tenho que admitir que ela seja muito bonita.
- Entretanto voc tem l seu charme - replicou a amiga  queima-roupa. - Voc  inteligente, bonita a seu modo. Nunca parou para perceber que atitude e postura esto 
ligadas a beleza? 
- No.
- Voc precisa manter uma postura mais feminina, andar com mais graa e, se arrumar esse cabelo, acho que vai se tornar uma mulher bem interessante.
- Voc acha?
- Quer tentar?
- Mas...
- Ana Paula, voc ganhou um bom dinheiro hoje. Que tal usar parte dele e investir em si mesma? V imediatamente para o salo de beleza.
-  tarde. Nem marquei hora.
- Ligue para o salo de Valderez. Quando ela souber que voc  filha de Dona Guilhermina, larga todos os clientes para cuidar de suas madeixas. 
Ana Paula riu.
- Est bem, irei. Voc me convenceu...
Ambas riram. Conversaram um pouco mais e desligaram o fone. Ana Paula estava estupefata. Embora animada, perguntava-se como Tnia sabia tantas coisas a seu respeito 
sem terem contato por tantos anos. Como sabia que ela tinha ganhado dinheiro horas antes com a venda dos vestidos? E como sabia que seu cabelo implorava por um corte 
e uma hidratao? Assim que tivesse oportunidade de v-la, Ana Paula iria lhe perguntar tintim por tintim. Entretanto, naquele momento estava feliz e animada a mudar, 
pelo menos a aparncia. Ligou e marcou hora com Valderez. Apanhou a bolsa, pegou um txi e partiu animada para o salo. Albertina sorriu feliz e sua imagem aos poucos 
se desfez no ambiente, sem antes emanar vibraes de apoio e firmeza  neta querida. Os prostbulos davam a Ramrez cada vez menos prestgio e dinheiro, embora, 
neste mundo de contravenes, no houvesse sujeito com maior gabarito que ele. A fama de Ramrez cresceu e ele se transformou em homem de grande poder. Esperto como 
ele s, tinha em suas mos a vida de polticos famosos, artistas, figures da alta sociedade. Naquele tempo, alguns jornalistas de renome tambm eram freqentadores 
de seus estabelecimentos, o que os comprometia a assegurar uma espcie de imunidade ao figuro, no publicando, em hiptese alguma, matria que pudesse arranhar 
a imagem de empresrio de sucesso que lhe era apregoada em todos os cantos. O dinheiro da prostituio j no dava tanto prestgio. Estava na hora de comear a botar 
mais um plano em ao: tornar-se um poderoso traficante. Esse era seu passo seguinte. Guilhermina nem imaginava o que se passava pela cabea do amante. No se importava 
que o dinheiro que pagava seus luxos viesse das casas de prostituio. Ela continuava com seu alto e luxuoso padro de vida e estava feliz. Confiava sobremaneira 
em Ramrez. Casar-se-ia com o espanhol, e seu futuro seria de muito amor e muito dinheiro. Embora fosse muito esperta, Guilhermina estava cega de paixo. E, em sua 
mente, jamais imaginaria que Ramrez pudesse um dia cansar-se dela. Estava Guilhermina sentada na banqueta em frente ao toucador, ajeitando lindo colar de diamantes, 
quando ouviu a voz de Ramrez. Sem desviar os olhos do espelho, tornou, numa voz com que procurou ocultar a raiva:
- Est atrasado de novo, meu amor.
- Estava tratando de negcios.
- Estamos atrasadssimos para a apresentao no Teatro Municipal.
- Estou sem vontade alguma - tornou ele, cansado, de fato.
Antes de ela lhe fazer nova pergunta, Ramrez tirou o palet, desfez o n da gravata e jogou-se pesadamente na cama.
- Eu o conheo bem. O que o est contrariando?
- Estou tendo problemas com os cassinos. O governo est pegando pesado na jogatina clandestina. At mesmo o pobre jogo-do-bicho est na mira da polcia. Por que 
no nos deixam em paz? Estamos atrapalhando a vida de algum? Estou pensando em largar os cassinos clandestinos e tambm as casas de prostituio.
- E o que tenciona fazer?
- No sei ao certo. Quero ganhar mais dinheiro.
- Mais dinheiro? Isso  timo!
Guilhermina levantou-se e foi at a beirada da cama. Pousou delicadamente as mos nos ps do amado. Tirou-lhe as meias e comeou a massagear-lhe os dedos dos ps. 
Ramrez fingiu estar gostando. Na verdade, havia tempos procurava chegar sempre mais tarde, torcendo para que Guilhermina estivesse dormindo. Estava ficando cada 
vez mais difcil atur-la, ainda mais agora, que ele havia travado amizade com figures da sociedade. Guilhermina comeava a se tornar um estorvo em sua vida. Torcia 
intimamente para muito em breve livrar-se da jararaca. Continuou dissimulando, num tom com que procurou ocultar a raiva:
- Eu poderia ter qualquer mulher no mundo, mas voc  nica, Guilhermina.  o amor de minha vida.
Ela sorriu e sentiu leve friozinho no estmago. Ramrez a deixava transtornada. Ele era a nica pessoa no mundo capaz de tir-la dos eixos, e conseguia isso com 
nada mais que uma palavra ou um gesto. Finalmente a vida havia lhe sido grata e lhe colocado um homem de verdade em seu caminho. Ela replicou feliz:
- Sou louca por voc. Voc tambm  o homem da minha vida. No saberia viver mais sem t-lo ao meu lado.
- Mas temo que nosso amor possa ser abalado por forte crise, caso o governo aperte o cerco.
- No haver crise que poder nos derrubar ou afastar. Temos muito dinheiro, meu amor.
- Mas dinheiro uma hora acaba. Se ao menos no tivssemos gastos excessivos com seu filho...
Guilhermina contrariou-se. Ramrez tornou, ponderado:
- Veja... Sei que Luis Carlos  seu filho amado, e jamais eu o deixaria  mngua. Todavia, ele  homem feito e, alm de tudo, muito bonito. No poderia arrumar-lhe 
um bom partido?
Guilhermina suspirou resignada.
- Voc tem razo. O valor da mesada  bem salgado, e ultimamente Luis Carlos tem gastado alm da conta.
- Isso sem considerar que nas casas de tolerncia ele no gasta nada. Fica tudo por minha conta.
- Ele tem ido muito a esses lugares?
- Tem. Quer dizer, na verdade, ele vai a uma s casa...
- No me diga que ele se envolveu com alguma rapariga! 
Ramrez no respondeu. A sorte estava lanada. Fazia parte do plano. Procurou manter o comportamento usual, torcendo intimamente para a mulher morder a isca. E, 
quando ele no respondia de pronto, Guilhermina sabia que a resposta sempre lhe traria dissabores.
- Vamos, Ramrez, me diga de uma vez por todas: meu filho est enrabichado com alguma das meninas da casa?
- Lamento inform-la que sim.
Guilhermina levantou-se de um salto. Irritou-se a valer:
- Isso  um absurdo! No pode acontecer de maneira alguma. Luis Carlos precisa se casar com moa de famlia, de dinheiro, de posses.
- Voc no  mais querida na sociedade. Como arrumar um bom partido para o seu filho?
- Dou um jeito.
- Como? Voc, com sua lngua ferina, quase botou os meus negcios na berlinda.
Ela o abraou pelas costas.
- Isso passa. Devemos nos concentrar em arrumar uma garota rica para Luis Carlos, e assim teremos dinheiro para sustentar a ns dois.
- Ns e sua filha querida.
Guilhermina torceu o nariz.
- Ana Paula no me d gastos, s aborrecimento. Se ao menos tivesse a capacidade de atrair um bom partido... Todavia, ela no nasceu linda como o irmo. Nem parece 
minha filha.
- Eu gosto dela.
- Diz isso para me irritar.
- No. De maneira alguma. Ela  a pessoa mais sensata nesta casa.
- Sensata? - Guilhermina estava assombrada. - Aquela ingrata vendeu todos os meus vestidos!
- Seus no! Dela. Os vestidos so dela e Ana Paula faz o que quiser.
- No posso acreditar que a est defendendo. No sabe a vergonha que passei no clube hoje cedo. Todo mundo est sabendo que Ana Paula fez um bazar e vendeu aqueles 
vestidos maravilhosos. Minha reputao est em jogo. 
- Ora, Guilhermina, muitas amigas se afastaram desde que voc causou aquela celeuma na alta sociedade, contando todos os podres aos jornalistas.
- J disse que tudo passa. Voc est fugindo do assunto. Estamos falando daquela doidivanas da minha filha.
- Ela no nos d trabalho. No aceita meu dinheiro. Est procurando emprego, mostra-se independente. J seu filho...
Guilhermina andava de um lado para o outro do quarto. No queria dar o brao a torcer. Ramrez estava certo: Luis Carlos estava pondo em risco a unio da me. Ana 
Paula no era o problema. Mas ser que no?  Ser que esse comportamento dela no era dissimulado? Ser que Ana Paula no estava querendo jogar Ramrez contra ela, 
fazendo-se de boa moa? A esse pensamento, Guilhermina tomou uma atitude:
- Hoje teremos uma conversa definitiva.
- Como assim? - perguntou ele, atnito.
- Ana Paula sempre procurou uma maneira de me contrariar, de me irritar. E dessa vez conseguiu.
Guilhermina falava e rangia os dentes de raiva. Ramrez conhecia a postura da amada.
- Sei que no se d bem com Ana Paula. Mas de que adianta brigar com ela?
- Ela quer nos separar. Ela o odeia.
- Ela tem o direito de no gostar de mim.  natural.
- Natural?
- Sim, era muito apegada ao pai.
- No. No  nada disso. Ela  dissimulada. Est tentando nos afastar. Aquela desmiolada no perde por esperar.
- Olhe l o que vai fazer!
- Confie em mim, querido. Ana Paula no nos trar mais problemas. O que me importa no momento  esse envolvimento de Luis Carlos. Diga-me: h quanto tempo ele est 
com essa menina?  sua funcionria h quanto tempo?
- Trabalha comigo h alguns anos.  uma espanhola bonita. Se voc cuidasse dela, Guadalupe se tornaria uma mulher muito mais deslumbrante do que j . Tornar-se-ia 
uma dama da alta sociedade sem pestanejar.
- Isso no posso admitir.
Ramrez deu uma gargalhada.
- Voc nunca foi preconceituosa, querida. Por que implicaria com a moa? E se Luis Carlos gostar dela de verdade? No  a favor da felicidade de seu filho?
- Claro que sou. A felicidade de Luis Carlos est acima de tudo. No me importo com que tipo de mulher ele queira se envolver. Mas meu filho  burro e, se envolver 
com umazinha sem eira nem beira, vai viver s nossas custas o resto da vida. Por mais que ame meu filho, no quero mais sustent-lo. Quero usufruir deste dinheiro 
vivendo momentos de prazer ao seu lado.
Ramrez coou a cabea pensativo. Guilhermina concordava com tudo. Logo, ele teria condies de botar Guadalupe dentro de casa e tudo ficaria mais fcil. Ele tornou:
- Pensei em deixar o prostbulo da Alameda Glete para Luis Carlos administrar. Sabe que aquele  um dos meus pontos mais lucrativos.
- Luis Carlos no sabe administrar nem a prpria sombra. Em pouco tempo levaria aquilo  falncia. No tem competncia para gerir negcios. Meu filho nasceu para 
ser bon vivant, mais nada.
- Ento no sei o que fazer.
- Hoje ser noite de conversas decisivas e definitivas. Assim que voltarmos do Municipal, terei de falar com Ana Paula. Amanh pego Luis Carlos na hora do caf. 
Temos de garantir nosso futuro, meu amor. Dinheiro nunca ser problema para ns. Voc  muito inteligente e est ficando cada vez mais poderoso. Daqui para frente 
teremos muito mais. 
- Assim espero. Voc  o estmulo de que eu precisava para crescer cada vez mais. Sempre quis acesso ao mundo da classe A, e voc me abriu o caminho.
Ramrez inclinou o corpo e abraou-se  companheira. Beijou-a longamente nos lbios e, antes que se entregassem s estripulias amorosas, ele levantou-se de pronto. 
Guilhermina empalideceu.
- O que foi?
- Nada.  que estamos atrasados para o concerto. Preciso tomar um banho rpido. Volto logo.
Guilhermina ficou desolada. Em outros tempos, teriam se amado e at deixariam o concerto de lado. Mas a devia haver o dedo de Ana Paula. Ela precisava ter uma conversa 
com a filha e no permitir que nada pudesse interferir nessa sua paixo doentia por Ramrez. Nem que tivesse de botar Ana Paula no olho da rua. Guilhermina voltou 
a sentar-se na banqueta do toucador e terminou de se maquiar, enquanto, no banheiro, Ramrez cantarolava embaixo da ducha, aliviado e feliz. Mais uma noite que no 
precisava deitar-se com ela. E, logo, logo, no precisaria mais cumprir com nenhum papel, nenhuma obrigao. Guilhermina estava virando carta para ser jogada fora 
do baralho. Passava da uma ela manh, e Ana Paula no conseguia conciliar o sono. Estava por demais feliz. No parava de se olhar no espelho. A conversa com Tnia 
rendera-lhe bons frutos. O novo corte de cabelo deixara-a mais atraente. Olhando-se longamente no espelho, ela notava os sinais que a tornavam bonita: as bochechas 
salientes, os olhos expressivos e vibrantes. At o queixo ficara mais bonito com o corte estilo Chanel. Ficou assim admirando sua figura refletida no espelho por 
longo tempo. Guilhermina entrou sem bater.
- Ainda acordada?
Ana Paula respirou fundo. Precisava se controlar.
- O que fez com seu cabelo? - perguntou a me, em tom perplexo.
- Co... co... Cortei.
Guilhermina fechou os olhos, respirou fundo, contou at trs. Aquela gagueira a irritava demasiadamente.
- Se for para ficar desse jeito, no abra a boca.
- Mas... Mas...
- Na verdade, eu quero lhe dizer algumas coisas.
- Sim.
- Quem lhe deu o direito de vender todo o guarda-roupa?
- Bem...
- Por que no fui consultada?
Ana Paula fez tremendo esforo. Estava cansada de se sentir inferior. Algo dentro dela clamava por libertao. Estava cansada de fraquejar na frente da me. A presena 
do esprito de Albertina no ambiente deu-lhe a ajuda de que precisava.
- Be... be... Bem, eu - ela respirou, fechou os olhos e imediatamente a imagem da av veio-lhe  mente.
Ana Paula levantou-se da banqueta, como se tomada por uma fora estranha, e encarou a me. Sem desviar os olhos, disse, numa voz carregada de firmeza:
- Voc me deu as roupas, portanto fao delas o que quiser.
Guilhermina abriu e fechou a boca, estupefata. A filha jamais conseguira lhe dizer uma frase que fosse sem dar ao menos uma derrapada. Ana Paula continuou:
- Devo admitir que nunca nos demos bem.
- Por certo. Continue.
- A nica coisa que sempre me prendeu a casa foi papai. Depois que ele se foi, percebi que aqui no  mais meu lugar.
Guilhermina deu uma gargalhada para controlar o nervosismo. No podia acreditar. Sua filha estava diferente. Retrucou:
- Voc no tem onde cair morta. Falamos outro dia sobre sair de casa, e voc no tomou atitude que fosse.
- Isso no  problema seu.
Guilhermina susteve a respirao. Ela sentiu medo. Aquela  sua frente no era sua filha. Ana Paula deu seguimento:
- As roupas eram minhas, eu as vendi. Consegui um bom dinheiro.
- E o que vai fazer com tanto dinheiro?
- Vou sair de casa.
- Duvido.
- Pode apostar Dona Guilhermina.
- Vai morar onde?
- Vou para a penso da Dona Guiomar.
Guilhermina balanou a cabea para os lados.
- Nem Dona Guiomar ir lhe querer. Ela aceita somente moas finas e bonitas.
- Isso  mentira. Conversa fiada.
- Aposto que est fazendo tudo isso s para me agredir, para manchar a minha reputao de boa me.
- Pare de se preocupar com sua imagem. As pessoas s esto interessadas em saber se vai casar com aquele cafeto de araque. Ningum quer saber de outra coisa.
- No admito que fale assim de Ramrez! - Guilhermina encostou o dedo no nariz da filha. - J sei. Voc quer acabar com meu relacionamento, no ? Tem inveja de 
minha felicidade. 
Ana Paula riu-se.
- Felicidade? Chama o que tem com Ramrez de felicidade?
- Sim.
- Ora, me, no seja pattica.
- Ele ser seu padrasto! - gritou Guilhermina.
- Nunca!
- Pois trate de se acostumar.
- Jamais! Ele pode ser seu marido, companheiro, o que quiser. Mas nunca ser nada meu. No temos laos sanguneos ou afetivos. Ele para mim no significa nada. Alis, 
saio de casa e no pretendo mais voltar.
- Voc  uma filha ingrata.
Ana Paula esboou novo sorriso.
- Eu sou ingrata? Voc sempre me renegou, a vida toda me ps de lado. Sempre teve olhos somente para Luis Carlos, o filho amado. No se faa de pobre coitada. Isso 
no combina nem um pouco com sua arrogncia.
Guilhermina no tinha foras para combat-la. Parecia que alguma fora naquele quarto a impedia de agir.
- Bom, se voc pensa assim, o melhor mesmo  sair. Quero construir um novo lar ao lado de Ramrez. Seremos muito felizes.
- Isso no  problema meu. Cada um que arque com as escolhas que faz. No se esquea me, de que voc est tomando decises, fazendo escolhas conscientes, escrevendo 
o livro de seu destino.
- O que quer dizer com isso?
- Voc  responsvel pela sua vida, pela conseqncia de seus atos. Ainda a tempo de mudar. No se perca por conta de um punhado de dinheiro. Isso nada vale. Afinal, 
quando morremos, s ficaremos com nossa conscincia, mais nada.
Guilhermina sentiu leve pontada no peito. Incomodou-se com a conversa, mas jamais poderia dar o brao a torcer. E, alm do mais, estava estupefata com o comportamento 
da filha. Ana Paula se expressava sem gaguejar, sem uma derrapada nas frases. Tudo muito estranho. Assumindo uma postura arrogante, a fim de evitar seu torpor, Guilhermina 
disparou, enquanto se virava e ia saindo do quarto:
- No quero mais conversar. Voc me cansa a beleza. Quando acordar amanh, espero no v-la mais aqui. Sua presena me irrita e me deprime.
Guilhermina falou, bateu a porta com fora. Ana Paula caiu pesadamente na cama, as lgrimas escorrendo pela face.
- Ela me odeia me despreza. Minha prpria me...
Ana Paula deitou-se na cama, agarrou-se ao travesseiro e lembrou-se do pai. 
- Quanta falta voc me faz papai. Onde est? Se tudo o que Lurdinha disse for verdade, ser que est vivo em algum lugar? Ser que est bem? Como sinto a sua falta... 
Albertina ministrou algumas energias revigorantes sobre o corpo da neta. No momento apropriado, quando Ana Paula estivesse melhor e longe daquela casa, poderiam 
juntas ajudar Miguel, muito perturbado em outra dimenso. Agora Albertina precisava encorajar a neta a sair o mais rpido possvel daquela casa e dirigir-se  penso 
de Dona Guiomar. Dali para frente, uma nova etapa comearia na vida de Ana Paula. Uma etapa em que o futuro lhe prometia surpresas agradveis. Na manh seguinte, 
ao despertar, Guilhermina imediatamente lembrou-se da conversa com a filha.
- Ana Paula me surpreendeu - disse entre risos.
Ela se levantou, vestiu o penhoar e foi at o quarto de Ana Paula. Abriu a porta, olhou ao redor e ela no estava  cama arrumada, inclusive. Guilhermina desceu 
e foi at a copa. A criada estava a postos.
- Bom dia, senhora.
Guilhermina cumprimentou Maria e foi logo perguntando:
- E Ana Paula, acordou cedo?
A criada estava entristecida. Maria trabalhava havia anos na casa e tinha muita afeio por Ana Paula e Luis Carlos.
- Sua filha saiu de casa hoje cedo, sobraando uma pequena mala. Despediu-se e deixou este bilhete para a senhora.
Maria botou a mo no avental e tirou o papel, entregando-o a Guilhermina. Em seguida retirou-se para a cozinha, deixando a patroa  vontade. Guilhermina pegou o 
bilhete e leu:

Mame,

Faz um bom tempo que tenho pensado em tomar esta deciso. Na verdade, desde que papai morreu tenho vontade de sair de casa, mudar de vida, seguir meu prprio caminho. 
Embora tenhamos tido muitas diferenas desde sempre, eu a agradeo por ler me criado e me sustentado at agora. Sinto-me na responsabilidade de andar com as prprias 
pernas, ganhar meu prprio dinheiro, viver a vida a meu modo e, quem sabe, tambm encontrar um companheiro e ser feliz como voc. Que Deus a ilumine e proteja seu 
caminho. No encontrei e no pude me despedir do Lus Carlos, e pediria que lhe mandasse um beijo. Se precisarem de alguma coisa, sabem onde me encontrar. Vou para 
a penso da Dona Guiomar.

Com carinho, Ana Paula.

Guilhermina meneou a cabea para os lados. Embora a filha fosse adulta, sentia-se responsvel por ela. Entretanto, estava apaixonada por Ramrez e no podia permitir 
que nada atrapalhasse seu sonho de casar-se com ele. Ana Paula um dia iria mudar. Talvez, at, essa mudana fosse benfica para a menina.
- Quem sabe, l fora Ana Paula no reconhea que o melhor  voltar para casa? De que adianta eu pedir para que volte? Est na hora de ela cuidar de sua vida, como 
eu vou cuidar da minha.
- Falando sozinha?
Guilhermina voltou s costas:
- Filho, que bom encontr-lo aqui esta hora.
- Falava o qu?
- Sua irm foi embora de casa.
- Assim, sem mais nem menos? No posso crer.
- Verdade. Nem sei o que aconteceu. Ontem  noite, ao chegar do Municipal, fui ter com ela. Sabe que Ana Paula falou comigo sem gaguejar, boa parte da conversa?
- Mentira!
- No, filho,  a mais pura verdade. Ana Paula me desafiou, parecia at - ela fez o sinal da cruz - que estava possuda por alguma fora. Seus olhos estavam diferentes, 
possuam brilho estranho. No parecia sua irm.
- Gosto muito de Ana Paula.
Guilhermina franziu o cenho.
- Se ela gostasse de ns, ficaria aqui. Mas ela  voluntariosa; agora deu para ser independente.
-  o jeito dela, me. Para onde ela foi?
- Para a penso da Dona Guiomar.
- Mais tarde passo l para procur-la.
Guilhermina sentiu cimes. Queria distncia da filha ingrata. Suplicou:
- Por favor, Luis Carlos, no faa isso. No d esse desgosto para a mame.
- Eu s quero v-la, dar-lhe um beijo, desejar-lhe boa sorte ou at mesmo convenc-la a voltar para casa.
- Se fizer isso, corto sua mesada.
- Me!
- Isso mesmo: corto sua mesada, seu dinheiro. Quero ver como vai fazer para bancar seus gastos.
- Isso  injusto - tornou ele, contrariado.
Guilhermina deu de ombros. Fez sinal com as mos, como a afastar os pensamentos. Amassou o bilhete e o jogou sobre a mesa. O afastamento da filha provocara nela 
certo alvio. Seria normal? Como uma me poderia sentir alvio ao ver um filho longe de suas asas? Mas o que fazer? Esse sentimento era muito forte, no dava para 
ocult-lo. Guilhermina sentiu medo do que se passava em seu corao. Levantou-se e procurou mudar o fluxo de pensamentos. Pousou sua mo no brao do filho.
- Luis Carlos, precisamos ter uma conversa.
- O que foi?
- Estou sabendo que anda de amores com uma rapariga.
- Quem lhe contou? 
- No importa. Voc nunca foi de segredos com sua me. Luis Carlos suspirou alegre.
Guadalupe era a razo de sua vida.
- Me, estou caidinho de amores por essa mulher. Ela  maravilhosa.
- Uma rameira. De classe, mas  uma rameira.
- Voc nunca foi preconceituosa, mame. Guadalupe  uma flor de mulher, um encanto. Est nessa profisso porque a vida lhe foi muito ingrata. Ela vem de boa famlia, 
l da Espanha.
- Conte-me mais. Quero saber tudo sobre essa mulher.
Luis Carlos serviu-se de caf e, enquanto passava manteiga no po, tornou:
- Guadalupe veio trabalhar a convite de um tio no Hotel Vogue. Ele era um dos donos do hotel.
- Aquele que pegou fogo em 1955?
- Esse mesmo. O tio morreu no incndio. Guadalupe ficou sem trabalho e conheceu Ramrez...
Guilhermina remexeu-se nervosa na cadeira.
-  uma das prediletas dele, no ?
- No. Ela  s minha. Desde que Ramrez conheceu voc, no olha para outra mulher.
Guilhermina sorriu feliz. Seu filho era ingnuo. Contava-lhe tudo o que via e ouvia, feito uma criana. Saber que Ramrez s tinha olhos para ela era gratificante 
e excitante. Ele a amava de verdade, pensou comovida. Luis Carlos prosseguiu:
- Guadalupe e eu nos amamos.
- Voc precisa de dinheiro para viver, meu filho. O que temos no d para uma vida to prazerosa como tnhamos.
- Sei disso. Mas eu a amo. O que fazer?
- Mesmo que ame essa mulher, vai juntar-se a ela e viver de vento?
- A que voc se engana. Guadalupe est bolando um plano que, se der certo, nos deixar muito rico.
Os olhos de Guilhermina brilharam emocionados.
- Muito ricos?
- Sim, senhora.
- O que essa moa tem em mente?
Luis Carlos foi discorrendo sobre a conversa que tivera com a amante. Contou tudo para a me, sem restries, todo o plano para chantagear Otto Henermann. Ao concluir, 
Guilhermina beijou o filho nas faces e tornou categrica:
- Precisamos marcar um jantar para comemorar.
- Um jantar?
- Sim. Quero conhecer essa Guadalupe.
- Fala srio, me?
-  uma mulher como essa que voc precisa ter a seu lado.
- Posso traz-la aqui em casa?
- Pode. Providenciarei um jantar para amanh  noite. O que acha?
- Fico muito feliz. Sabia que se interessaria por Guadalupe.
Naquela manh bem cedo, Ana Paula acordara bem-disposta. Havia tido outro sonho com a av, do qual ainda ecoavam na mente as ltimas palavras - fora e coragem. 
Ela se levantou, banhou-se, pegou alguns pertences, colocou algumas mudas de roupa numa mala. Pegou a bolsa e, sobraando a mala, dirigiu-se  copa. Maria estranhou 
v-la com a bagagem a tiracolo.
- Bom dia.
- Bom dia, Maria. Fico contente de a mesa estar arrumada. Estou com bastante fome. Na verdade, No sei se voltarei a comer hoje. Preciso economizar.
- Voc pode comer a hora que quiser.
- Estou partindo.
- Vai viajar?
- No. Vou embora de casa.
Maria estremeceu. Gostava muito de Ana Paula. H muitos anos naquela casa, percebia que o relacionamento entre me e filha sempre fora difcil. Miguel ajudava a 
manter o clima de harmonia no lar, mas, agora que ele se fora, o melhor mesmo era uma das duas sair de l. Era uma pena. 
- Quer dizer que vai partir em definitivo?
- Assim espero. Est na hora de dar rumo  minha vida. Quero ser feliz, e morando aqui tenho certeza de que nunca encontrarei a felicidade.
- Vai para onde? - indagou Maria, preocupada.
- Vou para um pensionato, como muitas meninas de famlia.
- Mas pensionato  lugar de moa que no tem famlia ou cuja famlia mora longe. Voc no se encaixa em nenhuma das duas situaes.
- A voc se engana. Eu no tenho famlia. Minha famlia acabou quando papai morreu.
- Voc tem uma me estouvada, mas ainda assim  sua me. E tem seu irmo.
- No, Maria. Eles tm uma ligao muito forte. Adoro meu irmo, mas ele  dependente de mame e concorda com tudo o que ela diz. No sou eu quem vai cortar esse 
lao. S Deus sabe quando Luis Carlos vai acordar.
- Voc fala como se algo de ruim fosse acontecer.
Ana Paula afastou o mau pressgio.
- Sinto que algo ruim pode acontecer ao meu irmo. Mas o que posso fazer? Ele escolheu esse tipo de vida.
- No se v, por favor - implorou a empregada. - Preciso seguir meu rumo. Sei que vou conseguir.
Ana Paula terminou o caf. Levantou-se e abraou-se  empregada.
- Obrigada por tudo. Gostaria que entregasse este bilhete para minha me assim que ela acordar.
- Pode deixar.
Ana Paula pegou a bolsa, a mala e saiu. Maria no conseguiu conter o pranto. Murmurou baixinho:
- V com Deus, minha filha. Que Ele ilumine sua vida e a ampare sempre.
Ana Paula pegou um txi na esquina de casa e parou defronte ao pensionato de Dona Guiomar, na Rua da Glria. Era uma emoo nova, um novo mundo que se descortinava 
 sua frente. Sentiu uma pontinha de medo, mas estava amparada pela av. Suspirou, entrou no pensionato. Foi atendida por simptica moa.
- O que deseja?
- Uma vaga.
- Tem reserva?
- Como assim? - perguntou Ana Paula, atnita.
- A penso de Dona Guiomar  muito requisitada. Tem at fila de espera.
 - Jura? - inquiriu Ana Paula, desapontada.
- Pensei que fosse mais fcil. No tenho para onde ir.
A garota deu-lhe uma piscadela, baixou o tom de voz:
- A Mirtes foi embora hoje cedo. Ela trouxe o namorado aqui numa noite, semana passada. Isso no  permitido. A penso de Dona Guiomar no tolera isso. Se eu falar 
com ela, voc pode ficar com a vaga da Mirtes. Ningum vai saber.
- As meninas no iro reclamar?
- Qual nada! Aqui  um entra-e-sai dos diabos. Todas trabalham ou estudam. Encontramo-nos somente  noite. No vo dar falta de Mirtes.  muita mulher num local 
s.
Ana Paula sorriu. Simpatizou com a moa de imediato. Estendeu a mo.
- Prazer. Meu nome  Ana Paula.
- O meu  Claudete.
-  de So Paulo?
- No. Sou de Salvador. Tenho uma famlia de cinco irmos e muitos primos homens. Meus pais temem que eu me perca, rodeada de tantos homens. Acharam melhor eu estudar 
aqui perto, no colgio das freiras.
- Est no So Jos?
- Sim. Vou me formar neste ano.
- Gosta de dar aulas?
- Adoro crianas. E ensin-las  tudo o que desejo. Se tudo der certo, as freiras prometeram que posso conseguir um estgio e, quem sabe, me tornar professora do 
colgio.
- Que prestgio, ser professora numa escola to conceituada!
- Vou conseguir voc vai ver.
Nesse instante, Dona Guiomar apareceu na soleira. Era mulher de meia-idade, bem vestida, esguia, cabelos esticados e presos num birote, olhar perscrutador. Com gestos 
delicados, veio ter com Claudete.
- Como est tudo aqui na frente?
Claudete ajeitou-se.
- Tudo em ordem, Dona Guiomar. Esta aqui  a Ana Paula. Acabou de chegar.
Guiomar apertou a mo da moa.
- Prazer. Veio por indicao?
- No, senhora.  que sua penso  to recomendada, to bem falada, que nem pesquisei outro lugar.
- Trouxe carta de referncia?
- Infelizmente, no.
Guiomar suspirou. Achou o semblante de Ana Paula agradvel, mas sem carta de indicao ficava difcil aceit-la. Sua penso seguia regras bem rgidas para admisso 
de pensionistas. Sem perceber, perguntou de chofre:
- Qual seu nome?
Ana Paula hesitou. Pigarreou e por fim disse:
- Ana Paula Amaral Gouveia Penteado, senhora. Guiomar levou a mo  boca.
- No pode ser! Voc  filha do Miguel? 
- Sim, senhora.
- Oh, meu Deus - ela deu com a mo na testa. - Como pude no me lembrar? Voc  Ana Paula, a caula. Senti muito com o passamento de seu pai.
Ana Paula baixou os olhos, emotiva.
- Obrigada.
Guiomar sentiu vontade de abra-la, de proteg-la. Havia rumores de que Guilhermina no se dava bem com a filha. Isso saa nas revistas de fofoca. Encarou-a com 
ternura.
- Fui amiga de sua av Albertina.
- Verdade? No posso crer!
- Sim. Fomos muito amigas quando solteiras. Depois, cada uma seguiu seu rumo. Trocvamos correspondncia. Fizemos isso at a morte de sua av.
Ana Paula sentiu-se emocionada. Parecia que as coisas comeavam a dar certo. O esprito de Albertina aproximou-se de Guiomar e a abraou comovida. Guiomar sentiu 
brando calor invadir-lhe o peito. Lembrou-se com carinho de Albertina. Pousou sua mo delicadamente nos braos de Ana Paula.
- Tivemos uma moa que desrespeitou este recinto, e sua famlia veio busc-la hoje cedo. Tenho uma fila de espera bem grande, mas ningum precisa saber. - Ela deu 
uma piscadela. - Vou encaminh-la para o mesmo quarto que Mirtes ocupava.
- Fico agradecida, Dona Guiomar. Estou to feliz de me aceitar! 
- Eu  que fico honrada de ter a neta de minha amiga Albertina em minha penso. E, olhando bem para voc, at que lembra muito sua av.
- Mame sempre disse que eu havia puxado a famlia de papai, como se isso fosse terrvel...
- Sua av era linda. Lembro-me de que tentou demover seu pai de casar-se com Guilhermina.
- Srio?
- Sim. Sua av era muito perspicaz e percebeu que Guilhermina no amava seu pai. Em todo caso, valeu a unio, pois sem esse casamento voc no estaria aqui na minha 
frente. - Guiomar a abraou com carinho. - Seja muito bem-vinda.
- Obrigada.
- Vai estudar?
- No, senhora. Sou formada em Letras. Mas a maneira como papai morreu fechou-me muitas portas. As escolas no me querem.
- H muitas escolas nesta cidade. Boas escolas em bairros de classe mdia, por exemplo. Ou pode tentar prestar concurso e dar aula na periferia.
- Eu preciso me concentrar e ir  luta. Tenho umas economias, e amanh mesmo vou comear a procurar emprego.
- Sei que voc foi criada num mundo de luxo. Mas aqui a vida  diferente. Procuramos cooperar umas com as outras.
 - Estou pronta para ajudar no que for preciso.
- Quem presta ajuda na penso tem desconto no aluguel.
Claudete interveio bem-humorada:
-  verdade. Este ms fiz tantas coisas, que tive vinte por cento de desconto.
- Quero j fazer algo - tornou Ana Paula entre sorrisos.
- No quer conhecer seu quarto?
- Depois, Dona Guiomar. Gostaria de me sentir til e fazer alguma coisa. Estou me sentindo bem-disposta. No sei cozinhar direito, mas sei lavar pratos, lavar roupas. 
- Eu tenho uma ajudante na cozinha. Quanto s roupas de cama, temos convnio com a tinturaria aqui na esquina. Voc se diz bem-disposta, ento poderia nos ajudar.
- Adoraria.
- Poderia levar algumas mudas para o Sr. Hiroshi?
- Com certeza. Fao isso com prazer. Onde esto?
Guiomar conduziu Ana Paula at o interior da penso. Mostrou-lhe algumas dependncias. Depois foi a vez de lhe mostrar o quarto. Tratava-se de cmodo aconchegante, 
com pintura nova, mveis de poca, contudo muito bem cuidados. Todo o quarto era pintado em tom prola. Duas camas, cada uma encostada numa parede, e no meio um 
criado-mudo e um abajur. Ao p de uma cama, um guarda-roupa de quatro portas, e no outro p uma penteadeira e uma banqueta. Prximas  porta, uma pequena secretria 
e uma cadeira. Todos os quartos eram iguais: a pintura, as cortinas, as colchas. No era permitido pendurar quadros ou retratos. Guiomar era bem disciplinada e queria 
que o ambiente fosse harmonioso. As meninas acatavam a deciso, e as que no acatavam eram repreendidas ou convidadas a se retirar da penso. Por essa razo, a penso 
de Dona Guiomar tinha boa fama no Pas todo, recebendo moas vindas dos quatro cantos do Brasil e at mesmo do exterior. Ana Paula encantou-se com o local. A penso 
era extremamente agradvel. Percebia-se a limpeza, os cuidados com os mveis, a organizao primorosa. Ela sentiu-se bem em estar l.
- Voc vai ficar no quarto com Claudete.
- Gostei muito dela.
- Claudete  um doce de garota. Encantadora.
-  o que senti.
- Vocs vo se dar muito bem.
- O que devo levar  tinturaria?
Guiomar pegou umas mudas de roupa e entregou-as a Ana Paula.
- So estas. Diga ao Sr. Hiroshi que preciso dos vestidos para depois de amanh, por favor. 
- O endereo?
Guiomar a conduziu at a porta.
- Est vendo l na esquina?  bem ali - apontou.
- Sim, senhora. Volto num instante.
Ana Paula pegou as roupas e caminhou sorridente at a tinturaria. L chegando, entrou e tocou a sineta no balco. Um rapaz a atendeu. Trajava avental e uma touca 
nos cabelos. Pois no? Ol. Vim trazer estas roupas.
- O endereo:
- Trago da penso de Dona Guiomar.
- Mora l?
- Sim. Por qu?
- Conheo quase todas as moas da penso. Nunca vi voc, muito embora esteja achando seu rosto familiar...
Ana Paula fitou o rapaz. De repente, uma sombra de tristeza cobriu-lhe o semblante.
- Ns j nos conhecemos.
Fernando constrangeu-se. Seus olhos buscaram os de Ana Paula e mantiveram-se firmes enquanto ele disse:
- Espere um pouco! - Ele bateu com a mo na testa. - J sei! Voc  filha do Dr. Miguel!
- Sim. Sou eu mesma. Sua irm foi secretria de meu pai - tornou ela, cabisbaixa.
- Pena nos conhecermos num momento to doloroso. - Ele estendeu a mo. - Como vai?
Ana Paula exalou profundo suspiro.
- Vou indo. Nunca vou me acostumar, mas vou me adaptando. Afinal, a vida continua.
- Isso  verdade. Eu e minha irm sempre rezamos pela alma de seu pai.
Ana Paula comoveu-se. Nem mesmo ela fazia oraes, e, de repente, um estranho orava pela alma de seu querido pai.
- No tenho palavras para expressar a gratido.
- No precisa - respondeu ele, sorrindo.
- Muito obrigada - tornou ela, voz embargada.
- Fazemos isso de corao. Papai trabalha num centro esprita, e toda semana colocamos o nome do Dr. Miguel numa caixinha de oraes.
- Fico na dvida, sabe?
- Com o qu?
- Sou uma mulher de f. Entretanto, ser que funciona mesmo? Tenho minhas dvidas.
- Bom, independentemente de funcionar ou no, o que vale mesmo  a inteno. Onde quer que seu pai esteja, receber vibraes positivas que podero lhe ajudar a 
ficar menos perturbado.
- Como assim, menos perturbado?
Fernando pigarreou. No queria ser indelicado, muito menos assustar Ana Paula.
- Sabe como ... Sou espiritualista.
- E o que isso quer dizer?
- Eu acredito na imortalidade da alma e na reencarnao. Por isso, quando deixamos a Terra, continuamos mais vivos do que nunca. Quer dizer, essa  a crena que 
tenho. De certa maneira, acreditar que a vida continua aps a morte e que aqui viemos e voltaremos mais vezes me ajuda a entender mais facilmente o porqu de tantas 
desigualdades no mundo.
- Cheguei a conversar com uma amiga minha, antes de sair de casa. Lurdinha acredita em algumas coisas, mas no senti que estivesse mesmo interessada. Parecia que 
era fogo de palha.
Fernando riu. A maneira de Ana Paula falar lhe era encantadora. Sorrindo, prosseguiu:
- Nas condies que seu pai se foi deste mundo, h uma necessidade imensa de vibrarmos bastante por ele.
- Acredita que ele no esteja bem? - perguntou  jovem, apreensiva.
- No sei ao cerro. Vamos fazer o seguinte: imaginemos seu pai sempre bem, sorrindo, alegre. Isso pelo menos far com que ele possa receber vibraes de paz e coragem.
Ana Paula ficou pensativa por instantes. Houve um tempo, na adolescncia, em que comeou a questionar as desigualdades, o poder da Igreja, as leis da vida. Comprou 
alguns livros, mas com o tempo foi perdendo o interesse. Veio a faculdade, as preocupaes em graduar-se e depois os eternos conflitos com a me. Agora pensava no 
pai. Se realmente a vida continuava depois da morte, ser que ele estava bem? O que devia ter acontecido com seu pai? Onde ele estava? E, se continuamos vivendo 
mesmo depois da morte, de que adiantava dar cabo da prpria vida? A jovem permaneceu pensativa. Pela primeira vez em muito tempo sentiu medo, uma opresso no peito, 
uma sensao muito desagradvel. Tentou imaginar seu pai bem-disposto, sorridente. Entretanto, por mais que tentasse, sua mente recusava-se a vislumbrar Miguel num 
estado de bem-estar. Voltemos ao momento em que Miguel, naquela fatdica tarde, apertou o gatilho e deu cabo da prpria vida. Imediatamente aps o tiro, seu corpo 
foi sacudido por violenta vibrao. Seu esprito desfaleceu, porm ficou preso ao corpo sem vida. Os arrepios que Fernando e Suzana sentiram no dia do enterro tinham 
razo de ser, visto que o perisprito de Miguel encontrava-se preso ao corpo fsico. Mesmo no caixo lacrado, Miguel podia ouvir as conversas e lamrias das pessoas. 
Ficou estarrecido. Ele havia se dado um tiro, acreditava ter morrido e tudo estaria acabado. Ento, por que se sentia preso ao corpo, sem poder mexer-se? E a dor 
intensa no peito? Como podia sentir dor se estava morto? Alis, como podia sequer estar pensando, com a mente em pleno funcionamento, se havia se matado? Ele tentou, 
tentou, mas no conseguiu se mover. Logo, o cheiro forte e agridoce das flores sobre seu corpo passou a incomod-lo. Miguel sentia-se sufocar, ao mesmo tempo em 
que sentia imensa dor no peito. Conforme se lembrava do momento do tiro, a dor aumentava e ele urrava, se debatia, e, o pior de tudo, ningum o ouvia. As impresses 
de que lesara seu perisprito na regio do corao eram to fortes, que ele acreditava e sentia estar sangrando muito. A sensao era de terror. No momento em que 
percebeu estar preso ao caixo, passou a chorar e implorar que o tirassem dali. Ao mesmo tempo em que se encontrava perturbado com a nova realidade, ouvia sons estranhos. 
O burburinho l fora era intenso, imaginava que deveria haver muita gente por perto. Ento, se havia tanta gente assim rodeando seu caixo, por que ningum se dava 
conta de abrir a urna? Ser que estava ficando louco? Embora assombrado com essa nova realidade, Miguel pde sentir as ondas de amor e afeto vindas dos filhos. Miguel 
imediatamente lembrou-se de Ana Paula e Luis Carlos e lhes suplicou por socorro.
- Ana Paula! Por favor, me tire daqui! - bramiu ele, num tom desesperador.
Percebendo que o ar comeava a lhe faltar e que nem Ana Paula ou mesmo Luis Carlos o escutava, Miguel desmaiou. Alguns dias depois, ele acordou. A escurido o aterrorizava. 
H quanto tempo estaria ali? Impossvel precisar. Sua mente estava bastante atormentada, e Miguel no conseguia concatenar os pensamentos. Sentia-se fraco, muito 
cansado e tinha sede. Entretanto ele mal conseguia se mover. Parecia estar preso dentro daquele corpo. Uma sensao esquisita. O cheiro ocre das flores murchas misturadas 
ao de seu corpo fsico em estado de decomposio causou-lhe sentimento de profunda averso e ele novamente desmaiou. Durante dias Miguel acordou, se debateu, implorou 
por socorro, sentiu o cheiro ptrido de seu corpo fsico e novamente perdeu os sentidos. At que num determinado dia, alm de passar pelos mesmos tormentos de sempre, 
Miguel ouviu pequeno barulho. Imobilizado, sentindo dores no peito, procurou manter a mente em silncio e prestar ateno naquele barulhinho estranho. Tentava adivinhar 
o que seria. Assim que sua mente focou a ateno no barulho, um novo inferno lhe arrebatou o esprito. Aquele som estrepitoso vinha dos vermes que nasciam de seu 
prprio corpo apodrecido. Miguel sentiu um pnico sem igual. A sensao de medo e repulsa, adicionada s picadas dos bichinhos, era terrvel. As mordeduras eram 
to intensas e as dores to lancinantes que o estado emocional e mental de Miguel entrou em colapso, e ele desmaiou para valer. Num dia qualquer, um esprito aproximou-se 
daquele mausolu. Atravessou o prtico e desceu at a gaveta onde estava depositado o caixo. O esprito encostou as duas mos sobre o cimento e em instantes o muro 
desapareceu, o caixo sumiu e Miguel arregalou os olhos, em estado apopltico. 
- E ento, gente boa?
- H? - foi o que deu para Miguel balbuciar.
- Est difcil de aturar essa situao, no?
Miguel estava to transtornado com aquela nova realidade que achou estar alucinando. O esprito continuou sorridente:
- No acha que est na hora de largar esse corpo podre?
- Voc me v e me ouve?
- Sim.
- Mas no estou falando, estou pensando!
- Telepatia, meu caro. Eu capto o teor de seus pensamentos. Nesta dimenso em que estamos  telepatia  algo natural, como pensar, falar ou andar.
Miguel at mesmo parou de sentir dores. O estado de estupefao era maior do que qualquer dorzinha. Estaria em delrio? O esprito respondeu de pronto:
- Voc no est louco, meu caro. Isto tudo  real.
- No  possvel! Quem poderia estar conversando comigo neste buraco?
- Ora, meu amigo, eu tenho livre acesso nesta rea.
- Livre acesso? - inquiriu Miguel, sem entender.
- . Eu sou o guardio deste cemitrio.
- H?
-  isso mesmo, gente boa. Eu sou o chefe do cemitrio. Voc est com sorte.
- Eu? Sorte?
- E como!
-  louco?
O esprito deu uma gargalhada.
- J fui. Hoje no mais o sou.
- Quem  voc?
- Prazer, meu nome  Joo Caveira. Mas pode me chamar simplesmente de Joo. E o seu?
- Mi... Miguel - respondeu ele, apreensivo.
- Foram s oraes de sua me e de seus filhos que me ajudaram chegar at aqui.
- Minha me? Meus filhos?
Joo pegou um caderninho e leu:
- Deixe-me ver... Ah, sim. Dona Albertina, Ana Paula e Luis Carlos. Sendo que este ltimo s se lembra do finado pai e lhe manda vibraes de amor quando no est 
jogando ou farreando por a. As duas lhe emitem vibraes de amor e carinho at hoje.
Conhece essas pessoas?
-  minha famlia, oras!
- Pensei que havia errado de tmulo. Isso acontece de vez em quando.
Por instantes Miguel deixou de sentir dores. Dois assistentes de Joo desceram at o local e ministraram energias revigorantes sobre o seu perisprito. Aos poucos 
Miguel foi sentindo alvio. Um dos assistentes cortou um fio de cor acinzentada e opaca, na regio do umbigo, que prendia o corpo perispiritual ao corpo fsico. 
No momento em que o assistente de Joo cortou o fio, Miguel sentiu-se totalmente livre das dores. Num impulso ele se levantou e sentou-se sobre si mesmo. Joo e 
seus assistentes pegaram Miguel pela cintura e subiram, at a porta do mausolu. Sentaram-no na escada.
-  inacreditvel! - exclamou Miguel, ainda sem entender seu novo estado.
- Foi fcil tir-lo dali - tornou Joo.
- Como posso estar aqui fora, num piscar de olhos?
- Bem-vindo ao mundo astral - sorriu um dos assistentes. 
Miguel estava perplexo.
- Que poder  esse?
- Poder nenhum. Tudo aqui no mundo astral ocorre atravs de impresses, ou seja, voc pensa e acontece.
- O pensamento cria forma e se materializa?
- Isso mesmo. Voc ficou to atormentado quando morreu que ficou preso ao prprio corpo fsico.
- Mas senti dores, sufoquei com o cheiro das flores. Os bichos...
- Tudo impresso. Na verdade voc no tinha conhecimento algum sobre a continuidade da vida aps a morte do corpo fsico. Assim que se deu conta de que estava mais 
vivo do que nunca, a sua primeira reao foi de medo, de pavor.
- Foi isso mesmo, Joo. Fiquei apavorado.
- O medo nos aprisiona, nos torna presas fceis de energias negativas.
Miguel estufou o peito.
- Mesmo com medo, eu pedi a Deus.
- E? - indagou Joo, mostrando interesse.
Miguel estava desolado.
- E nada! Por isso nunca acreditei nele. Eu pedi e nada aconteceu. Pelo contrrio, quanto mais eu pedia, menos Ele me ouvia. 
Os assistentes de Joo deram uma risadinha. Joo imediatamente os fuzilou com os olhos. Eles estancaram o riso e se afastaram. Joo deu prosseguimento:
- Deus est muito humanizado em nossas mentes. Acreditamos que Ele seja tal qual um pai. Vamos trocar o nome de Deus por "foras da natureza" ou "foras inteligentes 
invisveis"?
- Est certo.
- As foras inteligentes trabalham atravs de voc e jamais para voc. Entende a diferena?
- Por certo.
-  necessrio que voc crie uma atmosfera de cumplicidade, de auto-ajuda, de atitudes positivas, a fim de que essa fora o ajude e atue para o seu prprio bem.
- Ento era s mudar o teor de meus pensamentos, e tudo podia ter sido diferente?
- Exatamente - Joo sorriu. - Voc aprende fcil, Miguel.  inteligente.
- Ah, se fosse mesmo inteligente, no teria cometido esse desatino.
- Agora no  momento de se culpar. A culpa s nos massacra, nos torna impotente para mudar. Voc deu cabo de sua vida, lesou seu perisprito, e agora precisa arcar 
com as conseqncias de suas atitudes.
- Sei disso. Entretanto me d medo s de pensar no que vir adiante.
- Essa sensao de medo  tpica de suicida. Devido a isso, muitos que do cabo da prpria vida passam longos perodos de perturbao aqui no astral. A partir do 
momento que tomam conscincia da nova realidade, de que a vida continua, perdem o equilbrio mental. Muitos perambulam anos a fio pelo umbral, culpando-se pelo ato 
praticado. Outros vo atrs de pessoas que julgam serem as causadoras de seus sofrimentos. Esses geralmente ficam muito tempo em desequilbrio, porquanto no aceitam 
que eles prprios foram os responsveis pelo destino que criaram.
- Voc s pode estar brincando. No me venha dizer que no h vtimas no mundo.
- Pois no h.
- Isso  insano! - protestou Miguel.
Joo sorriu.
- Ns recebemos de acordo com nossas atitudes. Ns somos responsvel por tudo aquilo que nos acontece. 
- Ento no h cu, paraso ou mesmo purgatrio? - indignou-se Miguel.
- No.
-  tudo criao da mente humana?
- .
Miguel sentiu certo torpor.
- Mas a Igreja disse...
- Quem mandou acreditar na Igreja?
- Estou zonzo, cansado. Essas informaes mexeram comigo. A Igreja tem um poder to forte sobre as pessoas no mundo, e de repente  tudo mentira... Sinto-me desiludido.
- Isso  timo, pois a desiluso nada mais  do que a visita da verdade.
- Ainda tudo  muito fantstico - resmungou Miguel, um tanto tonto.
Joo encostou a palma da mo na nuca de Miguel e ergueu delicadamente sua cabea.
- Vamos, respire bem forte.
- Est bem.
- Deixe que o ar entre pelas suas narinas.
Miguel obedeceu. Pouco tempo depois estava melhor. Joo fez sinal a um de seus assistentes. O rapaz saiu e voltou com um copo cujo lquido tinha colorao azul. 
Joo o deu a Miguel e ordenou:
- Beba.
- O que  isso?
- Beba.
- Azul?
- Vai fortalecer seu perisprito. Est muito debilitado. Miguel bebeu um pouco do lquido e rapidamente sentiu-se melhor.
- Estou me sentindo mais forte. Obrigado.
- Beba tudo - ordenou Joo.
Miguel bebeu bem devagar. Intrigado, perguntou:
- Voc disse que foram minha me e meus filhos que vibraram por mim?
- Sim.
- Acho que h algum engano, porque minha me... Joo o ajudou:
- Sua me o qu?
Miguel mordeu o lbio apreensivo.
- Contudo...  impossvel... Minha me... No pode ser!
- O que no pode ser? Sua me morreu faz tempo.  isso que o intriga?
- Ento...
- E voc? - indagou Joo, olhos brilhantes. 
- Estou aqui conversando com voc! - exclamou Miguel.
- Me diga uma coisa: o que aconteceu quando meteu uma bala no peito?
Miguel balanou a cabea para os lados.
- No me lembro ao certo.
- Faa uma fora - ajudou Joo.
Miguel espremeu os olhos, passou a mo pela fronte, pensou, pensou. De repente lembrou-se da cena, do tiro, da escurido. Imediatamente levou a mo ao peito, sentindo 
imensa dor. Baixou os olhos em direo da regio do corao e viu-se sangrar. Joo o alertou:
- Essa dor no  real,  fruto de sua mente perturbada. Esquea o dia da tragdia, concentre-se em algo bom.
- No consigo me lembrar de nada bom. Perdi tudo, fiquei desesperado.
- Pare de pensar assim, seno seu peito vai comear a sangrar novamente.
- Est difcil.
A voz de Joo tornou-se enrgica.
- Vamos, Miguel, concentre-se em algo bom. Tenha pensamentos bons. Lembre-se de sua filha, por exemplo.
- Minha filha?
- Sim. Ana Paula  uma boa lembrana, no ?
Miguel esboou leve sorriso. Lembrou-se da filha querida. Antes de desfalecer nos braos de Joo Caveira, balbuciou:
- Ana Paula...
Ana Paula separava algumas roupas para levar  tinturaria quando imediatamente a imagem do pai lhe veio forte  mente. Ela sentiu certo torpor, um suor frio. Imediatamente 
fechou os olhos, concentrou-se, fez ligeira prece e pediu a Deus que cuidasse do pai, onde quer que esteja. Ela tinha muitas coisas para fazer naquele dia, mas a 
imagem de Miguel estava muito presente. Era como se o pai estivesse prximo, como se ela pudesse senti-lo a seu lado.
- Isto  loucura! Papai morreu. Mesmo que a vida continue, ele deve estar agora num outro mundo, muito distante daqui.
Ela fez o sinal da cruz, apanhou as roupas, meteu-as numa grande sacola e saiu apressada at a tinturaria. Fora prazeroso conversar com Fernando no outro dia e, 
desde aquele encontro, orava com sinceridade e f todas as noites pelo esprito de seu pai. O entrosamento com Claudete havia sido perfeito; ela se mostrara excelente 
amiga. Parecia que tudo caminhava bem e Ana Paula, a cada dia, se sentia mais confiante. Num gesto gracioso, tocou a sineta sobre o balco. Em instantes, Fernando 
apareceu. Ele era um belo rapaz. Possua estatura mediana; seus cabelos pretos, penteados para trs, eram sustentados por brilhantina. Estava sempre bem vestido. 
Entretanto era muito tmido, ficava sem ao quando se interessava por uma mulher. Assim que viu Ana Paula do outro lado do balco, procurou ocultar seu nervosismo.
- Como vai?
- Estou tima. E voc?
- Bem - ele sorriu e pigarreou. Depois brincou: - Agora voc  a encarregada de trazer as roupas at ns?
A jovem sorriu.
- Tenho de me ocupar de alguma maneira. Acordo cedo ajudo nos afazeres e, logo depois do caf, vou  cata de emprego.  tarde retorno  penso e fico a disposio 
de Dona Guiomar. Ela nos incentiva a nos mantermos teis, e assim ganhamos bons descontos no pagamento da penso.
- Ah, uma moa que faz economia!
Ana Paula riu-se.
- Preciso economizar. Enquanto no arrumar emprego, no posso marcar bobeira. Procuro estudar a noite. Vai sair edital de concurso pblico em breve; abriro vagas 
para professores na periferia.
- S est procurando emprego em escolas?
- No momento, sim. Sou graduada em Letras. Entretanto as coisas esto ficando to difceis que talvez eu comece a procurar qualquer outro tipo de trabalho enquanto 
o concurso no vem. Preciso de dinheiro. Fernando a encarou srio.
- Desculpe a franqueza, mas voc no  rica?
- Minha me . Papai perdeu tudo e, inconformado - ela fez um gesto com a mo -, voc sabe o desatino que ele cometeu.
- E por isso voc saiu de casa - ele ajuntou.
- Por outras razes que no momento no gostaria de lhe dizer. Estou bem e no quero ficar triste.
- O que vai fazer agora?
- Ler um livro, preparar a roupa de amanh.
- Gostaria de ir comigo a uma confeitaria, tomar um sorvete?
Ana Paula hesitou.
- No sei...
- A manh est quente - Fernando suplicou.
Ela deu uma risadinha.
- Est bem. S um sorvete.
- Preciso pagar algumas contas no banco e tenho bastante tempo. Vou l dentro avisar Seu Hiroshi. Volto logo.
- Por certo. 
Alguns minutos depois Fernando retornou e foram  pequena e graciosa confeitaria. Adentraram o local e escolheram uma mesinha bem ali na entrada. Fizeram os pedidos 
e, assim que o garom se afastou, Fernando perguntou de supeto:
- Voc tem um irmo, no?
- Sim.  Luis Carlos.
- Vocs tm contato?
- Infelizmente no - suspirou Ana Paula.
- Algum problema srio?
- No. Muito pelo contrrio. Eu e Luis Carlos sempre nos demos muito bem. Ele  trs anos mais velho que eu e sempre foi meu protetor. Brincvamos juntos, fazamos 
estripulias, nos divertamos a valer. Minha me s vezes tinha uns ataques de cimes e nos separava.
- Ah ? - perguntou ele, com interesse.
- Sim, minha me nos separava e saa com Luis Carlos, inventava um compromisso, uma festinha na casa do filho de alguma amiga. Meu pai percebia a diferena que ela 
fazia, e foi nessa poca que ele se aproximou bastante de mim. Tornamo-nos muito amigos. Acredito muito em afinidades. Eu sempre me dei muito bem com meu pai, e 
Luis Carlos sempre se deu bem com mame. Entretanto, quando entramos na fase da adolescncia, meu irmo ficou deslumbrado com o que o dinheiro podia comprar, com 
o luxo, com roupas de marca. Passou a freqentar os lugares mais badalados e sofisticados da cidade, sempre com minha me a tiracolo, evidentemente. Foi ento que 
nos afastamos. Mas continuamos a nos amar. Temos maneiras diferentes de enxergar a vida, e esse foi o verdadeiro motivo que nos afastou. Luis Carlos quer continuar 
fazendo parte do inundo dos gr-finos. Eu nunca gostei ou mesmo me interessei por esse universo. Fernando sorriu.
- Eu me lembro vagamente de ver seu irmo numa foto estampada em alguma revista, anos atrs.
- Luis Carlos apareceu em dezenas de revistas. Chegou a ser capa de alguns peridicos. Por isso sempre foi o orgulho de minha me.
Ana Paula disse isso com ar de mofa. Fernando percebeu e perguntou:
- Passados todos esses anos, voc ainda no se d bem com sua me?
Ana Paula suspirou. Falar de Guilhermina era algo que at ento a incomodava.
- Eu e mame nunca nos demos bem. Ela sempre foi muito rgida comigo. Nunca notei uma manifestao de carinho que fosse de sua parte. Nossa relao sempre foi distante, 
a base de ordem, disciplina, regras. Tudo muito no estilo militar. A relao entre mim e minha me funcionou como a do general e do cabo!
Ambos riram. Ela deu prosseguimento: 
- Hoje sei que ela  assim e pronto. Esse  o jeito de ela ser. Procuro aceitar. Entretanto, quando menina, era difcil fazer esse tipo de anlise. Eu fui criada 
num mundo onde a me deve ser uma pessoa dcil, amvel, que cuida de seus filhos com esmero.
- Que defende a sua prole com unhas e dentes! - asseverou Fernando.
- Isso mesmo - concordou Ana Paula, com um sorriso cativante. - Eu idealizei uma me aqui na minha cabea - apontou ela - e esperei que Dona Guilhermina representasse 
bem esse papel.
- Porm ela representa muito bem esse papel ao lado de seu irmo.
- Afinidades, Fernando, nada mais. Minha me no faz por mal. No faz diferenas porque quer, hoje percebo que  algo natural, que vem espontaneamente dela. No 
posso exigir que ela me ame ou mesmo me trate como eu a idealizei.
- Nunca houve um mnimo de manifestao de carinho? - inquiriu Fernando, curioso.
- No. Que eu me lembre, no.
Ana Paula fitou um ponto indefinido, voltou no tempo, lembrou-se de vrias situaes vividas com sua me ao longo da vida. Sempre foram difceis, nada pacficas.
- Nem quando era pequena? - inquiriu ele novamente, percebendo que ela estava pensativa.
- Ela sempre me tratou com muita secura. 
- Como assim?
- Lembro-me quando tinha uns dois anos de idade. Era muito pequena, mas guardo essa cena. Minha me me olhava srio e dizia que era difcil, mas aceitava o meu perdo. 
Tanto que tive problemas de fala. Aprendi a falar aps os quatro anos de idade. E - Ana Paula riu - at pouco tempo atrs eu gaguejava quando tinha de falar com 
ela.
- Srio? No posso acreditar!
-  verdade.
- Voc gaguejando?
- Sim.
- Impossvel. Fala to bem!
- Com as pessoas em geral, exceto minha me. Quer dizer, at o dia em que tomei coragem de me impor, falar o que queria, e a saiu tudo de uma vez. Tive uma discusso 
sria com ela um dia antes de sair de casa.
- Enfrentou a fera de frente - ajuntou ele, sorrindo.
- Senti uma fora fora do comum. Algo que me dava tanta coragem, que foi a primeira vez na vida que encarei minha me sem medo. Claro que depois fiquei mexida, por 
conta da idealizao, da figura materna que criei na minha cabea. Mas passou. Hoje estou melhor.
- Talvez isso tenha algo a ver com vidas passadas - tornou Fernando, srio. 
Ana Paula mordeu levemente os lbios. Esse tipo de assunto ainda a incomodava sobremaneira.
- Outro dia - ela pigarreou - tive um sonho.
- Conte-me.
-  besteira. Deixe pra l.
- No! Conte-me. Sou todo ouvido - encorajou-o. Ana Paula exalou um suspiro.
Remexeu-se na cadeira.
- Eu acordei e vi minha av Albertina. Ela pegou em minha mo e fomos caminhando pela escurido. De repente, eu estava num local escuro, lamacento e sujo; o cheiro 
tambm era pavoroso. Pensei que fosse encontrar-me com meu pai.
- E ento?
- A eu desci um pequeno morro e, cada numa gruta, estava uma mulher ajoelhada, suja, maltrapilha. No reconheci de pronto, e ento minha av Albertina sacou de 
uma lanterna e focou no rosto da mulher. Era minha me! Ela implorava por socorro, dizia que havia me perdoado que tudo ia ser diferente, que inclusive ela queria 
ser minha me.
- Continue, por favor.
- Eu dizia quela mulher que ela era minha me, e ela balanava a cabea para os lados negativamente. Dizia que, se eu a aceitasse, ela seria minha me e poderia 
sair daquele local ftido. Minha av e eu a pegamos delicadamente pelos braos e a tiramos daquele buraco. Lembro-me de minha av lhe passando a mo pela testa, 
e ento ela adormeceu. 
- Interessante. No acredita que possa estar se lembrando de cenas anteriores a esta encarnao?
- Como assim? - perguntou ela, interessada.
- Voc pode ter se lembrado de anos antes ele reencarnar. Pode ser que a vida esteja lhe mostrando o porqu de tanto rancor entre voc e sua me.
- Ser? Por que a vida faria isso?
- Para voc enxergar de fato a verdade. Para que, diante desse sonho, voc possa vislumbrar um pouco do passado, perceber que a relao de vocs  difcil h muitas 
vidas, entender melhor a conexo entre vocs duas e perdoar.
- Perdoar? - perguntou Ana Paula, atnita.
- Sim.
- Isso  difcil.
-  sua maneira de enxergar as coisas. O perdo cura o esprito. Pense nisso.
A jovem nada respondeu. Sentia pela me um misto de piedade e raiva ao mesmo tempo. Perdoar ou mesmo ver a me com bons olhos era-lhe uma tarefa difcil. Se Fernando 
soubesse o que ela passara nas mos da me durante esta vida! Guilhermina fora uma pssima me; na verdade, ela  que deveria pedir perdo a Ana Paula. Isso a incomodava. 
Mas, por mais que tentasse, parecia que o perdo era a nica forma de romper definitivamente os laos de ressentimento que a prendia  sua me. Suzana estava preocupada. 
Havia preparado algumas cartas para o Dr. Roberto, mas no as encontrava. Elas sumiram de uma hora para outra. Ela tinha certeza de que as havia deixado sobre sua 
mesa pouco antes de sair para almoar. Consultara todo o departamento e ningum havia pegado ou visto as cartas.
- Meu Deus! Desse jeito, o Dr. Roberto vai me botar no olho da rua. Onde ser que esto essas cartas? - dizia para si, tom preocupado.
Ela voltou a procurar nas gavetas, nas pastas, enfim, voltou a esmiuar os mesmos lugares de antes. Nada. Um rapaz alto, esbelto, olhos e cabelos castanhos, corpo 
bem-feito, aparncia agradvel e sedutora, parou na soleira da porta. Com um mao de papis nas mos, perguntou entre sorrisos:
- Est procurando por isso?
Suzana olhou para as mos do rapaz. Eram as cartas.
- Pensei que houvesse perdido tudo. Graas a Deus!
Em instantes seu semblante se fechou. Suzana caminhou at o moo e retrucou, entre ranger de dentes:
- Engraadinho! Quem mandou pegar esses papis de minha mesa? Quem lhe deu autorizao?
- Desculpe. S estava querendo ajudar.
- Ajudar? - ela riu irnica. - Essa  boa!
- Sim. Voc havia sado para o almoo. Houve uma mudana e resolvemos comear a reunio mais cedo. Essas cartas nos eram de suma importncia.
- Deveriam ter me chamado no refeitrio. Onde j se viu? Mexer na minha mesa...
- Desculpe. No tive a inteno...
Suzana foi categrica:
- Quem  voc?
- Eu?!
- . Nunca o vi por aqui. Vai entrando na sala dos outros e mexendo em papis que no lhe dizem respeito? No sei se  confivel.
O rapaz deu uma gargalhada.
- Voc  impetuosa. Uma fera!
Ela rangeu os dentes.
- E fica mais bonita quando se irrita - completou o moo.
- Eu s no perco a pacincia porque sei me comportar no servio. Jamais perco a compostura. Se estivesse em outro lugar, eu... Eu...
- Eu... - replicou ele.
- Eu lhe dava um bom safano na cara. 
- Alm de tudo  violenta. Assim eu me apaixono.
- Sem-graa! Suma daqui!
Ele riu e rodou nos calcanhares. Quando fez a curva no corredor e desapareceu, Suzana recostou-se pesadamente sobre sua cadeira, estava estranhando seu descontrole. 
Afinal, o rapaz no havia feito nada de mais. Mas reconhecia: a presena dele a incomodara e deixara-a descontrolada. No sabia dizer o porqu. Na verdade, nunca 
o havia visto antes para sentir tamanha repulsa. Suzana respirou fundo, procurou se recompor. Foi ao toalete, passou um pouco de gua no pescoo e nos pulsos. Escovou 
os cabelos, passou batom e um pouco de p no rosto. Ajeitou a ala do vestido e voltou para sua mesa. Estava prxima da sala quando ouviu a campainha do telefone. 
Sabia ser aquele som a chamada da sala de Roberto. Ela estugou o passo e prontamente atendeu.
- Pois no, Dr. Roberto?
- Suzana, voc poderia me trazer cpia da carta enviada aos americanos meses passados?
- Num instante.
- Obrigado.
Suzana virou o corpo e abriu o fichrio. Seus dedos geis foram procurando pela pasta que continha tais cartas. Ela era extremamente organizada. Logo achou a pasta 
onde estava a carta que Roberto solicitara. Pegou o papel e foi rpida  sala do chefe. Bateu  porta.
- Entre - ele ordenou.
- Com licena, Dr. Roberto. Aqui est.
- Preciso que redija uma carta semelhante para enviarmos ao grupo canadense.
- Por certo.
- Voc poderia redigi-la tambm em francs?
- Sim, senhor. Mais alguma alterao?
- S mudaremos alguns itens. O resto da carta permanece inalterado.
Ele fez as anotaes num bloquinho e as entregou a Suzana.
- Pode deixar aqui na minha mesa na sexta-feira, bem cedinho?
- Sim, doutor. Na quinta-feira  tarde deixo-as sobre sua mesa.
- Obrigado.
Roberto levantou-se da cadeira, deu a volta na mesa e aproximou-se de Suzana. Esboou leve sorriso.
- Estou muito contente com seu trabalho.
- Gosto muito do que fao.
- Eu gostava muito da Olga, mas voc  especial. Nos demos muito bem desde o incio.
Ela corou.
- Obrigada. Tambm estou muito feliz de trabalhar na metalrgica.
- Ms passado fez um ano que est conosco, estou certo?
- Sim. 
- Parece que comeou ontem - brincou ele.
- O tempo passa rpido.
- Continue desse jeito.
Suzana ia responder, mas a porta se abriu. O rapaz que havia pegado as cartas entrou na sala sem avisar, e ela o fuzilou com os olhos. Roberto a cutucou levemente 
nos braos:
- Suzana, gostaria de lhe apresentar meu filho Bruno.
Ela estancou o passo, ficou paralisada. No sabia o que dizer. Sua boca se abriu e se fechou, e ela mal conseguiu articular som. A sensao era-lhe muito desagradvel. 
Bruno percebeu a saia-justa e no perdeu tempo. Agora era hora de se vingar e tirar proveito da situao. Caminhou at ela e estendeu a mo. 
- Prazer. 
Suzana sentiu o ar lhe faltar. Com as mos geladas e trmulas, cumprimentou-o e balbuciou:
- Prazer, Dr. Bruno.
- Oh, no precisa me chamar de doutor. Sinta-se  vontade e me chame de Bruno somente, ou de Engraadinho, se preferir.
Suzana sentiu o sangue ferver-lhe as faces. Roberto nada percebeu e declarou:
- Bruno estava fazendo especializao na Itlia, numa montadora de automveis. Trouxe bastante tecnologia para melhorar nossa linha de produo. Quando voc comeou 
a trabalhar conosco, ele havia acabado de partir para Florena. Retornou semana passada. 
Ela no sabia o que dizer. Havia sido deselegante, comportamento que nunca tivera antes. E ainda por cima com o filho do dono. Fatalmente ele pediria a sua cabea. 
Sentia estar a um passo de ser demitida. O telefone tocou e Roberto atendeu:
- O qu? Como? No pode ser!
- O que foi papai? - perguntou Bruno, apreensivo.
- O Sebastio est desesperado l na fbrica; disse que um dos tornos encrespou. E justo agora que temos de entregar as peas na retfica. Vou ver o que fazer. Dem-me 
licena.
Ele saiu apressado e Bruno e Suzana ficaram a ss na sala. Ele foi se aproximando e ela foi sentindo as pernas falsearem.
- Desculpe. Fui muito grossa. No devia ter me comportado daquela maneira. Mas sou to organizada... Jamais pensei que pudesse perder as cartas.
- Isso no tem desculpa.
-  que...
- Voc foi longe demais - disse ele srio.
- Eu sei. Dr. Bruno. Eu me descontrolei, pacincia. Prometo que nunca mais agirei dessa maneira com o senhor ou com quem quer que seja.
- Duvido.
- Estou sendo sincera.
- Voc  impetuosa, ardente.
- No me conhece para...
- Tem temperamento forte. Difcil mudar.
Suzana mudou sua postura.
- Como ousa me julgar?
- No estou julgando-a. Mas suas atitudes revelam seu temperamento. Basta ser um pouquinho observador e saber tudo a seu respeito.
- Passei por uma situao dos diabos hoje e no estou me sentindo bem para conversar. Por favor, gostaria de ir para minha sala, est bem?
Ele a segurou pelo brao.
- Eu no lhe dei permisso para sair.
Ela sentiu a respirao entrecortada. A presena de Bruno a deixava totalmente desarvorada. Era um misto de muitas emoes temperadas com muita repulsa.
- Por favor, Dr. Bruno, deixe-me ir - tornou ela apreensiva.
- S se me prometer uma coisa.
- O que ?
- Jantar comigo na prxima sexta-feira.
- Jantar com voc?
- Isso mesmo. Jantar com o filho do seu patro.
- No  de bom-tom.
-  a nica maneira de se desculpar pelo que fez comigo agora h pouco.
- No sei - ela hesitou. 
- Ou aceita meu convite ou... 
Suzana estremeceu.
- Ou? - inquiriu ela, num fio de voz.
Bruno nada disse. Aproximou-se dela e sem pestanejar tascou-lhe um beijo na boca. Suzana sentiu averso sem igual. Teve mpetos de esganar o moo, mas controlou-se. 
Ela se esquivou com maestria.
- O que foi? - perguntou ele, sorriso malicioso.
- Nada. Por favor, deixe-me sair.
- Est certo. Mas vamos nos encontrar na sexta-feira. Gostei muito de voc. 
Suzana no gostou do tom. A presena de Bruno era-lhe por demais desagradvel. No sabia explicar, porquanto nunca o vira antes. Era tudo muito estranho. Bruno era 
um tipo: Alm de atraente e sedutor, possua olhos enigmticos e tinha sangue italiano nas veias. Era pura seduo. Suzana estava acostumada a lidar com os galanteios. 
Procurava manter um comportamento austero, bem diferente de seu verdadeiro temperamento, a fim de evitar os assdios. Afinal de contas, ela acreditava que uma mulher 
no podia ser liberada. Uma mulher que falasse tudo o que pensava era vulgar, No tinha refinamento algum. Nesse mundo machista, a mulher devia se portar de maneira 
fria e sria e controlar seus desejos, por mais trabalhoso que fosse. Entretanto, era a primeira vez que ela nutria um sentimento de repugnncia por algum de maneira 
to forte. Suzana respirou profundamente e, aps livrar-se da corte de Bruno, correu at sua sala. Embora tentasse concatenar os pensamentos e voltar  ateno ao 
trabalho, sua mente insistia em lhe fixar a cena do beijo. Uma cena que causava arrepios e sensaes desagradveis  moa. To logo Guilhermina foi apresentada a 
Guadalupe, ambas iniciaram estreita amizade. Deram-se muito bem, porque, embora fossem de classes sociais diferentes, eram muito parecidas na essncia. Ambas sabiam 
que logo os falatrios maledicentes comeariam a surgir, porquanto Guadalupe era conhecida dos figures da alta sociedade. Como se tratava de homens casados, demoraria 
muito para que as conversas chegassem  roda das mulheres. Guilhermina pensou, pensou e chegou  excelente concluso: convidar Guadalupe para morar em sua casa. 
Assim, a moa deixaria a vida do bordel e concentraria todas as suas foras para se dedicar ao plano que armara para extorquir Otto Henermann.
- Voc muda para nossa casa e pronto.
- No sei se deveria.
- Ora, por que no? - indagou Guilhermina, sem entender.
- Eu e seu filho no somos casados. As pessoas podem fazer comentrios negativos a seu respeito.
- No se preocupe comigo. Sou macaca velha de sociedade. Sei lidar com todo e qualquer tipo de gente. Nosso plano  muito mais importante do que a sociedade.
Guadalupe sorriu. Guilhermina comprara a ideia do plano para arrancar boa parte da fortuna de Otto. Falava a todo o momento nosso plano, como se tivesse ajudado 
em alguma coisa. Mas agora no era momento de desavenas. Muito pelo contrrio. Guadalupe precisava ter Guilhermina a seu lado. Por isso replicou, num tom com o 
qual procurava ocultar sua irritao.
- Fico preocupada, mesmo assim. No podemos dar nenhuma chance para que as pessoas desconfiem de nossa sbita ligao.
- Compreendo a sua preocupao, minha cara. Entretanto, para evitar comentrios, principalmente agora que iniciaremos o nosso intento, voc pode ficar no quarto 
que foi de Ana Paula.
- Acredita mesmo que minha presena no vai atrapalhar nesta casa?
- Imagine querida... De maneira alguma.
- E se Ana Paula voltar? 
- Voltar?
- Sim. De repente nada d certo, e ela volta. No quero criar confuso com sua filha. Demo-nos to bem que jamais gostaria que algo a perturbasse.
Guilhermina abraou-a com carinho.
- No se preocupe com aquela ingrata. Ana Paula saiu para nunca mais voltar. E, se se arrepender, o que vai acontecer mais cedo ou mais tarde, ela pode pedir ajuda 
ele joelhos para qualquer um, menos para mim. Seu orgulho no permitiria tamanha humilhao.  Sinto que minha filha me detesta.
- Uma filha nunca detesta uma me.
- Voc no imagina o quanto foi difcil o nosso relacionamento.
Guadalupe no estava querendo ouvir as lamrias de Guilhermina. O que importava era botar o plano para funcionar. Por isso no queria perder tempo.
- Tenho medo de que um ou outro possa me reconhecer - mentiu.
Guilhermina deu uma gargalhada.
- Bobagem! Todos esses figures da alta sociedade tm o rabo preso. A cabea de suas esposas  muito pequena para que elas desconfiem de seus maridos.
- Mesmo?
- Sim. Um talo de cheques e uma conta corrente bem polpuda as deixam bem longe das suspeitas. So todas fteis, s pensam em gastar e ostentar seu luxo. No do 
a mnima para os maridos. Conheo essa raa.
- Assim espero - assentiu Guadalupe, procurando manter um tom de naturalidade na voz.
- Voc pode ficar tranqila. Ningum vai incomod-la. Muito pelo contrrio: muitos tero medo ao v-la.
- Acha mesmo isso?
- Quem deve, teme. E, de mais a mais, voc vai ficar bem diferente: mais requintada, mais bonita, mais fina.
Guilhermina andava pela sala com sua piteira e, conforme soltava suas baforadas, ia divagando.
- Voc ser minha sobrinha. Melhor ainda: uma sobrinha distante de Miguel, que nasceu em Portugal e foi criada na Espanha. Veio ao Brasil para se recuperar de um 
amor no correspondido.
- Que ideia brilhante!
- O povo gosta de ouvir esse tipo de histria. Logo faro de voc uma herona, e pretendentes cairo a seus ps. Fique sossegada. Com uma boa histria e uma mudana 
no visual, voc se transformar numa nova e linda mulher.
- Mesmo?
- Sim. Comearemos pelo guarda-roupa. Compraremos roupas novas.
- Roupas novas! 
- Se aquela desmiolada da Ana Paula no tivesse vendido aqueles vestidos caros! Mas de que adianta chorar, no  mesmo? Pacincia. Ela nunca deu valor a nada. O 
que importa  que iremos renovar seu guarda-roupa. Faremos novo corte de cabelo. Tingiremos seus cabelos avermelhados no tom louro; voc ter as sobrancelhas acentuadas, 
os olhos mais expressivos. Ficar bem diferente. Aposto que nenhum ex-cliente vai se lembrar de voc.
- Assim espero.
- Vamos fazer um trato. Faz de conta que a antiga Guadalupe morreu no incndio do Hotel Vogue. Voc agora  Fnix, ressurgida das cinzas e pronta para amar meu filho 
e conseguir dinheiro suficiente para sustentar a ambos pelo resto da vida.
- Fico to emocionada, Dona Guilhermina!
Ambas abraaram-se.
- Sinto como se a senhora fosse uma me para mim.
- Sou e serei sempre. Voc ama meu filho com sinceridade. Luis Carlos est caidinho por voc. Temo pelo futuro dele. Meu filho no pode se envolver com qualquer 
uma. Ele precisa de uma mulher como voc, de pulso forte, para comand-lo. Ele  ingnuo, facilmente manipulvel, no tem apoio. Ns duas faremos dele um homem esperto.
- Hoje  noite ele vai ao clube.
- Vamos comear logo hoje? - perguntou Guilhermina, surpresa.
- Sim. No podemos perder tempo. Haver um ch beneficente no clube, e Maria Cndida vai estar l.
- Haja sacrifcio para se conseguir o que quer! - suspirou Guilhermina.
- Luis Carlos far tudo direitinho. Treinamos a exausto.
- Assim espero.
Passava das oito da noite quando Luis Carlos chegou ao clube. Deixou o carro nas mos do manobrista e dirigiu-se ao salo de convenes. O jovem havia caprichado 
no visual, estava muito bem arrumado. Havia passado pasta nos cabelos para que ficassem bem rentes  cabea. Trajava costume com corte impecvel. Estava bonito como 
nunca. Ele se dirigiu at o salo. Estava repleto de senhoras e donzelas. Havia um ou outro marido acompanhando-as no evento. Ao entrar, Luis Carlos percebeu os 
olhares de admirao vindo das moas e de algumas mes tambm. Fingiu procurar algum, at que esbarrou em Maria Cndida. 
- Oh, perdo. Estava to distrado...
- No foi nada. Est procurando algum?
- Minha me.
- Voc  Luis Carlos! - exclamou ela, surpresa.
- Sim.
- Filho de Dona Guilhermina Gouveia Penteado?
- Isso mesmo. E voc, deixe-me ver - ele franziu o sobrolho, fingindo fazer fora para reconhec-la. - Ah, j sei! Voc  Maria Cndida Henermann. Certo?
- Sou.
- Encantado.
- Prazer em conhec-lo. Nunca nos falamos antes.
- Freqentamos os mesmos lugares, temos o mesmo nvel, mas nunca nos encontramos. Sempre h uma primeira vez.
Ela suspirou.
- Que eu saiba Dona Guilhermina no freqenta mais o clube.
- Mame prefere o resguardo do lar, principalmente depois que papai partiu, daquela maneira to brutal.
- Sinto muito. Estive no funeral de seu pai.
- No me lembro de t-la visto com seus pais no funeral.
- Eu fui sozinha. Meus pais no foram porque estavam na Argentina.
- Foram dias terrveis para ns.
- E como vai sua me? Melhor? - perguntou Maria Cndida, sinceramente preocupada.
- S o tempo para ajudar a curar as feridas. 
- A perda ele um ente querido nos  muito dorida.
- Mas mame  forte. Est superando tudo muito bem.
- Ela ficou de vir?
- Sim.
- Faz muito tempo que no vejo sua me por estas bandas.
Luis Carlos fingiu preocupao. Olhava para os lados como se estivesse procurando a me.
-  a primeira vez que ela sai depois de tanto tempo reclusa. Ela me disse que estaria aqui as oito em ponto.
- So oito e quinze - afirmou Maria Cndida.
- Ela no  de se atrasar - tornou ele. - Que pena! Caso ela no venha, terei de ir embora. No sei em qual mesa vamos ficar.
- Gostaria de sentar-se aqui comigo enquanto ela no vem?
- E seus pais?
- Eles no vieram.
- Veio acompanhada de algum?
- Eu nunca gostei de sair sozinha, mas... Mas... - ela pigarreou.
- Mas o qu? - fingiu ele, pretextando interesse.
Maria Cndida baixou o tom de voz:
- Eu fao terapia. A psicloga sugeriu que eu sasse mais, procurasse fazer programas sozinha. E aqui estou.
- Voc  determinada. Gosto de mulheres assim. Maria Cndida enrubesceu, Luis Carlos percebeu e perguntou  queima-roupa:
- E o namorado?
- Eu no tenho namorado - respondeu ela, baixando os olhos.
- No pode ser!
- De vez em quando aparece um caa-dotes, mais nada. E voc, namora?
- No. Sabe como : as moas hoje em dia so muito fteis, no querem saber de conversa. S querem se agarrar a um homem e casar. Eu quero uma mulher ao meu lado 
que seja minha companheira, uma esposa com E maisculo.
- Jamais poderia imaginar que voc pensasse assim. O que falam de voc no condiz com o que me diz.
- Isso tudo  inveja. Sou muito requisitado, mas, assim que digo um "no", as meninas no suportam a dor da rejeio e tentam me malhar ele qualquer jeito.
- Desculpe. No sabia que era assim. Papai, bem, ele...
Luis Carlos a encorajou.
- Seu pai...
- Bem, ele...
- Ele no gosta de mim.  isso?
Maria Cndida sentiu o sangue arder-lhe as faces.
- E que ele l nas revistas e acredita em tudo o que dizem a seu respeito.
- Voc tambm acredita nas revistas?
Luis Carlos pousou suas mos sobre as de Maria Cndida, sustentando o olhar. Ela quase teve uma sncope. Seu corao bateu descompassado. Ainda bem que estava sentada, 
caso contrrio iria ao cho.
- Eu acredito em voc - disse ela, num fio de voz.
Ele a pegou pelo brao, com delicadeza.
- Vamos sair daqui. Quer dar uma volta no jardim? A noite est to bonita!
Maria Cndida deixou-se envolver. Passou o brao pelo de Luis Carlos e deixou-se conduzir at o jardim do clube. Sentaram-se em um banco afastado do salo. Ele delicadamente 
apanhou uma das mos de Maria Cndida e levou at a boca.
- Sua mo  to suave! To quentinha...
- Obrigada.
- E voc parece ser bastante carinhosa.
- Acha mesmo? - perguntou ela, num tom inseguro.
- Sua companhia me faz bem.
Maria Cndida no sabia o que dizer.
Estava tomada pela emoo. Nunca havia sentido isso antes. No saberia dizer o que era. Um misto de amor e desejo, como se emoes h muito tempo represadas estivessem 
prontas para emergir. A jovem estava num estado de xtase to intenso que tinha dificuldade at em engolir a saliva. Luis Carlos notou que a presa estava fcil e 
no hesitou. Era o momento apropriado. Ele respirou fundo, fechou os olhos. Em cmera lenta foi encostando seu rosto prximo ao dela, at que seus lbios se encontraram. 
Luis Carlos fez uma de suas melhores performances. Beijou Maria Cndida repetidas vezes, deixando-a inebriada de prazer. Depois, desgrudou-se dela com extrema rapidez 
e levantou de um salto. Maria Cndida estremeceu:
- O que foi?
- Nada.
- O que aconteceu? Fiz algo que o desagradou?
- No.
- Ento?
- Desculpe. Fui alm do permitido. No gostaria de avanar o sinal. Voc  moa de famlia, mulher para casar. No posso abusar. 
Ela riu-se.
- Mas no est abusando. Voc no forou nada.
Ele fingia constrangimento.
- No! No! Por favor, mil desculpas. Eu devia me controlar mais. Entretanto,  noite, a lua, a brisa suave, o cheiro das flores aqui no jardim, a sua presena...
Ela abraou-o por trs.
- Deixemos nos envolver pela magia do momento. Concentremo-nos no agora. Sua presena tambm me faz bem.
Luis Carlos estava admirado. Tudo estava indo bem at demais. Nesse momento sentiu uma ponta de remorso. Maria Cndida era terna, parecia ser uma boa moa. Infelizmente 
a vida no lhe dera beleza fsica, entretanto ela tinha l outros atributos bem interessantes. Mas ele tinha de levar o plano adiante, no podia fraquejar. Luis 
Carlos tinha vontade de sair correndo, mas lembrou-se de sua amada. Guadalupe o mataria se ele perdesse fora justo agora. Ele se metera nessa farsa pela paixo 
doentia que sentia por Guadalupe. Se fosse seguir seu instinto, jamais se prestaria a um papel desses. No dava mais para voltar atrs. Luis Carlos suspirou, mudou 
as feies do rosto. Virou-se e, com seriedade impressionante, tornou:
- Maria Cndida, sei que  loucura o que vai ouvir.
- Diga, diga, por favor.
Ele pigarreou, procurou carregar a voz de sentimento, aumentando a aflio da jovem. Por fim disparou rpido: 
- Acredito que voc seja a mulher da minha vida.
Maria Cndida inclinou a cabea para trs e fechou os olhos. Luis Carlos beijou-a novamente. Abraou-a, aspirou o perfume delicado de seus cabelos. Maria Cndida 
no era uma beldade, mas tinha l seu charme. E mulher, quando se apaixona,  como rosa que desabrocha: torna-se mais viva, mais encantadora, mais bela.  Perto da 
meia-noite, Luis Carlos chegou a casa. Por um lado estava contente, pois havia realizado o que lhe fora solicitado. Por outro lado, sentia uma pontinha de remorso. 
No queria ferir os sentimentos de Maria Cndida, mas o que fazer? Era isso ou a pobreza. A esse sentimento, Luis Carlos sentiu pequena dor de cabea. Passou a mo 
sobre a testa e adentrou sua casa. Guilhermina e Guadalupe estavam ansiosas  sua espera. Assim que ouviram o barulho do carro adentrando a garagem, levantaram-se 
ansiosas. Luis Carlos entrou sem esconder a satisfao.
- Meninas, conseguimos!
Guilhermina deu um gritinho de felicidade.
- Eu sabia que meu tesouro nunca falharia.
- Maria Cndida jamais poderia resistir aos seus encantos - ajuntou Guadalupe.
- E no resistiu mesmo. Tive de fazer muita fora, confesso. Fiquei me sentindo meio crpula. No gostaria de magoar ningum.
Guadalupe procurou ocultar a contrariedade. Agora no era momento de sentimentalismo. S faltava Luis Carlos dar para trs por conta dessa fraqueza.
- Estamos fazendo tudo por um futuro melhor.
- E os sentimentos de Maria Cndida? 
- Ela tem muito dinheiro. Aps a separao ela far terapia, poder viajar o mundo todo.
- No sei...
- Oh, corazn, no fique triste.
- Acha que vai dar certo? - perguntou Guilhermina.
Luis Carlos mudou as feies do rosto. Encarou a me com alegria e mudou o comportamento. A moa caiu feito um patinho.
- Tem certeza de que ela mordeu a isca? - inquiriu Guadalupe, apreensiva.
- Sim.
- Conte-nos tudo, tintim por tintim - sentenciou Guilhermina, chamando-o para perto dela.
Sentaram-se os trs no sof e Luis Carlos lhes contou todo o ocorrido, desde sua chegada ao clube at o passeio no jardim. Finalizou:
- Bom, depois que lhe disse que no havia mulher no mundo mais encantadora que ela, fiz questo de parar por ali e lev-la para casa. Ela dispensou o motorista, 
mas o espertinho foi nos seguindo. Comportei-me a contento. Fui perguntando sobre sua vida, nada de mais. Deixei-a em casa e pousei delicado beijo em sua face. Fiquei 
de ligar para ela amanh. Os olhos de Guilhermina brilhavam emocionados. 
- Voc  maravilhoso, meu filho. Tinha certeza de que jamais me decepcionaria.
- Eu o amo tanto! - interveio Guadalupe. - Faz todo esse esforo pela nossa felicidade...
- Voc  a mulher da minha vida. Fiz isso por amor.
Guadalupe procurou esconder a hostilidade. Tornou amorosa:
- E com o dinheiro que iremos arrancar da famlia de Maria Cndida, seremos ricos pelo resto da vida. 
- S tenho medo do Otto. O pai de Maria Cndida, pelo que sei, no  flor que se cheire.
- Ns tambm no - replicou Guadalupe, enquanto se levantava e se dirigia at o bar.
Pegou uma bebida, despejou sobre trs taas e sentenciou: 
- Brindemos ao futuro de vocs! Que consigam arrancar muito, mas muito dinheiro daquela pobre coitada.
Luis Carlos e Guilhermina levantaram-se, pegaram suas taas e brindaram. Enquanto gargalhavam e traavam estratgias de como fazer Maria Cndida apaixonar-se perdidamente 
pelo jovem, no notaram que sombras escuras danavam ao redor dos trs, envolvendo-os e alimentando-se de suas ideias negativas. Ana Paula e Claudete, a cada dia 
que passava, estreitavam a amizade. Custavam a pegar no sono, porquanto adoravam falar de suas experincias e seus planos de vida. Foi numa dessas noites que Dona 
Guiomar bateu levemente na porta. Claudete saltou rpida da cama e atendeu.
- Aconteceu alguma coisa, Dona Guiomar?
- No, meninas. No aconteceu. Eu sabia que estavam acordadas.
- Como sabia?
- Eu sei de tudo o que acontece aqui - riu Guiomar -, at o comportamento de vocs. Sei que gostam de conversar at altas horas. As outras meninas esto dormindo. 
Entretanto, algo desagradvel aconteceu h pouco e preciso da ajuda de vocs duas. Ana Paula levantou-se da cama e dirigiu-se  porta.
- Em que posso ajud-la?
- Bom este quarto que ocupam  o maior do pensionato. E, se me ajudarem, eu prometo reduzir o pagamento do aluguel pela metade.
Ana Paula e Claudete disseram ao mesmo tempo:
- Aceitamos, seja o que for. Guiomar riu satisfeita.
- Sabia poder contar com ambas. No temos mais vagas na penso.
Desde que Mirtes saiu por conta do ato tresloucado de trazer o namorado aqui na penso, as outras moas ficaram com receio de cometer o mesmo erro e tm se comportado 
muito bem. Nunca mais tive problemas de disciplina e ordem. Todavia, preciso atender a um pedido de uma grande amiga minha e vou trazer a filha dela para morar conosco. 
Meu quarto  muito pequeno, ento, caso colocssemos uma cama naquele canto... - apontou ela. Claudete correu at o canto vazio. Podemos colocar uma cama aqui, sim. 
O guarda-roupa  grande. Eu e Ana Paula no temos tantas roupas. Podemos pegar aquela cmoda grande sem uso l no poro, bem como aquela cama de solteiro, dar uma 
boa limpada e trazer as peas para o quarto. Ficar um pouco apertado, mas ser um prazer ajud-la. Guiomar emocionou-se. Tinha afeio por todas as meninas da penso, 
mas tinha carinho acentuado por Claudete e Ana Paula.
- Fico muito grata.
- Quando a moa chega? - inquiriu Ana Paula.
- Ela est l embaixo. Vou trazer um colcho de solteiro que tenho l no meu quarto sob a cama, e amanh traremos os mveis do poro. - E, dirigindo-se a Ana Paula: 
- Por favor, enquanto Claudete me ajuda a trazer o colcho e ajeitar as coisas por aqui, v fazer sala para a moa.
- Ser um prazer - anuiu Ana Paula.
Enquanto Claudete foi at os fundos com Guiomar  cata do colcho, Ana Paula botou o penhoar, calou as chinelas e desceu. Dirigiu-se at a sala de estar e no viu 
ningum. Rodou nos calcanhares, foi at a recepo. A moa estava de costas para ela. Ana Paula disse, num tom jovial:
- Boa noite.
A moa virou-se e, antes de responder, ambas deram um gritinho, tomadas pela surpresa.
- No pode ser! - exclamou Ana Paula. A garota riu a valer.
- Eu sabia que iramos nos encontrar.
- Sabia?
- Sim.
- Como? Estou estupefata - tornou Ana Paula.
- No imaginava que seria aqui nesta penso. Mas os espritos haviam me avisado.
Emocionadas, ambas se abraaram. Ana Paula no conteve o pranto.
- Tnia! Que bom rev-la!
- Fico feliz em rev-la tambm. A propsito, adorei o novo corte de cabelo.
- Mas voc no me v h tanto tempo, como pode saber que mudei meu visual? - indagou Ana Paula, hesitante. 
Tnia deu uma risadinha.
- Quando travamos aquela conversa ao telefone tempos atrs, voc mesma reclamara da aparncia. Est muito bonita e, alm disso, tenho certeza de que, se estivesse 
naquela casa, Dona Guilhermina implicaria com o corte. Afinal, voc sempre deveria manter o coque. Estou certa?
- No tenho palavras - tornou Ana Paula emocionada.
- Voc no sabe o bem que me fez naquele momento. Pensei que no fosse conseguir ter foras para sair e, no entanto, estou aqui, levando minha vida. Estou feliz. 
Sa de casa to aturdida que nem ao menos trouxe minha agenda de telefone. Quase arrisquei ligar para Maria e pedir a agenda, mas no quero mais ligar para casa.
Deu uma piscadinha.
- Ei, como me descobriu por aqui?
- Eu liguei e a Maria me disse que voc estava morando aqui. Ela lhe mandou um monte de beijos e diz que reza por voc todos os dias.
Ana Paula emocionou-se e sentiu saudades da empregada.
- Maria  to especial! Sempre tivemos uma relao muito boa. Nunca a tratei com diferena. Era como se fizesse parte da minha famlia, mais at do que minha prpria 
me e irmo juntos - asseverou Ana Paula, entre risos. - Aposto que se perguntasse  minha me ela jamais lhe diria onde eu estava.
- No tenha dvidas.
- Mas estou surpresa.
- Com o qu?
- O que faz aqui? E sua tia?
- Titia morreu semana passada. Meu primo chegou aps o funeral e j tomou conta da casa. Eu sempre me dei bem com minha tia, mas no me dou bem com os filhos dela.
- Sinto muito.
- Isso no me preocupa. Sabia que chegaria logo esse momento. Entretanto estou com pouco dinheiro. Mame fez boicote, est me pressionando a voltar, e por isso reduziu 
o valor da mesada. O que ganho como enfermeira ainda  pouco, mas s vou precisar pegar uma conduo para ir daqui da penso at o hospital.
- Ento no conseguiu nem mesmo uma vaga num hotel?
- E os hotis aceitam moas sozinhas? Os que aceitam so os do centro da cidade, e voc sabe que o nvel no  to bom assim.
-  verdade. Mas acho isso o fim da picada. Uma mulher no pode se hospedar sozinha num hotel. Ou ento  malvista por estar s. Que sociedade mais hipcrita, no?
- Sim.
- Por que no voltou para Salvador?
- No volto. Adoro minha famlia, entretanto minha me insiste no sonho de que um dia eu v para o convento das carmelitas. Eu entendi sua preocupao, sei que ela 
me quer ver muito bem. Mas no posso compactuar com isso. Sou livre e tenho o direito de fazer minhas escolhas.
- E veio parar aqui - disse Ana Paula comovida.
- Pois , minha amiga. Elas se abraaram. 
- Estou to feliz em v-la! - disse Ana Paula.
- Agora no iremos nos separar mais.
- Vamos, venha.
- Dona Guiomar arrumou um quarto? Disse que a penso est lotada.
- Voc vai ficar no mesmo quarto que eu e Claudete.
- Claudete?
- Sim, uma grande amiga. Tenho certeza de que ir ador-la.
Subiram felizes e animadas. A certa distncia, o esprito de Albertina vibrava de contentamento. Ana Paula apresentou Tnia para a amiga de quarto. A simpatia entre 
ambas foi instantnea. Tnia sentiu-se muito bem entre as trs. Guiomar sentiu bem-estar. Era muito grata  me de Tnia por ajud-la no passado. Ficara contente 
em saber que Tnia e Ana Paula eram amigas de longa data. Deixou que as trs ficassem conversando - num tom baixo para no atrapalhar as outras meninas, porquanto 
os quartos eram geminados - e foi dormir aliviada.  As meninas ajeitaram-se em suas camas e Tnia deitou-se em seu leito improvisado. Sentia-se feliz. Deitadas, 
com a luz da lua iluminando tenuemente o quarto atravs das frestas da veneziana, as trs conversavam amenidades at que em determinado momento Tnia perguntou a 
Ana Paula:
- Voc acredita em Deus?
A pergunta pegou Ana Paula de surpresa.
- Nunca pensei direito acerca do assunto. Fui educada num ambiente catlico, fiz primeira comunho e at crisma. A figura de Jesus Cristo sempre foi mais forte que 
a de Deus. E tambm jamais freqentei a igreja. Na verdade, nunca gostei muito desse ambiente. Em casa nunca discutimos religio. E, ademais, no tolero rituais.
- Mas acredita ou no em Deus?
Ana Paula fitou um ponto indefinido no teto.
- Acredito numa fora maior que nos sustenta. Acho difcil acreditar que estejamos ss. Por que pergunta?
- Somos amigas e ficamos afastadas um bom tempo.
- E da?
- E da que nada  por acaso. E de repente estamos aqui, reunidas novamente. Sinto que poderia me abrir mais com voc. 
Ana Paula inclinou o corpo e sentou-se. Acendeu o pequeno abajur sobre a cabeceira, entre as duas camas e o colcho no cho.
- Voc  como uma irm, Tnia. Nunca tive tanta afinidade com algum antes. Voc  especial, podemos contar uma com a outra, sempre. Claudete tambm  uma grande 
amiga e pode confiar nela. Todavia, por que me perguntou isso?
- Porque tive uma formao esprita e estou acostumada com assuntos que dizem respeito ao mundo dos mortos, digamos assim.
Ana Paula fez o sinal da cruz. Claudete empolgou-se:
- Eu sabia que voc era diferente. Eu tambm acredito em reencarnao. S assim pude compreender as injustias da vida.
-  verdade - ajuntou Tnia. - Tive uma educao esprita, mas mame atrapalhou muita coisa. Ao se casar com papai, ela procurou estudar mediunidade e trabalhar 
em centro esprita. Entretanto ela fazia isso mais para agradar papai. Nunca acreditou em nada. Na verdade, ela sempre sonhou em ter uma filha freira. Assim que 
minha mediunidade aflorou, papai procurou me ajudar, dando-me livros e deixando-me freqentar um centro esprita. Minha me quase teve uma sncope. Imediatamente 
correu at a igreja e suplicou por uma vaga de carmelita para mim. Ela j fazia tremendo esforo por ser casada com um simpatizante pelo espiritismo. Imagine ter 
uma filha mdium!
As trs riram. Ana Paula estava curiosa. - Ento voc  esprita?
- No sou esprita; tive uma educao esprita.  diferente. E por essa razo tambm vim para So Paulo. Eu e papai tivemos algumas divergncias.
- No acredita no espiritismo? - inquiriu Claudete.
- Acredito, sim. Fui criada nesse ambiente. E, modstia  parte, o primeiro centro esprita de que se tem notcia no Brasil foi fundado em Salvador, minha terra 
natal.
- Verdade? No sabia disso - admirou-se Ana Paula.
- Meu bisav o freqentava. Chamava-se Grupo Familiar do Espiritismo, fundado por Luiz Olmpio Telles de Menezes, em 1865.
- Isso quer dizer que parte de sua famlia  esprita h cerca de cem anos.
- Sim. 
- Mas o que a incomoda?
- Sou um esprito livre, no tenho compromisso com qualquer dogma, escola ou doutrina preestabelecida. Acredito na reencarnao, na vida aps a morte, no mundo dos 
espritos. Tenho admirao pelas obras de Allan Kardec. Sempre que posso, estou lendo um de seus livros, fonte inesgotvel de conhecimento. Mas tambm tenho atrao 
pelo Oriente, pela filosofia dos hindus. Gosto muito dos ensinamentos deles, e meu pai  kardecista ortodoxo; no aceita que eu nem mesmo fale em chacras.
- H? O que  isso?
Tnia riu gostoso. Ana Paula no entendia nada de espiritualidade e Claudete freqentava um centro esprita, mas limitava-se a tomar passes e ouvir uma ou outra 
palestra, nada mais. Tnia procurou discorrer sobre o tema da forma mais natural possvel.
- O mundo espiritual  muito complexo, muito rico, cheio de nuanas. O espiritismo nos chamou a ateno para a realidade da existncia do mundo espiritual, de outras 
dimenses de vida, mas isso no quer dizer que seja a nica escola que aborde o assunto. Eu acredito em muitas coisas, estudo, leio bastante. H muitos livros a 
respeito do mundo astral, das outras dimenses da vida, e, quanto mais aprendo, mais vou me tornando independente. No precisamos estar presos a nada, conforme nossa 
lucidez vai se ampliando.
- Gostaria de pensar como voc. Mas nunca tive provas da continuidade da vida.  difcil acreditar em algo que no existe - replicou Ana Paula.
- Eu perguntei se voc acreditava em Deus, e voc disse que sim. Entretanto, voc no o conhece, nunca o viu.
- Isso  diferente.
- No. Voc sente, sabe que est sendo sustentada por algo mais forte, que lhe transmite segurana, equilbrio. Se no houvesse as foras universais, estaramos 
vivendo num verdadeiro caos. Perceba como a vida  sbia. Est tudo certo, tudo  regido em harmonia, no cai uma folha da rvore sem autorizao dessas foras inteligentes.
- s vezes custo a crer. Na verdade, seria tudo mais fcil: saber que meus entes queridos no morreram, continuam vivos em alguma dimenso. Seria fabuloso!
- Mas . Eu tenho vidncia.
- O que  isso?
- A capacidade de ver os espritos.
Ana Paula fez o sinal da cruz, temerosa.
- Deus me livre! Voc v os espritos?
- Sim - disse Tnia com naturalidade.
- No tem medo?
- No, pelo contrrio. Agradeo  vida por ter me dado esse dom. Quando sinto e vejo espritos amigos, eu recebo suas vibraes positivas e salutares e restabeleo 
meu equilbrio. E quando vejo alguma entidade, um esprito num estado mental deplorvel, eu rezo, peo proteo, s vezes at converso. Isso me d mais responsabilidade, 
faz com que eu me sinta melhor comigo mesma. Saber que estamos separados pelo outro mundo por uma fina camada, sutil... Isso no  o mximo?
- Falando assim, parece que tudo  verdade. Mas no vejo, no escuto, no sei de nada a respeito.
- Se quiser, posso lhe emprestar alguns livros. Tenho um monte a na mala.  s escolher o tema e pronto. Material  que no vai lhe faltar para se inteirar do assunto.
- Mesmo assim. Ser que posso desenvolver alguma habilidade especial? Sinto que  tudo meio fantasioso.
- Quer uma prova?
- Como assim?
Tnia respirou fundo. Ligou-se ao seu protetor espiritual e fez pequena orao em silncio. Ao abrir os olhos, viu o esprito de Albertina passando delicadamente 
as mos sobre os cabelos de Ana Paula.
- Sua av est aqui.
O corpo de Ana Paula estremeceu.
- Minha av?
- Sim.
- No pode ser! Voc s pode estar brincando comigo.
- Jamais faria algum tipo de brincadeira nesse sentido. 
Ana Paula percebeu que Tnia falava srio, no estava para brincadeiras.
- O que voc v?
- Uma senhora de meia-idade, cabelos curtos, levemente ondulados e grisalhos. Olhos expressivos, de um verde contagiante. No pescoo, tem um colar de prolas... 
E no meio dele - ela se concentrou melhor - uma plaquinha de ouro com a letra M. 
Ana Paula imediatamente sentiu forte comoo. Seus olhos marejaram.
- Voc est descrevendo minha av Albertina, me de meu pai! - exclamou surpresa. - Eu coloquei esse colar em seu pescoo quando morreu. Lembro-me perfeitamente 
disso. Ainda arrumei briga com minha me, porque ela achava um desperdcio enterrar algum com jia to cara. Mas era da vov, tinha a plaquinha com a inicial do 
nome de meu pai, Miguel.  ela mesma!
Claudete estava com os olhos arregalados, tomada pela surpresa.
- Vov est onde? Ah, se eu pudesse v-la! - exclamou Ana Paula.
- Feche os olhos. E voc, Claudete, faa algum tipo de prece, em voz baixa.
Ana Paula obedeceu  amiga. Fechou os olhos. Claudete assentiu com a cabea. Fechou tambm seus olhos e fez sentida prece. Tnia prosseguiu num tom de voz cadenciado 
e doce:
- Ana Paula, lembre-se de sua av bem, sorridente, feliz.
A jovem assentiu. Tnia continuou:
-  assim que ela est agora. Diz que a ama muito e que vai precisar que voc se interesse pela espiritualidade. Ter muitas coisas a fazer, principalmente para 
poder ajudar seu pai.
Ana Paula abriu os olhos e fitou a amiga, aflita:
- Meu pai? Ele est aqui?
- No.
- Est onde? 
- Sua av diz que ele anda perturbado, atormentado. Precisa de muita orao e que no momento certo voc vai ser instrumento usado por Deus para ajud-lo a restabelecer 
o equilbrio.
- Eu?!
- Sim.
- Mas eu no entendo patavina de espiritualidade. 
Tnia sorriu.
- Voc no precisa entender nada.
- No? - inquiriu Ana Paula, surpresa.
- Basta o que voc tem de mais precioso e verdadeiro.
- O que ?
- O amor. Voc no tem noo do que a fora do amor  capaz de fazer. Seu amor por Miguel vai ajud-lo muito mais do que qualquer conhecimento contido num livro. 
Seu amor vai ajud-lo a se libertar das amarras da perturbao mental que ele criou e a poder seguir novo rumo, comear uma nova etapa de vida e experincias.
Ana Paula no conseguiu conter o pranto. Lembrar-se de Miguel a deixava triste, mas tambm muito emocionada, saudosa. No saberia explicar, mas sentia que ele no 
estava bem. Algo l no fundo do seu peito lhe dizia que ele necessitava de ajuda. Orava bastante, pedindo a Deus que o amparasse. A jovem imediatamente lembrou-se 
da av que tanto amara na vida. A primeira palavra que conseguiu balbuciar, quando finalmente aprendera a falar, foi "v", o que irritou Guilhermina sobremaneira. 
A ligao entre ambas fora especial, permeada de amor, carinho e respeito mtuos. Ana Paula sentiu muita saudade da av querida. Nesse momento, o esprito de Albertina 
pousou delicado beijo em sua festa, fez gracioso gesto com a cabea agradecendo a Tnia, passou delicadamente a mo sobre seus cabelos e os de Claudete. Depois, 
desapareceu no ambiente. Em seguida, as trs adormeceram e tiveram agradvel noite de sono. Naquela mesma noite, algumas horas antes, Odcio terminava seus trabalhos 
no centro esprita em que era devotado medianeiro. Fez os agradecimentos aos espritos amigos que o ajudaram e saiu contente da sala de passes. Foi at a pequena 
cantina e serviu-se de um copo de gua. Um companheiro veio correndo at ele. 
- Puxa, pensei que havia ido embora.
- Estou de sada. 
- Durval quer conversar com voc ainda hoje.
- Hoje?
- .
- Impossvel. Terminei tarde o trabalho. Tive muita interferncia espiritual na sala de passes. Estou cansado, corpo quebrado, e quero ir para casa.
- Se eu fosse voc, iria at a sala do Durval.
Odcio balanou a cabea para os lados.
- Amanh preciso acordar cedo para trabalhar. Pensam que  fcil ter de sustentar famlia e trabalhar como voluntrio em centro esprita?
-  melhor conversar com o homem. Ele no est l satisfeito.
Odcio exalou suspiro de contrariedade. Estava cansado daquele rapaz, o Durval. Novato, trinta anos de idade, acreditava ter o rei na barriga. Desde que o pai lhe 
dera o controle do centro, muitos estavam descontentes com as mudanas ali ocorridas. Odcio julgava o rapaz inexperiente para dirigir um centro esprita daquele 
porte. Na verdade, Odcio estava zangado desde que Durval fora nomeado diretor. Como trabalhava na casa esprita havia mais de quinze anos e era tido em alta conta 
por todos os trabalhadores, julgava-se no direito de assumir as tarefas assim que Claudionor no estivesse mais em condies de trabalhar. Ficou muito chateado quando 
soube que a direo iria para as mos do filho. E ainda por cima do filho caula, ora, pois! Ele rodou nos calcanhares e foi bufando at a sala de Durval. Respirou 
fundo, procurando ocultar a contrariedade. Bateu na porta e, ao ouvir a permisso de entrar, girou a maaneta e meteu a cabea para dentro.
- Posso entrar mesmo?
O rapaz sorriu e fez sinal com as mos.
- Entre, por favor. Odcio concordou. Entrou.
- Feche a porta e sente-se.
Odcio obedeceu e sentou-se em frente ao rapaz. Era repulsivo ter de aturar ordens de algum jovem e inexperiente. Durval foi direto ao ponto:
- Faz algum tempo tenho notado grande perturbao na sala de passes que voc dirige.
- De fato isso  verdade.
- O que est acontecendo?
- O que est acontecendo? Eu  que pergunto - replicou Odcio em tom irnico.
Durval permaneceu em silncio. Odcio procurou manter um tom natural:
- Est difcil para eu manter o equilbrio naquela sala. Sabe que a sala de passes que dirijo est aberta ao pblico em geral. Vem gente de todo tipo, com toda sorte 
de problemas. No  fcil lidar com tanta gente perturbada espiritualmente. E, ademais, os trabalhadores da sala no me toleram. 
- No o toleram? 
- No. A Meire nunca gostou de mim. O Epaminondas tambm no vai muito com a minha cara. O nico com quem d para ter uma conversa agradvel  o Orlando.
- Voc, como dirigente, tem a responsabilidade de chegar meia hora antes do trabalho e, juntamente com os companheiros da sala, fazer a vibrao e, em sintonia com 
os espritos da casa, preparar o ambiente para que interferncias de mentes encarnadas e desencarnadas No penetrem no recinto. Noto que tem chegado sempre s sete 
horas, bem em cima do horrio de abertura da cmara de passes. No h preparo adequado para o incio dos trabalhos.
- Fazer o qu?
- Chegar no horrio, suponho.
- Trabalho para sustentar minha famlia. Fao o impossvel, mas ultimamente o trnsito tem piorado. Pego duas condues para chegar do trabalho  minha casa. Mesmo 
o centro ficando perto de casa, no consigo chegar a tempo.
- Infelizmente temos horrios a cumprir. Voc sabe que os espritos que trabalham aqui na casa so muito rgidos com os horrios.
Odcio deu uma risadinha.
- Os espritos podem se dar ao luxo de horrios rgidos porque no pegam trnsito. Estou encarnado, e no  nada fcil viver nesta dimenso. Fao o que est no meu 
limite. 
- No entanto a sala precisa ser preparada, no mnimo, meia hora antes.
- No posso fazer nada.
- Ento terei de fazer mudanas.
- H mais de dez anos trabalho na mesma sala e nunca houve problema.
- Mas agora est havendo problema.
- Na poca de seu pai, nunca levei reprimendas.
- Os tempos so outros. Eu me comprometi com a nova equipe espiritual. As coisas vo mudar por aqui.
- No gosto de mudanas - tornou Odcio, secamente.
- Poderia trabalhar no sbado ou no domingo.
- Estou acostumado com as teras e quintas-feiras.
- Entretanto, se o trnsito o atrapalha...
- Faz muitos anos que mantenho esta rotina, Durval. No gostaria de alter-la.
- Mas se no est conseguindo chegar a tempo...
- No prometo nada, mas farei o possvel. Vou tentar.
Durval fitou-o com seriedade. 
- Faz tempo que eu e os espritos responsveis pela cmara de passes estamos de olho em voc.
- De olho em mim? - perguntou Odcio, surpreso.
 - Sim. A interferncia na sala  causada pela sua prpria invigilncia. Voc no ora ao chegar, no se desliga das energias desagradveis que se grudaram no seu 
campo ao longo do dia.
- Mas a vida a fora no  fcil.
- Quantas vezes devo repetir que em dia de trabalho espiritual todos devemos acordar ligados com os nossos guias? Isso deveria ocorrer todos os dias, mas nos dias 
de trabalhos espirituais no podemos vacilar. Os mentores da casa abrem nossos canais medinicos. Tornamo-nos mais sensveis. Temos de ter mais controle interno. 
Necessitamos manter o equilbrio, manter somente bons pensamentos.
Odcio mordeu os lbios com raiva. Aquele pulha No entendia nada da vida. No sabia o que era ter de sustentar uma famlia, labutar o dia inteiro desdobrar-se em 
mil e ainda, voluntariamente, dedicar-se ao trabalho espiritual. Durval era filhinho de papai, no precisava camelar como ele. Tudo ficava mais fcil. Quanta falta 
de considerao, pensou.
- Eu tento ficar em equilbrio, mas  difcil.
Durval foi categrico:
- Estamos fazendo mudanas. Os trabalhadores antigos passaro por reciclagem. Voc faz parte do time antigo e, portanto deve comear o curso de reciclagem espiritual. 
- Curso de reciclagem espiritual...
- Sim.
- Eu no preciso estudar.
- Vai precisar.
- Quando?
- Todo sbado - tornou Durval, paciente. 
- O sbado eu tiro para fazer servios de manuteno na minha casa, fazer compras com minha esposa, lavar o quintal...
- Se quiser continuar trabalhando conosco, dever fazer o curso.
- Quem vai dar o curso?
- Ele ser dado por mim e pelo mentor da casa.
- Vai ficar difcil vir todos os sbados. No sei se poderei cumprir.
- Lamento informar que, se no fizer o curso, no poder mais trabalhar na casa.
- Mas como?! Trabalho aqui h mais de quinze anos. Nunca faltei um dia que tosse.
- Mudana, Odcio. Outros tempos.
- E voc vem me impondo uma coisa dessas? - perguntou Odcio, nervoso.
- No estou impondo nada. Estamos simplesmente mudando, evoluindo, de acordo com a orientao da espiritualidade maior.
- No posso concordar com isso.
Durval estava imperturbvel. Seu semblante permanecia sereno, tranqilo.
- Sei que somos resistentes s mudanas, mas um dia temos de derrubar as barreiras da resistncia e aceitar o novo.
Odcio levantou-se impaciente da cadeira.
- Vocs no vo mais s favelas entregar cestas de alimentos.
-  verdade. No entregamos mais as cestas.
- O Ciro me falou, no pude acreditar. Isso  desumano.
- Esse  o seu ponto de vista.
- Fiquei revoltado.
- Eu e os espritos da casa concordamos em parar de entregar as cestas.
- Os espritos do bem jamais fariam uma barbaridade dessas.
- Voc enxerga assim. Eu vejo por outro lado.
- E h outro lado para enxergar?
- Claro!
- Vendo essa gente humilde morrendo de fome, sem a nossa ajuda?
- Odcio, veja bem: quanto mais fazemos, mais esse pessoal da favela fica encostado. E menos fazem por si. Concordo que a ajuda aos necessitados  importante, mas 
eu prefiro trabalhar na promoo do ser humano. Ajudar sempre, mas que tambm eu receba algo em troca.
- O que pode querer em troca de um pobre-diabo favelado e desempregado?
- Reparos aqui no centro. Esta casa est sempre precisando de manuteno. Dou uma cesta de alimentos e em troca recebo um servio de eletricidade, de encanamento, 
uma varrio de rua. Eu propus isso aos favelados e eles No concordaram. Querem tudo de graa, de mo beijada. No vou mais compactuar com esse paternalismo barato, 
que no leva a nada.
- Isso  humilhante.
- Trabalhar  humilhante? Desde quando? Eles no tm culpa.
Durval sorriu.
- No estou falando em culpa. Entretanto, tudo o que  de graa no tem valor. As pessoas carecem ser consideradas. O trabalho, qualquer que seja, dignifica o ser 
humano.
- No concordo com sua linha de raciocnio.
- Mas esta  a nova linha de raciocnio pelo nosso centro. Estamos crescendo e mudando. E muitas outras coisas vo mudar.
- No posso crer.
- Espero v-lo no curso no prximo sbado - finalizou Durval.
Odcio retirou-se irritado. Nunca tinha ouvido tantas barbaridades em toda a vida. Muito provavelmente, Durval devia estar possudo por alguma entidade do mal, que 
queria derrubar aquele centro, to conceituado na cidade, idolatrado por muitos e tido como exemplo por muitos espritas. 
Antes de Odcio sair, Durval sentenciou:
- Tem mais uma coisa.
- Pode dizer. 
- O curso ter durao de quatro sbados, e enquanto estiver fazendo o curso no poder trabalhar na sala de passes.
- H?
- Aqueles que estiverem em curso vo fazer tratamento na sala dois.
- Aquela em que ps uma plaquinha escrita Equilbrio Emocional!
- A prpria.
- Eu no preciso disso. No sou um desequilibrado emocional.
- So as novas ordens. Ou voc as segue...
- Ou? - indagou Odcio, irritado.
- Ou procure outro lugar para trabalhar, um centro esprita que tenha mais a ver com voc. Odcio, voc  livre para fazer o que quiser. Agora, por favor, pode ir. 
Eu o espero sbado, caso escolha continuar conosco.
Odcio saiu e bateu a porta com fora. Durval meneou a cabea para os lados. As pessoas que frequentavam o centro estavam adorando as novas mudanas. Os tratamentos 
diferenciados, as consultas, as triagens, tudo estava agradando. Somente uma ala dos trabalhadores, a dos mais antigos,  que estava reticente e no queria mudar 
de jeito algum. Durval sabia disso e, amparado pelos dirigentes espirituais da casa, fez sentida prece e pediu que o ajudassem a manter o equilbrio e conseguir 
fazer as mudanas to necessrias quele centro esprita. Odcio estugou o passo e saiu bufando. Orlando veio correndo atrs.
- Ei, voc esqueceu seu jaleco na cantina.
Odcio virou-se e apanhou o casaco a contragosto.
- Obrigado.
- Nossa! O que aconteceu?
- Nada.
- Como nada? Voc est irritado, com o cenho fechado.
- Aquele miservel do Durval.
- O que deu nele?
- Ele me paga!
- O que ele fez a voc? - perguntou Orlando, preocupado.
- Me tirou da sala de passe.
- Voc? No acredito!
- Nem eu - tornou Odcio, resmungando.
- Voc dirige aquela sala h tantos anos...
- Pois . Para ver a ingratido. Disse que tenho de fazer um curso que vai comear sbado e que enquanto estiver fazendo o tal curso no poderei trabalhar.
- Isso  absurdo! No podem fazer isso com voc. E quem vai tomar conta da sala de passes?
- No fao a mnima ideia. Mas a tem dedo do Epaminondas. Ele sempre sonhou em dirigir aquela sala. Deve ter feito conluio com o Durval. Eles tm a mesma idade. 
No respeitam os mais velhos. 
- Voc no est exagerando? - inquiriu Orlando em tom apaziguador. - O centro necessita passar por mudanas.  ordem dos espritos.
Odcio iria responder, mas outro companheiro, Ismael, ao ouvir a conversa, aproximou-se e retrucou:
- Essa gerao no nos respeita mesmo. Estou pensando em sair daqui e ir para outro centro. Acredita que no vo mais distribuir cestas de alimentos para os coitados 
da favela?
- Isso foi demais da conta. Coitadas daquelas crianas - tornou Odcio, voz pesarosa.
- Fiquei pasmo quando soube da novidade - retrucou Ismael.
Orlando meneou a cabea para os lados.
- No seria melhor fazer uma vibrao positiva para o Durval?
- Vibrao positiva? - inquiriu Ismael, notadamente em estado de revolta.
- Sim. Um dirigente de casa esprita precisa de nossa vibrao. Um dirigente  alvo de espritos perturbados e geralmente  atacado por falanges imensas. Todo dirigente 
que se preza em fazer o bem sofre determinados tipos de ataque. Por essa razo precisamos nos manter num estado positivo e emanar essa vibrao para o Durval.
- Ele deve estar possudo - disse Ismael. Sinto que energias negativas o envolvem.
- A minha mediunidade no me engana - tornou Odcio.
Orlando nada disse. Pelo contrrio, mentalmente enviou energias de equilbrio ao dirigente do centro e aos dois companheiros que resistiam em aceitar as mudanas 
propostas. Odcio e Ismael saram do centro e prosseguiram a conversa. Esqueceu-se de agradecer pelo trabalho espiritual, esqueceram-se de que estavam numa casa 
de orao. Ambos nem se davam conta de como eram presas fceis da espiritualidade inferior. Enquanto dobravam a curva da esquina, duas entidades riam a valer nas 
cercanias do centro. 
- Esses dois esto no papo. Um vai sair e o outro ns vamos encher cada vez mais a cabea de minhoca. Ele vai ser o nosso elo com essa casa de luz. Vamos ver quanto 
tempo vai durar.
-  isso mesmo. Vamos derrubar esse centro. E sem falange nenhuma. Vamos usar os prprios trabalhadores. Colocar um contra o outro...
Os dois espritos caram na gargalhada. O plano deles parecia ter tudo para dar certo. Odcio chegou a casa, semblante carregado. Adlia estranhou: 
- O que foi?
- Muito trabalho.
- Atendeu muita gente hoje, querido?
- Sim. Aquele centro consome minhas energias.
- Quer um copo de leite morno?
- Hum, hum. Estou quebrado, podre de cansado. E morrendo de dor de cabea.
Adlia levantou-se, desligou a televiso.
- Vou pegar uma aspirina.
- Por favor.
Ela dirigiu-se at a cozinha. Voltou com um copo de leite e um comprimido. Deu-os ao marido.
- J lhe disse para no se envolver tanto nos trabalhos espirituais.
-  minha misso, oras.
- Voc d muito de si, pobre coitado - disse Adlia, entristecida.
- Voc tambm - retrucou-o.
- Eu vou uma vez por ms para ajudar a preparar as cestas.
- Voc ia. No vai mais.
- Por qu?
- Durval cortou as cestas aos favelados.
- Jura? - indagou Adlia, estupefata.
- Sim. Esse centro est de pernas para o ar.
- Ento pare de freqent-lo.
- Fazer o qu? Eu amo meu trabalho no centro.
- Mas est cada dia mais cansado. E essas mudanas todas... Ser que Durval no est sendo vtima de perturbao espiritual?
- Acredito que sim. Ele  desumano.
Odcio engoliu o comprimido. Tomou um gole do leite morno.
- Vamos nos deitar.
- Vamos subir. Est farde - ajuntou Adlia.
- Na cama eu lhe conto os absurdos que fui obrigado a ouvir nesta noite.
Odcio e Adlia subiram abraados. Deitados, Odcio ia relatando  esposa a conversa spera com Durval, os desentendimentos, as reprimendas. A esposa ouvia tudo 
com pena e comiserao.
- Esse menino deve estar perturbado - disse ela, enquanto acariciava a fronte do marido.
Odcio era um trabalhador incansvel. Servia  espiritualidade chovesse ou fizesse sol. Estava sempre a postos. Chegava at quebrado em casa, cansado, coisa da mediunidade, 
de um verdadeiro seareiro de Jesus acreditava ele. Aps a narrativa angustiante, os dois adormeceram. Tiveram uma noite de sono agitado e, logo que amanheceu Odcio 
acordou cansado, corpo alquebrado e, como j vinha acontecendo havia algum tempo, esqueceu-se de fazer suas oraes, deixando a mente conturbada e pronta para receber 
energias negativas as mais diversas, no decorrer do dia. Conforme os dias passavam, Maria Cndida sentia-se cada vez mais enamorada, atrada por Luis Carlos. Em 
matria de seduo, o jovem era rpido no gatilho. Em pouco mais de trs meses cumprira o prometido, e agora Maria Cndida estava caidinha por ele. Monitorado por 
Guilhermina, sabia que no podia deixar que Otto desconfiasse de seu envolvimento com a garota. Ainda no. Assim, Luis Carlos combinava o local dos encontros. Podia 
ser um cinema, o clube, uma confeitaria, um bar danante. Maria Cndida estava entusiasmada e, quando seus pais lhe perguntavam sobre a sbita mudana de comportamento, 
ela dissimulava e dava uma desculpa qualquer. Zara comeou a preocupar-se. Assim que se encontraram na confeitaria, no finzinho da tarde, logo aps os cumprimentos, 
Luis Carlos solicitou:
- Gostaria de marcar um jantar para conhecer seus pais. Maria Cndida estremeceu. 
- Ainda no.
- Por que no?
- Preciso de tempo para conversar com eles.
- Estou gostando de voc, Maria Cndida. Adoraria poder passar alguns momentos ao seu lado em sua casa, ficar ntimo dos seus. Afinal de contas, no somos apenas 
bons amigos.
Ela baixou os olhos envergonhada. Luis Carlos tomou as mos dela e carinhosamente levantou seu queixo com o indicador. Perguntou novamente, olhando-a nos olhos:
- Acredito sermos mais que bons amigos. Ou estou errado?
Maria Cndida meneou a cabea para os lados, em sinal negativo.
- No est errado.
- Que bom! - suspirou ele.
- Acredito que tenhamos passado dessa fase, no?
- Parece que sim, no sei...
- Desde o momento em que a vi, sabia ser voc muito especial, mais que uma simples amiga.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Luis Carlos tomou-a em seus braos e sussurrou em seu ouvido:
- Maria Cndida, estou apaixonado. Voc  a mulher da minha vida.
Ele sentiu o corpo dela estremecer levemente. Inclinou seu rosto, e seus lbios se encontraram. Beijaram-se longamente. Maria Cndida sentiu um calor apoderando-se 
de seu corpo. Desvencilhou-se de Luis Carlos com delicadeza.
- O que foi que aconteceu?
- No consigo concatenar minhas emoes.
- Por qu? - perguntou ele.
- Nunca senti nada igual antes.
Luis Carlos procurou demonstrar interesse. Com ar que procurou tornar natural, disse:
- Sinto que vou explodir de felicidade, tamanho o amor.
- Eu tambm o amo, Luis Carlos. Contudo tenho medo, no sei dizer.
- Como assim?
- Por mais que me sinta bem ao seu lado, tenho s vezes sensao de pnico, de algo ruim que est a caminho.
- No estou entendendo.
- Eu no sei explicar. Eu sinto algo, uma dor que oprime meu peito.
- Ser que no gosta o suficiente de mim?
- No diga isso! - protestou ela.
- Mesmo?
- Eu o adoro.
- Ento o que ?
- Nunca um homem me tratou desse jeito.
- Que jeito? - inquiriu ele, procurando auferir o que ia ao ntimo da jovem.
Maria Cndida suspirou emocionada. Encarando-o nos olhos, tornou:
- Voc  carinhoso, amoroso, me trata com respeito, me valoriza. Voc  um perfeito gentleman, o tipo de homem que qualquer mulher ficaria louca para ter nos braos. 
E alm de tudo  muito bonito.
Ele esboou leve sorriso. Sabia ser tudo isso e sentia orgulho de si. A ponta de remorso que sentira no incio diminura e agora ele sentia maior desenvoltura nos 
galanteios. Maria Cndida continuou:
- Tenho medo de que meu pai interfira e no deixe o namoro seguir adiante.
- Por que diz isso?
- Papai sempre foi intransigente. Nunca deixou que ningum se aproximasse de mim. Acredita que, por eu ser filha nica e no ser bonita, os homens vo querer se 
aproveitar ele mim.
- Seu pai  cego!
- Eu tenho espelho em casa, Luis Carlos. No estou mentindo.
- Voc no  uma artista de cinema americano, todavia tem l seu charme. Gosto de seu nariz, de sua boca carnuda.
Maria Cndida suspirou emocionada. Luis Carlos a tirava dos eixos com esse blblbl.
- Eu sou rico, no preciso de seu dinheiro.  disso que tem medo?
- Talvez.
- Escute querida. Eu a amo e me sinto atrado por voc.
- Est sendo sincero?
- Claro! O que posso fazer?
Maria Cndida retrucou com voz entristecida: 
- Alguns anos atrs, eu me apaixonei por um moo e papai ficou desconfiado. Contratou detetives e descobriu que a famlia do rapaz estava quebrada,  beira da falncia. 
Quando o desmascaramos, ele me ofendeu tanto! Papai me prometeu que, daquele dia em diante, ficaria de olho em quem quer que se aproxime de mim.
- Seu pai pode ir atrs de mim e botar detetive nas minhas costas. Vai descobrir que sou rico, moro com minha me, minha prima e estou me preparando psicologicamente 
para voltar a estudar. Quero montar meu prprio escritrio de advocacia no futuro. E, de mais a mais, sou praticamente enteado do Ramrez, homem rico e influente. 
Por que precisaria de seu dinheiro?
Sua cabea pendeu para os lados.
- Papai vai ter de aceit-lo.
- Eu converso com ele.
- Ele sempre desejou minha felicidade. No poder me impedir de casar com voc.
Luis Carlos fingiu cara de susto.
- Casar?!
Maria Cndida enrubesceu. Baixou os olhos envergonhada. Havia falado mais do que devia.
- Oh, desculpe! No foi o que quis dizer...
Luis Carlos pousou delicadamente a mo em seu queixo e levantou seu rosto ainda ruborizado.
- Ei, por que ficou assim? 
- Falei demais. No deveria.
- No deveria?
- No. Eu o conheo h alguns meses, mas nunca senti isso antes por um homem. Eu o amo tanto que seria capaz de largar tudo e viver para sempre ao seu lado.
-  mesmo?
- At fugir, se fosse necessrio.
Isso ia contra o plano traado por Guadalupe. Se ela fugisse, ou mesmo criasse desavenas com o pai, poderia correr o risco de ser deserdada. Maria Cndida no podia 
em hiptese alguma ser deserdada. Luis Carlos precisava demov-la de uma loucura dessas e, aliado a Guadalupe, sabia que Otto no se oporia ao casamento. Mas ele 
tinha dificuldade em agir sozinho. No sabia lidar com desvios no caminho. Seguia um roteiro traado por Guadalupe e sua me, e se perdia quando o roteiro saa da 
linha.
- Quero muito conhecer seu pai e sua me - tornou ele, voz doce.
- Acha que est pronto para encar-los?
- Sim. Quero que tirem qualquer impresso ruim que possam ter de mim.
Maria Cndida pensou por instantes.
- Vou marcar para o prximo sbado. O que acha?
- S l? Temos a semana inteira.
- Preciso de tempo. Quero preparar o terreno. Preciso conversar com mame e ver se ela convence papai. Me de esse tempinho.  Prometo que tudo vai dar certo. E uma 
semana passa bem rapidinho.
- Est bem. Se for para o nosso bem, eu espero.
Luis Carlos chamou o garom, fez o pedido e ficaram os dois, mos dadas, fazendo planos para o futuro. Maria Cndida estava cada vez mais apaixonada. Mesmo com o 
ligeiro incomodo no peito, acreditava ser aquilo algum resqucio das sensaes desagradveis que passara quando descobriu que Augusto nunca gostara dela, mas to 
somente de seu dinheiro. Maria Cndida tinha srios problemas de aceitao, era-lhe difcil trabalhar na sua auto-estima. A decepo com Augusto ainda lhe feria 
o corao. E agora aparecia Luis Carlos para lhe dizer que no precisava de seu dinheiro e que estava apaixonado por ela. Isso s podia ser sonho. Ao chegar a casa, 
Maria Cndida encontrou Zara lendo uma revista de moda na sala de estar.
- O jantar ser servido logo. V lavar as mos.
- Obrigada, mame, mas venho da confeitaria e acabei de tomar um sorvete. No sinto fome.
Zara levantou-se incomodada. De uma hora para outra a filha saa sem avisar, e voltava sempre com largo sorriso nos lbios. S podia ser homem. Ela procurou investigar. 
- Filha, o que est acontecendo? 
- Nada.
- Como nada? Voc sai quase todos os dias...
- E da?
- Da que volta tarde, no diz aonde vai.
- A terapia me ajudou bastante. Zara irritou-se.
- Faz mais de ms que parou de fazer anlise. Voc mudou. Maria Cndida procurou contemporizar.
- Novos amigos. Voc e papai sempre insistiram em que eu arrumasse amigos, aumentasse meu crculo de relacionamentos.
- De fato, mas...
- Ento, mame, pois  o que estou fazendo.
- Que amigos so esses?
- Ora, amigos, me!
- Por que no os traz aqui em casa?
- Para qu?
- Para que eu e seu pai os conheamos - declarou Zara, preocupada.
- Ainda  cedo para isso.
- Maria Cndida, voc  minha filha. Minha nica filha.
- E?
- Eu a conheo como a palma de minha mo.
- Mame...
Zara deixou de rodeios. Perguntou de pronto:
- Vamos, me diga, quem ?
- Ora, mame, no  nada, ningum.
- Diga-me quem  o moo.
Maria Cndida respirou fundo. Sabia que seria praticamente impossvel dobrar a me. Zara no iria sossegar enquanto ela no falasse. Talvez agora fosse o momento 
oportuno. A jovem no teve alternativa. Puxou a me pelo brao e a conduziu at o sof. Sentaram-se e recostaram-se nas almofadas. Maria Cndida pousou suas mos 
na da me.
- No adianta eu esconder nada de voc.
- No adianta mesmo.
- Voc me conhece bem.
- E como! E por que deveria esconder?
- No sei talvez insegurana.
- Por qu? Est fazendo algo que pudesse me causar vergonha?
- Jamais! No  isso.
- Ento no tem com o que se preocupar.
- Pois bem.
- Me conte: o que est se passando? - perguntou Zara, apreensiva.
Maria Cndida baixou os olhos envergonhada e disparou:
- Bom, na verdade, eu conheci um rapaz.
Zara mordeu levemente os lbios. J haviam passado por situao semelhante no passado. Maria Cndida apaixonara-se perdidamente por Augusto, rapaz bonito, de famlia 
riqussima, porm falida. Havia sido tudo armao. O rapaz aproveitara-se da insegurana da moa e, no tivesse o detetive descoberto  trama srdida montada pela 
famlia do rapaz, talvez Maria Cndida estivesse vivendo dias de penria.  Zara sentiu uma leve pontada no peito, uma sensao desagradvel. Em todo caso, no podia 
sentir-se assim toda vez que a filha se apaixonasse por algum, coisa rara tambm de acontecer. Antes que pudesse dar continuidade ao fluxo de pensamentos, Maria 
Cndida interveio aflita:
- Sei no que est pensando.
- Sabe?
- Sim, mame. No triste episdio com Augusto.
- E disso que tenho medo. No gostaria de v-la novamente sofrendo por algum que no a ama de verdade, que tripudia sobre seus sentimentos mais nobres.
- Desta vez  diferente.
- Tem certeza?
- Tenho - respondeu Maria Cndida com convico. - Eu tambm pensei a mesma coisa. Achei que fosse mais um caa-dotes atrs de mim.
- Ainda sinto raiva quando me lembro de Augusto. Ele quase nos dobrou. Se seu pai no tivesse colocado um bom detetive atrs daquele moo, talvez hoje voc estivesse 
presa a um casamento sem amor, vivendo tristemente, sustentando um p-rapado. - Agradeo a vocs por isso. Sei que me amam - disse a jovem, pousando delicado beijo 
na mo da me.
- Claro que a amamos.  nossa filha adorada.
- Agora  diferente, me. Pode acreditar. 
- Quem  ele?
- O moo? - perguntou Maria Cndida, aflita.
- Sei quando est apreensiva, com medo. Boa coisa no pode ser. Quem  o rapaz, Maria Cndida?
- Luis Carlos.
- Tem sobrenome?
- Tem, sim.
- Maria Cndida, estou ficando nervosa. O nome todo, de uma vez.
A jovem respirou fundo. Por fim disparou: 
- Luis Carlos do Amaral Gouveia Penteado.
Zara levou a mo  boca.
- No pode ser!
-  ele, sim, mame.
- O filho de Guilhermina e Miguel?
- Sim, ele mesmo - tornou ela, animada.
- No! Aquele moo  muito requestado, tem todas as mulheres aos seus ps.
Zara levantou-se e apanhou uma revista sobre a mesinha. Folheou e em seguida entregou-a a filha, indicando a pgina e a foto.
- Leia Maria Cndida.
- O que ?
- Faa o favor de ler embaixo da foto.
Maria Cndida leu a nota. Era uma foto de Luis Carlos, e a matria falava sobre os solteiros mais cobiados do momento.
- Isso  fantstico. Ele pode sair da lista. 
- No, minha filha. 
- O que quer dizer, mame?
- Eu a amo muito, e por isso no vou maneirar o tom.
- Pode falar.
- Por que esse rapaz to rico e to bonito iria cair de amores por voc?
- Porque me ama certo?
- No. Lembre-se de Augusto.
- No d para compar-los, mame.
- Quer viver nova decepo?
Maria Cndida baixou os olhos. No fundo sentia a mesma coisa, sabia no ser nem um pouco atraente. Entretanto Luis Carlos era rico, no precisava de dinheiro; s 
podia estar mesmo interessado nela. Os contos de fada tambm podiam acontecer na vida real, acreditava a moa. Zara prosseguiu:
- Acorde Maria Cndida.
- Ele  rico, no precisa de nosso dinheiro.
- No sei se esse rapaz est to bem financeiramente quanto aparenta.
- H alguma nota depreciativa sobre ele?
- Nunca li - replicou Zara em tom spero.
- Voc sabe que em sociedade tudo se cria, a imprensa escreve aquilo que melhor lhe convm. Guilhermina  temida por um punhado de jornalistas, isso eu sei. Ela 
pode pedir para colocar qualquer nota que seja sobre ela ou o filho. Quem nos garante que tudo o que esteja escrito a seja verdade?
- Luis Carlos me garantiu ser rico. Disse-me que depois que o pai morreu... 
- O pai dele se matou - disse rispidamente Zara.
- Certo. Entretanto, a me dele est para se casar com um rico empresrio.
- Rico empresrio? Todos sabem da fama do Ramrez. Ele est envolvido com prostituio e jogos clandestinos.  dinheiro sujo, isso sim.
- Luis Carlos no tem nada a ver com isso. Se o dinheiro  sujo ou no, eu no sei, mas ele no est comigo por conta de meu dinheiro.
- Quem garante isso?
Luis Carlos me garantiu ser rico. Acredito nele, mame.
- Quando o pai dele se matou...
Maria Cndida rompeu em soluos.
- O que tenho a ver com isso? Por que acha que os homens s se aproximam de mim por causa do dinheiro?
- No se trata disso, minha filha.
- Eu tambm tenho outros atributos. Sou inteligente, culta, sensvel.
Zara abraou-se  filha.
- Sei disso, meu amor.
Maria Cndida chorava e falava ao mesmo tempo, as palavras entrecortadas pela comoo.
- Tenho direito a ser feliz, mame.
- Sim, claro.
Zara alisou os cabelos da filha, esperou que Maria Cndida ficasse mais calma. Depois, ajeitou-a contra o peito. Procurou dar um tom amvel na voz.
- No fundo, ambas sabemos que um homem se interessa primeiramente pelos atributos fsicos de uma mulher. Rarssimas so s vezes em que acontece de o homem se apaixonar 
sem se sentir atrado fisicamente. E a lei.
- Mas cada caso  nico, no  mesmo? Eu sou boa de conversa. Como nunca fui muito de sair, fiquei muito tempo em casa lendo, estudando. Converso sobre tudo. Vai 
ver Luis Carlos no gosta de garotas fteis, que existem a aos montes. Prefere as inteligentes, como eu.
- Pode ser filha. Mas tanto voc quanto eu sabemos que a aparncia conta bastante.
- E da?
- Infelizmente Deus no a agraciou com a beleza fsica.
- E terei de amargar meus dias feito uma solteirona, sem direito a amar, porque Deus errou na hora de fazer a minha forma?
- No estou falando isso. Claro que h homens que se interessam por outros atributos da mulher que no o fsico. Mas no acredito que esse rapaz esteja apaixonado 
somente pelo seu intelecto.
- No  justo.
- O qu?
- Ser rica e feia.
- Preferiria ser pobre e bonita? - Talvez. No sei. Nunca me imaginei sem dinheiro. Nasci e cresci rica. s vezes tenho vontade de pegar um profissional e entregar 
meu rosto em suas mos. Mas a vem o medo de ficar pior.
- Bobagens! Eu lhe falei vrias vezes sobre plstica. A cirurgia plstica hoje faz maravilhas. Eu e seu pai inclusive queramos lev-la para a Europa.
- No preciso de Europa. Temos no Rio de Janeiro o melhor cirurgio plstico do mundo, o Dr. Ivo Pitanguy.
- Tenho amigas que fizeram plstica com ele. Elas o recomendam. Entretanto ainda prefiro os profissionais europeus. E por que ento no resolve se dar valor e mudar 
a aparncia?
- Voc sabe que tenho pavor de cirurgia, no posso ver sangue. Ficar cheia de ataduras, cicatrizes, no. E, por outro lado, posso ficar pior. No, definitivamente 
no me sinto segura para encarar uma cirurgia plstica. E no meu caso seria de grande porte, Teria de fazer vrias.
- Tambm no exagere. Voc no  um monstro - tornou Zara, acariciando o rosto da filha.
- Me sinto um monstro, s vezes. E, agora que Luis Carlos apareceu, no abro mo dele.
- Seu pai vai proibir esse namoro.
- No vai! 
- Voc conhece o gnio de seu pai. Ele no vai permitir ainda mais sabendo quem  o novo pretendente.
- Pode me ajudar?
Zara exalou profundo suspiro.
- Posso conversar com seu pai.
- Voc consegue dobr-lo, mame.
- Depende. Em todo caso, vamos marcar um jantar para conhecermos melhor o rapaz. - Sem conversar com papai?
- Fao de conta que no sei quem . Seu pai pode ser tudo, menos grosseiro. Vai receber o rapaz em nossa casa. Qualquer comentrio ficar para depois do evento, 
no fim de noite.
- Prefiro assim, mame.
- Afinal, estamos julgando-o sem direito a defesa.
- Obrigada.  isso mesmo que queremos.
Marcar um jantar, e gostaria que fosse ao prximo sbado.
- Rpido desse jeito?
- . Assim voc e papai vero que Luis Carlos de maneira alguma est interessado em nosso dinheiro. Ele est apaixonado por mim.
Zara nada disse. Continuou abraada  filha. Sabia que essa histria estava muito mal contada. De boba, Zara no tinha nada. Esperta e voluntariosa, sempre se 
mostrava mansa e pacfica s pessoas, procurando manter o tom de voz o mais sedoso possvel. Todavia era ardilosa, cheia de astcia. E quanta astcia! Zara era 
filha de famoso arquelogo. Durante a Segunda Guerra Mundial, ela e seu pai estavam visitando o Cairo, a capital do Egito, em busca de novos achados arqueolgicos. 
Durante uma escavao, o pai de Zara morreu soterrado. A jovem na poca foi  procura da me, que no via fazia anos. Zara nunca soube o que de fato ocorrera com 
a me, se ela fora morta, se se refugiara. Com razovel quantia de dinheiro no banco - ela no tinha irmos -, Zara foi  Europa, um continente combalido e enfraquecido 
pela Grande Guerra. L conheceu Otto, um prisioneiro de guerra. Otto sabia onde estavam localizadas pinturas, esculturas e tantas outras obras de arte tomadas dos 
judeus pelos alemes de Hitler. Assim, compraram peas valiosssimas a preo de banana. Zara e Otto se casaram e estabeleceu moradia no eixo So Paulo-Buenos Aires. 
Com o passar dos anos, passaram a vender as obras no mercado negro de arte. Otto depois envolvesse com negcios ilcitos e ela era o brao direito do marido. Havia 
um esquema especial de proteo  filha. Seguranas  paisana estavam sempre na cola de Maria Cndida. O casal estava com medo de que, depois de tanto esforo e 
maestria, um playboy qualquer aparecesse e surrupiasse a fortuna acumulada ou mesmo viesse a descobrir os negcios do casal. Zara desconfiou de Augusto, e foi ela 
quem de fato botou detetive atrs do rapaz. Faria o mesmo com Luis Carlos. Ela sabia da fama de Guilhermina. Tinha certeza de que estavam tramando algo contra sua 
filha. Ela iria sair na frente e se preparar. Zara era capaz de tudo para proteger sua filha e seu patrimnio. Inclusive matar, se fosse preciso... Ana Paula ajeitou 
os cabelos, sorriu para sua imagem refletida no espelho. 
- Aonde vai to bonita? - indagou Tnia.
- Tomar um sorvete com o Fernando.
- Ele  um bocado bonito.
- Sim. Alm de bonito  educado, inteligente, trabalhador e muito, muito tmido.
As duas riram.
- Esto namorando? - perguntou  amiga.
Ana Paula suspirou.
- No sei ainda. Fernando  muito recatado, todavia sinto que h algo mais que amizade entre ns. 
- Mais que amizade  namoro - retrucou Claudete, sorrindo.
- Vocs duas me tiram do srio! - exclamou Ana Paula.
- Ele est caidinho por voc. Seja menos durona - sentenciou Tnia.
- No quero forar nada. Estamos saindo, nos conhecendo. Isso  bom.
- Melhor agora, que est empregada. Fica mais fcil, uma preocupao a menos.
Ana Paula suspirou feliz.
- Isso  verdade, Tnia. Estou to feliz na escola... E um tanto distante daqui da penso, mas vale  pena. Com o salrio no fim do ms pagarei o aluguel e ainda 
poderei economizar, afinal de contas minha reserva quase se esvaiu.
- Se precisar de algum, conte comigo - tornou Claudete.
- Comigo tambm - completou Tnia, sorridente.
- Obrigada, meninas. Sei que posso contar com ambas.
- E aonde vai o casalzinho? - indagou Tnia, em tom de brincadeira.
- Vamos sair para comemorar meu primeiro dia de aula.
- Tenho certeza de que conseguiu por mrito - aduziu Claudete. - E tambm com a ajuda dos amigos espirituais. Tudo comeou a dar certo depois que fez o tratamento 
no centro esprita.
Ana Paula concordou com a cabea.
- No  s isso. As palestras so elucidativas, colocam a gente l para cima. Esse trabalho de valorizao do ser humano  de suma importncia. Gosto muito da maneira 
como abordam determinados lemas. Eu estava to para baixo, me sentindo to mal! Culpava minha me por tudo de ruim que me acontecera na vida. Isso  um erro. Culpar 
algum  cmodo - tornou Tnia.
- Parece que somos frgeis - ajuntou Claudete.
- Parece que muitos de ns gostamos de ser vtimas. Eu cresci me achando uma vtima em potencial. Uma pobre coitada que por infelicidade teve uma me que me castrou 
o tempo todo, me impedindo de ser eu mesma. Mas agora estou mais lcida, percebo que eu sou responsvel por mim, por tudo o que acontece comigo. Isso me d um poder 
to grande...
Claudete consultou o relgio e deu um gritinho.
- Estou atrasada. Hoje  meu dia de trabalhar no centro esprita.
Claudete beijou as amigas, apanhou a bolsa sobre a cmoda e saiu. Ana Paula e Tnia prosseguiram a conversa. Ana Paula estava particularmente feliz naquele dia.
- Sa de casa com tanto medo... Achava que no ia dar conta do recado. Pensei em desistir, mas voc reapareceu em minha vida. Sinto-me to segura, que ate encararia 
minha me e, confesso, no iria mais gaguejar.
Ambas riram a valer. Tnia prosseguiu:
-  muito bom nos sentirmos inteiras, fortes, independentes. Agora d para perceber por que atraiu uma me como Guilhermina. Voc precisava de algum de temperamento 
forte, de pulso, bem voluntariosa, para que pudesse trazer sua fora para fora. Se Guilhermina fosse uma me passiva e bobona, fazendo todos os seus caprichos, acredito 
que ainda hoje estaria l vivendo com ela, toda insegura, cheia de medos.
- Nem me fale uma coisa dessas! - retrucou Ana Paula, batendo trs vezes na madeira da mesinha de cabeceira.
- Atramos pessoas e situaes desagradveis em nossas vidas justamente para enxergar aquilo que no queremos ver dentro de ns.
- A vida  mgica, Tnia. Nunca pensei que, quando no queremos enxergar ou mudar uma crena que est nos atrapalhando a evoluo, a vida coloca algum ou uma situao 
de maneira exagerada para olharmos, observarmos melhor e podermos mudar nossa atitude. Tenho aprendido muito.
-  bom pensar assim.
- E Fernando tambm pensa como eu.
- Acho to engraado!
- O qu? 
- Depois que Odcio deixou o centro, Fernando e Suzana passaram a freqent-lo amide.
- Parece que houve muita confuso naquele centro esprita, o que propiciava interferncias negativas de toda sorte. Com o pulso forte do Durval as coisas mudaram. 
O centro hoje atende o dobro de pessoas que atendia no passado. E olha que j eram muitos os atendidos.
Tnia ajeitou-se na cama e inclinou a cabea sobre o cotovelo.
- Sabe, Ana Paula, a vaidade do mdium  o que mais atrapalha o andamento de um centro esprita. 
- Concordo. Uns querem ser melhores que outros, mostrar que tm mediunidade mais
acentuada, que recebem mentores de esferas muito mais superiores.
Tnia riu.
- E no final das contas ficam arrebentados e sugados. Tambm, no fazem nada por si, No mexem uma palha e nem sequer querem realizar mnima mudana interior que 
seja.
- Eu sinto que o passo para uma vida feliz  ter a capacidade de enxergar cada vez mais nossos pontos fracos e mudar - ajuntou Ana Paula.
- Estamos fazendo nossa parte. Tenho conversado bastante com Fernando a respeito. Gosto da companhia dele e da Suzana. Ela parece ser das nossas - asseverou Ana 
Paula.
- Sinto-me bem quando estamos os quatro juntos.
- Parece que nos conhecemos h tempos.
- At a Lurdinha est numa amizade com a Suzana!
- Estudamos com a Lurdinha na escola. Lembra-se de como ela sempre foi ardilosa?
- E como! Lurdinha sempre foi uma garota mimada. E quando uma de ns a contrariava?
- Nem me lembre! Lurdinha chorava, batia o p na sala de aula. Fazia escndalo por qualquer coisa.
- E agora ela reaparece no circuito.
- Esse sbito interesse dela pela Suzana... No sei, no.
- Acha que ela trama alguma coisa? - inquiriu Tnia.
- No gosto de julgar. Em todo caso, acredito que Lurdinha esteja rodeando a Suzana para obter informaes.
- Informaes?
- Sim.
- De quem? - perguntou Tnia, curiosa.
- U? A mdium vidente no  voc?
- Sim, mas...
- Pois que descubra, oras!
Tnia arremessou um travesseiro na amiga.
Elas se riram.
- Deixe eu me aproximar dela e ver que descubro tudo. O problema  a vibrao. A Lurdinha vibra numa sintonia pavorosa. D muito trabalho ficar ao lado dela e perceber 
suas intenes.
- O tempo vai nos mostrar. E, de mais a mais, Suzana tambm  esperta. Logo ela vai perceber melhor essas investidas da Lurdinha e descobrir o porqu de ela estar 
todo dia  tarde esperando-a na porta da fbrica.
- Que eu saiba, a Lurdinha mora na outra extremidade da cidade.
- , Tnia, mas a tem alguma coisa. Logo saberemos.
Ana Paula sorriu, deu mais uma ajeitada no cabelo, despediu-se de Tnia e saiu contente, contando os minutos que restavam para se encontrar com Fernando. Odcio 
irritou-se sobremaneira com as novas diretrizes ditadas por Durval no centro esprita. Sentiu-se achincalhado e magoado e nunca mais retornou ao centro. No deu 
satisfao; simplesmente largou os trabalhos espirituais. Nem quis saber de fazer o curso de reciclagem espiritual. Aquilo era ultrajante. Na cabea, Odcio brigava 
constantemente com Durval.
- Onde j se viu? Um moleque sem responsabilidade alguma, que no sabe nada da vida, vem me impor uma humilhao dessas? No posso aceitar.
- Falando sozinho de novo, querido?
Odcio levantou-se da poltrona, calou seus chinelos.
 - Adlia, veja como a vida  ingrata. A gente se mata pelos outros, e olha s o que levamos: um pontap bem grande no traseiro.
Ela entrelaou o seu brao no do marido.
- Meu bem, no fique triste.
- No estou triste. Estou magoado. O Durval me feriu, apunhalou-me pelas costas quando me tirou da sala de passes. Voc no sabe a vergonha a qual passei.
- E de que adianta ficar brigando mentalmente com o Durval? De que vai adiantar?
- Estou muito chateado mesmo. Nunca passei por tamanha situao ultrajante. Fui dispensado dos trabalhos assim, num piscar de olhos, num estalar de dedos e pronto.
- Se fizesse aquele curso aos sbados...
Odcio levantou-se indignado. Fuzilou a esposa com os olhos.
- Adlia, voc acha que eu deveria me submeter a fazer aquele curso?
- No sei, oras...
- Pra qu?
- Os outros no fizeram?
- Esses moleques querem ser melhores que ns. Querem provar que sabem mais que os mais velhos. No nos respeitam.
- Fique calmo. Olha a presso.
Odcio andava impaciente de um lado para o outro da sala. Continuava resmungando:
- Quinze anos de dedicao ao prximo. Quinze anos jogados no lixo!
- Calma...
- Como calma? Toda vez que penso nisso me d um dio do Durval...
- Voc poderia voltar l e conversar.
- No!
- No seja teimoso, homem. Durval O afastou por duas semanas. Faz quase dois meses, e voc no voltou mais.
- Durval vai vir at aqui na porta de casa. Vai me pedir de joelhos para voltar. No sabe o mdium precioso que perdeu para o centro. Logo as pessoas vo reclamar 
minha falta.
- Acha mesmo?
- Tenho certeza.
- Bom, ento...
Odcio a cortou:
- E tem mais: eu tenho certeza de que os espritos no querem que eu volte para aquele centro esprita. 
Adlia mordeu levemente os lbios, apreensiva. No gostava desses assuntos.
- Voc escutou alguma coisa dos seus amigos espirituais?
- Escuto-os sempre. Meu mentor est sempre presente.
- E o que ele lhe diz?
- Que todos naquele centro esto perturbados, desequilibrados mentalmente, pobres coitados.
- Vamos orar por eles, ento - tornou Adlia, em tom pesaroso.
- Orar uma ova! 
- Mas a reza  uma bno.
- Sei disso.
- Foi voc quem nos ensinou isso aqui em casa.
- Adlia, se eu rezar por eles vou atrair todas as cargas negativas, todas as energias pesadas do lugar.
-  mesmo?
- Voc sabe o quanto sou sensvel.
- Isso  verdade, meu querido.
- Vida de mdium  fogo.
- Que encarnao mais dolorida...
-  a misso - tornou Odcio, em tom dorido.
- Quanta responsabilidade em suas costas!
- Para ver como sofro Adlia. Vejo tanta gente querendo compreender, estudar e desenvolver a mediunidade! Acho isso uma pena. Mal sabem o que tero ele enfrentar 
pela frente.
Adlia aproximou-se do marido. Pousou delicadamente suas mos nas dele.
- No acha melhor reconsiderar?
- Como assim?
- Ter uma conversa com o Durval.
- Me humilhar novamente?
- Odcio, que custa?
- Custa muito, mulher.
- Afinal de contas, ns vimos o Durval crescer. Sempre nos pareceu um bom menino.
- S se voc for cega! Ele sempre foi esquisito. 
- Esquisito?
- Muito dono de si.
- Nunca percebi isso.
- Porque voc  ingnua, no v a maldade que cerca o mundo. Durval  arrogante que s vendo. Ele  o responsvel por eu estar deste jeito.
- No fique assim, querido. Sua presso no pode subir.
- Por culpa do Durval, minha mediunidade est toda destrambelhada.
- Ore e pea aos seus guias para lhe ajudarem. Voc sempre foi to bom...
- To bom que at agora no briguei com nossos filhos.
- E por que brigaria?
Odcio coou a cabea. Irritado, afirmou:
- Fernando e Suzana esto freqentando aquele antro de perdio. Foi s eu sair que Durval os atraiu para l, de propsito.
- Acha que Durval est querendo atirar nossos filhos contra ns? - perguntou ela, mos aflitas torcendo o avental.
- Eu no acho. Tenho certeza absoluta!
Nossos filhos so bons e ingnuos. E me sinto culpado porque eu coloquei na cabea deles que tinham de freqentar um lugar, estudar a doutrina esprita.
- Voc est muito nervoso, querido.
- Claro que estou. Voc vai ver que nossos filhos ainda vo nos contrariar. 
- Sente-se, fique calmo. Que tal ler o Evangelho?
- Evangelho?
- . Faz tempo que no nos sentamos e fazemos o evangelho no lar.
- O Evangelho no vai resolver nossos problemas.
- Entretanto uma leitura edificante pode nos trazer paz, conforto interior. Vejo que est muito nervoso.
- Agora no. Alm de nervoso, estou muito cansado.
- Amanh, ento. O que acha?
- Pode ser. Vou pensar.
- Voc  quem sabe, querido.
- Sinto o corpo todo quebrado. Trabalhei demais da conta hoje. Vou me recolher mais cedo.
Odcio despediu-se da esposa. Adlia voltou para os afazeres domsticos e ele subiu as escadas, fez o toalete e depois se deitou. Assim que Odcio entrou em sono 
profundo, seu esprito desprendeu-se de seu corpo e ficou alguns palmos acima do fsico. Num canto do quarto estavam queles mesmos dois espritos que o acompanharam 
na sada do centro esprita meses antes. Um deles falou:
- Vai, Z, manda ver.
- J?
- Isso mesmo. Faz aquela concentrao mental.
- Que quer que eu faa?
- Que aparea para ele com outro rosto.
- No sei se vai dar.
- Claro que vai. Voc se deu bem no curso de mistificao. Consegue se parecer com o que quiser.
O esprito mistificador se gabou todo. O outro enchia seu ego:
- Vamos, olhe pra foto do pai dele e se concentre.
O esprito aproximou-se do porta-retratos, fixou bem seus olhos nos do retrato. Falou algumas palavras estranhas e, em instantes estava com a aparncia do pai de 
Odcio. O colega ao lado, em profundo desequilbrio, ria sem parar.
- Agora se aproxime dele. 
- Calma.
- Precisamos agir antes que aparea algum metido do bando de luz.
- No vai aparecer ningum.
- Como pode afirmar com tanta convico?
- Porque eles abandonaram as leituras, no fazem mais evangelho no lar. Esto na nossa mo.
- No se esquea dos filhos. Aqueles dois nos tm dado muito trabalho.
- Sei disso.
- No so de confiana.
- S do trabalho quando esto aqui na casa.
Vamos aproveitar a ausncia deles, deixar de papear e fazer o que o chefe pediu. 
- Sim.
Ento o esprito, com a aparncia mudada, aproximou-se do corpo de Odcio ao p da cama e cutucou levemente o seu duplo, que estava a uns dois palmos acima do corpo 
fsico. Odcio resmungou e o esprito novamente o cutucou:
- Vamos, acorde, filho.
Odcio abriu os olhos e os fechou novamente. O esprito insistiu. Com voz enrgica, tornou:
- Abra os olhos. Precisamos conversar.
Odcio abriu novamente os olhos e sentou-se. Assonorentado, perguntou:
- O que ?
- Sou eu, meu filho.
- Quem?
- Seu pai. Vim visit-lo.
- Papai? - Odcio arregalou os olhos.
- Sou eu.
-  voc mesmo?
O esprito procurou conter o riso e manter cadncia na voz. Pigarreou e declarou:
- Sim, meu filho, sou eu.
- Que surpresa boa! O que o traz aqui?
- Estou preocupado com voc.
Odcio levantou-se e aproximou-se vagarosamente do esprito disfarado.
- Preocupado comigo?
- Bastante.
- O que foi? Fiz algo que o desagradou?
- No, voc  perfeito, nunca me desagradaria. 
Odcio coou a cabea. Estava feliz. Qualquer elogio o deixava em estado de xtase.
- Ah,  sobre o centro esprita?
- Sim.
- Tomei a deciso certa, no , papai?
- Foi o melhor que podia fazer Odcio, meu filho: sair daquele antro.
- S de pensar no Durval me d uma raiva danada. Desculpe.
- Nada de desculpa.  bom sentir raiva. Voc est certo. Odcio surpreendeu-se.
-  mesmo?
- Sim.
- No estou errado?
- De maneira alguma. O novo dirigente daquele centro  prepotente e arrogante, um poo de vaidade. No reconhece os que trabalham em nome do Cristo e est transformando 
o local num covil de espritos aproveitadores.
- Vixe Santa!
- Infelizmente  o que ocorre. Quero que fique o mais longe possvel daquele lugar.
-  o que tenho procurado fazer.
- Precisa convencer seus filhos a sarem de l o mais rpido possvel.
- Eles correm algum perigo?
- Acreditam cegamente em Durval. Vo sofrer muito.
- No quero que sofram.
- Fique tranqilo, que no momento certo iremos dar outras orientaes. Mas no se esquea de que precisa ficar bem longe daquele lugar.
- Posso procurar outro centro esprita?
- Numa outra oportunidade vou lhe indicar o lugar que deve procurar.
-  mesmo?
- Claro, meu filho. No se esquea de que sou seu pai. Estou morto, mas ainda sou seu pai.
Uma lgrima escorreu pelo canto do olho de Odcio. Ele estava emocionado. O esprito continuou:
- Nesse lugar voc vai poder doar bastante energia. Os espritos vo precisar da sua mediunidade.
- Ento eu sou bom mesmo?
- Voc  mdium de primeira linha. O seu dom  uma ddiva e merece ser usado num local onde tudo seja feito de maneira sria.
Odcio sentiu-se envaidecido. O esprito sabia que a forma que adquirira estava desvanecendo, iria se acabar, porquanto aprendera a manter a aparncia de quem quer 
que fosse por apenas alguns minutos. Mais que isso era impossvel. O corpo fludico ficava debilitado. Somente os poderosos do umbral sabiam se manter por mais tempo 
fingindo ser outra pessoa. Z ento pousou a mo na fronte de Odcio e ele imediatamente voltou a dormir.
- Eu falei que o ponto fraco dele  a vaidade - disse o esprito, entre sorrisos. 
- Puxa,  mesmo.
-  s encher a bola do coitado, que ele fica todo prosa.
- Come direitinho na nossa mo.
Naquele momento, Z sentiu tremenda dor na cabea. O outro esprito assustou-se.
- O que foi?
- Ai, que dor!
O comparsa sentiu medo.
- Nunca vi voc assim antes. O que aconteceu?
- Um deles chegou.
- Quem?
- O filho ou a filha. No sei.
O outro esprito tambm comeou a passar mal.
- Tem razo. Nossa! Que energia pavorosa!
- Vamos sair daqui agora mesmo - sentenciou Z.
- Vamos nessa.
- O chefe vai ficar feliz em saber que o otrio est em nossas mos.
Os dois deram uma gargalhada sinistra e sumiram do quarto num segundo. Suzana chegou a casa exausta nesta noite. Mal fechou a porta da sala, arrancou os sapatos 
e esparramou-se no sof. Era muito responsvel em sua funo na metalrgica e, todas as vezes que Roberto viajava, parecia que o servio aumentava. Sem contar a 
presena desagradvel de Bruno. Quando o pai viajava, Bruno se sentia mais  vontade para dar suas investidas em Suzana. Isso a incomodava profundamente. Assim que 
Roberto voltasse de viagem, ela iria ter com ele uma conversa sria, mesmo que custasse seu emprego. Estava cansada do assdio constante do rapaz. Bruno insistia 
em convidar Suzana para sair, mas ela no aceitava. Havia vrios motivos que a faziam dizer "no". Para ela, o ambiente de trabalho era sagrado. Ela sabia ser atraente 
e despertava a cobia dos homens. Quantas vezes teve de recusar elegantemente os convites s vezes indiscretos de clientes do Dr. Miguel? E, no caso da metalrgica 
Marzolla, no tinha cabimento dar largas a uma insandice dessas. Bruno pegava no seu p quase que diariamente. As negativas de Suzana o deixavam louco da vida. Estava 
tendo comportamento similar  poca em que dera suas investidas em Olga, a antiga secretria. Suzana havia sido alertada de que o rapaz tinha surtos de paixo, e 
que agora ela era a bola da vez, a garota com quem ele queria porque queria sair. Bruno era impetuoso, arrogante, atrevido. Estava passando dos limites. Suzana massageou 
os ps e sentiu alvio. Esparramou os pensamentos fazendo gesto com a mo. Sua cabea pendeu para trs e ela fechou os olhos. Adlia veio da cozinha, torcendo as 
mos no avental.
- Por que chegou to tarde?
- Trabalho, conduo, trnsito, essas coisas.
- Muito servio?
- Bastante, mame. Estou cansada.
- J vou fazer seu prato.
- No tem necessidade.
- Num instante, e trago seu prato.
- Estou sem fome - disse Suzana, voz cansada.
- No pode ficar sem comer. Que tal um copo de leite e algumas bolachinhas?
- Pode ser.
- Vou preparar.
- Obrigada.
- No gosto de v-la assim. H algo mais que a esteja incomodando?
- So coisas do trabalho - dissimulou. - Quero tomar um leite morno e deitar meu corpo cansado na cama. 
Passava da meia-noite quando Bruno entrou num bar na regio da Boca do Lixo. Estava irritado. Precisava beber. Suzana no podia ser to dura assim. Ele aproximou-se 
do balco e pediu um usque. Tomou de um gole s e pediu outro. Precisava diminuir a tenso. Lembrou-se de meses atrs, quando a viu pela primeira vez na firma. 
Suzana lhe despertara o desejo. Bruno sentia-se um garanho, um Don Juan desvairado que adorava contar aos amigos quantas mulheres havia conquistado. E a beleza 
de Suzana lhe tirava do srio. No conseguia dormir direito, somente pensando em t-la nos braos. E, quanto mais difcil fosse  mulher, mais prazeroso se tornava 
esse jogo de conquista, a qualquer preo. Bruno no estava disposto a esperar mais. Acreditou que nesta noite iria realizar seu sonho. Seu pai viajara a negcios, 
e isso facilitava o acesso  sala da secretria quantas vezes fossem necessrias, sem chamar ateno. Suzana estava sozinha em sua sala. Ele entrou devagarzinho, 
p ante p, aproveitando um momento de concentrao dela. Aproximou-se por detrs e encostou seu lbio na nuca dela. Suzana deu um pulo. 
- O que pensa estar fazendo?
- No resisti e vim v-la.
- Isso no so modos. 
- Est sozinha. Precisa de alguma coisa?
- No.
- Mesmo?
Suzana bufou de raiva. Estava cansada daquele olhar petulante e seboso.
- Pode ir. Estou quase de sada.
-  tarde.
- Quando o Dr. Roberto viaja, eu gosto de ficar at mais tarde e ajeitar a agenda dele, deixar tudo em ordem.
- Vou esper-la e a levarei para casa.
- No ser necessrio. Vou de nibus, como fao todos os dias.
- Vou esper-la mesmo assim.
- Azar o seu. Vai perder seu tempo.
Ele aproximou-se tentando intimid-la. Suzana prendeu a respirao.
- Vou para o carro.
- No adianta...
Ele foi seco:
- Hoje vamos jantar juntos.
Bruno saiu e dirigiu-se ao estacionamento. Entrou e acomodou-se no banco do carro, aguardando a sada de Suzana. L pelas nove da noite, ela saiu pela porta de sada 
dos operrios, dobrou clere a esquina e por sorte seu nibus se aproximava. Fez sinal e subiu. Ao sentar-se no banco, sentiu-se extremamente aliviada. Bruno deu 
uma cochilada no carro. Quando acordou, olhou espantado para o relgio. Eram dez e trinta. Ele correu apressado at a sala e rangeu os dentes de raiva ao notar que 
Suzana havia ido embora. Ele respirou fundo, bateu a porta com fora, estugou o passo e alcanou o carro. Entrou fulo da vida, deu partida e saiu em direo ao centro. 
Estava ele perdido em pensamentos quando foi abordado por uma mulher de aparncia agradvel.
- Est esperando algum?
- No.
- Quer companhia?
Bruno olhou bem nos olhos da moa. Depois, forou um beijo. Ela procurou se desvencilhar com delicadeza.
- Devagar. Vamos devagar.
- Voc ser minha esta noite.
- Pagando adiantado...
Bruno tirou a carteira do bolso, abriu-a e retirou algumas notas. Dobrou o dinheiro e colocou-o na ala do suti.
- Isso basta?
Ela pegou o dinheiro e conferiu. Deu uma risadinha.
- Basta.
- Mas tem uma condio - disse ele.
- Qual ?
- Quero cham-la de Suzana.
- Mas...
- Nem, mas, nem meio, mas. Eu estou pagando adiantado e tenho o direito de exigir isso.
A moa sentiu terrvel calafrio. Se no fosse a noite minguada, descartaria o cliente. Mas estava to dura, precisava tanto do dinheiro, que, mesmo sentindo medo 
daquele homem, topou fazer o servio e entregar-se a ele por algumas horas. Ela procurou dar a voz um tom natural:
- Est certo.
- timo. Vou cham-la de Suzana.
- Se isso o conforta, meu nome  Suzana.
Bruno respirou fundo, pagou a conta do bar. Abraou-se a moa, conduziu-a at o carro e dirigiram-se para um hotelzinho ali nas proximidades. Desde a adolescncia 
Bruno sofria esses tipos de surtos. Era algo incontrolvel. Ele mantinha, h algumas vidas, um comportamento impetuoso em relao ao sexo oposto. Ao avistar alguma 
mulher que o interessasse, ele enchia os olhos de cobia e volpia. Paquerava, galanteava, dava em cima, fazia de tudo. Quando tinha a mulher em seus braos, aproveitava 
se saciava e em seguida a descartava. No havia sentimento, era somente satisfao dos seus desejos, mais nada. Caso uma mulher tentasse segur-lo, Bruno tornava-se 
irascvel, um brutamonte sem igual. Ele batia, cometia loucuras. Por essa razo, muitas mulheres tinham medo dele s pela aproximao. Sua aura estava carregada 
dessa energia de brutalidade. Os espritos largados e perdidos por nossa dimenso, ao avistarem o rapaz pela aura, imediatamente colavam-se a seu corpo fsico, potencializando 
o desejo e conseqentemente os desatinos do rapaz. Na verdade, a obsesso acontecia porquanto Bruno era invigilante. No queria e no tomava conta de seus pensamentos. 
A emoo vinha e ele se deixava levar, sem parar para sentir. Os tratamentos psiquitricos e os passes ajudavam o rapaz. Bruno voltava a si, o tratamento de desobsesso 
afastava os espritos colados nele e tudo voltava ao normal. Entretanto, era s aparecer um belo rabo de saia que tudo voltava como antes. Bruno no se controlava, 
espritos do astral inferior se juntavam a ele e novamente o ciclo recomeava. O rapaz estava novamente perturbado, como no tempo de Olga. Nesta noite, porm, devido 
 presena de companhias do astral inferior colada seu corpo, o tormento era indescritvel. Qualquer mulher poderia lhe servir naquele momento. A noite estava perdida. 
Entretanto, haveria o dia em que Suzana iria implorar para ser sua. Isso um dia iria acontecer, e Bruno no iria descansar enquanto no conseguisse o que tanto desejava. 
Naquela mesma noite, horas antes, Ana Paula chegava  tinturaria. Estava saudosa de Fernando e haviam combinado para logo mais um passeio ou mesmo um sorvete numa 
confeitaria ali perto. Ao dobrar a esquina ela o avistou fechando as portas do estabelecimento. A jovem estugou o passo. Ao se aproximar de Fernando, diminuiu o 
passo. Respirou fundo.
- Boa noite.
- Ol - respondeu ele sorridente, procurando ocultar seu nervosismo.
- Est um pouco tarde - arriscou Ana Paula.
Fernando voltou s costas para ela e respirou fundo. Respondeu com voz amvel:
- S um pouquinho.
- Quer mesmo tomar um sorvete? Desmarcamos tantas vezes... E o tempo no est l essas coisas.
- Aceito sugestes - replicou ele, mostrando os dentes alvos e perfeitamente enfileirados.
- Parece que vai esfriar logo mais.
- Podemos fazer outro programa.
- Na verdade, preferia jantar - sugeriu Ana Paula.
- tima ideia.
- Estou morrendo de fome.
- Eu tambm - disse ele, sorrindo.
- No estou vestida de acordo. No se importa?
- De maneira alguma. 
- Ento, o que sugere? - indagou Ana Paula, olhos expressivos.
- Sugiro um restaurante japons aqui perto. Alm de aconchegante,  bom e barato.
- Excelente ideia!
- Podemos ir.
- Espere. Primeiro vou avisar Dona Guiomar.
- Por qu?
- Ela agora virou minha me. Apegou-se a mim, Claudete e Tnia. Quer saber passo por passo de cada uma de ns - disse Ana Paula, sorriso maroto.
- Vai controlar sua vida!
- No sinto isso. H uma afinidade muito grande entre todas ns.
-  como se a vida lhe tivesse dado uma me, no?
- Sim. Tenho tido uma relao com Dona Guiomar que nunca tive com minha me.  tudo novo e muito bom ao mesmo tempo. E, para falar a verdade, estou adorando ser 
controlada. 
- timo, pois sou excelente dominador. Ana Paula enrubesceu. Disfarou o tom de voz.
- Vou avis-la e volto logo.
- Posso acompanh-la - disse o rapaz, hesitante.
- Ser um prazer.
Foram caminhando lentamente at a penso, conversando amenidades. Quando adentraram a penso, Guiomar estava dando algumas instrues a Tnia. 
- Boa noite, Dona Guiomar.
- Boa noite, criana.
Guiomar olhou por cima do ombro de Ana Paula e avistou Fernando. Esboou leve sorriso. Guiomar simpatizava muito com o rapaz.
- Como vai, Fernando?
- Muito bem. E a senhora?
- Bem, obrigada. Atarefada como sempre...
Fernando olhou para cima do balco. Admirou-se com o bordado no tecido.
- Trabalho na tinturaria e vejo peas e peas de roupas todos os dias. Nunca vi um bordado to bem-feito. Est de parabns, Dona Guiomar.
Ela riu-se.
- Oras, no deve parabenizar a mim.
- No?
- No. A responsvel por esse trabalho to esmerado  a Ana Paula.
Ele no conteve a interrogao no semblante. Virou-se para Ana Paula surpreso:
- Voc fez isso?
- Foi.
Fernando aproximou-se do balco. Pegou o tecido e olhou melhor o bordado.
- Isso  coisa de profissional! - disse espantado.
- Ana Paula costura e borda como ningum - tornou Tnia.
- Nem tanto. 
- Ora, Ana Paula, no se faa de humilde. As meninas da penso correm para lhe pedir ajuda. Uma barra, uma saia desfiada, um bordado numa camiseta para dar mais 
realce...
- E eu com uma mina de ouro ao meu lado e nunca percebi - comentou Fernando.
- Aprecio trabalhos manuais. Desde pequena gosto de costurar, bordar. Minha me odiava-me ver bordando. Ficava fula da vida. Ento, para no contrari-la, eu ia 
at a casa de minha av Albertina e passvamos as tarde juntas, costurando, bordando. Aprendi muito com minha av. Ela era tima nos bordados.
- Pois est de parabns.
Ana Paula ficou sem graa. Procurou mudar o tom da conversa. Sorriu e comunicou a Guiomar:
- Vim at aqui para avis-la que eu e Fernando vamos jantar aqui perto.
- Que agradvel!
- Ana Paula gosta de lhe comunicar aonde vai - retrucou Fernando.
- Faz ela muito bem. As meninas aqui da penso so como filhas para mim. Entretanto, Ana Paula, Tnia e Claudete so especiais, e sabem disso - disse ela emocionada.
Tnia ajuntou:
- Dona Guiomar nos trata como filhas queridas.
Guiomar interveio:
- Por isso sou referncia no Pas todo. As famlias tm muita confiana em mim. Claro - ela pigarreou - h meninas com quem sinto mais afinidade, maior simpatia, 
como no caso das minhas trs pequenas. - Guiomar baixou o tom de voz. - Devo admitir que faa diferena entre as meninas.
- Vai ver, foi nossa me em outra vida - brincou Tnia. 
Guiomar suspirou:
- Ah, antes fosse! Quisera eu acreditar em vidas passadas.
- Por que no acredita? - perguntou Fernando.
- No sei lhe responder. Fui educada num ambiente catlico; o mundo espiritual ficou longe demais de minha realidade. Uma vez eu quis ir a um centro esprita, mas 
minha me me meteu tanto medo, dizia que o local era freqentado por pessoas ignorantes, sem cultura.
- Mas sabe que tudo isso  fantasia, no  mesmo? Eu, Claudete e Ana Paula, bem como o Fernando, freqentamos o centro esprita e no somos ignorantes. 
Guiomar meneou a cabea para cima e para baixo.
- Vocs so moas cultas, inteligentes. Fui obrigada a olhar para dentro de mim e mexer com os meus preconceitos. Entretanto, no tenho ainda coragem de ir com vocs.
- Tudo leva tempo certo, Dona Guiomar - redarguiu Fernando. - Eu mesmo deixei de ir ao centro por muito tempo. Passei a freqent-lo quando a diretoria fez uma srie 
de mudanas. Mudaram o estilo no atendimento, as palestras so mais elucidativas e nos promovem, levantam a nossa auto-estima, fazem com que paremos para refletir 
mais sobre a vida.
- E tem outra coisa - ajuntou Ana Paula. - Eu mesma no gostava e no queria me aproximar do espiritismo, e olhe s: hoje me sinto muito melhor. O tratamento a que 
fui submetida me ajudou a rever uma srie de pontos e mudar minha vida para melhor. Tenho a plena certeza de que aquele lugar est ligado s correntes do mais alto 
bem.
- Sei disso. Confio em vocs e sinto que cada vez que vo l, seja para um passe ou para assistir a uma palestra, voltam com os olhos mais vivos, mais expressivos. 
Uma suavidade no rosto, no sei explicar. Todavia, para mim ainda  duro. A crena na reencarnao s vezes me faz sentido.
- Para quem no teve a vida nada fcil, como  senhora... - tornou Tnia.
- Isso  verdade. Tenho tantos porqus que no me foram respondidos!
- Ana Paula contou-me alguma coisa sobre seu passado - disse Fernando. - Isso no refora a crena na reencarnao?
- No sei ao certo. Tenho medo. Justamente eu, uma mulher que sempre sonhou ser me, ter filhos... De repente fiquei viva, logo no primeiro ano de casada. Gostaria 
de entender melhor o porqu de passar por determinadas situaes nem to agradveis durante minha vida. E estou velha para aprender novos conceitos.
Fernando replicou:
- A idade no conta. O que vale  sua vontade em querer aprender. Se desejar, posso lhe emprestar uns livros.
- Faria essa gentileza?
- Seria um prazer. L no centro temos direito a pegar alguns livros por ms. Vou escolher livros bsicos, de leitura agradvel e simples, para que entenda melhor 
os mecanismos da vida.
Guiomar meneou a cabea para os lados, apreensiva.
- Fico agradecida. Mas sinto que no estou preparada ainda para ir com vocs. Irei ao momento certo. Quem sabe, tendo contato com o mundo espiritual atravs dos 
livros, eu no sinta curiosidade e iremos todos juntos?
- Guiomar baixou o tom na voz e, aos risos, comentou com Fernando: - Eu j sei de algumas coisas sobre o mundo espiritual. Essas meninas falam pelos cotovelos!
- Ns? - perguntou Tnia em tom de surpresa.
- Sim, principalmente voc e Ana Paula - retrucou Guiomar.
- Como sabe? 
- Oras - Guiomar riu. - As paredes aqui nesta penso tm ouvidos. Pensa que nunca escutei as conversas de vocs  noite?
- Dona Guiomar! - exclamou Ana Paula em tom de censura.
- Ningum mandou vocs conversarem alto. J pedi que falassem baixinho ao se deitarem, mas no me ouvem. Ento a penso toda sabe que vocs ficam falando sobre espiritualidade 
ao se deitarem.
Ana Paula riu.
- Confesso que o assunto me fascina, mas tenho tanto medo quanto a senhora. E olha que fiz tratamento e tudo o mais. 
- Podemos conversar mais, se quiser - ajuntou Fernando.
- Deve haver uma explicao para tudo isso. Mas no sei... - suspirou Guiomar.
- A senhora poderia casar de novo - brincou Tnia.
- Poderia, mas escolhi no me casar mais.
Amava meu marido e ainda o amo muito. Sei que vamos nos encontrar um dia. Infelizmente eu nunca pude dar filhos. Nasci seca, o que fazer?
- No fale assim. Olhe como a vida a encheu de filhas - disse Ana Paula abraando-a e beijando-a na fronte.
Guiomar emocionou-se. Uma lgrima escorreu pelo canto do seu olho.
- Adoro vocs. - E, para se refazer da emoo sbita que a acometera, disse seria: 
- Vamos, vamos ao trabalho. Preciso passar algumas instrues a Tnia, e vocs dois tratem de ir jantar. Mas, Fernando, no demore muito com minha Ana Paula. Minhas 
meninas especiais dormem cedo, principalmente durante a semana. Mesmo que fiquem tagarelando at altas horas. O fato  que me conforta saber que esto aqui dentro, 
sob minhas asas!
Ele a beijou na fronte.
- Pode deixar comigo. Trarei sua pequena antes da meia-noite. No se preocupe.
Despediram-se e Ana Paula e Fernando, ao sarem da penso, dobraram a esquina e foram conversando animados. Andaram algumas quadras e logo adentraram o restaurante. 
Fernando pediu uma mesa num canto, separada por um biombo, a fim de que ficassem  vontade. Ele pediu uma poro de peixe cru e uma pequena dose de saque para ambos. 
O garom prontamente os serviu. Quando se afastou, Fernando tornou sorridente:
- Sua companhia me faz muito bem.
Ela baixou os olhos, um tanto envergonhada. Em seguida fixou seus olhos nos de Fernando.
- Eu tambm prezo muito sua companhia.
- Temos muito em comum.
- Isso sem dvida! - tornou ela entre sorrisos. - Temos tantas afinidades, falamos sobre assuntos de interesse mtuo.
- At mesmo sobre espiritualidade. 
Ana Paula sorriu.
-  verdade. Muito embora seja novata no assunto, confesso que estou fascinada. Tive cada conversa com a Claudete e com a Tnia! Mas s vezes me d muito medo.
- Medo de qu?
- Sabe, h um lado bom e outro ruim que me assusta. Veja se me entende.
- Sou todo ouvido - respondeu Fernando com largo sorriso.
Neste momento ele tomou a iniciativa e tocou levemente sua mo na dela. Sentiram um choquinho. Ana Paula suspirou, remexeu-se na cadeira e procurou dar tom no assunto.
- Parece loucura, mas sinto que o esprito de minha av Albertina me acompanha.
- Por que diz isso?
- Outra noite senti seu perfume perto do meu travesseiro.
- Ela estava l ao seu lado - respondeu ele, com naturalidade.
- Como pode afirmar? Acho que deve ser imaginao minha.
- S porque no a viu com os olhos do corpo?
- .
- Mas sentiu muito forte sua presena, inclusive sentiu seu perfume.
- Sim. 
- Imaginao tem cheiro? - brincou ele.
-  verdade. Isso me intriga.
- Por qu? 
- Se tudo for mesmo verdade, se a vida no cessa aps a morte do corpo fsico, ento...
- Ento?
Ana Paula suspirou.
- A vem  outra parte, a que me d medo, que me deixa insegura. Uma parte de mim que se recusa a crer na continuidade da vida.
Fernando pigarreou. Pegou na mo dela e carinhosamente lhe disse:
-  por conta de seu pai, certo?
Ana Paula assentiu com a cabea.
- O que a aflige? Estou aqui para elucid-la, e, se for preciso, podemos conversar com o Durval. Tenho certeza de que ele teria o maior prazer em conversar com voc 
a respeito.
- Fico aflita em saber como estar meu pai. Se a vida continua aps a morte, como ser que ele est? Isso me preocupa bastante. Eu o amava e o amo muito.
- Depende do estado emocional em que seu pai se encontra. Ele acreditava na continuidade da vida?
- No. Era catlico no-praticante. Acreditava em purgatrio.
- Ento pode ser que ele esteja vivendo mesmo num purgatrio.
- Como assim?
- A realidade no mundo astral se d com o poder de nossas impresses, de nossa imaginao. Se seu pai acredita que aps a morte o mundo  tal qual um purgatrio, 
um local de julgamentos e sentenas estar vivendo essa realidade  qual ele deu fora a vida toda.
- Gostaria de conversar com o Durval. s vezes sinto que papai no est muito bem. Tenho tido alguns sonhos.
- E o que sonha?
Ana Paula procurou se esquivar. No queria tocar no assunto naquela noite.
- Preferiria falar numa outra oportunidade. Temos tantos outros assuntos mais interessantes para falar!
Fernando olhou bem nos olhos dela e, sustentando o olhar, perguntou:
- Que outros assuntos mais interessantes?
Ana Paula sentiu frio no estmago. Procurou ocultar o que ia ao corao. Mudou totalmente o rumo da conversa.
- As palestras ministradas por Durval so maravilhosas. Ele fala com simplicidade e ao mesmo tempo toca to fundo meu corao...
- A verdade nos toca a alma.
- Ele  um sbio. Mas tenho percebido certa inquietao ao chegar ao centro - tornou ela, apreensiva.
- Eu tambm tenho sentido isso.
- Pensei que fosse s eu a perceber esse fato - replicou Fernando. - Faz algumas semanas que tenho notado como se uma onda desagradvel estivesse tentando adentrar 
o local. 
- Bom, se voc pensa assim como eu, e est sentindo as mesmas coisas, o que acha de falarmos com Durval a respeito?
- Conheo Durval h anos. Temos praticamente a mesma idade. Ele  excelente pessoa; vai nos ouvir. E, ademais, se estamos tocando nesse assunto, no acha que devemos 
levar em considerao que a vida est nos usando de instrumento para chegarmos at Durval?
- Pode ser. Mas ele  dirigente do centro, sabe muito mais que ns e tem uma equipe espiritual que est sempre a seu lado. Por que a espiritualidade nos usaria?
- Ora, porque talvez ele esteja sentindo as mesmas ondas e precise que ns cheguemos at ele para saber que se trata de perturbao mesmo. Ou voc acredita que os 
espritos esto  nossa merc, nos trazendo tudo de bandeja, servindo-nos feito empregado?
Ana Paula sorriu. - Voc est certo. Entretanto, o que devemos fazer?
- Falar com ele.
Nisso ouviram uma voz familiar. Era Lurdinha, parada  frente do casal. Fernando e Ana Paula levantaram-se para cumpriment-la.
- Que coincidncia! - exclamou Ana Paula.
- Como conseguiu nos encontrar neste restaurante?
- Adivinhem - disse Lurdinha em tom maroto. 
- Foi o faro? - perguntou Fernando.
Lurdinha riu.
- Estive no abrigo. 
Fernando no entendeu.
- Abrigo?
Ana Paula disse sria:
- Lurdinha se refere  penso de Dona Guiomar.
Lurdinha foi se acomodando numa cadeira, sem pedir licena.
- Ora, aquilo pra mim  um abrigo, pois no  como uma casa de assistncia social onde se recolhem pobres, rfos ou desamparados?
- Pois para mim aquele local se parece mais como uma penso, ou seja, espcie de hotel pequeno e de carter familiar, de preos mais baixos que os de um hotel comum. 
Muito diferente de um abrigo, que  de carter assistencial e geralmente no cobra por isso.
- Voc leva tudo muito a srio, Ana Paula. No precisa me dar aula - tornou ela, animada e sorridente.
- No ia sair com a Suzana?
- Ela est cansada hoje. Falei com ela agora h pouco. Estava nervosa porque o Bruno no larga do seu p.
- Aquele rapaz est me preocupando - tornou Fernando.
- S porque ela  sua irm? Ora, deixe de machismo.
- No se trata disso.
- Ento o que ?
- Bruno  desagradvel, parece que tem dificuldade em ouvir um "no". Alm de parecer ser muito violento. No serve para minha irm.
- Quem tem de decidir isso  ela, no voc.
- Suzana no gosta dele.
- O que fazer Fernando? Ele  apaixonado por ela - tornou ela, com muxoxo.
- Infelizmente apaixonou-se pela mulher errada. Caso contrrio, Suzana teria cedido aos encantos dele. Mas no  o que acontece. A cada investida dele, mais ela 
fica distante.
- Pois acho sua irm muito boba. Eu daria tudo pra ficar com ele.
- Voc? - admirou-se Ana Paula.
- Sim! - exclamou Lurdinha.
- No posso acreditar!
- E por que o espanto?
- Nada, mas no estava de namorico com o Valter?
Lurdinha fez ar de mofa.
- Deus que me livre! Aquele grude! Eu quero um homem de verdade. Sou uma mulher como qualquer outra. Sinto, tenho desejos.
- No estava namorando srio um tal de Ciro?
- E isso  gente para namorar?
- No ? - inquiriu Ana Paula, surpresa.
- Ele  muito bobinho, muito doce para o meu gosto. Prefiro e gosto de homens de temperamento violento, com sangue italiano correndo nas veias, como o Bruno. E, 
convenhamos, alm de bonito e valento, ele  rico, podre de rico. O que mais posso querer?
- Que ele se interesse por voc, ao invs de se interessar por Suzana - ajuntou Fernando, rindo.
Lurdinha mordeu os lbios com fora.
- Ainda o fao mudar de ideia. Eu sou super-honesta e conversei com Suzana. Ela me assegurou que o caminho est livre.
- Bruno tem um temperamento muito volvel. No confio em homens assim - ajuntou Ana Paula.
Lurdinha irritou-se.
- Ainda vou fazer esse homem gostar de mim, vocs vo ver.
- Acho que nem com reza braba - asseverou Ana Paula.
- Ele  fascinado por Suzana. Enquanto esse encanto no acabar, voc no tem a menor chance - assegurou Fernando.
Ele e Ana Paula comearam a rir, e Lurdinha deu de ombros.
- Sei como fazer Bruno se interessar por mim.
- Qual a arma? - perguntou Fernando, em tom de brincadeira.
Lurdinha baixou o tom de voz. Olhou ao redor para se certificar de que no seria ouvida nas mesas prximas. 
- Vou contratar os servios de um terreiro.
Ana Paula levou a mo  boca para evitar o susto.
- Terreiro?
- Por que o espanto? Isso  coisa corriqueira neste Pas - tornou Lurdinha com naturalidade.
- Cuidado com isso - advertiu Fernando.
- Com macumba no se brinca - ajuntou Ana Paula.
- Bobagem. Eu no tenho medo.
- Lurdinha - advertiu novamente Fernando -, voc vai mexer com foras do invisvel. No acha melhor estudar, aprender como agem as foras da natureza, e depois ver 
o que  melhor?
- No. Eu quero o Bruno. E, se tiver de fazer magia, por que no?  um servio como outro qualquer.
- Gosto de voc - disse Ana Paula com sinceridade.
- Sei disso - respondeu Lurdinha, pousando as suas mos na dela.
- No gostaria que se metesse em encrenca. O Bruno pode ser um tipo interessante, mas  muito estouvado.
- Sei lidar com tipos assim. Fique sossegada. Tudo vai dar certo.
Lurdinha levantou-se, beijou-os na testa e saiu do restaurante sorridente. Entrou no carro, e, no caminho, foi concatenando os pensamentos. 
- Quero ter o Bruno em minhas mos. Mas tudo bem, vou fazer algo para separ-lo de Suzana. No vai ser difcil. A Suzana no est interessada mesmo nele. Eu sei 
que Pai Thomas vai poder me ajudar nessa tarefa. Nesta semana mesmo vou comear a mexer meus pauzinhos. 
Lurdinha dirigia costurando o trnsito em ziguezague, animada e excitada com a ideia.
Dirigia perigosamente. No observou que nuvens escuras estavam envolvendo-a, alimentando-se do teor de seus pensamentos. No restaurante, Ana Paula no tinha palavras 
para expressar seu estupor. 
- Eu me preocupo com essa paixo repentina da Lurdinha. Sempre a achei meio doidivanas na escola, a mais irrequieta, e sempre adorou chamar ateno.
- Parece que ela tambm no gosta de ouvir um "no" - brincou Fernando. - Pode ser que a vida permita a unio de ambos. 
- Como assim? Mesmo se usando de magia, feitiaria? - protestou Ana Paula. 
- E por que no? Se as foras da natureza existem, podemos us-las a nosso bel-prazer.
- No concordo. No gosto de prejudicar as pessoas ou mesmo obrig-las a fazer o que no querem.
- Ningum faz o que no quer. J aprendemos que no mundo no existem vtimas, entretanto as pessoas se unem por afinidades, por padres semelhantes de pensamentos. 
No percebe que Lurdinha e Bruno so parecidos na essncia?
- No havia pensado assim.
- Pois bem, ambos tm temperamentos fortes, so impetuosos, no medem esforos para conseguir o que querem. E tambm odeiam ouvir um "no". Talvez Lurdinha no precise 
gastar muito com os tais servios que tenciona utilizar.
- O que acha que ela est tramando? - inquiriu Ana Paula, apreensiva.
- Pelo teor da conversa, acredito que ela v atrs de um pai-de-santo, daqueles que fazem de tudo, seja para o bem ou para o mal. S visa o lucro, o ganho. Pelo 
pouco que conheo a Lurdinha, logo ela vai ter o Bruno na palma de sua mo.
- Todavia Bruno se sente atrado pela sua irm.
- Suzana no sente nada por Bruno, a no ser asco.
- Interessante isso.
- Interessante o qu? - inquiriu Fernando. 
- Sua irm vai trabalhar numa firma onde justamente o filho do dono fica caidinho por ela.
- Cado, no; eu diria cismado.
- Que seja. Suzana est sendo assediada. No acredita que possa haver relao de vidas passadas entre ambos?
- Voc tem dvida em crer na continuidade da vida e me sai com essa? - brincou ele.
Ana Paula riu-se.
- A minha boca vai e fala. Depois do tratamento no centro, dos estudos, tudo tem ficado mais claro para mim. S afirmo que h uma parte minha que se recusa a aceitar 
a verdade, porquanto temo pelo estado emocional de meu pai, mais nada. Em relao  sua irm e ao Bruno, voc, que estuda espiritismo e sabe mais que eu, no acredita 
que haja algo que os liga pelo passado?
- No.
- Por qu?
- Porque nem sempre as pessoas com as quais nos encontramos nesta vida tm algo a ver com nossas ligaes passadas. Geralmente reencarnamos prximo de pessoas que 
amamos e tambm junto aos nossos desafetos, a fim de que possamos mudar nossas crenas, tomar novas atitudes diante de situaes que se repetem com as mesmas pessoas. 
Contudo, no caso de Suzana, no percebo isso. Bruno est mesmo fixado na imagem dela, cismado. No sei se voc sabe, mas ele j passou por isso antes.
- Como assim?
- A histria est se repetindo de novo.
-  mesmo? - perguntou Ana Paula interessada.
- H alguns anos, o Dr. Roberto tinha outra secretria, a Olga.
- No foi  moa que indicou sua irm para ocupar seu cargo?
- Ela mesma. Um doce de criatura. Boa, generosa.
- E o que h na cisma de seu irmo com Suzana e a Olga?
- Logo que Olga entrou na empresa, Bruno tambm "cismou" com ela.
- No diga!
- Foi um deus-nos-acuda. Olga j namorava o Helinho. E, sabe, Helinho  homem bom, mas tem o pavio curto. Chegou a intimidar Bruno, e s sossegou quando papai sugeriu 
que Bruno fizesse um tratamento espiritual l no centro. Depois Bruno se ausentou por um bom tempo, passando longas frias na Europa.
- E ajudou na poca?
- Ajudou. Tinha algumas entidades desencarnadas coladas energeticamente ao Bruno.  Ele sempre foi invigilante nos pensamentos, muito arrogante, sempre quis tudo 
o que queria. E sempre achou que as mulheres tambm so como brinquedos. Quando ele cisma com uma, tem de t-la de qualquer jeito.
- Mas ento a culpa no foi dele. Se havia entidades ao seu redor, interferindo na sua maneira de ser...
- A voc se engana, Ana Paula. Os espritos sejam do bem ou do mal, s podem se aproximar de ns com a nossa permisso. Ningum pode chegar e encostar, como se 
diz, na gente. S com nossa permisso. E isso acontece atravs de atitudes, crenas, padres semelhantes.
- Ento nem mesmo nesse caso h vtimas?
- No. Isso  criao da Igreja, para diminuir o poder do homem. Concordo e recomendo que uma pessoa espiritualmente perturbada merea tratamento espiritual adequado. 
Mas  tudo temporrio. A cura efetiva vem no momento em que o obsedado passa a mudar seu comportamento, procura rever atitudes e padres de pensamento que atraram 
situaes desagradveis ou entidades infelizes ao seu lado. No se esquea de que, do mesmo jeito que atramos os infelizes, tambm podemos atrair os espritos de 
esferas superiores, que muito podem nos inspirar e nos orientar nesta vida.
- Isso  verdade. H espritos de toda sorte no mundo.
- Nos diversos mundos que coexistem com o nosso. O mesmo ocorre aqui na Terra. Estamos prximos s pessoas por afinidades, por sintonia. E este mundo est cheio 
de todo tipo de gente, seja boa, ruim, arrogante, prepotente, generosa, simptica...
- Seu raciocnio parece ter lgica. Ento h algo em Suzana que permite ao Bruno assedi-la? Seria isso?
- Sim. Suzana Tnia no atraiu o Bruno em seu caminho por acaso. H algum tipo de pensamento, de crena, que faz minha irm ficar presa no campo energtico do rapaz.
- O que seria? Tem alguma ideia?
- No. Mas, como vamos conversar com Durval a respeito das energias que estamos percebendo ao nosso redor, podemos tocar no assunto e falar de Suzana.
- Prezo muito a amizade de sua irm. Gostaria muito que ela se visse livre daquele calhorda.
- Eu tambm - assentiu Fernando, esboando leve sorriso.
A conversa fluiu agradvel. Aps o jantar, Fernando acompanhou Ana Paula at a porta da penso.
- A noite foi deliciosa. Estar ao seu lado  muito bom.
- Sinto o mesmo.
- Gostaria de sair mais vezes com voc - tornou ele.
- No prometo todos os dias. H vezes que chego muito cansada, mas podemos aproveitar o fim de semana. O que acha?
- No atrapalharia voc? 
- De maneira alguma. Adoraria estar mais tempo ao seu lado.
Fernando sentiu as pernas falsearem, o corao disparar. Era muito tmido no trato com as garotas, e a maneira direta de Ana Paula, ao mesmo tempo em que o perturbava, 
dava-lhe largas  paixo. Era algo diferente de tudo que sentira at ento. Nunca mulher alguma havia tocado assim seu corao. Ele procurou recompor-se. Beijou-a 
delicadamente no rosto.
- Boa noite.
Assim que a beijou, saiu passos rpidos at a outra esquina, onde estava seu carro. Entrou, acomodou-se no banco, deu partida e logo desapareceu na curva da esquina. 
Ana Paula riu, balanou graciosamente a cabea para os lados e entrou. Encontrou Guiomar na recepo.
- Cada vez gosto mais de Fernando. Ele a trouxe antes da meia-noite, conforme o combinado.
- Nem havia percebido o horrio.
- Mas eu, sim, criana. Gosto dele. 
- Eu tambm.
Guiomar exibiu delicioso sorriso, de onde se viam seus dentes alvos e perfeitamente enfileirados.
- Esto namorando?
- Ainda no... Acho que no.
- Como assim?
Ana Paula meneou a cabea para os lados. 
- Quer dizer, no sei ao certo. Fernando se mostrou bastante tmido.
- Ele ainda no se declarou?
- Ainda no.
- E por que voc no se declara?
- Eu?! - perguntou  jovem, tomada de surpresa.
- E qual o problema?
- Estou esperando que ele tome a iniciativa. No quero passar por oferecida.
- Quem disse que o homem deve tomar a iniciativa? Isso no passa de conveno social. S porque  homem, tem de tomar as rdeas da situao? Ora, Ana Paula, os tempos 
so outros, vivemos num mundo de grandes mudanas, grandes transformaes.
- Isso  verdade.
Guiomar continuou, animada e exaltada:
- O homem est com o p quase l na Lua!
- Sim, um sonho que est prestes a se tornar realidade.
- Ento, menina, no seja como a mdia das pessoas. No seja medocre. Seja voc.
- No sei... Fico em dvida.
- Voc chegou aqui de cabea baixa, sentindo-se inferior, machucada, porque sua me a colocou para fora de casa. Estava com baixa auto-estima, sentindo-se a ltima 
das criaturas. De repente travou amizade com Claudete e Tnia, ficamos eu e voc amigas, e ainda, de brinde, Deus lhe colocou Fernando no caminho. 
- Dou graas  vida. Sou outra pessoa.
- Sim! Hoje voc  outra pessoa. Foi at o centro esprita, tomou passes, ficou melhor, aprendeu a enxergar a vida com outros olhos.
Mudou alguns padres de pensamento que a impediam de ser feliz. Agora que aparece um homem bom, honesto e atraente - ela riu - voc vai deixar a oportunidade passar? 
Vai deixar de dizer o que sente, porque na nossa sociedade a mulher no deve tomar partido? Isso no faz parte mais da atualidade. Seja voc mesma. V  luta, minha 
filha. 
- Ir  luta...
- Claro! Menina, voc conseguiu superar-se e enfrentou sua me. Para quem enfrentou uma me como Guilhermina, no acha que Fernando  um prato bem mais simples de 
ser degustado?
Ana Paula emocionou-se. Abraou Guiomar com carinho e beijou-lhe delicadamente a testa.
- Voc  a me que eu sempre quis ter.
- Pois j tem h muito tempo.
- No me falta mais nada nesta vida.
- S falta ir atrs dele - disse Guiomar, enrgica.
- Vou pensar a respeito.
Despediram-se e cada uma foi para seu quarto. Deitada, com o corao transbordando de felicidade, Ana Paula adormeceu. Teve uma noite de sono agradvel e tranqila. 
O esprito de Albertina estava bem prximo da cama. Contemplou o corpo da neta, dormindo serenamente, e ministrou-lhe energias de coragem e firmeza. Com certeza, 
Ana Paula iria acordar revigorada e tomaria atitudes bem diferentes das quais estava habituada. Na manh seguinte, Ana Paula acordou bem-disposta. Levantou-se, espreguiou-se 
e foi fazer a toalete. Desceu para a saleta de refeies com largo sorriso. Tnia estava terminando seu desjejum e notou o semblante radiante da amiga.
- Bom dia!
- Bom dia, Tnia.
- Est com um sorriso to encantador!
Ana Paula serviu-se de alguns pedaos de frutas. Sentou-se di fronte a Tnia.
- Voc no imagina o quanto estou feliz!
- Fernando se declarou? - inquiriu  amiga, curiosa.
- Ainda no.
- E por que esse sorriso estampado no rosto?
- Estou apaixonada. Descobri isso ontem  noite.
- Pelo Fernando,  claro.
- Sim, sem dvida.
- Mas, se ele no se declarou...
- Fui dormir pensando no que sinto pelo Fernando. Acordei hoje com uma fora, com um bem-estar sem igual, como havia muito eu no sentia. Parece que meu corpo recebeu 
alta dose de nimo. Sinto-me revigorada, pronta para assumir o que sinto pelo Fernando.
- Meu Deus! - exclamou Tnia. - Voc est mudada mesmo. Vai saber com quem voc se encontrou fora do corpo esta noite...
- No me lembro de nada. Acordei com esta sensao, este bem-estar. Ao acordar, lembrei-me de minha av Albertina.
- A tem dedo dela - disparou Tnia. - Sua av deve estar lhe ministrando passes revigorantes, enviando energias de equilbrio e bem-estar ao seu corpo fsico.
- Ser?
- Claro! Os espritos do bem que nos circundam est sempre nos enviando esse tipo de energia. Tais energias penetram pelo nosso corpo fsico e nos do essa sensao 
de bem-estar, nimo, otimismo, firmeza, etc.
- Fica cada vez mais claro para mim a constatao de que a morte do corpo no  o fim.
Tnia riu.
- Depois de meses freqentando o centro do Durval e conversando sobre espiritualidade noite aps noite comigo, ainda no se convenceu?
- Claro que me convenci. Mas a cada dia me surpreendo com essa descoberta. A vida tornou-se diferente para mim desde ento.
- Mais leve e fcil de ser compreendida. 
- Isso mesmo. Tudo fica mais claro. Inclusive o que sinto por Fernando.
Tnia pousou suas mos nas de Ana Paula.
- Minha amiga, no perca tempo. Declare-se.
-  o que tenciono fazer.
- Quando?
- Agora mesmo.
Ana Paula levantou-se, voltou ao banheiro e escovou os dentes. Aspergiu suave e delicado perfume sobre sua pele acetinada, ajeitou os cabelos, piscou para sua imagem 
refletida no espelho e desceu as escadas, com a inteno de expressar livremente o que ia a seu corao. Tnia desejou-lhe boa sorte. Ana Paula apanhou a bolsa, 
despediram-se. A jovem contornou a esquina e chegou num instante  tinturaria de Seu Hiroshi. Tocou a sineta, e em seguida Fernando apareceu atrs do balco.
- Que surpresa agradvel - tornou o moo.
- Bom dia - disse Ana Paula, sorridente.
- Bom dia - respondeu ele.
- Como dormiu?
- Muito bem. Parece que flutuei, ou algo parecido, tamanha a leveza. Acordei muito bem-disposto.
- Eu tambm - tornou Ana Paula, olhos fixos nos de Fernando.
O jovem sentiu novamente as pernas falsearem. O olhar de Ana Paula o perturbava sobremaneira. Ela percebeu, aproximou-se do balco, seus lbios ficaram muito prximos. 
Fernando sentiu a saliva desaparecer da boca e o sangue sumir das faces. Ana Paula baixou o tom de voz:
- Acordei hoje decidida a lhe fazer um pedido.
Fernando suspirou e ajuntou:
- Pois que faa.
- Quer me namorar?
Fernando precisou segurar-se na beirada do balco para no cair. Ele deu uma pequena escorregada e procurou recompor-se rapidamente. Ana Paula riu, aproximou-se 
e o enlaou pela cintura. Ela novamente fez a pergunta.
- Hum, hum - respondeu ele, olhos fechados.
Os seus rostos se aproximaram e Ana Paula tascou-lhe delicioso beijo nos lbios. Fernando sentiu o cho sumir. Uma onda de calor invadiu-lhe o corpo, subindo e descendo 
numa velocidade impressionante. Ele correspondeu ao beijo e, assim que ela se afastou, ele procurou se recompor.
- Meu corao parece que vai saltar pela boca.
- Estou apaixonada por voc.
- Eu tambm estou apaixonado por voc.
- E por que razo no me pediu em namoro?
- Queria lhe fazer o pedido ontem  noite, mas fiquei sem coragem.
- Por qu?
- Senti medo de que voc estivesse somente interessada em minha amizade, nada mais.  
Ana Paula sorriu.
- Nunca percebeu o brilho nos meus olhos todas as vezes que nos encontrvamos?
- Percebi, mas fiquei confuso. - Ele pigarreou. - Sou muito tmido. Namorei muito pouco e, desde que a vi no funeral de seu pai, senti algo diferente. Acho que sempre 
a amei, desde aquele dia.
Ambos se abraaram e se beijaram. Estavam felizes. Amavam-se de verdade. Seu Hiroshi apareceu na soleira da porta, perto do balco. Deu uma tossidinha.
- Agola ao tlabalho, n! - sugeriu o simptico velhinho, no sotaque caracterstico.
Fernando sorriu e Ana Paula respondeu:
- Desculpe Seu Hiroshi. No quis atrapalhar o servio. Vim s dar bom-dia ao meu namorado.
Ela beijou levemente os lbios de Fernando. Aproximou-se de Hiroshi e beijou-lhe a face. Saiu sorridente e cantarolando. Hiroshi cutucou Fernando:
- Boa moa. Vislumbro muita felicidade pala os dois.
- Tenho certeza.
- Que Buda lhes conceda muitos anos de felicidade.
 O sbado chegou rpido e Guilhermina mostrava-se bastante ansiosa. Guadalupe, meio a contragosto, procurou acalm-la.
- Vai dar tudo certo.
- Sei, sei, mas estou preocupada com meu filho.
- Calma.
Guilhermina torcia as mos, impaciente.
- Luis Carlos pode cometer um deslize.
- E da?
- Ora, Guadalupe, ele pode botar todos os nossos planos por gua abaixo. Seu filho vai conseguir.
- No sei, estou nervosa. Ramrez me passou a ficha completa de Otto. Esse homem  um monstro; tenho medo do que possa fazer contra meu filho.
- Bobagens de me.
- No! Posso estar ansiosa e preocupada, mas meu corao de me no me engana. H algo de estranho nisso tudo. Temo pela integridade de meu filho.
Guadalupe sorriu maliciosamente. Aps rodopiar com sua saia pela sala, como se estivesse bailando, asseverou:
- Otto no far nada, eu lhe prometo.
 - Voc  muito segura de tudo.
- Com certeza absoluta.
- Mesmo? - inquiriu Guilhermina, impaciente.
- No disse que tenho as cartas escondidas na manga?
- E quais so essas cartas? Por que me esconde o que sabe?
- Isso  problema meu. Eu disse para confiar em mim, Guilhermina. Caso Otto no aceite a unio de Luis Carlos e Maria Cndida, eu mesma entro em ao.
- Preciso me recompor. Vou subir e tomar um banho, me acalmar.
- Faa isso. Tome um banho, descanse na banheira, deixe os sais acalmarem seus nervos.
Guilhermina subiu e Guadalupe sentou-se na beira elo sof. Estava impaciente. Conseguira se segurar enquanto Guilhermina estava l dando seus chiliques. Afinal, 
Guilhermina era temperamental e no media esforos para conseguir o que fosse. Entretanto, quando alguma situao envolvia seu filho Luis Carlos, ela se descompensava 
inteira. Sua altivez ia ao cho, e era difcil de atur-la. Guadalupe exalou profundo suspiro de contrariedade.
- Estou farta desta casa e desta gente. No vejo a hora de me livrar desta famlia.
Ela ficou remoendo seus pensamentos no sof. Havia prometido para si mesma que no ficaria um minuto a mais naquela casa quando o plano fosse concretizado. Guadalupe 
contava nos dedos os dias que faltavam para se livrar da me e do filho borra-botas. Enquanto isso Guilhermina, no andar de cima, preparava-se para seu banho. Ela 
entrou no banheiro, tirou suas jias e despiu-se para entrar na banheira. Ajeitou o corpo, encostou a cabea na beirada e adormeceu rapidamente. O esprito de Guilhermina 
desprendeu-se de seu corpo e o seu perisprito levantou-se, caminhando pelo banheiro e remoendo seus pensamentos. Foi nesse instante que ela viu aquelas duas criaturas 
paradas na soleira da porta. Guilhermina deu um grito histrico e voltou com tremenda rapidez ao corpo. Acordou sobressaltada, suando, o suor escorrendo pela fronte. 
Continuou gritando, debatendo-se dentro da banheira. Guadalupe, ao ouvir o grito, subiu correndo as escadas. Maria e mais outra empregada vieram da cozinha aflitas 
e assustadas. Guadalupe aproximou-se de Guilhermina.
- O que foi? O que aconteceu?
- Tive um pesadelo - disse voz entrecortada pelo susto.
- Um pesadelo?
- Horrvel! - exclamou ela, aos berros.
- E precisava gritar tanto assim?
- Voc no imagina o que eu vi Guadalupe.
- O qu?
- No quero falar...
- Fale mulher, o que voc sonhou?
- Vi dois homens ali - ela apontou na direo da porta do banheiro.
Guadalupe virou-se para l e nada viu. As duas empregadas tambm se viraram para o local indicado. Maria, mais sensvel, sentiu um arrepio pelo corpo e imediatamente 
fez o sinal da cruz.
- Que homens? - inquiriu Guadalupe.
- Um era grande, alto, tinha uma capa vermelha, careca, moreno, barba e os olhos levemente puxados. Seus olhos expeliam chispas de fogo. Trazia um tridente na mo 
direita. O outro estava maltrapilho, aparncia horrvel, os cabelos em desalinho.
- Voc se impressionou com as imagens - retrucou Guadalupe.
- No! - bramiu Guilhermina. - Ele apontou o dedo para mim e disse que ia acabar comigo.
- Ele quem?
- No sei ao certo. Foi tudo muito rpido. O rosto no me era estranho.
- Ora, isso  alucinao!
- No pode ser. Foi to real!
- Voc est tensa, muito nervosa.
- Eu juro que vi!
- Acalme-se.
Guadalupe apanhou uma toalha e a estendeu para Guilhermina. Ela saiu da banheira, enxugou-se e colocou o roupo. Encarou as empregadas.
- O que esto fazendo aqui ainda?
As duas se entreolharam sem saber o que perguntar ou o que fazer.
- Vamos... O espetculo j terminou.
As duas baixaram a cabea e saram apressadas. Guadalupe estava cismada.
- O que de fato aconteceu?
Guilhermina esperou que as empregadas sassem e encostou a porta do banheiro. Baixou o tom de voz. Confessou, aturdida:
- Eu vi o Miguel.
- Era ele, pude reconhecer. Embora estivesse sujo, maltrapilho, era ele.
- Tem certeza?
- Absoluta! Tenho tido pesadelos com ele nos ltimos tempos, mas hoje foi tudo to real!
- E o que ele lhe fez?
- No fez nada, s disse que vai acabar comigo.
- Voc est nervosa - declarou Guadalupe, a fim de acalm-la. - Estamos quase chegando ao fim de nosso plano. Logo mais Luis Carlos vai pedir a mo de Maria Cndida 
e tudo vai se resolver. Precisa se acalmar.
- Isso no tem nada a ver! Eu juro que um dos homens que vi era o Miguel. Eles riam de mim.
- Quem morre no volta. Isso nada mais  do que alucinao. Por favor, recomponha-se. 
Guilhermina tremia dos ps  cabea. Terminou de se enxugar com a ajuda de Guadalupe. Vestiu uma camisola e ajeitou-se na cama.
- Quer que eu lhe providencie um copo de gua com acar?
- No ser necessrio.
- Tem certeza?
- Sim, estou melhor. Sinto um pouco de enjo e dor de cabea. Prefiro que me d um comprimido para aliviar esta dor. Por favor, pegue a caixinha na cmoda ao seu 
lado. Guadalupe foi at a mesinha de cabeceira e pegou a caixinha. Tirou dois comprimidos e os entregou a Guilhermina. Num tom que procurou tornar amvel, ofereceu:
- Vou pegar um copo de gua.
Guilhermina assentiu com a cabea. Estava apavorada. Havia tempos sonhava com Miguel atrs dela. No entendia direito; s o via nervoso, alterado, irritado, cobrando-lhe 
satisfaes. s vezes ela se recordava do sonho e espantava os pensamentos desagradveis com as mos. Mas nas ltimas semanas estava diariamente sonhando ou tendo 
pesadelos com ele. O desta tarde foi impressionante. Ela podia jurar que era ele ali no banheiro. De fato, fazia algum tempo que o esprito de Miguel a rondava. 
Com a ajuda de Joo, ele saiu do cemitrio e tomou-se um protegido do esprito mais lcido. Viver em outra dimenso, embora no mesmo espao dos encarnados, era uma 
arte, pois havia muitos espritos zombeteiros, aproveitadores, e muitos tambm que mal sabiam estar mortos. Havia outros que, desesperados ao ter conscincia de 
seu novo estado, eram escravizados por espritos mais espertos. Joo dava proteo a Miguel, e foi assim que ele chegou at a casa de Guilhermina. Num primeiro momento 
ele quis atac-la. Quando tinha chance, Miguel avanava sobre seu pescoo e exigia-lhe satisfaes do romance com Ramrez, da trama em que estava metendo o filho. 
Guilhermina sentia-se mal, tinha enjos, dores de cabea. Tomava comprimidos, e logo a sensao desagradvel passava. Miguel no ia sossegar at fazer com que Guilhermina 
e Ramrez pagassem pela traio. O orgulho ferido cegava seu corao. Nos ltimos tempos chegou ao cmulo de atribuir  esposa e ao amante a culpa pelo ato tresloucado 
que ceifara sua vida. Por a razo, Miguel desejava ardentemente que ambos pagassem caro pela sua morte. No arredaria p daquela casa enquanto no acabasse com a 
felicidade aparente do casal. Guadalupe voltou com o copo de gua e delicadamente o entregou a Guilhermina. 
- Tome os comprimidos e descanse.
- Hum, hum.
- Tenho certeza de que a noite ser proveitosa.
- Assim espero.
- Teremos excelentes notcias logo mais  noite.
- Est muito confiante.
- Voc sempre foi confiante. De uns tempos para c tem mudado de ideia constantemente, mostra-se insegura.
- Trata-se de Miguel. Ele est me assombrando.
Guadalupe deu uma gargalhada.
- Isso  pattico. Os mortos no voltam jamais.
- No sei, no sei. Nunca gostei do assunto de vida aps a morte, reencarnao. Sempre odiei os espritas. Mas e se esses loucos tiverem razo?
- Como assim?
- E se depois da morte tudo continua?
- Guilhermina, francamente! Quem morre  enterrado a sete palmos e ponto final. Miguel j deve ter virado comida de bichinho.
- Ser?
- Esquea isso.
- Era ele. Voltou para me cobrar disse Guilhermina em tom desesperador.
- Ele tem motivos pra isso?
Guilhermina hesitou. Lembrou-se da poca em que conheceu Ramrez, de seu envolvimento, pela paixo desenfreada. Ser que Miguel chegou a desconfiar de sua traio? 
No, isso no era possvel. Ela fora muito discreta, reservada. E se Miguel tivesse colocado detetives atrs dela?
- O que est pensando, Guilhermina?
- H? Nada, nada.
- Voc no me respondeu. Miguel teria motivos para assombr-la?
Guilhermina procurou desconversar. Manteve modulao firme na voz:
- Miguel sempre foi fraco. Tirou a prpria vida. Acho que est mais  penando por a, vagando sem eira nem beira.
Conversaram mais um pouco e Guilhermina adormeceu. Como seus comprimidos eram muito fortes, seu esprito desprendeu-se e permaneceu adormecido alguns palmos acima 
do corpo fsico. Miguel tentava acord-la, mas em vo. Joo o segurou pelo brao. 
- Deixe-a em paz.
- Ah, no! - protestou ele.
- Agora no vai adiantar nada.
- No saio daqui, Joo.
- O remdio anestesiou seu perisprito. Ela no vai acordar de jeito nenhum.
- Voc a viu caoando de mim?
- Ela no tem noo do que diz.
- Como no?
- Est perturbada. Sente medo e est apavorada. Isso cria um ambiente propcio para que continuemos aqui mais um tempo.
- Mais um tempo, no! Quero descobrir tudo.
- Descobrir o qu, homem?
- Ora, tudo, u! - respondeu Miguel, hesitante.
Joo o encarou firme:
- Quer descobrir mais o qu? Que ela lhe passou a perna? Que ela o traiu num piscar de olhos, sem remorso algum? Est na cara.
- Por isso eles tm de pagar.
- Isso  diferente. Tem certeza de que  isso mesmo que quer?
- Eles me apunhalaram pelas costas. E ela nem se importou com minha morte.
- A vingana no  boa amiga.
Miguel rangia os dentes, tamanho o dio.
- E vou deixar os dois aproveitarem e viverem felizes para sempre? Uma ova!
Joo balanou a cabea para os lados.
- Voc sabe o que faz. E no se esquea de que  responsvel pelo que pratica.
- Cad Deus? Eu tenho de ficar de mos atadas, e eles vo sacaneando com todo mundo? Tenho muita pena do Luis Carlos; voc reparou o quanto Guilhermina e Guadalupe 
o manipulam?
- Vi.
- Viu o que Luis Carlos vai fazer com Maria Cndida, influenciado por essas duas vboras? Pobre moa...
- Isso no  problema nosso. Cada um cria seu destino. Deixe que Luis Carlos responda pela lei.
- Lei? - perguntou Miguel. 
- Sim, a lei. Pensa que o mundo, to perfeito,  regido pelo que?
- Por foras inteligentes.
- E essas foras inteligentes seguem uma ordem, dentro de uma grande lei csmica. E a lei nunca falha.
- Falhou comigo.
- Aguardemos. No vamos discutir isso agora. Fique sentadinho a no canto, que tenho assuntos a tratar. Se permanecer quieto, eu lhe prometo que o levo at sua filha.
- Jura mesmo?
- Cumpro com minha palavra, sempre.
Joo Caveira falou e logo desapareceu pela parede do quarto. Miguel deixou que uma lgrima escorresse pelo canto do olho. Lembrou-se de Ana Paula. Sua filha amada, 
querida. Estava por a talvez perdida, sem o apoio e amor da famlia. Quisera Deus ela estivesse bem. Estava louco de saudade. Embora tentasse mentalizar o rosto 
da filha, no conseguia achegar-se dela. Ainda no dominava tcnicas de manipulao de determinadas energias para se transportar com facilidade de um lugar a outro. 
Naquele exato momento s conseguia ficar perto de Guilhermina. Mas Miguel estava determinado: assim que se vingasse da esposa, iria atrs da filha que tanto amava. 
Luis Carlos arrumou-se com apuro. Tinha certeza de que a noite estaria ganha. Conquistara o corao de Maria Cndida muito rapidamente. Guadalupe ajeitou delicadamente 
o n da gravata.
- Est estupendo!
- E se der errado?
- Como assim?
- E se algo sair do planejado?
- Nada vai sair do planejado, corazn.
- Tem certeza?
- Absoluta!
O jovem estava visivelmente apreensivo.
Guadalupe percebeu e perguntou:
- O que ?
- Estou me sentindo meio calhorda. No gosto de tripudiar sobre os sentimentos das pessoas. Maria Cndida tem se mostrado excelente pessoa.
- No me diga que est com pena do patinho feio?
- No  isso, Guadalupe - tornou ele, srio.
- Voc no tem sentimentos?
Ela disfarou:
- Claro que sim.
- Ento perceba o quanto estamos sendo cruis. Espero que tudo acabe bem.
- Vai acabar bem. Maria Cndida vai superar. Agora no  momento para se preocupar.
- Vou ter de dobrar o velho Otto. Sabe que o pai de Maria Cndida  osso duro de roer. No vai me aceitar to facilmente.
- Ele vai ter de aceitar todas as condies.
- Mesmo? - inquiriu Luis Carlos, hesitante.
Guadalupe procurou tranqiliz-lo:
- Esqueceu-se da carta que tenho sob as mangas?
- E essa carta pode ser to poderosa assim?
Guadalupe sorriu maliciosa. 
- Otto vai permitir que a filha se case com voc. Ele no tem outra sada.
- Assim espero. Tora por mim.
Despediram-se e Luis Carlos foi  garagem. Entrou no carro, deu partida e tomou o rumo da casa de Maria Cndida. L chegando, foi conduzido pelo mordomo at a sala 
de estar. A me da jovem o aguardava.
- Boa noite, Dona Zara.
- Boa noite - replicou ela, visivelmente irritada.
- E Maria Cndida?
- Descer logo. Est terminando de se arrumar. Afinal de contas, a data  muito especial para ela.
- Tenho certeza disso - tornou Luis Carlos, corts.
- Sente-se, por favor.
O jovem sentou-se em elegante poltrona. Procurou continuar o tom corts com Zara.
- E Otto?
- Est numa reunio ele negcios. Dever chegar em breve.
Luis Carlos procurou manter conversa agradvel, entretanto percebeu o quanto Zara estava perturbada com sua presena. Ele ia lhe dirigir a palavra, quando naquele 
momento Maria Cndida adentrou a sala em grande estilo. Trajava lindo vestido em tons de azul, o cabelo preso em coque. A maquiagem estava um tanto exagerada. A 
jovem sentia-se insegura em relao a sua beleza, e por esse motivo carregara bastante a maquiagem nas mas do rosto, que ela julgava serem defeituosas. Luis Carlos 
levantou-se e beijou-lhe a mo.
- Boa noite.
- Como vai, Luis Carlos?
- Bem. Voc est linda. Ela corou.
- Obrigada. Voc tambm est muito bonito. Desculpe t-lo feito esperar. Estava indecisa quanto ao vestido...
- Este lhe caiu muito bem  completou Zara.
- Sim, mame. Foi presente que trouxeram da ltima viagem a Buenos Aires.
- Seus olhos esto brilhantes  comentou Luis Carlos.
- Estou feliz.
Uma simptica empregada serviu-lhes champanhe, e, no momento em que iam fazer o brinde, Otto chegou. Zara olhou o marido de esguelha e no gostou do que viu. Conhecia-o 
muito bem e sabia que aquela expresso no semblante do marido no era bom sinal. Procurou manter a calma.
- Ol, querido. Chegou bem na hora.
- Junte-se a ns no brinde - convidou Maria Cndida.
Luis Carlos nada disse. Uma fina camada de suor escorreu pelo canto esquerdo de seu rosto. Tentava sobremaneira manter a calma. Otto aproximou-se, pegou uma taa 
e a contragosto tocou-a na da filha e esposa. Evitou fazer o mesmo com a taa de Luis Carlos.
- Gostaria que as duas se retirassem. Preciso ter uma conversa seria com esse rapaz.
- Depois do jantar, papai.
- No, agora.
- Por favor, papai - tornou Maria Cndida, em tom de splica. - Aps o jantar vocs conversam.
Otto foi categrico.
- Agora!
Quando Otto dizia fria e secamente "agora", no havia o que discutir. Ele estava seguro, e nada iria demov-lo do intento. Ia conversar agora com Luis Carlos. Zara 
conduziu a filha at outra sala cerrou as portas da saleta a fim de que ambos ficassem  vontade. Sozinhos na sala, Otto fez sinal com a mo, apontando uma poltrona 
para o moo. 
- Sente-se.
Luis Carlos no emitiu som. Tomou a champanhe de um gole s e sentou-se rapidamente na poltrona, de frente para Otto. O pai de Maria Cndida foi direto e incisivo:
- Chega de rodeios.
- Como assim, senhor?
- O que quer com minha filha? 
Luis Carlos pigarreou. Por fim, disse:
- Quero me casar com Maria Cndida.
- Por qu?
- Porque a amo.
Otto sentiu o sangue subir-lhe as faces. Ele possua a pele bem alva, e logo seu rosto ficou transtornado, vermelho, os olhos parecendo saltar das rbitas. Luis 
Carlos exalou profundo suspiro. Comeava a sentir medo do velho. Otto prosseguiu:
- Se disser isso mais uma vez, eu juro que vou perder as estribeiras e cometer uma loucura.
Luis Carlos sentiu o corpo gelar. O olhar de Otto era profundamente assustador. Sabia que o alemo no estava para brincadeiras. Tentou imprimir firmeza  voz:
- Quero me casar com sua filha. E ela tambm quer se casar comigo.
- Nem por cima de meu cadver!  bramiu Otto, que se levantou de um salto e percorreu a saleta de um lado ao outro, impaciente.
- O senhor vai ter de aceitar nossa unio.
- Nunca.
- Por qu?
- Se ao menos amasse minha filha... Mas no a ama.
- Eu vou faz-la feliz - tornou Luis Carlos, pacientemente.
- Isso  mentira. Sei do seu envolvimento com aquela tal de Guadalupe.
Luis Carlos mordeu os lbios com fora. Otto parecia saber de muitas coisas. O plano estava saindo dos eixos. Se pudesse conversar com Guadalupe nesse exato momento, 
tudo estaria bem. Mas o que fazer? Procurou mentir.
- Foi caso passageiro. No temos mais nada.
Otto aproximou-se e meteu-lhe o dedo em riste.
- Voc no passa de um charlato, um ator de quinta categoria. No me convence. Sei que Guadalupe mora com voc e sua me. Alis, aposto como Guilhermina deve estar 
por trs de tudo isso.
Luis Carlos levantou-se da poltrona.
- No fale de minha me o que no sabe. Estamos aqui para discutir o casamento de sua filha comigo.
- Maldito! Pensa que podem me enganar? Voc, sua amante rameira e sua me golpista? Vocs trs no valem nada. J lidei com gente de espcie muito pior. Sei lidar 
facilmente com tipos como vocs. Querem dinheiro? Pois bem, eu lhes dou.
- No quero dinheiro, quero casar-me com sua filha.
- Nem que eu tenha de matar, vocs no se casam.
Luis Carlos sentiu medo no tom ameaador com que Otto lhe dirigiu a palavra. Procurou contemporizar.
- Por que tem tanto medo de que sua filha se case comigo?
- Eu no tenho medo de que Maria Cndida se case. Tipos como voc, eu quero longe de minha filha.
Luis Carlos ia abrir a boca, mas Otto o encostou na parede, apertando-lhe a garganta com fria descomunal nas mos.
- Largue minha filha! Saia de nossas vidas, enquanto  tempo. Vocs esto procurando sarna para se coar. Quer nos dar um golpe, mas podem trazer muitos dissabores 
s suas vidas. Afaste-se de ns, voc e sua maldita corja!
Luis Carlos nada disse. Sentia o ar lhe faltar, as faces vermelhas, o suor escorrendo por todos os poros de seu corpo. Sentiu muito medo. No sabia como reagir, 
o que dizer. Otto o encarava com olhos ameaadores. Ele precisava sair de l o quanto antes e conversar com Guadalupe. Essa noite estava definitivamente perdida.
- Me solte Otto.
O alemo estava possesso. Rangia os dentes, tamanha a raiva.
- Tenho vontade de mat-lo.
Luis Carlos tremia dos ps  cabea.
- Entendi o recado.
- Ento suma daqui.
- Sim, Otto. Deixe-me ir.
- Saia sem fazer cenas. Ou ento acabo com vocs trs e com quem mais se meter no meu caminho.
- Est certo.
- Despea-se de minha filha e nunca mais ouse nos dirigir palavra.
Luis Carlos assentiu com a cabea. Assim que Otto o largou, seu corpo balanou para os lados. Ele procurou recompor-se. Ajeitou o palet, a gravata, passou as mos 
pelos cabelos e pela testa. Antes de sair, ouviu de Otto:
- Se ama mesmo minha filha, pode se casar.
Luis Carlos no entendeu. Rodou nos calcanhares, semblante assombrado.
- Perdo. O que foi que disse?
- Isso mesmo - respondeu Otto, sorriso malicioso nos lbios.
- Ento posso pedir a mo de sua filha em casamento? - indagou Luis Carlos, surpreso.
- Pode desde que saiba, de antemo, que, casando-se com Maria Cndida, ela no vai herdar absolutamente nada de mim. Eu vou remeter todo o meu dinheiro para a Sua 
e vou transferir os bens para um primo de Zara que mora em Minas Gerais. A papelada est pronta, s falta registrar em cartrio.
Luis Carlos no esperava por essa. O velho Otto havia armado tudo, se antecipado, e agora sentia o sabor da vitria. Sem saber o que responder surpreso com essa 
novidade que destrua por completo seus planos de se tornar milionrio  custa do alemo, Luis Carlos ajeitou novamente o n da gravata e saiu de olhos baixos, sentindo-se 
completamente vencido. Correu a porta da saleta e foi ao encontro de Maria Cndida.
- Conversaremos outra hora.
- O que aconteceu? - perguntou ela, voz chorosa.
- Preciso ir.
- Mas como? - inquiriu ela, aflita.
- Preciso ir. At mais.
Luis Carlos despediu-se e fez aceno com a cabea, despedindo-se de Zara. Ela fez sinal com a cabea e abraou-se  filha. Assim que entrou no carro, Luis Carlos 
deu partida e saiu em disparada para casa. Maria Cndida, sentada no sof, no sabia o que dizer. 
- O que aconteceu? Por que ele foi embora assim de repente?
Otto entrou no escritrio e sentou-se ao lado da filha. Zara procurou manter-se calada. Conhecia muito bem o marido e sabia que Otto provavelmente ameaara Luis 
Carlos. Maria Cndida fitava o pai com rancor.
- O que disse a ele?
- Nada.
- Como nada?
- Nada de mais.
- O que disse a ele? Por que Luis Carlos saiu assim em disparada?
- No sei ao certo, filha.
- E o jantar?
- S jantaremos os trs: eu, voc e sua me.
- Como assim?
- S os trs.
- Papai, voc est arruinando minha felicidade.
- No, filha. Voc no tem como entender isso agora. Pode me massacrar, mas ainda vai me agradecer.
- Como posso agradecer-lhe?
- Voc est cega pela paixo. Quando voltar a si, vai compreender e me perdoar.
- Perdoar voc? Por afastar de mim o homem que amo?
- Voc no o ama - tornou Otto enraivecido.
- Voc se encantou com ele porque foi paparicada, mais nada.
- Como pde fazer isso comigo?
- Filha, eu a amo.
- Mentira!
Maria Cndida deu um grito histrico e correu clere para o quarto. Zara tentou acompanhar a filha, mas Otto a impediu. 
- Deixe Zara, deixe. Maria Cndida est cega pelo orgulho ferido e no vai nos perdoar de imediato.
- O que aconteceu?
Otto levantou-se, foi at a sala. Voltou com um envelope pardo e o entregou  esposa.
- Abra e veja.
Zara abriu o envelope. Ao ver as fotos, levou a mo  boca.
- No  possvel.
-  sim.
- Quem tirou essas fotos?
- O mesmo detetive que trabalhou para ns no caso do Augusto. Lembra-se?
Zara estava perplexa.
- Como no poderia me lembrar disso? Eu mesma o contratei para seguir o Augusto. Pensei que Luis Carlos estivesse mesmo nadando em dinheiro, com aquele desclassificado 
do Ramrez pagando todos os seus luxos. Nem me preocupei em contratar o Dantas.
- Ramrez est querendo se livrar de Luis Carlos. Fui informado de que o espanhol est por aqui com o rapaz. - Otto fez um gesto com a mo passando pelo pescoo.
- De quando so essas fotos?
- Foram tiradas esta semana.
- Luis Carlos tem outra?
- Sim. Uma amante. Ele e a me dizem a todos que a amante  uma prima distante que veio do estrangeiro. Entretanto  tudo mentira.
- Guadalupe! - exclamou Zara.
- Sim.
- Mas ela  vidrada no Ramrez.
Otto coou a cabea.
- Sei disso.  esta a pea do quebra-cabea que no quer se encaixar. No entendo como Guadalupe possa estar de amores pelo Luis Carlos. Mas isso no vem ao caso. 
Livramo-nos de mais um pulha.
- Como soube de tudo isso?
- Fiquei desconfiado. Quando Maria Cndida disse que estava sendo assediada por esse caa-dotes, resolvi agir por debaixo do pano.
- E por que razo no contou comigo? - perguntou Zara, entristecida e decepcionada.
Otto aproximou-se da esposa, passou delicadamente os braos pelos ombros dela. Beijou-a numa das faces.
- No queria que voc se preocupasse. Voc fez tudo na poca que desconfiamos do Augusto. No queria que se desgastasse emocionalmente de novo. Enquanto pudesse 
dar apoio a nossa filha, sem saber o que estava acontecendo, eu poderia rapidamente descobrir a verdade.
- Ento voc os contratou e...?
- Contratei a equipe de detetives do Dantas e os botei na cola de Luis Carlos e da me. Deu no que deu. Relatrios e mais relatrios que mostram o cotidiano dessa 
famlia de morfticos!
- Otto!
- Ora, Zara  um bando de sanguessugas. Querem se aproveitar da baixa auto-estima de nossa filha e tomar tudo o que  nosso.
- Voc acha que Luis Carlos vai sossegar?
- No sei, todavia tomei providncias. Se ele se aproximar de nossa filha, vai levar chumbo.
Zara levou a mo  boca.
- Morte, no! Voc prometeu que no iria mais...
- Matar? - perguntou o alemo, em tom enrgico. Zara baixou a cabea. Disse timidamente:
- Sim. Voc prometeu...
- No sou eu quem vai fazer o servio. Contratei aquele capanga l do Cear. Dei-lhe uma boa soma em dinheiro.
- Por favor, Otto. Tenho medo.
- Eu juro que esse canalha no encosta mais um dedo em nossa filha, tampouco em nosso dinheiro. Luis Carlos no nos dar trabalho.
- O que disse a ele para sair to cabisbaixo e atnito?
Otto riu-se.
- Disse que iria deserdar nossa filha caso ele se casasse com ela.
Zara moveu a cabea para os lados.
- Estou pasma com a sua astcia.
- Luis Carlos  caf pequeno. No vai nos incomodar. Minhas energias e minha mira esto voltadas para Ramrez.
- Ele ainda no se convenceu de que voc no vai largar o posto?
- No. Alguns compadres lhe ofereceram a chefia do trfico de toda a regio sul.
- Ele no quer?
- Quer tudo. Voc o conhece. Vamos ter de nos preparar para uma guerra.
Zara abraou-se ao marido.
- Tenho sentido muito medo ultimamente. No acha que est na hora de largarmos tudo isso e fixarmos residncia na Argentina?
- Ainda no - tornou Otto, convicto. 
- Podemos nos mudar, recomear nossas vidas. Temos muito dinheiro. Temo por Maria Cndida. E se ela uma hora descobre?
- Ela no vai descobrir.
- E se tentarem nos atingir fazendo algum mal  nossa filha?
Otto sentiu novamente o sangue subir-lhe pelas faces. Amava demais a filha e no permitiria que algum encostasse o dedo na menina. Entretanto estava comeando a 
sentir medo. O controle do trfico de drogas comeava a gerar disputa entre os internos. Alguns queriam que Otto passasse o comando a Ramrez, o que ele se recusava 
a fazer. Sabia que nesse tipo de negcio o cargo tinha durao limitada e era inconstante. Otto chegara ao Brasil e conseguira tirar o controle do trfico, ainda 
muito pequeno, das mos de Tio Chulapa, um negro que metia medo em meio mundo. Quatro tiros  queima-roupa dados por Otto foram suficientes para derrubar e acabar 
com a raa de Tio. Zara ficara muito nervosa naquela poca e tinha medo de que o marido tentasse matar novamente algum. O trfico agora era algo que enchia de 
cobia os olhos de muita gente. A polcia estava fechando o cerco sobre os cassinos clandestinos e a prostituio informal. No havia ainda preocupao com o trfico 
de drogas. Entretanto as drogas qumicas comeavam a dar muito dinheiro para quem s comercializava, e muita gente comea a se viciar de fato. Ramrez perdera seus 
cassinos, e a prostituio no lhe dava mais tanto dinheiro assim. O espanhol queria o trono. Estava fazendo todo tipo de presso. Otto sabia que no poderia resistir 
por muito mais tempo. Pensou na filha. E se ela tosse alvo de algum desses calhordas que fazem de tudo para conseguir projeo no meio marginal? Zara tocou levemente 
o brao do marido, chamando-o  realidade. 
- E Maria Cndida?
- Vou tomar algumas providncias. Vou botar mais seguranas  paisana atrs dela.
- No falo de sua segurana, mas de seu corao. Ela deve estar arrasada.
- Suba e v acalm-la.
- O que ser dela?
- Ela vai se recuperar. O tempo se encarrega de tudo.
Zara baixou os olhos, virou-se e foi ter com Maria Cndida. Sabia que precisaria ter pacincia para os dias que viriam. Temia sinceramente pelo estado emocional 
da filha. Pensou em seu primo Ernani. Talvez estivesse na hora de ele ajudar Maria Cndida. Luis Carlos chegou to nervoso que raspou toda a lateral do carro na 
parede da garagem.
- Droga! - bramiu ele.
Bateu a porta do carro com fora e entrou em casa soltando dio pelas ventas. Guilhermina e Guadalupe levantaram-se de um salto. A me abraou-se ao filho. 
- Graas a Deus! Pensei que uma desgraa fosse se abater sobre sua cabea.
- Quase, me. Quase!
- O que aconteceu? - perguntou Guadalupe, apreensiva.
- O idiota do pai me ameaou. Otto me disse que somos um bando de calhordas e que, se eu me aproximar de Maria Cndida, ele acaba comigo.
- Oh, no! - desesperou-se Guilhermina.
- Sim, me. Ele assegurou que acaba com a minha vida. Acho que o plano foi por gua abaixo. Estamos perdidos. Est tudo acabado.
- No acabou ainda - sentenciou Guadalupe.
- Como no? O homem parecia o diabo encarnado. Voc no estava l para ver.
- Conheo esses tipos violentos. Sei como lidar com eles.
Luis Carlos explodiu:
- E o que vamos fazer? Fiz o que me foi pedido, brinquei com os sentimentos da menina. E agora? No final das contas, fiz papel de otrio, de bobo.
- Calma, calma, corazn. Esse velho pattico no vai dar a ltima cartada.
- Voc est muito segura  replicou Guilhermina.
- Fiquem sossegados. Preciso falar com Ramrez.
- Acho melhor pararmos por aqui. Otto parece ser do tipo que cumpre com o que promete.
Guadalupe riu histrica.
- Eu tambm cumpro o prometido. Dem-me alguns dias. Prometo que Otto vai mudar de ideia mais rpido do que imaginam.
- Impossvel - tornou Luis Carlos.
- Confie em mim, corazn.
Lurdinha passara dias e mais dias pensando numa maneira de se aproximar de Bruno. Em vo. Marcou nova consulta com Pai Thomas.
- E ento? Ele vai ser meu ou no?
- Assim est difcil - tornou o pai-de-santo, sincero. - Bruno est cismado com outra garota.
- No d para fazer um trabalho em que ele fique com os olhos voltados somente para mim? 
Pai Thomas suspirou.
- Poder, eu posso.  arriscado.
- Arriscado? Como assim?
- Arriscado. Posso entrar em contato com alguns espritos, manipular algumas energias e fazer o moo ficar do seu lado.
- Isso  maravilhoso! - exclamou a moa, excitada.
- Entretanto, caso ele se encante por voc, em razo do meu trabalho...
- Continue - suplicou Lurdinha.
- Ele no ir mais largar do seu p.
-  isso que quero.
- Fiz esse trabalho para duas moas somente, em toda a minha vida profissional. Uma delas veio reclamar tempos depois, pedir para desfazer o trabalho. Esse tipo 
de magia no d para desfazer, compreende?
Lurdinha riu satisfeita.
- Claro que compreendo. No sou hurra. Quero o Bruno para mim, no importa como. Se seu trabalho funcionar para valer, eu lhe pago muito mais que o prometido. Pode 
ficar tranqilo, que no voltarei aqui implorando para afast-lo de mim. Nunca!
-  bom que pense assim. Eu no tenho como desamarrar esse tipo de energia. Quer mesmo esse moo?
- Sim.
- Tem certeza de que o quer a seu lado para sempre?
- Tenho! - disse ela, segura de si.
- Est bem. Aguarde um instante. 
Pai Thomas ajeitou-se na cadeira. Acendeu uma vela sobre sua mesa. Lurdinha pde ver melhor a sala em que o pai-de-santo dava atendimento. Era simples, as paredes 
em tons claros. Figuras de santos misturadas a outras divindades estavam espalhadas por estantes e oratrios fixados na parede, atrs da mesa de Pai Thomas. Sobre 
esta, algumas flores esparramadas e colares de vrias cores. O homem pegou alguns daqueles colares e os meteu ao redor do pescoo. Apanhou alguns bzios, chacoalhou-os 
juntando as duas mos e os atirou sobre um cesto  sua frente. Ele se concentrou por instantes. Respirou fundo e respondeu em seguida:
- Os espritos dizem que d para fazer o servio.
Lurdinha deu um gritinho de satisfao.
- Oba!
- Mas esto lhe alertando que, se fizermos o feitio, no poderemos desfaz-lo.
Lurdinha irritou-se:
- Eu disse que no quero que seja desfeito. Vim aqui segura do que desejo. Eu quero que amarrem o Bruno para mim. Quero que esse homem seja enfeitiado e no desgrude 
os olhos de mim. Quero que ele se esquea de toda e qualquer mulher que haja no mundo. Quero que ele tenha olhos somente para mim.
Pai Thomas fechou novamente os olhos. Concentrou-se e jogou os bzios mais uma vez. Abriu os olhos, olhou para as conchinhas e determinou:
- Meus guias pedem algo para que o servio no falhe.
- O que ? - a indagou, surpresa.
- Preciso de uma roupa ntima desse moo.
- Roupa ntima?
- Sim, uma roupa ntima. Sabe se ele usa ceroula ou cueca? Lurdinha sentiu as faces vermelhas.
- Pai Thomas, quanta indiscrio! Como vou saber o que Bruno usa por baixo das calas? Faa-me o favor...
Pai Thomas riu-se.
- O moo  jovem, deve usar cueca.
- Pode ser.
- Preciso de uma cueca dele, e tem de ser usada.
Lurdinha levou a mo  boca, para evitar o gritinho de repulsa.
- Oh, Pai Thomas! Uma cueca, e ainda por cima usada?
- Sim.
- Mas como? - indagou aflita.
- S assim os meus guias podero fazer uma amarrao para valer, da pesada. Preciso de uma cueca usada.
- Mas por qu?
- Porque a pea ntima de uma pessoa carrega suas energias sexuais, mesmo estando limpa. Caso esteja usada, sem lavar, as energias ficam impregnadas de maneira mais 
forte no tecido. Assim, tenho condies de fazer um trabalho perfeito, que garanto que vai funcionar.
- Mas como vou fazer isso?
- No sei.
- S se eu for a casa dele.
- Ento v.
- Mas no tem como. Ele mal olha para mim.
- Do jeito que as coisas andam, ele no vai olhar para voc mesmo. Est perturbado espiritualmente e s tem olhos para outra.
Lurdinha rangeu os dentes de raiva.
- O que d para fazer, ento?
- No sei ao certo. 
- Voc  o melhor pai-de-santo da atualidade. E se fizer um trabalho para afast-la dele?
- Com essa sua amiga no posso mexer, no.
- Como no?
- Ela  protegida.
- E voc no tem fora?
- Tenho, mas ela  protegida por espritos de luz. Voc vai ter de se aproximar dela, ficar amiga de verdade, fingir, sei l. Precisa ter acesso  casa do rapaz. 
Sem a cueca, nada feito.
Lurdinha suspirou. Bruno era seu sonho de consumo. Acreditava ser ele o homem de sua vida. Alm de bonito, ele era rico, muito rico. No podia perder esse homem 
de vista. Tinha de traar um plano, achar uma maneira de conseguir chegar at a casa do rapaz.
- Seus guias no podem me ajudar a me aproximar da casa dele?
- Posso pedir para que faam esse servicinho.
- Ento faa! - sentenciou ela.
- Mas vai custar um bocado de dinheiro.
Ela levantou-se de salto. Correu at o canto da salinha, pegou sua bolsa e voltou com o talo de cheques na mo.
- No importa.
- Voc est pedindo por dois servios: aproximao e amarrao de homem.
- Isso mesmo.
-  caro.
- Eu pago. Quanto?
- Dois mil para comear.
Lurdinha nem pestanejou. Pegou uma caneta, fez o cheque e o entregou a Pai Thomas.
- Voc me deu trs mil, Lurdinha. Eu lhe pedi dois.
- No importa. Quero que me ajude a chegar at a casa de Bruno. O resto  gratificao. Compre bastante cachaa para os seus amigos invisveis. Faa uma festa. Vamos 
comemorar.
Lurdinha e Pai Thomas gargalharam at que lgrimas rolassem pelos seus olhos. Ela saiu do terreiro determinada. Sentia-se protegida pelas entidades e sabia que logo 
chegaria at Bruno. Eram quase seis horas da tarde quando lhe deu um estalo. Por que no ir esperar Suzana na porta da fbrica? Afinal de contas, fazia um bom tempo 
que ela colara na jovem, fingindo amizade apenas para chegar at Bruno. Pensando assim, Lurdinha desviou o caminho de casa, dobrou a rua, pegou movimentada avenida 
e em pouco mais de vinte minutos estacionou o carro prximo  sada metalrgica. Ao avistar Suzana, saiu do automvel e correu a cumprimentada.
- Oi!
Suzana estava surpresa.
- Voc, aqui? Est perdida? - brincou.
- No. Deu-me saudades - mentiu Lurdinha.
Suzana estava desconfiada da sbita e crescente amizade de Lurdinha nas ltimas semanas. Particularmente nesta tarde, sentiu um torpor ao abra-la. No sabia identificar 
ao certo o que era. Suzana no tinha vidncia. Embora seu corpo registrasse as sensaes, ela no podia ver que duas entidades, a mando de Pai Thomas, estavam seguindo 
Lurdinha, ajudando-a e facilitando a aproximao de Bruno. Essas entidades sabiam que Suzana era protegida por outros espritos e puderam somente inspir-la a fazer 
breve comentrio, nada mais:
- De certa maneira, acho timo ter vindo at aqui. Preciso ir  Rua Augusta.
- Agora?
- Sim, Lurdinha. Aluguei e preciso pegar meu vestido.
- Mas as butiques, mesmo as de aluguel, fecham agora s seis da tarde. No vai dar tempo, nem que faa o carro voar.
- Falei com a recepcionista agora a pouco e ela vai me esperar at as sete.
- Estou de carro e posso lev-la.
- Agradeo - tornou Suzana.
No trajeto, foram conversando banalidades, at que Lurdinha perguntou sem rodeios:
- Tem algum encontro especial?
- No.
- Se vai alugar vestido numa butique na Rua Augusta, no  para qualquer evento. Vai, me conte. O que ?
Suzana riu da maneira despretensiosa de Lurdinha. Respondeu com naturalidade.
- Vou a uma festa.
- Festa?
- Meu chefe faz anos amanh. Vai dar uma festa em sua residncia.
Lurdinha mordeu os lbios para no gritar de alegria.
- O pai do Bruno vai dar uma festa?
- E que festa! Com orquestra, servio de Buffet... Vai at ter jornalistas.
- Mentira!
- Verdade - disse Suzana em tom de desdm.
- Voc no me parece muito animada.
- No estou.
-  por que vai a essa festa?
- Porque sou muito grata ao Dr. Roberto. Meus pais tambm foram convidados. Meu pai est fazendo uma presso danada para irmos  festa. No quero decepcion-lo. 
Mas, por mim, eu no iria.
- Voc est com uma cara!
- A minha vontade era de no ir  festa. Estou indo por obrigao, para ser socivel. Papai acha que no pega bem a secretria do chefe faltar  festa de seu aniversrio.
- Seu pai est certo. Precisamos ceder de vez em quando. Em sociedade no podemos nos isolar; temos de cumprir com determinadas obrigaes.
- Isso me cansa sobremaneira. Odeio fazer tipo. Entretanto ainda tenho receio de dizer "no". Sinto-me culpada.
- Mas vai a uma festa do pessoal da classe A, com requinte, luxo e gente bonita. Eu no acho isso sacrifcio, muito pelo contrrio - tornou Lurdinha, olhos brilhantes.
Suzana exalou profundo suspiro.
- Estou cansada dos assdios do Bruno. Tenho feito tratamento no centro e j percebi o quanto tenho de mudar algumas crenas para que ele se afaste de mim.
- Como assim?
- Est na hora de eu mudar a maneira de lidar com esse assdio. Preciso aprender a ser firme e a no dar importncia s investidas do Bruno. Conseguindo chegar nesse 
nvel de firmeza interior, mudando posturas, crenas e mudando principalmente a minha maneira de pensar, Bruno naturalmente vai se afastar de mim.
- Entretanto ouvi dizer que ele est perturbado espiritualmente. O coitado no tem culpa, j que espritos malfeitores o assediam.
- Isso  mentira - retrucou Suzana, voz firme.
- ?
- Sem dvida. Bruno  o responsvel por estar preso  energia dessas entidades. O mal S entra em nossas vidas pelo mal que h em ns. O mesmo acontece com o bem. 
Ento me responda: por que ele no atrai espritos de luz, espritos elevados?
- No sei. No fao ideia.
- Porque tudo  por meio de atrao, de sintonia, afinidade. Quem est ligado no bem vai atrair bons espritos ao seu lado. J quem est ligado na maldade, na maledicncia, 
vai atrair esses infelizes.
Lurdinha balanou a cabea para os lados. Para ela no importava se Bruno estava ou no em companhia de entidades infelizes. Isso depois Pai Thomas resolveria, com 
um novo trabalho. Perguntou novamente:
- E por que se obriga a ir a essa festa?
- Vou pelo social. Como j lhe disse, no quero decepcionar meu pai. Voltamos a nos harmonizar l em casa. Papai estava fulo da vida porquanto eu e meu irmo estamos 
indo a um centro esprita com o qual ele teve alguns desentendimentos. E, por outro lado, eu adoro meu chefe e ser uma oportunidade de conhecer Dona Rafaela, sua 
esposa. Eu a conheo somente por telefone.
- Mas voc vai se divertir tenho certeza. Vai acompanhada dos seus pais...
Suzana deu de ombros.
- Pode ser. Entretanto meus pais conversam entre si. No temos muito assunto. Temo ficar deslocada na festa, dar chance para o Bruno vir me atacar.
- E seu irmo?
- Fernando vai levar  namorada, e eu vou ter de aturar o pulha do Bruno. A no ser...
Nesse momento, as entidades, sentadas no banco de trs do carro de Lurdinha, aproveitaram a oportunidade e lanaram a ideia. Suzana, muito insegura e sentindo-se 
obrigada a ir  festa, ou seja, indo contra sua vontade acatou o pensamento como sendo seu e disparou  queima-roupa:
- No quer ir comigo  festa?
Lurdinha precisou encostar o carro prximo  guia da calada para no causar um acidente, tamanha a excitao. Procurou manter tom natural na voz:
- Gostaria de minha companhia?
- Sim. O Dr. Roberto disse que eu poderia levar quem quisesse. Tomei a liberdade de chamar a Tnia e a Claudete. Assim me sinto mais  vontade.
Lurdinha fez muxoxo.
- Voc poderia ter me convidado tambm. No preza minha amizade?
Suzana sorriu.
- No  isso, de maneira alguma. Voc est sempre envolvida com rapazes, vai sempre a festas, e eu jamais poderia imaginar que estaria livre na sexta-feira  noite.
- Pois para essa festa estou. Ah, Suzana, adoraria ir. No tenho nenhum compromisso para amanh  noite. 
- Por que tanta vontade de ir  festa?
- Voc sabe o porqu.
- Bruno, estou certa?
- Sim.
Suzana exalou suspiro de contrariedade.
- No se envolva com esse homem. Ele no inspira confiana.
- Mas o que fazer? Eu gosto dele.
- Como pode afirmar?
- Eu gosto, oras.
- Entretanto voc o viu somente duas vezes. Ele mal lhe dirigiu a palavra. Sabe que anda cismado comigo.
- Sei claro que sei. Como tambm sei que voc no o suporta.
- Isso  verdade.
- No seria timo ele parar de assedi-la e apaixonar-se por mim?
Suzana deu de ombros.
- Adoraria que ele largasse do meu p de uma hora para outra. Mas Bruno est perturbado. E eu no gostaria de v-la ao lodo de um homem como ele.
- Bobagens. Eu mudo esse homem. Toda mulher muda o marido, e eu no serei exceo. Bruno vai comer na palma da minha mo.
- Voc  quem sabe. Se quiser ir atrs dele, mesmo sabendo do seu temperamento impetuoso, s posso lhe desejar boa sorte.
Lurdinha abraou-se  amiga e beijou-lhe a face.
- Obrigada, amiga. Ento vai me deixar ir a essa festa?
- Acho bom, porquanto Tnia e Claudete vo direto da penso para a festa. Papai e mame iro com Fernando e Ana Paula. Eu iria amassar meu vestido, apertada no banco 
de trs.
- No! Imagine chegar com o vestido amassado numa festa desse porte! Eu venho apanh-la. Que tal s oito e meia?
- Perfeito. Combinado.
Lurdinha deu partida novamente e seguiram ate a Rua Augusta. A loja alugava e tambm vendia roupas lindssimas, de corte e caimento perfeitos. Lurdinha aproveitou 
e comprou lindo vestido de alas, verde-esmeralda, bem como os sapatos e bolsa no mesmo tom, A vendedora jurou que faria os ajustes necessrios naquela mesma noite 
e que Lurdinha poderia pegar o vestido na manh seguinte. A generosidade da vendedora no tinha nada a ver com assdio das entidades enviadas por Pai Thomas. Lurdinha 
comprou o vestido mais caro da loja, o que dava  vendedora uma comisso equivalente a um ms de trabalho...  Depois das compras, ambas foram a uma confeitaria nos 
Jardins, e passava das dez da noite quando Lurdinha deixou Suzana na porta de casa.
- Amanh s oito e meia em ponto.
- Combinado - replicou Suzana.
- Boa noite.
- At amanh.
Suzana entrou em casa e Lindinha acelerou, dobrou a esquina e foi em direo a sua casa. No caminho, cantarolava e ria tamanha a satisfao. Disse em alto e bom 
tom:
- Esse pai-de-santo  porreta mesmo! Amanh eu consigo o material de que ele tanto precisa para que Bruno definitivamente no desgrude mais os olhos de mim. Dou 
um jeito de, durante a festa, apanhar essa cueca, custe o que custar!
Guadalupe no agentava mais esperar. Fazia mais de um ms que o plano traado com maestria para unir Luis Carlos a Maria Cndida fracassara. Percebeu que Otto no 
tava para brincadeira. O alemo sustentara a sua deciso. Na primeira semana Luis Carlos ainda pensou numa maneira de se reaproximar de Maria Cndida. Entretanto, 
depois de pensar sobre a encrenca que poderia arrumar para sua vida, voltou  jogatina,  velha vida de sempre e logo se esqueceu da famlia Henermann.  Guadalupe 
estava farta. Havia muito tempo cansara do papel de amante comportada. Tinha entrado num jogo cujas cartas foram lanadas alguns anos atrs. Agora estava na hora 
de botar um ponto final nessa histria.
- Preciso de ajuda. Ele vai ter de me ouvir e vamos ter de alterar os planos - disse para si, num tom desesperador.
Guadalupe se arrumou, botou um lindo vestido com amplo decote que ostentava o colo bem-feito; escovou os longos e sedosos cabelos avermelhados, aspergiu suave perfume 
sobre o corpo alvo, pegou a bolsa, tomou um txi e foi para a regio dos Campos Elseos. Ela pediu que o motorista a deixasse no cruzamento da Duque de Caxias com 
Rua dos Andradas. Saiu do txi, ajeitou os cabelos, dobrou a esquina e parou defronte a um antigo casaro, bastante danificado pelo tempo. Assim que um dos seguranas 
a viu, foi logo abrindo a porta. Guadalupe agradeceu fazendo gracioso movimento com a cabea entrou e dirigiu-se ate os fundos do palacete. Desceu as escadas e parou 
diante de uma grande porta de ferro que dava acesso ao poro. Guadalupe respirou fundo, ajeitou os cabelos e entrou sem bater.
- O que faz aqui? - indagou Ramrez, visivelmente surpreso.
- No agento mais, corazn. Estou farta.
- Voc precisa continuar nesta farsa.
Guadalupe aproximou-se at a mesa. Colocou as mos sobre os papis e praticamente encostou os seios no rosto dele. Ela sabia como seduzi-lo, como tir-lo do eixo. 
- Estou to chateada! Ficamos tanto tempo idealizando o plano, traando tudo direitinho. Chegamos ao topo, voc conseguiu fazer suas ligaes com figures da classe 
A. Por que tenho de continuar fingindo que gosto daquele bolha do Luis Carlos? Por mais um tempinho somente. Se Otto no fosse to cabea-dura, tudo estaria resolvido.
- Faz um ms, e Luis Carlos no est interessado em procurar Maria Cndida - tornou ela, voz cansada. - O que faremos?
- Aguardar.
- No posso e no quero. Sei como dobrar o Otto. Vamos deixar Luis Carlos e Guilhermina para trs. Eles no nos servem mais. J os usamos, e agora podemos seguir 
adiante, s ns dois.
Guadalupe terminou de falar e esfregou o colo no rosto dele. Ele no resistiu. Levantou-se, respirao arfante, o corpo tomado pela excitao e desejo. Agarrou-a 
de maneira brusca e a possuiu ali mesmo sobre a escrivaninha, rasgando a ala do vestido de Guadalupe, tamanha a vontade de am-la. A jovem entregou-se com volpia 
a um prazer que havia muito tempo no sentia. Aps se amarem, mais calmos, ele a beijou nos lbios, afastou-se e dirigiu-se a uma mesinha. Pegou um cigarro, acendeu-o, 
deu umas baforadas. Guadalupe abriu a bolsa, pegou um espelhinho e passou a retocar a maquiagem toda borrada. O homem sorriu malicioso. No me lembrava o quanto 
era gostoso amar voc. Desde que a conheci, nunca mulher alguma me deu tanto prazer. Guadalupe sorriu vitoriosa. Ela sabia que o tinha na palma da mo. E, por outro 
lado, era violentamente apaixonada por ele. Ela terminou de retocar o batom, aproximou-se dele, inclinou a cabea e tragou do cigarro. Depois de expelir a fumaa, 
ela o abraou e falou, em tom apaixonante:
- Ramrez, meu amor, desde que o conheci, nunca mais senti nada por homem algum. S me deitei com aqueles que voc me obrigava, por questes profissionais.
Ele riu.
- Eu morro de cimes de voc. Preciso controlar a minha ira toda vez que a vejo com aquele pulha do Luis Carlos.
- Cimes daquele bbado?
- Sim.
- Ramrez, ele mal consegue ter ereo. Ultimamente s bebe. Ele tem um rosto bonito e mais nada. Ele  um traste, um nada.
- Ele e sua me. Tambm estou farto de Guilhermina. Tenho pretextado trabalho para no chegar  casa a tempo de cumprir com minhas obrigaes de marido. 
Guadalupe o abraou com fora.
- Voc no  marido dela - protestou.
- Maneira de dizer ora.
- Tenho dio toda vez que o vejo abraado quela velha.  repugnante.
- Isso  cime - riu ele.
- Claro que !
Ramrez a beijou longamente nos lbios.
- Voc sabe que entramos nessa para chegar ao topo.
- Claro que sei - tornou ela.
- Tivemos de disfarar, controlar nosso cime, mudar nossa maneira de ser para conseguir o que tanto queremos.
- Eu no consigo mais controlar meu cime. Sou louca por voc, no agento mais ouvir Guilhermina falar do amor que sente por voc.
- Guilhermina foi s uma escada para eu chegar aonde quero.
- Tem certeza de que no sente nadinha por ela?
-  louca? - inquiriu Ramrez, surpreso. - Acredita que eu a trocaria por aquela velha? Fiz esse sacrifcio para chegar ao poder, mais nada.
- Voc  diablico. Isso me excita!
Ramrez desprendeu-se dela e rodou nos calcanhares. Foi at o arquivo, abriu uma das gavetas, pegou uma pasta bem volumosa. Jogou-a sobre a escrivaninha.
- A est todo o relatrio sobre o caso da Companhia Paulista.
Guadalupe passou as mos pelo rico volume. Ramrez prosseguiu:
- Foi muito fcil enganar o Miguel e faz-lo torrar todo o dinheiro nas aes.
- Voc sabia que o governo iria estatiz-la, no?
Ramrez deu uma gargalhada.
- Sabia de tudo. Lembra-se ele que a mulher daquele ministro ficou caidinha por mim?
- Tive de me segurar para no avanar sobre ela. Que mulher despudorada!
- Despudorada, mas eficiente. Uma semana ininterrupta de amor com ela e fiquei sabendo de tudo. Da a fazer o Miguel comprar as aes foi trabalho fcil. Consegui 
persuadi-lo sem fazer muita fora.
Guadalupe balanou a cabea para os lados. 
- Fazer com que ele perdesse tudo e Guilhermina se sentisse insegura! Voc foi brilhante. Como tinha certeza de que ela iria ficar com voc?
- Ora, eu me conheo. Sou um sedutor de primeira. Ela estava apaixonada. Uma mulher apaixonada  capaz de loucuras.
- Ainda bem que isso est no fim. No quero mais representar esse papel de boa moa. Guilhermina est cada vez mais insuportvel.
- Continua sonhando com o defunto do Miguel?
- Ela afirma que o v sempre acompanhado de um homem com uma capa vermelha.
-  mesmo? Ser possvel? 
- Bobagens. Ela est ficando gag, isso sim. No momento em que voc a chutar de lado, quero ver como ela vai se destroar. 
Ramrez foi categrico.
- Posso ser malandro e fazer de tudo para conseguir o que quero, mas no vou deixar Guilhermina  mngua.
Guadalupe arregalou os olhos.
- Isso no estava em nossos planos. No vai me dizer que est com pena dela?
- Ela me foi til, e acho justo recompens-la. Vou lhe dar a casa do Pacaembu e uma gorda conta na poupana. 
- Voc  louco  gritou ela, estupefata.
- No sou no.
- Ramrez, por favor - ela suplicou.  Nem que voc quisesse, poderia deixar a casa para Guilhermina. No se esquea de que Miguel faliu e os credores sossegaram, 
mas, se descobrirem que ela possui um imvel, vo tom-lo dela.
Ramrez riu. Caminhou at o cinzeiro no canto do escritrio, apagou a bituca de cigarro e concluiu:
- No vou deixar nada para ela.
- No entendi...
- Quer dizer, diretamente. Eu tratei desse assunto com meus advogados e legalmente posso passar a casa para o nome de Ana Paula.
- A filha tartamuda?
- A prpria. Vou deixar a casa no nome de Ana Paula e a poupana tambm, suficiente para amparar Guilhermina por anos. Isso no  nada, perto do que estamos prestes 
a alcanar.
- Guilhermina no se d bem com a filha. Voc no est sendo cruel, fazendo a me depender dela?
- No. Entretanto Ana Paula pode querer se vingar da me e tomar-lhe tudo, deixando Guilhermina na sarjeta.
- No acredito nisso - tornou Ramrez. - Ana Paula  menina de bom corao.
- Como pode afirmar isso? Ela o detesta.
- Por conta das circunstncias. Mal o pai morreu e Guilhermina quis me colocar dentro da casa. Se eu fosse Ana Paula, teria feito o mesmo, agido de maneira parecida.
- No posso crer que esteja defendendo aquela tonta.
Ramrez deu uma risadinha.
- Ana Paula pode ser tudo, menos tonta. Naquela casa, ela  a que mais tem chances de se dar bem, viver uma vida tranqila. Vou deixar a casa e a poupana no nome 
dela. Tenho certeza de que, mesmo no se dando bem com a me, Ana Paula vai ampar-la.
- Como pode ter tanta certeza?
- Porque h algo nela que me inspira confiana, mais nada. Esse assunto est encerrado, Guadalupe. J decidi e est tudo acertado. Estou mais preocupado com o alemo, 
isso sim.
- Otto Henermann no nos causar problemas.
- Ele  perigoso. Est cercado de capangas.
- Ele botou dois capangas na cola do Luis Carlos. Est perdendo o tempo, porquanto aquele bbado intil no vai mais procurar o monstrinho.
- No sei Guadalupe, estive pensando numa maneira de perturbar o Otto. Preciso que me ajude a encontrar uma forma de afast-lo por uns tempos daqui.
- Posso mat-lo.
Ramrez foi enrgico.
- No! Se o matarmos, vamos perder tudo. Otto  poderoso, e voc sabe que neste mundo do trfico precisamos ser diplomatas. Temos de armar uma cilada para ele.
- Se eu dobrar o Otto, voc me prope metade do negcio?
- Nossa meta  tomar o lugar de Otto. Ele  o manda-chuva, o responsvel pela comercializao e distribuio da cocana na Amrica do Sul. Ele est ficando velho 
e teme pela segurana da filha. Eu s quero chegar at ele, ficar prximo. Quando ele me passar o que quero, me livro dele.
- E se eu o ajudar a conseguir tudo mais rpido do que imagina?
- Ora, o que  meu  seu, meu amor. Assim que assumir o controle dos negcios, tirando Otto da jogada, vou me casar com voc de papel passado e tudo, em comunho 
de bens. Eu jamais a trairia, Guadalupe.
Guadalupe exalou agradvel suspiro. Era louca por Ramrez. Antes de deitar-se novamente com ele e entregar-se novamente ao amor, ela balbuciou:
- Voc  o homem da minha vida!
Odcio recostou-se na poltrona. Estava visivelmente cansado, corpo alquebrado. Adlia entrou na sala com um copo de gua e um comprimido.
- Tome meu querido.
- Obrigado.
- Vou fazer um ch de cidreira.
- No  necessrio - redargiu, voz cansada.
- Desde que deixou o centro esprita est assim. No acha que h alguma perturbao em especial?
Odcio tentou levantar-se, mas no conseguiu. Sentia o corpo pesado. Entretanto irritou-se sobremaneira: 
- Eu nunca mais coloco meus ps naquele centro, Adlia. O Durval  um mistificador, um homem sem escrpulos. Est mancomunado com espritos das trevas.
Adlia mordeu os lbios. Estava apreensiva.
- Eu tambm parei de ir l. Entretanto nossos filhos freqentam aquele centro. E parece que adoram o lugar.
Odcio fez fora e levantou-se, irado.
- Pois  para voc ver como a vida  ingrata! Meus prprios filhos me apunhalando as costas.
- No sei...
- O que foi mulher? Est desconfiada de mim?
- No  isso - tentou ela em tom apaziguador -, mas Suzana est tima e Fernando tem melhorado bastante em todos os nveis. O Seu Hiroshi lhe props sociedade e 
ele est de namoro firme com a Ana Paula, uma graa de menina.
- No admito que ele namore essa garota. Ela  filha daquele suicida, daquele fraco.
- No fale assim. Rezemos por ele.
- Ora, Adlia, s voc! Rezar por um esprito de porco como o do Miguel? Isso  gastar vela boa com defunto ruim.
- Voc  esprita!
- Fui! - gritou ele, exaltado.
- No pode ser! O que est acontecendo?
- Nada, Adlia, nada. Eu no quero mais saber de espiritismo, de nada.  tudo obra do demnio. Arrependo-me de ter me dedicado tantos anos a uma causa fajuta. Os 
espritas so demnios encarnados.
Adlia levou a mo  boca. Nunca vira o marido to transtornado assim.
- Voc est mudado. Desde que...  ela parou de falar.
- Desde qu? Anda, diga!
- Aquela igreja o transformou, Odcio. Voc no  mais o mesmo desde que passou a freqentar aquela igreja. Irrita-se com qualquer coisa, no conversa com seus filhos, 
est distante de todos ns.  Porque todos vocs esto perdidos. Jesus  a salvao!
 - Pelo amor de Deus, o que  isso?
- O pastor disse que sim.
- E voc desse jeito, corpo alquebrado?
Infeliz e chateado, com desarmonia no lar, como pode afirmar que essa igreja o est ajudando?
- Eles tiraram os encostos que me cercavam. Agora  que estou enxergando a realidade. Fiquei cego por anos. Odeio os espritas. Espritos no existem!
- Mas, Odcio...
-  tudo balela, Adlia, tudo balela!
- Deixemos isso de lado e vamos nos concentrar na festa. Estamos em cima da hora para nos aprontarmos.
- No vou a essa festa.
- Como no? - inquiriu ela, apreensiva. 
- No quero.
- Por qu?
- Vou ficar em casa.
- Mas o Dr. Roberto preza muito a sua amizade.
- Cale a boca!
- O que disse? - perguntou ela, aterrorizada.
- No vou e pronto.
Enquanto Odcio discutia com a esposa, os dois espritos que havia meses o assediavam sorriam felizes. Z, aquele mesmo que costumava se passar por pai de Odcio 
riu com gosto.
- O chefe vai ficar muito contente com nossa competncia. Conseguimos afastar mais um.
- Sei no, Z. Acha que manter esse homem l na igreja vai ser boa coisa? Sabe que ele paga o dzimo meio a contragosto. Ele  meio muquirana.
- Ele se acostuma. Daqui por diante os prprios pastores vo fazer a nossa parte. No precisamos mais ficar aqui. 
- Acabamos o servio?
- S falta uma coisa.
Z aproximou-se de Odcio e lanou sobre o homem uma espcie de p com colorao enegrecida que se misturou  sua aura.
- O que  isso? - perguntou o comparsa.
- Um pouco de irritao. Essa energia que lancei vai se misturar s dele.
- E se ele tiver uma recada?
- Odcio  osso duro de roer. Vai absorver essas energias que joguei como se fossem dele. Ele no est em condies de identificar o que  dele e o que no .  
presa fcil. Vai brigar com a famlia toda e vai gerar mais energia de desarmonia ao seu redor. Esse lar est condenado. E, de mais a mais, tnhamos de tir-lo e 
afast-lo do centro esprita, certo?
- .
- Conseguimos. Agora vamos atrs de outro.
Os dois espritos riram a valer e num instante sumiram do ambiente feito fumaa, deixando energias perturbadoras espalhadas pela casa. Odcio sentiu raiva.
- Pare de se meter na minha vida.
- Voc nunca falou nesse tom comigo - protestou a esposa.
- Agora falo - gritou Odcio.
Adlia no sabia o que fazer. Nunca vira o marido comportar-se daquela maneira. De repente, Odcio passou a ficar histrico e agressivo. Chutou cadeiras, quebrou 
mvel, atirou objetos pela sala. Adlia, estupefata, correu at a cozinha, aos prantos. Sem saber o que fazer, correu para o quintal e trancou-se nos fundos da casa, 
com medo de sofrer agresso fsica do marido. Chorando copiosamente, fez sentida prece a Deus, pedindo para que o marido no a agredisse. Odcio chegava a espumar 
tamanho o dio que sentia. Descontrolado, alcanou a escada e subiu para o quarto. Arrancou os sapatos e jogou-se pesadamente na cama. Exalou profundo suspiro, acendeu 
o abajur sobre a mesinha de cabeceira e procurou descansar. Por mais que tentasse, estava difcil conciliar o sono. Uma irritao profunda apoderara-se dele. Revirou-se 
na cama vrias vezes e, meia hora depois, com fortes dores na cabea, adormeceu profundamente. Suzana chegou a casa e, ao deparar com o estado lastimvel em que 
se encontrava a sala, sentiu pavor desigual. Comeou a gritar, andando sobre os cacos de vidro, os mveis arrebentados:
- Pai, me! Algum em casa?
Nenhuma resposta. Suzana sentiu medo e adentrou a cozinha. Viu escancarada a porta que dava para o quintal. Ouviu um choro baixinho vindo l de fora. Ela correu 
e encontrou a me abaixada, de joelhos, chorando copiosamente. 
- Me!
Adlia limpou as lgrimas com as costas das mos. Esticou os braos para que Suzana a ajudasse a se levantar.
- Me ajude. Estou sem foras.
- O que aconteceu?
- Seu pai.
- O que ele fez?
- Seu pai teve uma crise de nervos. Desta vez foi feia. No pode ser.
- Veja o estado em que se encontra nossa casa, filha. Ele arrebentou tudo, teve uma crise e tanto. Ele no anda bem. Seu pai est doente...
Adlia falava e chorava ao mesmo tempo. Estava desesperada. Em quase trinta anos de casados, nunca vira o marido se comportar daquela maneira. Odcio tinha gnio 
forte, mas, desde que comeara a trabalhar no centro, anos atrs, melhorou bastante. De uns tempos para c, depois de largar os trabalhos espirituais, as coisas 
comearam a piorar. Suzana abraou-se  me.
- No fique assim. Estou aqui. Est tudo bem.
Ouviram um barulho na porta. Era Fernando quem chegava. Ele deixou o terno sobre o sof e correu at o quintal.
- Santo Deus! O que aconteceu? Suzana abraou-se a ele.
- Papai teve uma crise nervosa.
- No pode ser! - exclamou ele.
- Sim, filho - ajuntou Adlia. - Seu pai teve um ataque de nervos, gritou comigo, quebrou quase a sala toda.
- Onde ele est?
- Deve estar no quarto. Estou com medo.
Fernando abraou a me com carinho.
- Calma me. Tudo vai se resolver.
Suzana interveio:
- Creio que papai esteja muito perturbado. Vou subir.
- No! - protestou Fernando. - Eu vou.
- Pode deixar. Algo me diz que papai est dormindo. D um copo de gua para mame.
Fernando concordou, e os trs entraram na cozinha. Adlia sentou-se numa cadeira e apoiou os cotovelos sobre a mesa, chorosa. Fernando encheu um copo de gua e misturou 
uma colher de acar bem cheia. 
- Tome me. Isso vai lhe acalmar.
Adlia meneou a cabea para cima e para baixo e sorveu o lquido aos poucos. Enquanto isso, Suzana deixou a bolsa sobre uma mesinha ao lado do p da escada e subiu 
os degraus com rapidez. Dobrou o corredor e abriu a porta do quarto dos pais. Odcio dormia profundamente, respirao pesada, ronco forte. A jovem aproximou-se p 
ante p ate a cama. Sentou-se delicadamente prxima do pai. Afagou-lhe os cabelos com ternura. Suzana no soube identificar, mas naquele momento sentiu forte torpor. 
Seus plos se eriaram e ela precisou fazer fora para se sustentar. Respirou profundamente e sentiu que alguma energia desagradvel estava rodeando seu pai. Intimamente 
fez sentida prece. Depois, levantou-se, saiu do quarto e desceu correndo as escadas. Fernando estava parado no p da escada. 
- E ento?
- Minhas suspeitas se confirmaram  tornou Suzana apreensiva.
- Acha que papai est com perturbao espiritual?
- Sim. Entrei no quarto e senti enjo, um peso na cabea sem igual. Tenho certeza de que h alguma energia desagradvel ao redor de papai.
- O que podemos fazer?
- Pensei em ligar para o Durval.
- O centro est fechado hoje.
- Poderamos localiz-lo, ir at a casa dele. O que acha?
- Posso fazer isso.
- Ento faa. Vou ligar para Tnia e ver se ela pode dar um pulo aqui em casa. Ela pode dar um passe no papai, e juntos faremos uma orao.
- Acredita que possa ficar aqui sozinha por alguns minutos?
Suzana sorriu.
- Est tudo bem. Confiemos no bem. Nada de mal vai nos acontecer. V procurar por Durval.
Fernando assentiu com a cabea e saiu. Adlia sentou-se no sof.
- Mame, vamos entrar em sintonia com os amigos espirituais do bem.
- Tenho dificuldade. Estou muito nervosa.
- Ento reze. Procure mentalizar coisas boas.
-  difcil. Depois do que aconteceu, no consigo pensar outra coisa.
Suzana foi firme: 
- Se no ajudar, vai ficar difcil para todos ns. Papai precisa de ajuda, e o que temos de fazer neste momento  fortalecer nosso pensamento no bem. Vamos, colabore.
Adlia pendeu a cabea afirmativamente e em seguida fechou os olhos e fez sentida prece. Suzana tirou o fone do gancho e discou.
- Al.  da penso da Dona Guiomar? - perguntou Suzana.
- Sim.
- Gostaria de falar com a Tnia. Ela est?
- Um momento.
Alguns instantes depois, Tnia atendeu ao telefone.
- Quem ?
- Sou eu, Suzana.
- Estava aguardando sua ligao.
- Como assim? - perguntou Suzana, perplexa.
- Recebi informao dos nossos amigos espirituais. Seu pai no est nada bem.
Suzana estava perplexa.
- Isso  inacreditvel!
- No . Quando estamos em sintonia com o bem, nossos amigos espirituais tem condies de nos inspirar, nos dar orientao, ajudando no que for preciso. Em todo 
caso, deixe a perplexidade de lado.
- O que podemos fazer? - perguntou Suzana, apreensiva. Tnia fechou os olhos e em seguida respondeu:
- Seu pai est dormindo profundamente?
- Sim.
- Ao se aproximar dele sentiu enjo, tontura, ar pesado ou os plos se eriarem?
Suzana balanava a cabea para cima e para baixo.
- Como sabe disso?
- Essas sensaes so tpicas de perturbao espiritual. Voc est freqentando o centro, participando do grupo de estudos, e conseqentemente a sua sensibilidade 
est acentuada.
- Eu fiz uma prece agora h pouco. Mame est aqui ao lado, tentando rezar. Dona Adlia no est bem. Est emocionalmente abalada com o que aconteceu. Por mais que 
tenha boa inteno, no vai conseguir se concentrar para acalmar o ambiente.
- Fernando foi atrs de Durval.
- Isso  bom. Mas Durval vai precisar de mais gente.
- Para qu?
- A fim de que possamos fazer uma transfuso de energia, ministrar alguns passes em seu pai.
- Temos a festa do Dr. Roberto daqui a pouco. Estou pensando em adiar.
Tnia pensou rpido.
- No haver necessidade. Se tudo correr conforme estou imaginando, vamos todos  festa.
- Voc no imagina como est esta casa. A sala est quase toda destruda.
- Imagino, sim. Entretanto, com a nossa presena a logo mais, tudo voltar ao normal. Estou terminando de me arrumar. Vou levar a Claudete. Precisamos ter um nmero 
bom de mdiuns no local.
- Ana Paula vem tambm?
- Ela est a caminho de sua casa. Saiu agora h pouco. Tambm precisaremos dos fluidos dela. No se deixe influenciar pelas ondas perturbadoras, pelas interferncias 
de mentes desencarnadas que circundam o ambiente da sua casa. Fixe seus pensamentos no bem. Somente o bem  real. O mal  iluso. Faa nova prece, concentre-se em 
algo bom, tenha somente bons pensamentos. Agente as pontas. Chegaremos rpido.
- Est bem. Obrigada.
Suzana desligou o telefone, ajeitou-se numa poltrona e, aps fechar os olhos, concentrou-se em orao. Adlia estava mais calma.
- Suas amigas viro at aqui?
- Sim, me.
- E a festa?
- Depois pensamos nisso. Agora precisamos ajudar o papai.
- O que est acontecendo com ele, filha?
- Perturbao espiritual.
- Mas seu pai  homem bom. Como pode ser vtima de um assedio negativo como esse? 
Suzana pousou suas mos nas da me.
- Me, no h vtimas no mundo. Papai no sofreu esse assdio  toa.
- Ele  bom.
- Ele  bom para voc, para mim. Ser que  bom para ele mesmo?
- Como assim?
- De que adianta ser bom para os outros e no ser bom para si mesmo? Como podemos ajudar ou gostar de algum se no ajudamos ou gostamos de ns mesmos? Primeiro 
de tudo, precisamos estar de bem conosco. Papai anda muito contrariado, reclamando da vida, das pessoas. Est rabugento.
- No fale assim de seu pai.
-  a realidade. Ao invs de se dedicar aos estudos espirituais, ele preferiu abandonar tudo e freqentar essa igreja, como se isso fosse ajudar. Papai est perdido, 
precisa de ajuda. E ns vamos ajud-lo. Ele vai melhorar me. Confie.
Adlia fez o sinal da cruz.
- Assim seja.
Desde a noite fatdica em que perdera o seu amor, Maria Cndida mal saiu do quarto. No queria comer, recusava-se a conversar. Entrou num estado de depresso profunda. 
A vida perdera o sentido. Otto nem podia chegar perto da filha, tamanha a raiva que ela sentia. Culpava o pai pela sua situao. Ficava esparramada na cama, alternando 
choro e sono. Zara bateu levemente na porta e colocou a cabea para dentro do quarto.
- Quer comer alguma coisa?
- No.
- Mandei fazer sopa de legumes, com macarro. Do jeito que voc gosta.
- Estou sem fome.
- No  possvel, filha. Como est sem fome?
- No quero comer.
- Mal se alimenta. Est visivelmente magra.
- No quero comer, j disse.
- Pode adoecer.
Maria Cndida fixou os olhos injetados de fria sobre a me.
- Quero ficar doente, adoraria ficar doente. Assim eu morro logo.
Zara levou a mo  boca.
- No diga isso! - exclamou ela, aflita.
- O que quer que eu faa? Perdi meu amor, quero morrer. Papai acabou com minha felicidade. Nunca mais na vida vou amar e ser amada.
- No fale assim, minha filha.
- Sou feia. Quem vai querer se aproximar de mim?
- Logo aparece um bom moo e... Maria Cndida a repreendeu:
- Luis Carlos me amava. Por que no me deixaram casar com ele?
- Mesmo?
- Sim.
Zara adentrou o quarto e sentou-se prxima da cama.
- Ele no apareceu mais, no ligou.
- E papai deixaria? Luis Carlos foi ameaado.
Como quer que me procure?
- Voc pode esquecer essa histria. Se Luis Carlos estivesse mesmo interessado em voc, teria arrumado uma maneira de procur-la.
- Ele vai voltar.
- Acorde para a realidade, filha. Ele no vai voltar.
Os olhos de Maria Cndida marejaram.
- Por que tenho de sofrer tanto?
- Tudo passa. Logo voc vai arrumar um bom partido, amar e ser amada de verdade.
- Iluso! Pura iluso. Oh, mame, nunca mais terei algum na vida.
Maria Cndida falou a abraou-se  me, chorando copiosamente. Zara acariciou delicadamente os cabelos da filha.
- Mame vai lhe ajudar.
- Como?  to difcil...
- Eu liguei para o Ernani.
Maria Cndida desgrudou-se violentamente da me. Levantou-se e gritou, atnita:
- Ernani?! Voc ligou para o seu primo?
- Li... liguei, sim. Por que ficou to nervosa?
- Ele  psiquiatra. O que voc quer fazer comigo?
- Nada, filha. S quero ajud-la.
- Isso  coisa do papai. Vocs querem me internar, querem se ver livres de mim.  isso!
Zara levantou-se e procurou abraar a filha. Maria Cndida a empurrou com fora.
- No se aproxime de mim! Vocs querem me internar e se livrar de mim.
- No, filha. No diga uma coisa dessas. Ns a amamos.
- Mentira! - bramiu a jovem.
Otto apareceu na soleira. Carregava preocupao no semblante.
- Que gritaria  essa?
Maria Cndida avanou sobre o pai.
- Voc quer me internar, quer se ver livre de mim!
Otto procurava se esquivar dos tapas da filha.
- Nunca! Eu a amo. Mais do que tudo nesta vida, eu a amo!
Maria Cndida perdeu as foras e desmaiou. Otto a carregou at a cama. Zara no conseguiu segurar as lgrimas. 
- Meus Deus! O que ser de nossa filha, Otto?
- No sei. Nunca a vi assim antes. Aquele canalha bagunou de vez a cabea de Maria Cndida.
- Liguei para o Ernani.
Otto a encarou surpreso.
- Ligou para seu primo em Uberaba?
- Liguei. Estou desesperada. No sei mais o que fazer.
- Voc jurou que no falaria mais com ele.
- Mas o que fazer? No sei a quem mais recorrer.
Otto passou a mo nervosamente pela fronte.
- Eu no queria pedir ajuda ao Ernani. Tenho medo de que ele possa estragar a nossa filha de vez.
- No acredito nisso. H tempos que penso em ligar. Meu peito se abre toda vez que penso nele.
- Otto deixou-se cair pesadamente sobre o sof. Sentia-se no limite de suas foras.
- Acredita que ele possa ajudar nossa filha?
Zara balanou a cabea para os lados.
- Estou cansada de ver Maria Cndida nesse estado depressivo.
- Mesmo no concordando com as ideias dele? Seu primo trabalha num sanatrio esprita.
- Otto, no temos mais o que fazer. Ernani vai fazer algo por nossa filha. Meu corao de me no se engana. Tenho sonhado com ele nos ltimos dias. E hoje, No 
sei por que, me deu uma vontade louca de ligar. Graas a Deus ele me atendeu.
- Foi gentil? - inquiriu o marido, preocupado.
- Sim. Senti-me envergonhada. Eu praticamente o expulsei daqui quando veio com essa histria de unir espiritismo com medicina. Julguei-o um louco, paranico. Entretanto 
li uma nota nos jornais algumas semanas atrs, afirmando a cura de pacientes desenganados pelos mdicos. Deixei meu orgulho de lado. Estava to nervosa...
- Se acredita que Ernani v fazer algo de bom por nossa filha...
- Ele vai, tenho certeza. Confio em Deus.
Maria Cndida remexeu-se na cama. Abriu vagarosamente os olhos, virou-se de lado e avistou a me. Suplicou:
- Me ajudem...
Otto e Zara abraaram-se comovidos. Deram as mos para a filha e desejaram que Ernani chegasse o mais rpido possvel at a casa deles. Fernando chegou clere  
casa de Durval. Tocou a campainha arfante, desejoso de que o amigo estivesse por l. A empregada o atendeu e solicitou que entrasse. Fernando assentiu com a cabea, 
acompanhou a empregada. Uns dez minutos depois, Durval apareceu na sala.
- Fiz uma orao agora h pouco. Meus guias disseram que seu pai est perturbado e precisa de nossos fluidos para arrancar a energia que o circunda.
- Como sabe disso? Vim lhe pedir ajuda e...
Durval o interrompeu:
- Estava desconfiado havia algum tempo.
Desde que seu pai saiu do centro, fomos recentemente atacados por grande falange do umbral.
- Por que resolveram atacar o centro?
- Porque fizemos mudanas, passamos a promover o ser humano. A partir do momento em que voc ensina a pessoa a assumir o seu prprio poder, a olhar para dentro de 
si e ver o que pode melhorar, os espritos inferiores ficam muito bravos. Perdem a mamata, no conseguem mais se aproximar de quem  dono de si e sugar suas energias.
- Impressionante!
- Alguns trabalhadores infelizmente captaram as ideias desses espritos infelizes e debandaram, foram embora e cortaram sua ligao com os espritos de luz, perdendo 
assim a proteo espiritual. Seu pai foi invigilante nos pensamentos, atraiu essas entidades infelizes e agora colhe o resultado.
- Mas, Durval, ele nunca fez nada a ningum. Nem mesmo a uma mosca.
Durval sorriu.
- No importam os atos, mas o pensamento que produzimos. De nada adianta parecermos ser bons e aqui - fez gesto apontando para a cabea - alimentarmos pensamentos 
negativos ou desagradveis. O pensamento  energia plasmada, que, por conseguinte entra em sintonia com outras correntes de pensamento do mesmo teor.
- Quer dizer que se eu tiver um bom pensamento estarei ligado a correntes do bem, e vice-versa?
- Isso mesmo - tornou Durval. - Por isso somos responsveis pelo que atramos. Precisamos estar constantemente em vigilncia, evitando que pensamentos desagradveis 
apoderem-se de nossas mentes. Agora precisamos ajudar seu pai. Odcio est pronto para mudar. Por essa razo os espritos amigos me avisaram e poderemos fazer algo.
- Ele est dormindo, teve uma crise de nervos.
- Seu pai est sendo influenciado por ondas de irritao, que, somadas s dele prprio, propiciaram esse estado emocional. Precisamos retirar essas energias pesadas 
o quanto antes.
- Vamos rpido.
Durval apanhou algumas ervas um livro, e foram rpidos para a casa de Fernando. Quando chegaram, Ana Paula e Tnia j estavam na sala, em orao. Durval foi categrico:
- Tnia, quero voc e Ana Paula comigo, agora.
- Ns? - inquiriu Ana Paula.
- Sim. Enquanto isso, Fernando e Suzana permaneam aqui na sala com Dona Adlia, em orao. 
- Tenho dificuldade de rezar - admitiu Adlia.
- Procure pensar nas pocas boas que viveram juntos. O incio do casamento, a lua-de-mel, a chegada dos filhos.
Adlia emocionou-se.
- S em lembrar esse tempo, me d uma saudade! Foram tempos to bons!
- Ento se concentre nesses tempos - solicitou Durval.
Tnia e Ana Paula levantaram-se e dirigiram-se at o p da escada. Tnia disse:
- Fui informada de que Odcio est com sua aura imantada de energias negativas. Precisamos arranc-las antes que elas penetrem o seu corpo fsico e ele adoea.
Durval fez sinal afirmativo com a cabea.
- Seu mentor est ao seu lado. Alis, todos esto acompanhados de amigos espirituais do bem maior. No temos o que temer. 
Os trs subiram. Suzana e Fernando sentaram-se ao lado da me e a ajudaram a se recordar dos bons tempos de casamento.  Durval adentrou o quarto. Entregou a Ana 
Paula o livro que carregava sob os braos e ordenou:
- Enquanto eu e Tnia fazemos a limpeza energtica, leia em voz alta o salmo 91.
Ana Paula pegou o livro, abriu e comeou a proferir o salmo em voz alta, com firmeza e segurana. Enquanto isso, Tnia ficou de um lado da cama e Durval de outro. 
Esfregaram suas mos, levantaram-nas para o alto a fim de captar energias puras do universo. Quando sentiram suas mos formigar, passaram-nas por todo o corpo de 
Odcio, sem o tocar, fazendo movimentos vigorosos da cabea em direo aos ps, como se estivessem efetivamente arrancando alguma coisa de seu corpo. Odcio, olhos 
fechados, remexeu-se nervosamente na cama. Imediatamente, o esprito que havia imantado seu corpo com aquelas energias apareceu, soltando dio pelas ventas. Vocs 
no podem fazer isso - bradou ele. Durval dirigiu-se telepaticamente ao esprito:
- J estamos fazendo. Ele merece ajuda e a est recebendo.
- Meu chefe vai ficar fulo da vida.
- Problema do seu chefe. Vocs no vo mais encostar-se a Odcio.
O esprito deu uma gargalhada.
- Imagine! Esse velho  presa fcil. No toma conta de seus pensamentos. Podemos jogar o pensamento, a ideia que for. Ele capta como sendo dele.  fcil de ser manipulado.
- Ele est mudando. Seu esprito pede por renovao nas posturas. Vocs no esto com autorizao para continuar a atac-lo.
- E desde quando precisamos de autorizao? Eu entro e saio desta casa a hora que quiser. Este lar no tem proteo.
- Pois agora tem.
Durval afirmou com segurana e em instantes uma forte luz se fez crescer no quarto. No podia ser vista a olho nu, entretanto Tnia, com mediunidade aguada, pde 
vislumbrar alguns raios luminosos no ambiente. Ela sorriu e continuou na limpeza energtica de Odcio. Ana Paula respirou fundo e leu novamente o salmo. Espritos 
amigos adentraram o recinto e ministraram energias de equilbrio em todos os presentes. O esprito rebelde acuou-se num canto do quarto, suplicando:
- Por favor, no me faam nada. Eu no tive culpa. Fui mandado.
Os espritos do bem nada disseram. Pacientemente pegaram-lhe pelo brao e o retiraram de l. Um dos guias espirituais de Durval se aproximou e tocou em seu ombro.
- Pronto. O servio est terminado por ora. Odcio logo vai restabelecer o equilbrio de seu corpo fsico. Pea que mantenha uma jarra com gua na cabeceira. Toda 
noite, um de ns vir at aqui ministrar o medicamento necessrio na gua. Pea que Odcio tome um pouco do lquido ao se levantar, por sete dias seguidos. E, para 
que possamos terminar a higienizao energtica do lar, seria bom que todos se retirassem por algumas horas. 
A festa do Dr. Roberto veio bem a calhar. Durval fez sinal afirmativo com a cabea. Tnia estava maravilhada.
- Como  bom saber que podemos contar com amigos espirituais.
- Se todos pensassem assim e procurassem se ligar a entidades de luz, o mundo seria bem diferente - sentenciou Durval.
- No vi nada, no escutei nada tambm. Entretanto percebi uma grande mudana no ar, no ambiente. Quando entrei, pensei que fosse sufocar tamanho o peso que senti. 
Agora estou me sentindo to leve... Parece que o ar foi trocado!
Durval riu.
- Quase isso. Os espritos amigos esto limpando o ambiente.
- E por que voc trouxe essas ervas? - apontou ela.
- As plantas possuem poderes espetaculares. A cincia ainda vai descobrir isso e se beneficiar muito estudando o poder das plantas. Meus guias pediram que eu as 
trouxesse para que delas fossem retiradas substncias que ajudam a limpar o ambiente.
- Estou impressionada. Nunca pensei que pudssemos ter tanta ajuda do astral. 
- Claro que podemos. Basta estarmos sintonizados com os amigos do bem.
Nesse instante, Odcio remexeu-se novamente na cama. Abriu os olhos assustado.
- O que aconteceu?
- Nada de mais, Seu Odcio - disse amorosamente Tnia. - Viemos lhe dar um passe, mais nada.
- Um passe? Por qu?
- O senhor estava sendo assediado por entidades do astral inferior. Agora est tudo bem.
Odcio tateou a cama. Passou nervosamente as mos pelos cabelos em desalinho.
- Como vim parar aqui?
- O senhor no se lembra? - inquiriu Ana Paula.
- No. Nem sei como cheguei at em casa. No me recordo.
Durval interveio.
- Agora est tudo em paz, Odcio. Precisa descansar e se restabelecer. Seu corpo est bastante cansado.
Odcio ficou surpreso ao ver Durval em seu quarto.
- Voc aqui, tambm?
- Vim na paz. Fui orientado pelos amigos espirituais a lhe prestar auxlio.
Odcio no sabia o que dizer. Havia tanto tempo xingava e maldizia Durval, que sentiu vergonha de v-lo ali na sua frente e lhe prestando ajuda. Baixou a cabea 
sem saber o que dizer.
- Desculpe. Talvez no merecesse ajuda.
- Todos so merecedores, Odcio - salientou Durval. Somos muito resistentes s mudanas. Sei que, quando trouxe novas ideias para o centro, muitos no gostaram, 
acreditando que eu estivesse querendo me promover.
- Pensei assim.
- Mas tnhamos de mudar. O centro no podia mais funcionar daquela maneira. Por essa razo estvamos sofrendo os ataques espirituais das trevas. Estava na hora de 
parar de praticar o assistencialismo. Precisvamos educar nosso esprito para o bem. O meu papel naquele centro esprita  o de ajudar as pessoas e melhorar o padro 
de pensamento e, por conseguinte elevar o padro energtico, ficando imunes aos assdios inferiores. Saiba que o mal s pode entrar na nossa vida atravs da nossa 
prpria maldade. Por isso tenho dado cursos, ensinado s pessoas a parar e tomar conta de seus pensamentos.
Odcio estava envergonhado.
- No sabia que estava fazendo o bem. Pensei mesmo que quisesse se promover. Eu sempre acreditei que a caridade  a salvao. Pensei que ajudando os necessitados 
estava fazendo o bem.
- E no deixou de faz-lo. Entretanto de que adianta ajudar nesse sentido? De que adianta darmos comida e roupa? Essas pessoas querem mais que isso, elas querem 
oportunidade de crescer, de evoluir.
- Eu detestaria ter de viver de esmola.
- Est certo. O sentimento de realizao  indescritvel. Conseguir algo atravs de nosso prprio esforo no tem preo. A ajuda dos outros sempre ser bem-vinda, 
mas nada como fazer por si.
- Eu concordo - disse Tnia.
- Bom, parece que o senhor melhorou bastante - tornou Ana Paula.
- Sim. Estou me sentindo mais tranqilo.
- Odcio - tornou Durval -, no se esquea de colocar uma jarra de gua ao lado de sua cama. Os mdicos do astral vo manipular energeticamente a gua para o seu 
bem-estar. No pode esquecer-se de tomar um pouco da gua ao se levantar, durante sete dias seguidos.
- Pode deixar. Vou providenciar isso agora.
- No  necessrio. Precisa descansar.
- No posso Durval. Tenho a festa de meu patro. No posso perd-la de jeito nenhum.
Todos sorriram. Odcio estava bem melhor. Pediu licena para se arrumar. Os trs jovens desceram as escadas esboando leve sorriso. Adlia correu at eles aflita:
- E ento?
- Seu marido est bem - afirmou Durval. - Est se preparando para a festa.
- No posso acreditar. Ele est bem?
- Muito bem - tornou Tnia.
Durval aquiesceu:
- Odcio est timo. Fizemos uma boa limpeza energtica e de agora em diante ele precisar tomar conta de seus pensamentos.
- S isso? - indagou Adlia, num misto de surpresa e incredulidade.
Durval fez sinal e todos se sentaram ao redor. Odcio desceu as escadas e naturalmente sentou-se ao lado deles. Durval continuou:
- Toda a inteno do pensamento est plasmada na aura. E tudo o que voc pensa e sente fica na aura.
- Tenho dificuldade de entender. s vezes pego um livro do Fernando e procuro estudar. Entretanto, o que  aura? - perguntou Adlia, interessada.
- Basicamente, a aura  o envoltrio mental e emocional do corpo fsico. Trata-se da manifestao de substncia etrea que irradia de todos os seres vivos, perceptvel 
por pessoas de sensibilidade especial, ou seja, pessoas que possuem mediunidade bem educada. Vou procurar ser o mais claro possvel - ponderou Durval.
Todos assentiram com a cabea, inclusive Odcio. O jovem prosseguia:
- O pensamento d forma fsica. A nossa vontade imprime tudo; logo, tudo acontece com a nossa permisso. 
- Quer dizer que eu mesma crio a situao que vou encontrar? - perguntou Suzana, curiosa.
- Isso mesmo. A capacidade do indivduo de organizar seus pensamentos, suas emoes, as suas atitudes denomina-se equilbrio. E o desequilbrio nada mais  do que 
a sobrecarga dessas emoes. Quem no tem direo mental positiva fica perturbado espiritualmente. Por isso precisamos comandar nosso pensamento mais a nossa vontade, 
liberando culpas e dvidas que nos cercam a mente.
- E tendo o pensamento ordenado, organizado, eu sei o que  meu, certo?
- Sim, Tnia - concordou Durval.
- A energia segue o pensamento; logo, o que voc pensa cria forma.
- Tive tantos pensamentos ruins e negativos - retrucou Odcio.
- Por isso atraiu entidades que mantinham o mesmo teor de pensamentos. Havia afinidade entre vocs. Esses espritos se alimentavam de seus pensamentos. Ao estancar 
o fluxo de pensamentos negativos, a fonte seca e as entidades se afastam.
- Oh, Durval, como  simples! - sentenciou Odcio.
- Simples, mas difcil. Vivemos num mundo conturbado, onde as pessoas irradiam toda sorte de pensamentos. Precisamos estar sempre vigilantes e procurar manter o 
equilbrio, para saber o que  pensamento nosso e o que vem dos outros. Da a necessidade de criarmos um campo de proteo ao nosso redor, estando sempre em sintonia 
com os amigos espirituais do bem.
- Estou fascinada - ajuntou Ana Paula.
Durval iria dar continuidade, entretanto a campainha soou. Adlia correu a atender. Era Lurdinha. Ela entrou sem cerimnia. Beijou delicadamente a face de Adlia 
e surpreendeu-se com aquela gente toda reunida na sala.
- A festa mudou de endereo? - brincou ela.
Suzana consultou o relgio.
- Meu Deus! Esquecemos a festa! Se voc no chegasse Lurdinha, estaramos aqui papeando.
- No  de bom-tom chegar cedo  festa de gr-fino. Sei dessas coisas. Temos todo o tempo do mundo. 
Todos se levantaram. Fernando, Odcio e Adlia subiram para se arrumar. Ana Paula foi at a cozinha com Tnia, a fim de preparar um suco. Suzana ficou na sala com 
Durval e Lurdinha. Sou grata pelo que fez pelo meu pai - disse Suzana, emocionada.
- No precisa agradecer. Nada fiz a no ser canalizar boas energias e direcion-las para seu pai. Agora tudo vai depender dele.
- Tenho certeza de que tudo vai melhorar. 
- O que aconteceu nesta sala? Um tornado passou por aqui? - indagou Lurdinha, olhar investigativo pelo ambiente.
- Depois lhe explico melhor - respondeu Suzana. Lurdinha teve um lampejo.
- Por que no convida o Durval para a festa?
- Durval?!
- Claro Suzana. Estando acompanhada de um homem bonito assim, tenho certeza de que o Bruno no vai se aproximar.
- No quero meter o Durval nesta histria.
- Que histria? - perguntou o jovem com interesse. Suzana baixou os olhos.
- O filho do meu chefe no larga do meu p. Diz estar apaixonado, contudo est cismado comigo. J procurei me esquivar de tudo quanto foi jeito, mas ele no larga 
do meu p.
- Adoraria acompanh-la - replicou Durval, olhos brilhantes.
Suzana enrubesceu. Lurdinha cutucou a amiga.
- Eu vou levar Tnia. Voc se incomodaria de levar a Suzana.
Suzana ia responder, mas Durval foi rpido:
- Em absoluto. Vai ser um prazer acompanhar Suzana nesta festa.
A noite estrelada e a brisa suave contriburam positivamente para tornar a festa de Roberto bem-sucedida. As mesas estavam dispostas umas perto das outras, sobre 
o gramado do vasto jardim. A orquestra, prxima  piscina, tocava msica envolvente, que convidava os pares a danar. Roberto e Rafaela recebiam os convidados e 
os conduziam at as mesas. Passava das dez quando Odcio chegou acompanhado de Adlia, Fernando e Ana Paula. Logo atrs vinham Lurdinha e Tnia.
- Onde est sua filha? - indagou Roberto.
- Chegar num instante - respondeu Odcio.
- Estou louca para conhec-la - tornou Rafaela, animada. Bruno fala tanto de Suzana, que mal vejo a hora de v-la. Ao telefone ela me parece encantadora.
- Suzana  um primor de moa. Vai chegar logo - ajuntou Fernando.
Enquanto eram conduzidos para suas mesas, Adlia cutucou o marido.
- Estou apreensiva.
- O que ?
- Suzana vem acompanhada do Durval. No acha que pode atiar os cimes do Bruno?
- Ora, mulher, a Suzana no d a mnima para o Bruno. Nunca houve nada entre eles. 
- Mas a mulher do Dr. Roberto falou de nossa filha como se ela estivesse prometida ao filho dela.
- Coisas de mulher. Vamos nos sentar e aproveitar. Hoje  uma noite especial. Estou me sentindo to bem!
Adlia sorriu feliz.
- Que bom! Voc est parecendo o Odcio que conheci h anos. Est at com a aparncia mais jovem!
- Me concederia esta dana?
Adlia emocionou-se. Fazia tempos que no saam e no se divertiam. Vivia uma rotina estafante. O casamento andava meio morno. A atitude de Odcio, de convidar a 
esposa para danar, reacendeu nela a chama do prazer.
- Aceito. H anos no dano.
Odcio lhe deu o brao e foram para o palco, onde outros casais danavam embalados por doce melodia. Lurdinha estava eufrica. Tnia sentia uns arrepios ao lado 
da amiga.
- H algo de estranho por aqui. O que voc est tramando, Lurdinha?
- Eu?! - exclamou a jovem.
- Sim. Voc no veio a esta festa  toa. Qual a inteno? Vamos, diga logo.
- No preciso esconder nada de ningum.
- Nem precisa me dizer. Veio aqui por causa do Bruno.
Lurdinha bateu palmas. 
- Absolutamente certo! Estou to ansiosa!
No vejo  hora de v-lo.
- No sei se ele vai lhe dar trela. Sabe o quanto est interessado na Suzana.
Lurdinha deu de ombros.
- No estou nem a. Ele vai ser meu, tenho certeza.
Tnia sentiu forte torpor. Afastou-se de Lurdinha e foi para um canto do imenso jardim, a fim de aspirar o ar puro das flores e manter-se afastada daquelas ondas 
pesadas. Bruno estava impecavelmente bem vestido. Chamava a ateno das mulheres em geral. Muitas suspiravam pelo moo, mas Bruno mal as notava. Olhava impaciente 
para os lados, procurando por Suzana. Lurdinha aproximou-se e o cumprimentou.
- Como vai?
- Boa noite - disse ele secamente. Lurdinha adiantou:
- Sou amiga de Suzana. Ela vem logo. Bruno animou-se e se interessou.
- Ela ainda no chegou?
- No. Est se arrumando.
Bruno mal a olhava. Lurdinha puxou conversa.
- Sua casa  grande, no?
- . Grande demais para ns trs. Mas papai sempre sonhou com um casaro desse porte.
- Onde voc dorme?
- Ali - apontou Bruno.
A jovem olhou para o alto. Viu pequena janela na direo que Bruno apontara. 
- L  seu banheiro?
- . Todos os quartos so sutes.
- E voc est to cheiroso! Tomou um banho daqueles, n?
- Claro.
- E a roupa suja? Os empregados a recolhem para a lavanderia?
- No. As roupas ficam no banheiro mesmo, num cesto prprio. Quando a camareira vai arrumar o quarto na manh seguinte, ela recolhe as roupas sujas.
- Interessante.
- Por que me pergunta isso?
- Por nada. Curiosidade. E que a casa  to grande... Fico imaginando como fazem para deixar tudo em ordem, impecvel.
- Sei... - tornou Bruno, sem interesse na conversa. Lurdinha procurou fixar a janela.
- Que timo ter o quarto voltado para o jardim e para a piscina.
- Nas noites quentes  muito bom. Eu deixo as janelas do quarto abertas. D para sentir o perfume das flores. O jasmineiro fica prximo do meu quarto.
- Adoro o cheiro de jasmim - retrucou
Lurdinha.
- Eu tambm, mas estou ansioso. Quero ver logo a Suzana.
Lurdinha franziu o cenho. Ser que o Bruno s pensava na Suzana vinte e quatro horas ininterruptas? No tinha outro assunto? Isso era fixao, obsesso, mas jamais 
poderia ser amor. Em todo caso, ela estava feliz.
- Agora sei onde fica o quarto dele. Esses espritos que trabalham com o Pai Thomas tm de me ajudar a chegar at a sute do Bruno. Preciso pegar essa cueca de qualquer 
jeito. O meu futuro depende dessa cueca...
Quinze minutos depois, Suzana chegou acompanhada de Durval. Ela estava trajando lindo vestido azul-noite, com delicada estampa bordada no colo. Os cabelos estavam 
presos em coque, e a bela maquiagem realava sua beleza. Durval tambm no passava despercebido. Era alto, cabelos castanhos levemente ondulados. A pele era alva, 
o rosto quadrado, feio mscula. Era considerado um tipo, segundo as mulheres. Suzana sentia-se bem a seu lado. Assim que entraram, foram recebidos por Rafaela 
e Roberto.
- Pensei que voc fosse somente uma voz - redargiu Rafaela, entre sorrisos.
- Como vai, Dona Rafaela? - cumprimentou Suzana.
- Muito bem, minha querida. Estava ansiosa por conhec-la pessoalmente.
Suzana cumprimentou Roberto e apresentou Durval ao casal. Rafaela torceu o nariz. Quando eles se afastaram e foram na direo da mesa de Odcio, Rafaela retrucou:
- Quem  esse moo?
- No sei... Talvez um namorado.
 - Namorado? Mas o namorado dela  o nosso filho! - exclamou Rafaela.
- Deixe disso! Bruno adora cismar com minhas secretrias. A Suzana nunca deu mole para ele. Ele me diz que ela  apaixonada por ele. Mentira. Iluso, caraminhola 
da cabea do Bruno. Suzana  excelente profissional, no  de misturar trabalho com vida pessoal. Garanto que ela nunca deu bola para ele.
- Isso no pode ser. Nosso filhinho vai sofrer. No quero que ele passe por aqueles problemas de novo.
- Nem eu, nem eu - aquiesceu Roberto. - Deus queira que ele se apaixone de verdade por alguma moa e case logo.
- Estou triste. Achei que Suzana fosse  mulher da vida dele.
- No , Rafaela. No a viu acompanhada?
Ela no traria um amigo a uma festa sem estar comprometida.
- Voc tem razo. Vou atrs do Bruno.
- Deixe-o em paz. Voc o mima demais.
- Ele  sensvel, oras. No quero v-lo triste.
Rafaela foi atrs do filho, e Roberto meneou a cabea para os lados. Estava ficando cansado das atitudes de Bruno. O rapaz tinha quase trinta anos de idade, no 
era mais um menino. Entretanto, Rafaela o tratava como uma criana, e Bruno gostava de ser tratado assim. A festa decorreu agradvel. O jantar foi servido e, assim 
que a orquestra voltou a tocar, Bruno achegou-se da mesa de Suzana. Sem olhar para Durval, convidou:
- Quer danar comigo?
Suzana remexeu-se na cadeira, apreensiva. Era difcil de dizer um "no". Entretanto, sentindo-se segura ao lado de Durval, disparou:
- No.
Bruno exalou profundo suspiro de contrariedade.
- No estou acostumado com um "no".
Suzana fez fora e deu de ombros. Bruno replicou:
- Voc est em minha casa. Quero danar com voc.
- Eu no quero - tornou ela, firme.
- Vai danar, sim. Agora.
Bruno a puxou pelo brao. Suzana sentiu dor pela maneira bruta com que ele a tocou. Ela ia gritar, no fosse o empurro de Durval.
- Largue a moa.
- Ora, ora - retrucou Bruno. - Trouxe um leo-de-chcara? Um segurana para vigi-la?
- No toque mais nela. No percebe que Suzana no quer danar com voc?
- No me interessa se ela quer ou no danar comigo. Eu quero danar com ela, e isso por si basta. - E, virando-se para Suzana: 
- Vamos, levante-se. Odeio mulher que faz cenas.
Suzana levantou-se nervosa.
- Eu no vou. No quero. No d para respeitar minha vontade?
Bruno irritou-se sobremaneira. Levantou a mo para dar uma tapa na moa. Durval foi rpido e segurou o brao do rapaz. Suzana saiu correndo em direo  mesa dos 
pais. Durval apertou o brao de Bruno.
- Nunca mais faa isso com ela ou com mulher que seja seu brutamonte!
Bruno sentiu dor e, irritado ao extremo, afastou-se. Durval foi at a mesa de Odcio.
- Ser melhor irmos. Bruno no est bem, e h algumas entidades coladas no seu corpo. Meus amigos espirituais nos orientam a sair agora mesmo.
Odcio e Adlia nem hesitaram. Levantaram-se de pronto. Fernando, Ana Paula e Tnia foram logo atrs. Despediram-se de Roberto rapidamente.
- Isso  uma desfeita! - protestou Roberto.
- Estou cansado - declarou Odcio. - A festa est tima, mas precisamos ir.
Suzana e Durval vinham logo atrs e no tiveram tempo de se defender. Bruno se atirou sobre eles com fria espetacular. Odcio, num lance rpido, puxou a filha pelo 
brao e afastou-a dali. Durval e Bruno se engalfinharam e rolaram pelo gramado do jardim. Os convidados estavam estupefatos. A orquestra parou de tocar. Enquanto 
Roberto e outros convidados tentavam apartar a briga, Lurdinha aproveitou a confuso, saiu de fininho e adentrou a casa. Olhou para os lados a fim de certificar-se 
de que no estava sendo vista. Subiu correndo as escadas e entrou num quarto. Viu uma penteadeira, batom, meias femininas. Era o quarto de Rafaela e Roberto. Ela 
fechou a porta e foi at o fim do corredor. Abriu e sorriu aliviada. Teve certeza de que era o quarto de Bruno. Rapidamente ela correu at o banheiro e vasculhou 
o cesto. Pegou a pea ntima. Dobrou com cuidado e a enfiou na bolsa.  Suando frio, ela estugou o passo, desceu as escadas com incrvel rapidez. Roberto tinha acabado 
de desvencilhar o filho dos braos de Durval.
- Desculpe-me. No sei o que aconteceu.
- Ele me paga, pai. Ele me paga - bradava Bruno.
- Seu filho necessita de tratamento - sentenciou Durval.
- Voc  quem vai precisar de tratamento quando eu esquentar meus dedos na sua cara - gritava Bruno, fora de si.
Roberto, com a ajuda de parentes, conseguiu levar o filho para dentro de casa. Rafaela correu at seu quarto e apanhou a caixa de remdios. Trouxe dois calmantes 
para o filho. Bruno os ingeriu e em instantes aparentava estar mais calmo. Logo ele comeou a ficar sonolento, e foi com dificuldade que Roberto e mais dois amigos 
conseguiram levar o moo at seu quarto. Rafaela veio logo atrs com curativo para os arranhes no rosto e no brao. L fora, Suzana procurou conter a perplexidade. 
Durval tinha somente um arranho no sobreclio. Ela pegou um lencinho dentro da bolsa e passou-o delicadamente sobre a regio afetada.
- Sente-se bem?
- Sim.
- No est ferido em outro lugar? - perguntou ela, aflita.
- No. Estou bem. Foi mais o susto. Fomos pegos de surpresa. Fiquei com medo de que ele a machucasse.
- No me machuquei. Ca, mas no fiz nada. E graas a Deus o vestido no foi danificado. Ele  alugado.
Durval sorriu. Fernando interveio:
- Tem certeza de que no querem ir a um pronto-socorro?
- No h necessidade - respondeu Suzana.
- Estou bem.
- Eu tambm - ajuntou Durval.
- Acho que a festa acabou. Vamos para casa - tornou Odcio.
- Que tal um lanche? - inquiriu Adlia.
- Um lanche?
- , Odcio. Um lanche. Mal tocamos na comida. Creio que todos ns estamos com fome. Vamos para casa. Tenho uns salgadinhos. Podemos fazer um ch.
- Excelente ideia, mame - replicou Suzana.
- Eu tambm quero - assentiu Ana Paula.
Adlia aproximou-se de Durval.
- Meu filho, voc nos ajudou tanto, fez tanto por ns... Adoraria que fosse at em casa lanchar conosco.
- Ser um prazer, Dona Adlia.
Suzana sorriu feliz. Lurdinha apareceu arfante, suando frio.
- Onde estava durante a briga? - perguntou Ana Paula.
- Voc sumiu - emendou Tnia.
Lurdinha procurou manter naturalidade na voz:
- Detesto briga. No gosto. Assim que a confuso comeou, eu me afastei e me tranquei no lavabo - mentiu.
Ningum deu muita ateno. Estavam todos com vontade de sair de l o mais rpido possvel. Lurdinha esquivou-se do convite:
- Est tarde para mim. - E, virando-se para Tnia: - Voc se importaria de ir com a Suzana e com o Durval?
- No, mas...
- Estou morrendo de dor de cabea. Esta festa no me fez bem. A briga me deixou abalada. Quero ir para casa.
Lurdinha se despediu de todos com um aceno e estugou o passo at o carro. Assim que entrou no veculo, agradeceu aos cus:
- Obrigada, muito obrigada. Nunca pensei que fosse to fcil assim. Amanh vou correndo levar esta cueca suja para Pai Thomas. Tenho certeza de que ele vai fazer 
o trabalho de amarrao e em questo de dias o Bruno vai ser meu, todinho meu.
Meia hora depois, Odcio e Adlia chegaram a casa, acompanhados de Fernando e Ana Paula. Em seguida chegaram Suzana, Tnia e Durval. Adlia convidou:
- Por que Ana Paula e Tnia no dormem aqui esta noite? Ana Paula hesitou:
- No sei se podemos Dona Adlia.
- Temos horrio na penso. No podemos dormir fora - ajuntou Tnia.
- Liguem para Dona Guiomar - considerou Suzana. - Podem dormir no quarto comigo. O Fernando dorme aqui na sala.
- Por mim, tudo hem - concordou o rapaz.
- Est tarde.  melhor ficarem por aqui - retrucou Odcio.
- Est certo. Vou ligar para Dona Guiomar.
Ana Paula foi at o telefone, discou para a penso e falou rapidamente com Guiomar.
- Ela concordou. Disse que no  para nos acostumarmos - tornou a jovem. 
- Ela vai ter de se acostumar - replicou Fernando.
- Porque motivo?- indagou Tnia.
- Porque logo quero me casar com Ana Paula. Dona Guiomar vai ter que comear a se acostumar com a ausncia dela. Ana Paula corou de prazer. Adlia a abraou comovida.
- Estou muito feliz em t-la como nora.
- Obrigada. Seremos muito amigas.
Os demais cumprimentaram o casal. Fernando tinha tomado coragem para dizer aquelas palavras. No cabia em si, tamanha a felicidade. 
- Desde que fiquei Scio de Seu Hiroshi e as coisas comearam a melhorar, resolvi pedir a mo de Ana Paula.
- Vocs estavam fazendo tudo s escondidas - reclamou Suzana.
- No. Tudo foi natural - tornou Fernando.
- Eu e Ana Paula estamos pensando em casamento j faz um tempo. Queremos nos casar no fim do ano.
- Parabns - disse Durval aps abra-los. - Sinto que sero muito felizes. Algo me diz que esto juntos h algumas vidas. Vocs se amam de verdade.
Fernando emocionou-se:
- Se Ana Paula no tivesse tomado a dianteira, estaramos ainda ensaiando nosso namoro.
- Eu me declarei antes dele, nada mais - salientou Ana Paula. - Tomei a deciso certa, na hora certa.
Todos sorriram felizes. Odcio ordenou: 
- Nada de ch. Vamos tomar champanhe. Tenho umas duas garrafas l nos fundos. Vou apanh-las.
Durval afastou-se dos demais. Puxou delicadamente Suzana pelos braos.
- Est melhor? - perguntou ele.
- Sim. Passou o susto. Agora, vendo meu irmo to feliz, olhos brilhantes, no tenho mais por que ficar triste. 
- Bruno est envolvido por entidades do astral inferior. Podemos fazer um trabalho  distncia para amenizar a influncia negativas.
- Eu no faria nada. Ele no merece.
- No diga isso. Voc est com raiva.
- Claro que estou.
- E por que motivo?
Suzana estava indignada.
- E voc ainda me pergunta? Bruno no larga do meu p.
- No larga porque voc, de alguma maneira, o atrai para perto de si.
Suzana exalou suspiro de contrariedade.
- Imagine ouvir uma coisa dessas! Vai dizer que sou a culpada de ser assediada por aquele infeliz?
- No disse isso. Falei que h algo em voc, uma atitude, um padro de pensamento semelhante que os mantm atrados. Chamo isso de afinidade.
- Eu jamais poderia ter afinidade com esse brutamonte. Isso  loucura. 
Durval procurou acalm-la.
- No quero mago-la. Gostaria que entendesse, com inteligncia, por que o Bruno est no seu p e no no p de outra mulher.
- Como assim?
- Quer me escutar?
- Gostaria.
- Mas sem essa cara de brava - suplicou Durval. Suzana sorriu.
- Voc venceu. No vou ficar brava. Quero entender os mecanismos que me mantm presa a esse pulha. - Venha at aqui.
Durval a levou at o pequeno jardim na frente da casa. Sentaram-se sobre gracioso banco. A noite continuava estrelada e a brisa tocava-lhes a face com suavidade. 
Durval ajeitou-se no banco e tornou: 
- Voc  muito amorosa, terna. Por que se faz de difcil? Por que oculta tais sentimentos?
Suzana hesitou. Por fim disse:
- Sempre chamei a ateno dos homens pelos meus atributos fsicos. Desde a adolescncia tenho enfrentado todo tipo de assdio. Tive de me defender. Passei a ser 
mais firme, procurei imprimir uma postura sria, de respeito, para no cair na mo de qualquer almofadinha.
- Contudo foi represando seus verdadeiros sentimentos.
- Mas tenho de pagar um preo. 
- Acha que reprimir o que sente  vlido?
Pelo contrrio, no lhe traz mais dissabores?
- No sei.
- Quantos relacionamentos saudveis voc teve at hoje?
- Nenhum. Nunca me dei o direito de namorar. Tive medo de ser usada.
- Suzana, no precisamos seguir modelos de comportamento para aceitarmos e obtermos considerao alheia. Quando nos aceitamos, os outros nos aceitam, e, quando agimos 
guiados pelo corao, tudo d certo em nossas vidas.
- H determinados padres de pensamentos que possuo e que no tolero.
- Pare por um instante e sinta. Veja o que vale a pena continuar sentindo. O primeiro passo  construir um padro de pensamento positivo em relao  sua pessoa, 
a fim de afastar indivduos e situaes indesejveis em sua vida. Use de sua inteligncia. No precisamos passar pela dor para aprender e mudar. Aceite que voc 
pode ser terna, amorosa, e que nem por isso os outros vo tirar vantagem disso. Aceite que voc  perfeita, que est se descobrindo, desabrochando para a vida. Lembre-se 
de que voc tem sentimentos e emoes, entretanto no so esses sentimentos e emoes. Olhe para voc sem medo, sem julgamento, somente com carinho.
- Acabei me superprotegendo do mundo e olhe s: no consegui me livrar do Bruno.
- Ele no apareceu em sua vida por acaso.
- Acredita que haja alguma pendncia de outras vidas?
- No nesse caso.
- No? Ento por que...
Durval delicadamente a cortou:
- Se voc atraiu um rapaz que no larga do seu p, preste ateno: a vida quer que voc aprenda algo com essa situao.
Suzana mordeu os lbios, aflita.
- Mas o que tenho de aprender com a presena repugnante do Bruno?
- Est na hora de voc mesmo largar do seu p.
- Como?!
Durval riu.
- Isso mesmo. Voc pega demais no seu p. Controla demasiadamente seus passos, seus sentimentos, suas emoes. A vida lhe trouxe algum que faz exatamente o que 
voc faz consigo mesma, mas recusa-se a acreditar que esteja fazendo.
- Eu pego no meu p, mas...
- Mas precisa largar dele. Quando mudar sua postura, rever suas crenas e tiver aprendido, Bruno vai mudar de atitude com voc ou vai sair de sua vida.
- Acha mesmo que seja s isso? Eu mudar e pronto?
- E  fcil mudar? Somos muito resistentes. 
-  verdade.
- A vida a trata como voc se trata, Suzana. No se esquea disso.
Suzana baixou os olhos, pensativa. O que Durval lhe falara mexeu fundo em seu corao. Sentia que ele lhe dizia a verdade, entretanto era difcil mudar. Estava acostumada 
a manter um padro rgido de comportamento, ser sisuda, a fim de evitar o assdio dos rapazes. Estava na hora de perder o medo e assumir-se por inteira, impregnando 
em volta de seu corpo s verdadeiras caractersticas do seu esprito. Ramrez andava de um lado para o outro do quarto. Guilhermina impacientou-se.
- Estou com sono. Por que no se deita?
- Problemas, Guilhermina, problemas.
- A essa hora da madrugada vai resolver alguma coisa? Deite-se.
- Preciso pensar.
- Quero dormir- tornou ela, voz irritadia.
- Pois que durma. Vou para a sala.
Ramrez falou num tom seco. Estugou o passo e saiu, batendo a porta com fora. Guilhermina sentou-se na cama apreensiva. Fazia algum tempo que o companheiro no 
mais a procurava. Tencionava marcar a data do casamento, mas Ramrez sempre arrumava uma desculpa qualquer, escapava de esguelha. Algo de estranho estava acontecendo, 
e ela no sabia o que era. Com os pensamentos lhe fervendo a cabea, Guilhermina vestiu o penhoar, calou as chinelas e dirigiu-se ao quarto de Guadalupe. Baixou 
a cabea e notou que havia luz passando por debaixo da porta. Bateu levemente.
- Quem ? - indagou Guadalupe.
Guilhermina abriu rapidamente a porta e entrou.
- Ns precisamos conversar.
- O que aconteceu?
- Ramrez est to diferente...
- Diferente como?
- Sei l, diferente. No me procura mais. Tem me tratado com frieza.
-  o temperamento espanhol dele - redargiu Guadalupe.
- Sei que no . Pressinto que algo ruim est por acontecer. Guadalupe meneou a cabea para os lados.
- Voc est delirando, Guilhermina.
- Acha que Ramrez est interessado em outra?
- De onde tirou uma ideia dessas? - indagou Guadalupe, fingindo estupor.
 - Sou mulher e sei dessas coisas.
- Acalme-se. Ele est nervoso. Ramrez no ganha mais tanto dinheiro assim. A concorrncia est brava. Ele est pensando numa sada para conseguir mais dinheiro.
- Ser que  isso?
- Claro que . V dormir. Acalme-se. Logo ele vai mudar e tudo voltar ao normal.
- Assim espero. Obrigada, Guadalupe.
- Boa noite, querida.
Guilhermina saiu sentindo-se aliviada. Assim que encostou a porta do quarto, Guadalupe fez uma careta.
- No suporto mais essa situao. Estou farta das lamrias dessa mulher. No vejo  hora de nos livrarmos dela e do infeliz do Luis Carlos. Estou farta de ambos.
Guilhermina voltou para seu aposento e deitou-se. Menos agitada, pegou no sono. Assim que seu perisprito se desgrudou de seu corpo, ela teve um sobressalto. Miguel 
estava  sua frente, com o dedo em riste, exigindo-lhe satisfaes.
- Voc acabou com nossas vidas! - bradou ele.
Guilhermina levou a mo  boca para evitar o grito. Meio desorientada, retrucou:
- No fiz nada. Voc sabe que nunca o amei.
- Entretanto no precisava trair-me sob meus olhos. E ainda por cima com esse canalha.
- Ramrez  bom. Eu o amo.
- Ele a est usando. Assim que conseguir o que quer, vai se livrar de voc.
- Mentira! - gritou Guilhermina.
- Verdade! Eu consigo ler os pensamentos das pessoas a na Terra. Sei o que ele est tramando. Por isso vim procur-la.
Guilhermina procurou manter a calma. Miguel estava com a aparncia melhor, e algo dentro dela a mantinha ali, escutando o marido. Miguel prosseguiu:
- Eu no tenho mais como ficar por aqui, perambulando no mundo dos encarnados. Fui convidado para trabalhar com o Joo no cemitrio. Vou ser assistente dele e, provavelmente, 
no nos veremos por um bom tempo.
- Trabalhar em cemitrio? Que horror!
- Acostumei-me com o ambiente. Pelo meu bom comportamento, fui promovido a socorrista de suicidas.
Guilhermina fez cara ele nojo. Arrepiou-se toda.
- Cruz credo!
- Mas estou aqui por causa de nosso filho.
- Luis Carlos?
- Sim.
- O que tem ele? - perguntou ela, angustiada.
- Ele corre perigo de morte.
- Oh, no!
- Corre, sim, Guilhermina. Precisamos ficar atentos. 
- O que posso fazer?
- Procurar Ana Paula.
- Aquela filha ingrata? - bradou ela, indignada.
- Sim.
- Nunca!
- No temos tempo para animosidades. Luis Carlos corre risco de morte, e Ana Paula vai poder ajud-lo.
- Como?
- Eu tambm no sei, mas so ordens dos espritos do bem.
- O que vai acontecer ao meu filho?
- Calma! Precisa ter sangue-frio. Afaste-se de Ramrez e procure Ana Paula.
- Mas por qu?
A imagem de Miguel comeou a se desfazer no ambiente.
- Meu tempo est se esgotando. Tenho de partir.
- Voc no vai mais me assombrar?
Miguel riu-se.
- Parei com isso. Voc no tem culpa. Ningum teve culpa de meus desatinos. Fui um fraco, e estou arcando com as conseqncias de minhas atitudes. Sou responsvel 
por tudo o que me aconteceu. No lhe tenho rancor ou mgoa. Cuide de nosso filho...
Miguel desapareceu do quarto num piscar de olhos. Guilhermina, apalermada, voltou rapidamente ao corpo e acordou de um salto, a testa suada, o corao palpitante.
- Meu Deus! Meu filho, o que vai acontecer ao meu filho?
Guilhermina ficou pensando, pensando. Aos poucos o cansao foi chegando e, assim que o sol invadiu as frestas da janela de seu quarto, ela finalmente adormeceu. 
Ramrez no podia mais esperar. Precisava encontrar-se com Otto de qualquer maneira. A custo conseguiu um encontro com o alemo. Sabendo que seria revistado, no 
poderia esconder o gravador sob suas vestes. Ramrez pensou, pensou e lembrou-se de que um dos capangas de Otto estava insatisfeito com o patro alemo. Ramrez 
localizou o capanga e lhe fez uma proposta irrecusvel. Assim que descobriu onde seria a reunio, tratou de convencer o rapaz a esconder um gravador sob a mesa. 
- Mas eu posso ser morto, caso Otto descubra - tornou o capanga, assustado e hesitante.
- Eu o contrato e ainda lhe dou dez mil, em dinheiro. Ningum vai encostar um dedo em voc.
Os olhos do capanga vibraram de satisfao. 
- Eu no quero mais trabalhar para o Otto - disse em tom rancoroso. - Serei seu servial a partir de agora. O senhor no vai se decepcionar comigo. 
Ramrez riu aliviado. Conseguira timo aliado para sua causa. Assim que destrusse Otto, tambm se livraria do capanga. Afinal, se o rapaz mudara de lado to rapidamente, 
no era pessoa de confiana. Mas isso agora no importava. Ramrez precisava que o gravador fosse instalado no local do encontro, sem o conhecimento de Otto. Ele 
estava satisfeito. Tudo corria a seu favor. O dia do encontro chegou e no horrio marcado todos estavam nas imediaes do depsito, afastado da cidade. Otto estava 
com dois capangas a tiracolo. Um deles era o tal que se comprometera com Ramrez de manter o gravador no local da reunio. Assim que Ramrez o avistou, seus olhos 
se cruzaram e, com um pequeno aceno dado pelo capanga, Ramrez teve certeza de que tudo estava ajeitado conforme o planejado. O espanhol foi revistado e imediatamente 
conduzido a uma sala cujo mobilirio consistia numa grande mesa oval e algumas cadeiras. 
- Vamos ao que interessa. Sente-se  disse Otto, enrgico.
Ramrez obedeceu e sentou-se. Abaixou-se com o pretexto de amarrar um dos sapatos. Notou que o gravador estava preso sob a mesa e prximo a Otto. Ramrez sorriu 
feliz e tornou simptico:
- Vamos resolver a questo.
- O que quer? 
- Por que no permitiu a unio de sua filha com Luis Carlos?
Otto estava pasmo.
- Esse assunto no  de sua alada.
- Como no? Luis Carlos  praticamente meu filho. Assim que me casar com Guilhermina, vai se tornar meu enteado. Prezo por sua felicidade.
- Voc nunca foi de prezar pela felicidade de ningum. Que histria  essa?
- Quero que ele seja feliz.
- Um viciado em jogatina e bebida? Minha filha merece coisa melhor.
- Luis Carlos  apaixonado por ela. Otto procurou conter a raiva.
- No quero mais tocar nesse assunto. Est encerrado.
- Vamos marcar um jantar e resolver a questo. Otto deu um soco na mesa.
- Nunca! Minha filha nunca vai se casar com Luis Carlos. Vocs so um bando de vboras. Quero-os longe de minha famlia.
Ramrez ficou em pnico. Se Otto desse novo soco na mesa, aquele gravador iria ao cho e tudo estaria perdido. Num tom dramtico, Ramrez foi categrico:
- Voc no pode impedir a unio dos dois! Eles se amam. Pelo que me consta, sua filha ainda est apaixonada por Luis Carlos.
- Ela vai se tratar. Um primo de Zara est vindo para cuidar dela. Maria Cndida vai esquecer Luis Carlos num piscar de olhos.
- E se ele voltar a se aproximar de sua filha?
- Eu juro que o mato. Voc no tenha dvida de minhas palavras, Ramrez. Se Luis Carlos se aproximar de Maria Cndida, eu o mato, entendeu?
Ramrez levantou-se, fingindo estupefao.
- No precisamos chegar a esse ponto.
- Ento v embora daqui agora. Retire-se.
- Est certo. Fiz o meu papel de padrasto.
Pena que voc  to duro nos sentimentos. Otto gritou:
- Saia j!
Ramrez acenou com a cabea e retirou-se. Horas depois, o capanga de Otto apareceu no escritrio de Ramrez com o gravador. Ao pegar a fita cassete nas mos, o espanhol 
vibrou de felicidade:
- Agora Otto no me escapa.
Lurdinha acordou, arrumou-se e mal tomou o caf. Correu at o terreiro. Estava excitava e nervosa. Ao chegar ao local, ficou sentada aguardando  hora de ser atendida. 
Contava os segundos e minutos. Instantes depois, uma moa a chamou.
- Pai Thomas a aguarda em sua sala.
Lurdinha levantou-se de pronto. Sorridente, dirigiu-se  sala do pai-de-santo.
- Muito bom dia! - exclamou ela, toda sorrisos. 
- Bom dia - respondeu ele, com naturalidade. - Pelo jeito, voc conseguiu a pea de roupa. A jovem vibrou de alegria.
- Sim! Consegui.
Lurdinha abriu sua bolsa e retirou um embrulho. Deu-o a Pai Thomas.
- Tome. Est usada, como solicitou.
O homem pegou o embrulho e abriu. Sorriu.
- Agora ficar fcil. Primeiro vou fazer um feitio para que o rapaz deixe de ter interesse em outras mulheres.
- E quando ele vai se enfeitiar por mim?
- Logo. Meus guias a ajudaram a conseguir a pea de roupa. Agora tudo ficar fcil.
Prometo que em menos de uma semana esse moo vai estar apaixonado por voc.
Lurdinha exultou de felicidade.
- Pai Thomas, como lhe sou grata! No imagina o quanto estou feliz.  um sonho que acalento h tempos.
- Fao qualquer negcio. E sou muito bom no que fao.
- Sem dvida.
- Agora  s esperar. Questo de dias.
Lurdinha esboou largo sorriso. Finalmente iria conseguir seu intento. Em poucos dias, Bruno iria ser dela, s dela e de mais ningum. Ele nunca mais olharia para 
outra mulher. Seria exclusivamente dela, para sempre. Naquele sbado, Pai Thomas reuniu-se com dois assistentes e mais seus guias. Fez o trabalho de amarrao para 
Lurdinha. No domingo cedo, Bruno acordou zonzo, sentindo o corpo alquebrado, a respirao entrecortada. Rafaela estava ao lado da cama. Desde sexta-feira, quando 
seu filho havia brigado com Durval, que ela no saa do quarto. Estranhamente, Bruno dormiu praticamente o sbado todo e agora sentia dificuldade em levantar-se. 
- Vou chamar o Mdico da famlia  tornou apreensiva.
- No precisa me - respondeu Bruno, respirao pesada. - Deve ser uma gripe forte. Amanh estarei bem melhor.
- Nunca o vi debilitado desta maneira.
- Eu me descontrolei na sexta-feira.
Desculpe-me. Rafaela beijou a testa do filho.
- Aconteceu. Voc no devia ter se comportado daquela maneira.
- Fui impertinente. Deveria deixar Suzana em paz.
- Pensei que ela estivesse apaixonada por voc.
- Eu tambm - tornou Bruno, entristecido.
- Em todo caso, estou me sentindo diferente hoje. No sei ao certo o que .
- Como assim? 
- Aquele desejo, aquela vontade louca de ver Suzana sumiu como por encanto. No estou com vontade de v-la. Rafaela bateu na mesinha de cabeceira.
- Graas a Deus! O Alto ouviu minhas preces.
- Perdi completamente a vontade de v-la. Ser normal?
- Claro que ! A garota veio acompanhada, no lhe deu a mnima. Voc precisa mostrar que tem dignidade, orgulho, meu filho.
-  verdade. No posso e no quero mais rastejar por ela.
- Ou por mulher que seja - replicou Rafaela, em tom enrgico.
- Isso no posso afirmar - disse ele, bocejando. - Estou cansado, gostaria de dormir.
- Mais? Desde ontem est jogado nessa cama.
- Ah, me, deixe-me dormir mais um pouco, por favor.
Estou quebrado, quero ficar na cama. Rafaela deu de ombros. Era melhor que Bruno ficasse em casa mesmo. Dentro de casa ele no oferecia perigo e no arrumava encrenca. 
Ela tambm estava cansada e queria descansar. Beijou novamente a testa do filho, baixou as persianas. Deixou o quarto na penumbra e se retirou. Ela no notou que 
duas sombras escuras estavam l no quarto  beira da cama de Bruno. As duas entidades manipularam seu campo energtico de acordo com o pedido de Pai Thomas. Mais 
algumas horas e Bruno estaria se sentindo bem-disposto, porm sem a mnima vontade de assediar ou dirigir uma palavra a Suzana. Guilhermina acordou angustiada. Lembrou-se 
vagamente do sonho. As cenas lhe vinham sobrepostas, ela no conseguia orden-las. Tinha dificuldade em concatenar seus pensamentos. Assim que despertou por completo, 
lembrou-se de Miguel e levou a mo  boca.
- Oh, eu conversei com Miguel! - Ela afastou os pensamentos com a mo. - No, no pode ser. Miguel est morto. Aquilo foi um sonho, nada mais que um sonho.
Ela foi ao banheiro e fez sua toalete. Tomou um banho refrescante, vestiu um conjunto de duas peas confortvel e desceu para o desjejum. Enquanto tomava seu caf, 
foi se lembrando de algumas cenas com Miguel.
- No pode ser! Entretanto, foi to real!
Luis Carlos apareceu na copa. Beijou o rosto da me e sentou-se ao seu lado.
- O que foi to real?  perguntou interessado.
- Meu sonho.
- Que sonho, me?
- Com seu pai.
- Sonhou com papai? - o indagou curioso.
- Sim.
Luis Carlos sentiu saudades do pai. Lembrou-se de Miguel com extremo carinho.
- Pena que eu no me lembre dos meus sonhos. Bom, eu bebo tanto que desfaleo quando caio na cama. Em todo caso, o que papai lhe dizia no sonho?
Guilhermina fez fora para se lembrar. De repente, tudo veio muito rpido, e ela sentiu o peito apertar. Encarou Luis Carlos e sentiu um misto de medo e piedade. 
Segurou o brao do filho com fora.
- Seu pai me afirmou que voc corre perigo.
Luis Carlos riu-se.
- Eu? Perigo?
- Sim.
- Ora, me, imagine...
- Seu pai falou para voc tomar cuidado.
- Cuidado com o que?
Guilhermina mordeu os lbios preocupada.
- No sei no me lembro. Acho que seu pai no me falou nada a respeito. S disse para alert-lo. E o que estou fazendo.
- No tem com o que se preocupar.
- Seus amigos so de confiana?
- Claro que so.
- Oh, meu Deus! - exclamou ela, nervosa.
- Me, calma! No precisa ficar nesse estado por conta de um simples sonho. Estou aqui, estou bem. No se preocupe, que naja de mal vai me acontecer.
- E esse aperto no peito? Parece que meu peito vai sumir tamanho o aperto.
- Isso passa. Voc se impressionou com o sonho, com papai. Sonhar com os mortos nos deixa sensibilizados.
- Pode ser.
Luis Carlos levantou-se, beijou a me e saiu contente. Havia combinado uma partida de pquer com amigos logo mais. Guilhermina tentou terminar o seu caf, mas debalde. 
A garganta estava entalada. Ela sentiu um gosto amargo na boca, e, por mais que tentasse aquele incmodo no seu peito no passava, de jeito nenhum. Durval despertou 
sorridente. Sentia-se timo; acordara bem-disposto. Consultou o relgio e viu que ainda era muito cedo. Poderia ficar na cama mais um tempinho. Todavia, um de seus 
mentores se aproximou de sua cama. Durval prontamente o atendeu. Com sensibilidade bem educada, Durval captou o pensamento do mentor e imediatamente ligou para a 
casa de Suzana. Adlia atendeu ao telefone:
- Como est, Durval?
- Muito bem, Dona Adlia.
- Aqui em casa tambm est tudo bem.
Parece que a harmonia voltou a reinar neste lar.
- Isso  bom. E Odcio, como est?
- Melhor que todos ns. Acordou cedo, foi  feira. Est bem-disposto e - baixando o tom de voz - disse para mim que vai procur-lo semana que vem. Odcio quer voltar 
a trabalhar no centro, nem que tenha de fazer curso de reciclagem.
- Que bom! Fico contente com a deciso de Odcio voltar a freqentar o centro. Ele  um timo mdium e precisamos dele.
- Obrigada.
- A Suzana est?
- No. Ela foi com Odcio  feira. Quer deixar recado?
- No, senhora. Poderia ento falar com Fernando?
- Vou ver se ele saiu do banho. Um minuto, por favor.
- At logo, Dona Adlia. Instantes depois, Fernando atendeu ao telefone.
- Tudo bem, Durval?
- Sim. Estou timo.
- O que manda?
- Preciso entrar em contato com Ana Paula. Como poderia fazer para encontr-la?
- Ela vir almoar conosco hoje. Algum problema?
- No sei ao certo. Um de meus mentores veio conversar comigo logo cedo e pediu que transmitisse um recado a Ana Paula.
- Para Ana Paula? Tem certeza?
- Absoluta.
- Algo srio?
- Prefiro conversarmos todos juntos: eu, voc e ela. Talvez ela precise de sua ajuda. Mas fique sossegado: No h nada de errado tom ela.  um comunicado  famlia 
dela, mais nada. Por que no passa aqui e almoa conosco?
- Posso?
- Voc  da casa. E tem gente aqui que vai ficar contente em v-lo...
Durval deu uma risadinha.
- Por certo. Passarei a por volta da uma da tarde.
- Combinado. Esperamos voc.
- At mais.
- At.
Durval desligou o telefone sentindo brando calor no peito. Desde a noite da festa no conseguia tirar Suzana de seus pensamentos. A conversa na sexta-feira, aps 
o incidente na casa de Roberto, fora proveitosa. Conversaram sobre vrios assuntos, durante horas. Era madrugada quando Durval deixou a casa de Suzana. Ele se aprontou, 
arrumou-se com apuro. Uma hora da tarde em ponto, tocou a campainha. Suzana correu a atender.
- Boa tarde - disse Durval.
- Boa tarde - tornou ela. - Que surpresa agradvel! Pensei que s fosse encontr-lo no centro, semana que vem.
- Eu tambm. Entretanto quis vir. Preciso dar um recado dos amigos espirituais a Ana Paula. E tambm quis ver voc.
Suzana enrubesceu. Tambm se sentira atrada por Durval. Era impressionante, pois o conhecia desde a infncia e nunca sentira nada pelo moo. De repente, numa noite, 
ela descobriu que ele estava mais maduro, mais bonito, mais... Suzana descobriu estar apaixonada pelo moo, mas ainda era cedo para constatar. Nunca havia sentido 
nada parecido antes. E nunca de maneira to rpida e to intensa. Ela abriu o porto e o convidou. Durval beijou-a no rosto e Suzana sentiu as pernas falsearem. 
Precisou fazer tora para no esmorecer. Esquivou-se com graa e correu para dentro.
- Entre. Estou com um assado no torno. Sinto cheiro de queimado - mentiu.
Durval entrou e cumprimentou Odcio e Fernando. Ana Paula estava na cozinha dando uma mo a Adlia. Ao ouvir a voz de Durval, correu at a soleira da porta.
- Voc tem notcia para mim?
- Tenho.
- O que ?
- Podemos conversar?
Odcio fez meno de sair, mas Durval tornou com naturalidade:
- Pode ficar. Precisamos formar uma corrente de vibrao positiva neste caso. Conto com voc e com Fernando, bem como com Suzana e Dona Adlia, caso ela queira participar.
- Se for para o bem, eu participo  replicou Adlia, sentindo-se til.
Durval os convidou a sentar. Assim que todos se ajeitaram nos sofs, ele encarou Ana Paula nos olhos e declarou:
- Recebi hoje cedo  visita de um de meus mentores. Ele pediu para que voc entre em contato com sua me.
- Minha me?!
- Sim.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Mas no nos falamos h tempos.
- No importa. Foi solicitado que entre em contato com ela. Ela tambm foi alertada a procur-la, mas est confusa.
- Minha me recebeu a visita de algum esprito? Impossvel! Ela  ctica, no acredita em nada.
- Sua me sonhou com seu pai.
- Com meu pai? - indagou Ana Paula, emocionada.
- Sonhou.
- Ele est bem? Nunca tive notcias dele.
- Est se recuperando.
Ana Paula comoveu-se. Lembrou-se do pai com carinho. Durval foi firme:
- Deixemos seu pai de lado, por ora.
Precisamos nos concentrar na mensagem enviada para sua me. Ela se lembra do sonho, mas est confusa. Como ela no acredita na continuidade da vida, acha que foi 
uma espcie de pesadelo. Em todo caso, est sentindo o peito oprimido.
- Algo de ruim vai lhe acontecer?
- Os espritos pediram para que faamos uma corrente de vibrao para seu irmo.
- Luis Carlos? Ele corre algum perigo?
- Parece que sim.
Ana Paula pendeu pesadamente a cabea para trs. Mordeu os lbios temerosa.
- O que os espritos disseram? O que vai acontecer ao meu irmo?
- Calma - asseverou Durval. - Os espritos no me disseram o que .
- E por que no?
- Porque cabe a ns fazermos a nossa parte. Se tudo vem mastigado do astral, qual a nossa funo aqui no mundo? No teramos funo, no teramos como crescer, mudar 
e evoluir. Os espritos nos alertam para tomarmos determinados cuidados. Isso fortalece a nossa f, sustenta a nossa confiana.
- O que tenho de fazer?
- Primeiro, procurar sua me e pedir para que ela participe de uma sesso conosco amanh  noite.
- Amanh  noite? - indagou Ana Paula, apreensiva.
- Sim. Precisamos fazer uma sesso de vibrao positiva para seu irmo. No sei o que vai acontecer a Luis Carlos, mas os espritos garantiram que tenhamos f e 
confiemos.
Ana Paula abraou-se a Fernando. Estava com medo, muito medo.
- Calma - dizia-lhe o noivo. - Vai ficar tudo bem. Seu irmo de alguma maneira tem mrito, porquanto os espritos esto avisando de antemo. Acredite que tudo que 
est por vir  para o bem de todos.
- Sei disso. Mas como vou chegar at minha me? Dona Guilhermina me odeia.
- Isso faz parte do passado - tornou Durval com naturalidade.
- Do passado? - indagou  jovem, surpresa.
- Sim, do passado. Voc e sua me esto juntas h vrias vidas. H algumas vidas vm se desentendendo, e voc mesma pediu para reencarnar como filha dela.
- Custo crer.
- Voc  inteligente e lcida.  forte. Deixe o medo de lado. Adlia levantou-se e, junto com Odcio, tornou:
- Vou pegar refrigerante e uns petiscos. Voltamos logo.
Suzana tambm se levantou. Quis deix-los  vontade. Fernando fez meno de sair, mas Ana Paula o segurou pelo brao.
- Quero que fique comigo, ao meu lado. Voc  meu companheiro, meu namorado, meu noivo, meu tudo. Quero que compartilhe comigo tudo da minha vida. No tenho e no 
quero ter segredos com o homem que amo.
Fernando emocionou-se. Beijou Ana Paula delicadamente nos lbios.
- Obrigado por confiar em mim. Durval deu prosseguimento:
- Percebeu como o medo nos acompanha durante a vida?
-  verdade - concordou Ana Paula.
- Fomos criados com medo. Quem de ns no ouviu dos pais: "Faa isso ou ento...", sempre nos ameaando, trazendo-nos a sensao de desconforto? O medo nada mais 
 do que um pensamento negativo. 
- Sempre tive medo de minha me, desde sempre.
- Vocs tm divergncias que vem h muitas vidas. Est na hora de voc assumir seu poder, dar-se fora e aprender a perdoar.
- Eu, perdoar?
- Sim, Ana Paula.
Ela estava estupefata.
- Mas eu pastei nas mos dela a minha vida toda. Fui eu quem amargou uma vida cheia de reprimendas. Minha me sempre preferiu o Luis Carlos a mim. Sempre fez diferena, 
sempre me destratando na frente dos outros. Eu cresci tartamuda, gaguejando quando lhe dirigia a palavra. Demorei mais de vinte anos para poder me posicionar, enfrent-la 
e seguir minha vida. E voc vem falar em perdo?
- Claro! Voc ficou brava e rancorosa porque Guilhermina no correspondeu aos seus ideais de me.
- Como?
- Voc sonhou com uma me amorosa, terna, que fizesse tudo para voc, que a cobrisse de carinhos e mimos. Voc idealizou uma me na sua cabea e intimamente culpou 
Guilhermina por ela no ser como voc sonhara.
- Eu nunca fiz nada para ela me tratar dessa forma.
- Tem certeza? Nunca procurou se aproximar e falar com ela de igual para igual? Por que sempre adotou uma postura passiva? Por que sempre se rebaixou? As pessoas 
no gostam daqueles que baixam a cabea por qualquer coisa. Voc nunca enfrentou sua me, nunca se deu o devido respeito. O que esperava dela?
Ana Paula no sabia o que responder. As palavras lhe eram muito duras. 
- Quando as pessoas captam o nosso medo, ou elas nos mimam demais ou nos tratam com desdm. D para perceber por que seu pai a superprotegeu e sua me a tratou com 
incrvel indiferena?
Ana Paula baixou os olhos sem saber o que dizer. Estava um tanto confusa. Durval continuou:
- Vamos ser prticos, Ana Paula. Como o medo se apresenta no seu corpo?
- Deixe-me ver... - Ela colocou o dedo no queixo, pensativa. - O medo aperta o meu peito para dentro.
- Isso mesmo. O medo aperta o peito para dentro. Ele nos d uma sensao de recolhimento, nos curvamos para baixo, como uma espcie de defesa, no ?
- Mais ou menos.
- Tudo o que di no corpo faz mal para a alma. Quem tem medo se segura, no arrisca, fica parado. Ele acaba com a nossa motivao, o nosso prazer e, acima de tudo, 
aniquila a nossa felicidade. No acha que est na hora de encarar seus medos de frente? No acredita que esteja pronta e madura para enfrentar tudo isso? Penso que 
chegou o momento de ficar ao seu lado, de se dar fora e de ser feliz, de uma vez por todas.
Ana Paula comoveu-se. Afastar-se de sua me lhe foi  soluo ideal para enterrar suas mgoas e ressentimentos do passado. Sabia que isso era um paliativo, que no 
duraria muito tempo. No fundo ela gostava da me, mas sentia medo de ser novamente achincalhada, tinha medo de ser diminuda, de parecer fraca ao lado de Fernando. 
Sua cabea fervilhava de pensamentos os mais diversos. Ela apertou a mo do noivo, como a pedir apoio. Fernando a beijou delicadamente na fronte.
- Conte comigo. Se quiser, poderemos ir logo mais  noite  sua casa.
- Sinto que, se os espritos esto me pedindo para falar com minha me,  porque no devo temer. Sei que estarei com amigos espirituais ao meu lado, me dando fora. 
Vou superar mais esta.
- Isso mesmo. Gostei de ver  parabenizou Durval.
Albertina estava presente o tempo todo da conversa. Sentiu alvio e esboou terno sorriso. Ministrou energias revigorantes na neta, beijou-lhe a fronte, e seu esprito 
desvaneceu no ar. Assim que o sol se ps e as primeiras estrelas iluminaram o cu, Fernando e Ana Parda chegaram  casa de Guilhermina. Ana Paula suspirou, segurou 
firme a mo do noivo. Maria atendeu a porta e levou a mo ao peito, tamanha a felicidade.
- Voc voltou! - exclamou a empregada, sentindo imensa alegria.
Ana Paula a abraou com carinho.
- Como vai, Maria?
- Agora melhor.
- Quanto tempo!
Maria a olhava dos ps  cabea.
- Est mais magra. Anda comendo direitinho?
Ana Paula sorriu.
- Sim. Estou me alimentando direito. Maria olhou por cima do ombro de Ana Paula.
Imediatamente sorriu. Fernando a cumprimentou.
- Como vai?
- Bem.
Ana Paula antecipou-se:
- Ah, Maria, este  meu noivo, o Fernando.
- Prazer.
Maria os fez entrar.
- Vou preparar um caf.
- No precisa - tornou Ana Paula.  Vim porque preciso ter com minha me. Ela est?
- Est l em cima. - Maria fez um gesto com as mos e baixou o tom de voz. - Desde que voc saiu daqui, esta casa no  mais a mesma. Sua me tambm no est boa.
- Algum problema?
- Ela anda meio esquisita. No dorme  noite, anda vagando pela casa. Parece que est incomodada com algo.
- E Luis Carlos? Voc o tem visto?
- Anda do mesmo jeito.
Ana Paula e Fernando dirigiram-se ao jardim de inverno e sentaram-se cada qual numa confortvel poltrona. Alguns minutos depois, Guilhermina apareceu. No estava 
com bom aspecto. Os cabelos estavam sem pintura, alguns fios brancos apareciam nas laterais; sua pele perdera o vio. Estava bastante abatida. Ana Paula levantou-se 
e estendeu-lhe a mo.
- Como vai, mame?
- Muito bem. E voc? Que bons ventos a trazem?
- Tenho assunto delicado para tratar com voc.
- Se for dinheiro, pode esquecer.
Ana Paula pendeu a cabea para os lados.
- No! Fique tranqila, no vim por dinheiro. Estou bem.
- Continua na penso?
- Sim. Por pouco tempo. - Ana Paula virou-se e apresentou: - Me, este  Fernando, meu noivo.
Guilhermina arregalou os olhos. Ento Ana Paula conseguiu fisgar um homem! Estava se saindo melhor que a encomenda, pensou. Em tom seco, Guilhermina estendeu a mo 
ao rapaz.
- Muito prazer.
- Prazer, senhora.
Guilhermina tocou a sineta. Logo Maria apareceu na saleta.
- Sim, Dona Guilhermina?
- Favor trazer um caf para os trs.
- Sim, senhora.
O esprito de Albertina estava presente. Sabendo que a neta iria atrs da me, Albertina antecipou-se e chegou antes  casa de Guilhermina. Ministrou-lhe um passe 
e inspirou-lhe bons pensamentos. F-la lembrar dos poucos momentos felizes ao lado da filha. Guilhermina estranhamente pensou na filha naquela tarde, com ternura. 
Tinha dificuldade em sentir ou demonstrar carinho pela filha, mas particularmente naquela tarde sentiu ternura por Ana Paula.
- Talvez eu esteja ficando velha - suspirou.
- Primeiro sonho com Miguel pedindo para ajudar meu filho, e agora penso com carinho em Ana Paula. Ser que a velhice nos deixa mais moles e sensveis?
Guilhermina cochilou a tarde toda. Sentiu-se aliviada em saber que Ramrez e Guadalupe no se encontravam. Queria e necessitava ficar sozinha. Achou pura coincidncia 
a filha aparecer naquela tarde.
- O que quer de mim?
- Bom, por acaso, sonhou recentemente com papai?
Guilhermina remexeu-se inquieta na cadeira.
- Por que est me fazendo uma pergunta dessas? Seu irmo a procurou?
- No. Faz muito tempo que no vejo Luis Carlos.
- Est falando a verdade?
- Sim, m... M... Me.
Ana Paula pigarreou. Fazia muito tempo que no conversava frente a frente com a me. Ainda dava l suas escorregadas. Fernando segurou em sua mo, e ela sentiu fora. 
Deu prosseguimento:
- Estou falando a verdade, me. Vim at aqui porque estou preocupada com Luis Carlos. 
- Voc tambm? - indagou Guilhermina, perplexa.
- Sim. Por isso lhe perguntei se sonhou com papai.
- Sonhei, faz uns dias. Entretanto o sonho foi confuso, s me lembro de ele pedir para alertar Luis Carlos. Mas alert-lo de qu? Desde ento meu corao no tem 
sossegado. Sabe como  corao de me... Estou to apreensiva! Temo que algo de ruim possa vir a acontecer ao meu filho.
- Eu vim por conta disso. Sabe, tenho freqentado um centro esprita...
Guilhermina a censurou:
- Centro esprita? No est metida com essas coisas, est?
- Porque a resistncia?
- Espiritismo  coisa de gente ignorante. Eu sabia que voc ia cometer desatinos ao pisar o p fora desta casa.
- Oua me, no quero discutir o que voc acha ou pensa sobre a espiritualidade, se acredita ou no em reencarnao ou vida aps a morte. O fato  que estou aqui 
encarecidamente pedindo que v comigo ao centro que freqento.
- Nunca! Nem amarrada!
Ana Paula mordeu os lbios de raiva. No tinha como se acertar com sua me. Como era difcil o relacionamento entre ambas!  Fernando procurou apaziguar:
- Dona Guilhermina, desculpe a franqueza, mas estamos aqui por conta de seu filho. Os espritos disseram que Luis Carlos corre perigo e necessita de nossa vibrao, 
inclusive a da senhora. Guilhermina levou a mo ao peito. Sentiu o ar lhe faltar.
- No pode ser. O que vai acontecer ao meu filho?
- No sabemos ao certo. Os amigos espirituais pedem que tenhamos f e que confiemos. Eles vo nos ajudar.
- Como?
- No sabemos. Mas pediram que a senhora comparecesse ao centro amanh.  muito importante sua presena para que possamos ajudar seu filho.
- Eu no gosto de ir a esses lugares, mas, se  para o bem do meu filho, vou at o inferno para salvaguardar a sua integridade. Amo Luis Carlos mais que tudo nesta 
vida. Ana Paula sentiu o peito ir para dentro. Ainda lhe era difcil encarar com naturalidade a diferena que Guilhermina fazia entre os filhos. Se fosse ela a correr 
perigo, Guilhermina talvez no estivesse nem a. No iria remover montanhas para ajudar a filha. Isso a entristecia. Ela levantou-se de pronto. Abriu a bolsa tirou 
um carto. Entregou-o a Guilhermina.
- Aqui est o endereo do centro esprita. Se quiser fazer algo pelo seu filho, de corao, comparea amanh s oito horas da noite, em ponto. Diga na recepo que 
 minha me, e voc ser conduzida at ns.
- Espere! Maria ainda no chegou com o caf.
- No posso mais esperar. Tenho muito que fazer. Vemo-nos amanh. At mais.
Ana Paula baixou os olhos e retirou-se rpida. Fernando estendeu a mo para Guilhermina.
- Foi um prazer conhec-la. At mais.
- At.
Guilhermina despediu-se deles e correu at o quarto. Ficou olhando para o carto. Sentiu medo.
- Que tipo de lugar ser esse? O que ser que vo aprontar comigo?
Ela ficou pensando, pensando.
- Vou at l porque meu filho corre algum tipo de perigo. S vou por causa de Luis Carlos, meu tesouro.
Ela abriu a gaveta da mesinha de cabeceira, apanhou um comprimido. Precisava de um calmante para aliviar suas tenses. Alguns minutos depois, adormeceu profundamente.
Aps amar Guadalupe, Ramrez virou-se de lado na cama, saciado e contente. 
- No vejo  hora de podermos estar juntos de novo.
- Falta pouco, corazn, muito pouco - tornou Guadalupe, amorosa.
- Estou farto de Guilhermina. Agora que temos Otto nas mos, vamos poder nos livrar de todos. No precisamos de mais ningum. Seremos livres, ricos e poderemos nos 
amar livremente. Os olhos de Guadalupe vibraram excitados.
- Logo mais  noite nos livramos de Luis Carlos.
- Falou com ele hoje?
- Sim. Disse-lhe que vamos sair logo mais  noite. Prometi am-lo a noite toda, como nos bons e velhos tempos.
- O paspalho acreditou que vai se deitar com voc? Ambos caram na gargalhada. Ramrez ajuntou:
- Nunca pensei que fosse to fcil!
Guadalupe avanou sobre o corpo do amante, pegou o gravador debaixo da cabeceira e o trouxe at a cama. Apertou a tecla e escutou mais uma vez a confisso de Otto:
- Eu juro que o mato. Voc no tenha dvida de minhas palavras, Ramrez. Se Luis Carlos se aproximar de Maria Cndida, eu o mato, entendeu?
- No acredito que temos a voz de Otto afirmando uma coisa dessas. Isso me deixa to feliz! - suspirou ela.
- Mais alguns dias e eu serei o novo rei do trfico de drogas e voc ser minha rainha.
Guadalupe beijou-o longamente nos lbios. Ramrez excitou-se e a abraou com volpia, deixando o gravador ao lado da cama. Entre abraos e chamegos, Guadalupe acidentalmente 
apertou a tecla de gravao.
- Otto vai ser responsabilizado pelo atentado e morte de Luis Carlos. Ser preso e a teremos caminho livre para assumirmos o nosso posto como reis do trfico.
- Cabeo  de confiana, corazn?
- Totalmente - declarou Ramrez.  Ele nunca ganhou tanto dinheiro na vida. Vai fazer o servio direitinho.
- Que plano mais fantstico! - suspirou ela.
Cabeo mata o Luis Carlos, e Otto leva a culpa.
- Isso mesmo, Guadalupe.
Bruno acordou estranhamente bem-disposto naquele dia. Levantou-se, fez sua toalete, arrumou-se com apuro. Desceu para o desjejum e rapidamente apanhou seu carro 
e seguiu para o trabalho. Estava discutindo com Roberto algumas mudanas no planejamento estratgico da metalrgica para o ano seguinte quando Suzana entrou na sala.
- Aqui est o relatrio, Dr. Roberto.
- Obrigado.
- Deseja mais alguma coisa?
- No, por ora.
- Se precisar,  s chamar.
Suzana rodou nos calcanhares e, antes de sair, Roberto perguntou:
- Voc est bem?
Ela virou-se e respondeu:
- Sim, senhor. Est tudo bem. No misturo vida profissional com a vida l de fora.
- Entretanto gostaria de aproveitar que Bruno est aqui e pedirmos desculpa pelo ocorrido naquela noite.
- No tem o que desculpar Dr. Roberto. Passou. Acabou.
- Mas, mesmo assim, gostaria que me perdoasse pela falta de delicadeza. Meu filho no se portou bem.
- Como disse Dr. Roberto, passou.
Bruno levantou os olhos e a encarou:
- Desculpe-me. No sei o que me deu - disse ele, com naturalidade na voz.
Suzana espantou-se. Era a primeira vez que via Bruno encar-la com naturalidade, sem ar de cobia ou desejo.
- Isso acontece - tornou ela. - s vezes ficamos mais soltos, bebemos.
- Mas garanto que nunca mais vai se repetir, Suzana disse ele com sinceridade.  Prometo que nunca mais vou incomod-la.
Bruno falou e baixou a cabea, concentrando-se novamente no planejamento estratgico da empresa. Suzana estava pasma. Bruno havia mudado sobremaneira o comportamento. 
Ela esboou pequeno sorriso, saiu e, ao chegar  sua sala, sorriu feliz.
- Bruno no vai mais me importunar. Tenho plena certeza disso.
Ela voltou ao trabalho e, quando passava das seis, o telefone tocou. Era Durval.
- Que surpresa agradvel - disse ela, sorrindo.
- Como foi seu dia?
- Cheio de trabalho, mas correu tudo bem.
- E o Bruno? Voc o encontrou?
- Sim. Mas foi to esquisito... Ele mal olhou na minha cara. Falou comigo de uma maneira fria, distante.
- E isso no  bom?
-  claro que . Mas no pensei que a mudana ocorresse to rpida assim.
- Mas pode, sim. Tudo pode. - Durval mudou o tom de voz: - Preciso de sua ajuda.
- De ajuda minha?
- Sim.
- O que ?
- Poderia vir ao centro hoje para o trabalho que vamos realizar em benefcio de Luis Carlos?
- Adoraria. Que horas?
- Esteja as oito em ponto na sala de nmero quatro.
- Combinado.
- Depois do trabalho espiritual podemos fazer um lanche juntos e conversar.
- OK, vamos lanchar juntos - tornou Suzana, sentindo leve friozinho no estmago.
Ela pousou o telefone no gancho e comeou a ajeitar a papelada. Gostava de disciplina e queria deixar a mesa em ordem para facilitar o incio do servio no dia seguinte. 
Assim que apanhou a bolsa, viu o embrulho sobre a cadeira ao lado de sua mesa. Encostou a mo na testa.
- Como pude me esquecer? O vestido! Preciso entreg-lo ainda hoje. E agora?
Suzana lembrou-se de que tinha de devolver o vestido alugado  butique naquela noite ou no dia seguinte, na parte da manh. Entretanto estava atulhada de tarefas 
e no poderia ausentar-se do servio. Consultou o relgio e viu que no teria tempo hbil de chegar  loja e de l ir para o centro esprita. O trabalho espiritual 
era prioritrio. O que fazer? Suzana virou os olhos ao redor das rbitas, pensativa. Imediatamente lembrou-se de Lurdinha. Ser que a amiga poderia lhe ajudar? Suzana 
tirou o fone do gancho e discou. Lindinha atendeu. 
- Al?
- Lurdinha, sou eu, Suzana.
- Oi! Como est? Passou bem?
- Estou melhor. Aconteceram tantas coisas, mas depois eu lhe conto com mais calma.
Preciso de um favor.
- Pode pedir.
- Tenho compromisso logo mais  noite, entretanto preciso entregar o vestido  butique, seja hoje  noite ou amanh de manh. Voc poderia entreg-lo para mim?
- Por certo.
- Ento faamos o seguinte: saio bem mais cedo de casa amanh e vou direto para a sua. Deixo o pacote com a empregada. A voc me entrega o vestido na loja at o 
meio-dia, tudo bem?
- No! Vai pegar duas condues para chegar aqui em casa e poder se atrasar para chegar no servio. Deixe que eu mesma v a e pego o vestido.
- Quando?
- Agora.
- Agora? - indagou Suzana, surpresa.
- U, vou rapidinho.
-  longe de sua casa, Lurdinha.
- No  nada. Tenho carro, chego rpido.
- Se voc prefere assim...
- S me diz uma coisa: o Bruno ainda est trabalhando?
- Hoje ele fica at mais tarde. Est mexendo em todo o planejamento da empresa para o ano que vem. No vai sair to cedo.
- timo. Quem sabe eu no o vejo? Vou me arrumar e num instante chego a.
- Estou atrasada. Vou deixar o embrulho na portaria. Deixarei seu nome anotado num papel.
- Faa como quiser - afirmou Lurdinha.
- Obrigada, no sei como agradecer.
- No precisa.
Lurdinha desligou o telefone eufrica. A vida estava lhe concedendo uma chance, uma oportunidade nica de se encontrar com Bruno. Agora iria ver se Pai Thomas era 
bom mesmo com suas magias. Ela levantou-se do banquinho ao lado do telefone, subiu correndo as escadas. Trocou de blusa e pegou a minissaia mais curta de seu guarda-roupa. 
Penteou os cabelos, passou batom e aspergiu sobre seu corpo delicada fragrncia. Sorriu feliz e saiu. Guilhermina estava sentada no sof, pensativa. Segurava numa 
mo a piteira e na outra o carto com o endereo do centro esprita. Ser que deveria ir? Sua filha estava falando a verdade? A sua presena era importante para 
ajudar seu filho? Aquilo tudo no seria uma arapuca? Uma trama qualquer? Vrios pensamentos circundavam sua mente. Guilhermina precisou tomar uma aspirina para aliviar 
a dor de cabea. Entretanto seu peito parecia apertar cada vez mais. No conseguia tirar a imagem do filho da cabea. Inspirada por amigos espirituais do bem, Guilhermina 
levantou-se e decidiu: iria ao centro naquela noite. Passava das sete e meia da noite quando ela chegou ao local. O espao era agradvel, simples, porm bem decorado. 
Um rapaz simptico a atendeu. Quando Guilhermina disse ser me de Ana Paula, o rapaz a conduziu at uma sala localizada nos fundos do centro, isolada por gracioso 
jardim. Guilhermina aspirou o perfume das flores, sentiu bem-estar. Entrou na sala. Era um recinto no muito grande, com uma mesa oval, algumas cadeiras em volta. 
Sobre a mesa, uma linda toalha de renda branca, uma jarra com gua e alguns copos distribudos numa bandeja de prata. Mais no meio, um vaso repleto de rosas brancas. 
O ambiente era iluminado por tnue luz azulada, que convidava ao silncio e reflexo. Guilhermina foi conduzida at uma cadeira prxima da mesa. Sentou-se e fechou 
os olhos. Adormeceu. Enquanto ela sonhava, os demais comearam a chegar. Ana Paula e Tnia vieram acompanhadas de Fernando. Odcio e Suzana estavam logo atrs. Finalmente 
Durval chegou, acompanhado de duas senhoras mais Claudete. Todos se sentaram em volta da mesa. Durval proferiu ligeira prece, dando abertura aos trabalhos espirituais. 
Ana Paula recebeu um passe ministrado por uma das senhoras. Em instantes adormeceu. Em seguida Claudete fechou os olhos, sua cabea pendeu para baixo e ela comeou 
a falar, com modulao de voz alterada:
- Precisamos da colaborao de todos vocs para ajudar nosso querido Luis Carlos. Logo mais ele passar por dolorosa experincia. Precisamos dos fluidos de todos 
a fim de que possamos enviar-lhe energias de coragem e fora. Sua me e sua irm aqui se encontram para que, dentro de um ambiente propcio como este, possam ter 
acesso a algumas situaes de vidas passadas. Os espritos superiores permitiram que ambas pudessem vislumbrar o passado para melhor poder ajudar Luis Carlos. Me 
e filha, unidas no amor, podero dar sustentao necessria ao pronto restabelecimento de nosso querido irmo, se assim ele o permitir. Ns no interferimos no destino 
de ningum. Cada um cria seu prprio destino. Entretanto, ele pode ser modificado. Basta mudarmos nosso padro de pensamentos, nos desfazermos de velhas crenas 
e adotarmos posturas novas e positivas diante da vida. A mdium pigarreou. Em seguida continuou:
- Luis Carlos h algumas vidas No se d apoio. Precisa do mundo externo, da bebida, do dinheiro, do jogo, do prazer exacerbado com as mulheres a fim de se sentir 
vivo. Ele se recusa a olhar para dentro de si e mudar o padro de pensamento que o paralisa. Seu esprito clama por mudanas e, infelizmente, se no mudamos pela 
inteligncia, a vida se utiliza da dor para nos alertar. Garanto que nada de ruim ir acontecer. Somente um alerta da vida. Por essa razo, solicito que todos se 
unam em orao aps esta sesso e no deixem de confiar nas foras invisveis que sustentam a vida. Durval interveio: 
- Devemos nos manter em viglia?
- Sim. No sabemos ao certo a que horas tudo vai terminar. Pedimos a colaborao para que permaneam em silncio e orao por mais algumas horas. Logo Guilhermina 
e Ana Paula vo despertar e precisaro do apoio e vibrao de vocs. Muito obrigada. Albertina afastou-se do corpo de Claudete satisfeita. Ela e outros amigos espirituais 
precisavam chegar at Luis Carlos. Era caso de vida ou morte. Assim que Guilhermina adormeceu, ela sonhou. Usava roupas de poca, sua aparncia era mais jovem e 
bela. Estava acompanhada de garboso rapaz. Tinha ntida impresso de que se tratava de Luis Carlos. Estavam de mos dadas e caminhavam por um bosque florido. Ana 
Paula apareceu de supeto. Guilhermina assustou-se. Havia tempos no se dava bem com essa irm. Ana Paula era rabugenta, manipuladora. Adorava atrapalhar e irritar 
Guilhermina.
- O que quer agora? No est satisfeita?
- No. Nunca vou ficar satisfeita.
Luis Carlos procurou intervir.
- Voc sempre procura uma maneira de nos aborrecer. No percebe que queremos ficar em paz?
Ana Paula deu uma gargalhada.
- Paz? No que depender de mim, vocs nunca tero paz.
Guilhermina procurou se afastar. Estavam  beira de um precipcio. Ana Paula olhou por cima do ombro de Guilhermina e sorriu sinistramente. Se h assustasse um pouco 
mais, sua irm cairia no precipcio e Luis Carlos amargaria na solido o resto da vida. Ana Paula no o amava, mas tencionava casar-se com ele. Agora ele resolvia 
abandon-la e casar-se com Guilhermina? Nunca! Isso era aviltante. Jamais permitiria um disparate desse porte. E sua reputao? Ficaria na lama? Ela j era motivo 
de chacota por ter sido trocada. Luis Carlos a deixou para se casar com a outra irm. Estava na hora de dar um basta. Ana Paula exalou profundo suspiro. Sabia que, 
se metesse medo na irm, ela iria se assustar escorregaria e rolaria precipcio abaixo. Ela no hesitou nem por um instante. Fingiu avanar para cima de Guilhermina. 
Tudo foi muito rpido. Num piscar de olhos, Guilhermina despencou e sumiu no precipcio. Luis Carlos estava em estado apopltico. Encarou Ana Paula, os olhos injetados 
de fria:
- O que voc fez foi desumano! Voc a matou! - bradou ele.
Ana Paula gargalhava.
- Eu No matei ningum. Ela escorregou e caiu. Nem cheguei a toc-la.
- Voc matou meu amor!
- Deixe de lamrias, Luis Carlos. Guilhermina faz parte do passado.
Luis Carlos no raciocinava direito. Olhava para o vasto precipcio e Tnia enxergava nada a no ser um profundo e grande vazio. Em extremo desequilbrio, tirou 
a arma do colete e apontou para Ana Paula. Ela nem teve tempo de concatenar as ideias. Morreu instantaneamente. Luis Carlos em seguida empurrou o corpo sem vida 
de Ana Paula precipcio abaixo. Sentiu-se vingado, mas amargou terrvel solido. O tempo passou e Guilhermina e Ana Paula se encontraram no umbral. Guilhermina tomou 
fora, vestiu coragem e partiu para cima de Ana Paula, culpando-a pela sua morte. Ana Paula sentiu culpa, arrependeu-se, passou a ter medo das perseguies de Guilhermina. 
Aps muitas tentativas de apaziguamento para ambas, veio, a soluo de reencarnarem como me e filha. Dessa forma, a vida estava lhes dando a chance de, atravs 
dos laos de famlia, transformar o dio do passado em amor e compreenso no presente. Ana Paula estava muito arrependida, porm com muito medo de Guilhermina. E 
s aceitou a condio porquanto Miguel seria novamente seu genitor. Guilhermina aceitou a contragosto. Mas, ao saber que daria  luz Lus Carlos, seu amado, aceitou 
de pronto a nova tarefa reencarnatria. Guilhermina despertou e olhou para os lados. As luzes haviam se acendido por alguns minutos. Procurou tatear o corpo para 
se certificar de que estava ali, viva. Respirou fundo e passou a mo pela testa, como a afastar aquele horrvel pesadelo. Ana Paula teve o mesmo sonho. Assim que 
voltou a si, uma grossa camada de suor cobria-lhe a fronte. O sonho ainda estava ntido e forte em sua mente. Ela no sabia o que dizer. De repente, os olhos de 
me e filha se encontraram. Ana Paula sentiu piedade e no conseguiu se controlar. Levantou-se de pronto, correu at a me e, ajoelhada aos ps de Guilhermina, suplicou, 
enquanto chorava copiosamente:
- Perdo, mame! Perdo!
Guilhermina no sabia o que dizer. Estava por demais emocionadas. Pela primeira vez na vida, brotou em seu peito verdadeiro sentimento de ternura por Ana Paula. 
Ela abraou-se  filha e, lagrimas escorrendo pelas faces, declarou:
- Eu tambm lhe peo perdo, meu amor. Estou cansada das brigas e desavenas.
- Vamos comear uma nova etapa e, juntas, ajudar Luis Carlos.
Luis Carlos! Guilhermina imediatamente pensou no filho, onde ele estaria? O que estava por acontecer? Durval se aproximou de ambas trazendo dois copos de gua fluidificada. 
Entregou um para cada uma e ordenou:
- Bebam.
As duas menearam a cabea afirmativamente e beberam do lquido. Durval abaixou-se e seus olhos ficaram na mesma posio dos de Guilhermina e Ana Paula.
- s vezes  muito duro ter de encarar o passado. Somente dessa maneira compreendemos muitas das situaes que nos prendem no presente. Espero que, ao vislumbrarem 
esta ltima encarnao, possam aparar as arestas do ressentimento e nutrir verdadeiro amor uma pela outra.
- Eu prometo que vou am-la.  minha me! - exclamou Ana Paula.
- Eu tambm farei o possvel. Depois desse sonho, no sou mais a mesma.
- No  para ser. Agora acredita na espiritualidade?
Guilhermina remexeu-se nervosamente na cadeira.
- No sei ao certo. Tudo foi to real! Eu senti tudo aquilo. Senti morrer.
- A senhora teve acesso s ltimas cenas de sua ltima encarnao, minutos antes de morrer. Agora consegue entender a animosidade entre vocs duas?
- Mas, se tudo isso for verdade, a vida tem outro sentido - sentenciou Guilhermina.
- Somos espritos em eterna evoluo. Somos perfeitos no grau de evoluo em que nos encontramos. Com tantos potenciais e habilidades, acredita que uma vida s baste 
ao ser humano? - indagou Durval.
- Pensando assim, acredito que no.
- Pois bem, Guilhermina. O nosso centro est aberto para visitao. Pode vir  hora que quiser. Temos cursos, palestras, emprestamos livros. Se quiser se interessar 
pelo estudo espiritual, ser um prazer poder ajud-la.
- Obrigada. Entretanto no momento estou preocupada com meu filho. No consigo pensar em outra coisa que no seja Luis Carlos. A imagem dele vem forte na minha mente.
- Concentre-se numa imagem positiva de seu filho. Imagine Luis Carlos bem.
- Isso  fcil. Meu filho est sempre sorridente.
- Ento nos ajude Guilhermina. - E, virando-se para Ana Paula: - Faa o mesmo. Procure imaginar seu irmo sorridente e feliz. Isso vai nos ajudar sobremaneira no 
trabalho de hoje.
Durval levantou-se e ordenou:
- Vamos permanecer em orao. Faamos uma corrente de vibrao positiva a Luis Carlos. Vamos nos dar as mos. Quero que todos aqui nesta sala imaginem uma luz violeta 
bem no meio da testa. Essa luz vai saindo de sua testa, atravessa a parede da sala e vai ao encontro de Luis Carlos, formando um elo de sustentao do centro at 
onde ele estiver.  
Os demais se levantaram e se deram as mos. Fecharam os olhos e passaram a mentalizar a luz violeta. Logo a sala estava repleta daquela luz vibrante, e espritos 
do bem canalizavam essa energia diretamente para Luis Carlos. Maria Cndida estava cansada de perambular pelo quarto, dia aps dia. Havia emagrecido bastante, as 
olheiras estavam bem marcadas. No adiantava ficar ali parada, esperando o tempo passar, sem tomar uma atitude que fosse. Ela estava cansada da super proteo dos 
pais. Era maior de idade, adulta; podia dar o rumo que quisesse  sua vida. Foi ento que lhe veio  ideia. Por que no? Se Luis Carlos havia desaparecido todo esse 
tempo, provavelmente era porque Otto o proibira de achegar-se dela. Ele estava apaixonado por ela, estava impossibilitado de v-la. Talvez Luis Carlos estivesse 
esperando um sinal dela. Era isso mesmo! Luis Carlos estava  sua espera. Tomada de nimo, Maria Cndida procurou uma de suas melhores roupas, tomou caprichado banho, 
arrumou-se com esmero. Desceu as escadas, apanhou sua bolsa e, ao saber por um dos empregados que Zara e Otto no estavam em casa, sentiu-se aliviada. Procurou 
pelo motorista e solicitou que a levasse at a casa de Luis Carlos. L chegando, dispensou o motorista. 
- Devo esper-la, Maria Cndida?  tornou ele, apreensivo.
- Pode ir. No sei a que horas volto.
- Seu pai no vai gostar nada disso.
- Isso  problema meu. Agora, por favor, retire-se. V embora. Deixe-me em paz.
O motorista meneou a cabea para os lados. No tinha alternativa. Assim que Maria Cndida adentrou o jardim, ele deu partida, acelerou e em pouco tempo seu carro 
desapareceu na curva da esquina. Maria Cndida respirou profundamente. Tocou a sineta presa na porta. Maria atendeu:
- Pois no?
- Gostaria de falar com Luis Carlos. Ele est?
- Acabou de chegar. Mas est se arrumando. Vai sair.
Posso falar com ele um minutinho?
- Quem deseja?
- Diga que  Maria Cndida.
Maria a olhou de cima a baixo. Ouvira Guilhermina e Guadalupe falarem da menina pelos cantos da casa. Sentiu pena. Convidou-a entrar.
- Por favor. - Maria a conduziu at a sala de estar. - Vou subir e cham-lo. Aguarde um instante.
Maria Cndida acenou com a cabea. Sentou-se, cruzou as pernas e ficou aguardando. Em seguida Luis Carlos desceu de roupo, os cabelos ainda molhados. Trazia uma 
toalha em volta do pescoo.
- Voc aqui? - disse em tom surpreso.
Maria Cndida levantou-se e correu at ele. Abraou-o com amor.
- Luis Carlos, que saudade!
Ele no sabia como reagir. Ficou parado, esttico.
- Seu pai sabe que est aqui?
- No. Resolvi vir por conta prpria.
- Ele no vai gostar nada disso. 
Maria Cndida fez muxoxo.
- Dane-se meu pai. Eu sou adulta, sei tomar conta de mim.
- Por favor, no quero encrencas - disse ele, desvencilhando-se dela.
Maria Cndida ficou parada no meio da sala. Esperava uma reao mais acalorada do amado.
- Voc est diferente.
- O tempo passou, muitas coisas aconteceram.
- Um ms no  tanto tempo assim. O meu amor por voc continua forte, vibrante. Luis Carlos coou a cabea. Havia combinado de sair logo mais com Guadalupe. Desde 
que terminara com Maria Cndida, voltara  sua vida de sempre, ou seja, bebidas, jogatina, e Guadalupe. Desde que Otto o ameaara, ele desistira de fazer parte do 
plano traado pela amante. Estava em paz, no queria se meter em encrencas. E tambm no queria ferir os sentimentos de Maria Cndida.
- Seu pai me ameaou. No quero mais saber de confuso.
- E o nosso amor?
Luis Carlos a encarou com comiserao. Aproximou-se e disse sincero:
- Escute Maria Cndida, eu no a amo.
- Um amor no acaba assim de uma hora para outra. Como no me ama? Voc me fazia juras de amor at um ms atrs. No pode dizer que tudo isso acabou assim, sem mais 
nem menos.
- No  bem assim - ele pigarreou.
- No estou entendendo - tornou ela, visivelmente transtornada.
- Eu preciso ser sincero, pelo menos uma vez na vida.
Luis Carlos pegou nas mos dela e delicadamente a conduziu at o sof. Sentaram-se um ao lado do outro. Luis Carlos respirou fundo e a encarou nos olhos.
- Maria Cndida, eu nunca fui apaixonado por voc.
- No? - a indagou, sem nada entender.
- No. Entrei nessa histria animado, pensando que ia ganhar uma nota preta. Mas ento a conheci melhor e percebi que estava brincando com seus sentimentos. No 
gostaria de mago-la.
- Tudo pode mudar.
- Fui atrs de voc por causa do dinheiro, tudo foi armao de minha namorada.
- Voc tem namorada? - perguntou ela, atnita.
- No  bem namorada. Ns nos gostamos e estamos juntos h um bom tempo. Ela bolou um plano e eu procurei segui-lo  risca. Entretanto, depois da ameaa de seu pai, 
eu pensei bem e resolvi no mais me arriscar. Alm do mais, voc se mostrou uma moa encantadora, e eu no quero brincar com seus sentimentos ou mesmo feridos.
- No pode ser verdade. Voc foi to carinhoso, to romntico comigo...
- Tudo armao, fingimento. Depois de um tempo eu at passei a sentir prazer em estar na sua companhia. Voc  inteligente. Tem outros atributos alm da beleza fsica. 
E bela em outros aspectos. Mas entenda que nunca houve nenhum sentimento de minha parte. Eu nunca a amei. 
Maria Cndida no conseguiu evitar que as lgrimas escorressem pelos cantos dos olhos. Estava aturdida. Ela no era nada, no significava nada. Os homens s se interessavam 
por ela por conta do dinheiro, pela riqueza que possua. Era sempre o dinheiro, o maldito dinheiro, pensou. Ah, como ela daria tudo para ser linda, uma mulher de 
arrasar quarteires, e ser pobre completamente pobre. Maria Cndida desejou ardentemente que essa fosse a sua realidade.
- Ei, no que est pensando? - inquiriu Luis Carlos, trazendo-a a realidade.
- Nunca homem algum na vida vai me amar. Todos querem saber de meu dinheiro.
- No  assim, Maria Cndida. Um dia voc vai encontrar um homem que a ame de verdade. Eu encontrei a mulher de minha vida. Sempre h uma pessoa especial reservada 
para ns na vida. Sempre.
Maria Cndida levantou-se de um salto. As lgrimas escorriam insopitveis pelo rosto. Tremia dos ps  cabea.
- No posso crer no que estou ouvindo. Voc tripudiou sobre meus sentimentos. Me fez acreditar que estava apaixonado por mim.
Enquanto isso estava amando outra mulher, num plano srdido para arrancar meu dinheiro, para viver  minha custa. Como pde ser to vil, Luis Carlos? Como pde me 
tratar com tamanho desrespeito? 
- No fique assim. Estou sendo verdadeiro. No comeo adorei a possibilidade de me casar com voc e usufruir de seu dinheiro. Mas hoje penso diferente. No sei o 
que . Talvez eu esteja mudado. Perdoe-me, Maria Cndida.
A jovem cobriu o rosto em desespero.
- Eu o odeio, Luis Carlos! Nunca mais quero v-lo na minha frente.
Ela falou, rodou nos calcanhares e saiu correndo. Atravessou o jardim, chegou  calada e alcanou a rua. A vida no valia mais nada. Por que viver? Qual o motivo 
de continuar a viver num mundo onde somente as pessoas bonitas eram valorizadas? Por que continuar sofrendo, tendo seu corao dilacerado? Por que deixar que os 
outros tripudiassem sobre seus sentimentos mais nobres? Primeiro foi Augusto, e agora a mesma histria se repetia com Lus Carlos. Foi difcil sair da depresso 
depois que toda a verdade fora revelada sobre as intenes de Augusto. Ela no suportaria outra bomba dessas. Apaixonara-se verdadeiramente por Lus Carlos. E novamente 
tudo por conta do dinheiro, de sua fortuna. Maria Cndida desejou morrer. Desesperada, tomou um txi e pediu que o motorista a deixasse no centro da cidade. Saltou 
do txi e caminhou, caminhou e vagou por horas. Quando a tarde se foi e as luzes dos postes comearam a ser acesas, Maria Cndida recostou-se num banco. Estava cansada, 
desiludida, sem vontade de viver. De que adiantava continuar ali? Como seria sua vida daquele momento em diante? A jovem sentiu o peito apertar. Era melhor morrer 
e pronto. Decidida, encheu-se de coragem e caminhou at o Viaduto do Ch. Parou no parapeito e olhou para baixo. Era coisa rpida, um estalar de dedos e fim. Jogar-se 
e pronto. Seu corpo se arrebentaria no Vale do Anhangaba e tudo estaria acabado, para sempre. Ela olhou para os lados; havia muitas pessoas passando por ali. Mas 
todas estavam circunspectas, andando rpido, preocupadas consigo mesmas. Ningum iria not-la jogando-se l do alto. Pensando assim, Maria Cndida debruou-se sobre 
o parapeito e arremessou com fora seu corpo para frente. Luis Carlos estava desolado. Havia nutrido sentimento fraternal por Maria Cndida e no gostou de v-la 
triste e chorosa. Mas o que fazer? Era melhor ser sincero de uma vez por todas e romper definitivamente com aquela histria. Agora sua vida seria composta de Guadalupe 
e jogatina. Ramrez continuava depositando dinheiro na sua conta, e ele estava feliz. O rapaz terminou de se arrumar, perfumou-se e, ao descer as escadas, deparou 
com Guadalupe. 
- Ol, corazn.
- Estava morrendo de vontade de te ver. Faz tempo que no samos e nos divertimos. Voc est sempre ocupada.
- Trabalhando para ns, corazn. Entretanto hoje resolvi que a noite vai ser nossa. Conversei com Ramrez e ele me deu o dia de amanh de folga. Vamos passar o tempo 
todo juntos.
Os olhos de Luis Carlos brilharam de cobia.
- At que enfim! Pensei que tivesse me enganado de novo. No vejo a hora de t-la nos meus braos, minha espanhola.
Guadalupe riu e abraou-se a ele.
- Estamos atrasados.
- Vamos aonde?
- Fazer um piquenique.
- H esta hora? Piquenique  de dia  tornou ele, a contragosto.
Guadalupe procurou dar um tom meloso  voz:
- Corazn, eu lhe suplico. Faz tempo que imagino uma noite dessas ao seu lado. Ns dois sozinhos longe de todos, nos amando sob a luz do luar, s margens da represa 
Billings.
- Da Billings?- o indagou surpreso.
- . Quer lugar melhor para namorar?
- Guadalupe,  muito longe! No estou com disposio de dirigir.
- Estamos de motorista.
- Motorista?
- Ramrez me emprestou um. Ele ir nos levar vai nos deixar  vontade. L pelas duas da manh ele volta para nos apanhar.
- Podemos ir para o bordel do centro da cidade. O que acha? L tenho quarto cativo, podemos passar a noite sem perturbao. Ou mesmo aqui em casa. Mame no est 
e Ramrez faz dias que no d as caras.
Guadalupe procurou ocultar a contrariedade:
- Queria tanto uma noite diferente! Olhe s.
Ela dirigiu-se at a poltrona, pegou uma cesta de vime. Dentro havia algumas partes de queijos, duas garrafas de vinho tinto, duas taas e outras guloseimas. Havia 
tambm algumas frutas da estao.
- Preparei tudo com tanto amor...
Luis Carlos deu de ombros.
- Est certo. Uma noite s margens da represa.
Guadalupe deu um gritinho de felicidade. Respirou aliviada. Luis Carlos estava cavando a prpria cova. To logo Maria Cndida jogou-se para a morte, ela sentiu que 
dois braos fortes e peludos a puxavam para trs.
- No faa isso! - gritou o moo, enquanto a puxava com toda a fora para trs.
Maria Cndida sentia-se fraca e desorientada. Sua cabea estava confusa.
- Deixe-me morrer. Eu quero morrer. A vida no vale nada.
- Voc est nervosa, no tem noo do que diz. Eu vou lev-la para casa.
- Quem  voc?
- No se lembra de mim?
Maria Cndida espremeu os olhos na tentativa de reconhecer o rapaz.
- Seu rosto me  familiar.
- Sou Ernani, primo de sua me.
- Ernani? - a indagou, olhar aflito.
- Sim.
- O que faz aqui? Como veio parar no Viaduto do Ch?
- Eu a segui.
- Me seguiu? Como?
Ernani a encostou na mureta do viaduto. Assim que a viu mais calma, tornou:
- Eu fui da rodoviria direto para sua casa. Vi quando voc saiu com seu motorista, e a segui. Fiquei esperando na outra esquina e notei que voc saiu bem perturbada 
daquela casa.
- Eu fiquei desorientada, me desequilibrei. Voc no sabe o que ouvi da boca daquele homem.
- A vi voc pegando um txi. Peguei um logo atrs e a segui.
Um sentimento de remorso apoderou-se de Maria Cndida. Ela se sentiu envergonhada.
- Se voc no me seguisse, eu estaria morta. Oh, meu Deus! Voc salvou a minha vida.
Ela chorava e levou a cabea de encontro ao peito de Ernani.
- Agora est tudo bem. Estou aqui. Vou cuidar de voc.
- Eu no queria fazer tratamento, terapia, nada. Mas preciso de ajuda.
- Eu vim para isso, Maria Cndida.
- No. Eu quero ir embora daqui.
- Acalme-se.
Maria Cndida estava desnorteada, falava sem parar.
- No suporto mais esta cidade. No quero mais me encontrar com Luis Carlos.
- A cidade  grande.
- Mas o nosso crculo social  pequeno. Vamos nos esbarrar uma hora ou outra. E no quero mais encontr-lo. Por favor  ela suplicou, entre lgrimas -, me tire daqui, 
me leve embora desta cidade. Quero me tratar. Eu vou com voc para Uberaba.
- Mas acabei ele chegar.
- No importa Ernani. Tire-me daqui, me leve com voc.
- E seus pais? Precisamos conversar com seus pais.
- No, por favor. Eles no vo permitir. Papai me quer sempre sob suas asas. Estou farta de tamanha proteo. Quero ser independente, viver a meu modo. Agora que 
quase acabei com minha vida, estou arrependida.
Maria Cndida chorava copiosamente. Ernani a abraou e a conduziu at o txi, que os esperava a curta distncia. Entraram no carro e ele pediu que o motorista tocasse 
at a casa de Otto. No trajeto, Maria Cndida virou-se para Ernani e disse:
- Vou fazer minhas malas e partimos hoje mesmo.
- Tem certeza?
- Sim. Quero ir embora. Deixo um bilhete para os meus pais. Minha me confia bastante em voc. No vai ficar preocupada. Acho que at vai dar graas a Deus.
- Se voc prefere assim...
- Sim, mais que tudo. Quero ir embora. Refazer minha vida longe daqui. No suporto ficar mais um minuto em So Paulo.
Ernani meneou a cabea para cima e para baixo. Ele sabia que o melhor para Maria Cndida era lev-la para outro lugar, longe daquela azfama toda. Ela precisava 
ter contato com outro mundo, conhecer outras pessoas, sair do circuito da alta sociedade, do mundo das posies, enfim, precisava deixar a sociedade de lado e cuidar 
de si. Ernani tomaria todo o cuidado com ela. Ele estava acostumado com isso. Era psiquiatra e trabalhava com o Dr. Incio Ferreira, no Sanatrio Esprita de Uberaba, 
tratando desequilbrios mentais, atravs ela unio da medicina e do espiritismo. Ernani tinha plena convico de que fora orientado pela espiritualidade maior para 
chegar a tempo de salvar Maria Cndida de cometer um ato tresloucado. Agora tudo fazia sentido. Ele acordara naquele dia completamente aturdido. Uma dor no peito 
sem igual. Conversou com o Dr. Incio e este o informou que os espritos estavam querendo lhe passar uma mensagem. Assim, realizaram uma curta sesso espiritual 
na qual um mdium, incorporado por esprito amigo, designou Ernani a viajar para So Paulo naquele dia mesmo. Que pegasse o primeiro nibus e fosse atrs de Maria 
Cndida. Ela precisava de ajuda e eles fariam o que fosse possvel para lhe prestar auxlio. Dessa feita, Ernani chegou a tempo de evitar que Maria Cndida desse 
cabo de sua vida, dando a ela a chance de mudar, melhorar e se tornar uma pessoa feliz. Durval, por orientao dos espritos, pediu novamente aos presentes que se 
dessem as mos e fizessem nova corrente de vibrao em favor de Luis Carlos. Guilhermina tambm quis fazer parte da corrente. Enquanto isso, Guadalupe e Luis Carlos 
chegavam  represa Billings. Alguns casais namoravam dentro dos carros. O local era afastado da cidade, escuro e preferido daqueles que queriam mais privacidade 
para namorar. Guadalupe orientou o motorista que fosse um pouco alm dos carros estacionados. Queria privacidade total. Quando o carro estacionou, na outra ponta 
da represa, Guadalupe olhou para os lados e sorriu feliz. No havia casais, parecia no haver ningum por perto. Ela sorriu. Desceu do carro, pegou a cesta e conduziu 
Luis Carlos at a margem. Estendeu a toalha, colocou a cesta de vime sobre ela. Abriu-a e pegou duas taas e uma garrafa de vinho. 
- Brindemos ao nosso amor.
- Brindemos - ajuntou Luis Carlos.
Guadalupe comeou a tirar a roupa e Luis Carlos, ao invs de ficar excitado como de costume, teve verdadeira sensao de pnico. No sabia explicar o que lhe acontecia. 
Entretanto a sensao era forte e ele ficou ali, paralisado. Guadalupe verificou a expresso transfigurada no rosto do rapaz e no gostou do que viu. Parecia que 
ele pressentia alguma coisa. Ela mordeu os lbios com dio. Nada podia dar errado. Estava chegando o momento de se livrar daquele encosto, daquele infeliz. Ela aproximou-se 
e passou a lngua sobre o pescoo dele. Luis Carlos sentiu um arrepio esquisito.
- No estou bem.
- O que  corazn!
- No sei, mas no estou bem. Sinto-me vigiado, parece que alguma coisa ruim vai acontecer.
- Bobagens, meu amor. E o silncio, a represa, a lua. Vamos, deite-se comigo e vamos nos amar. Luis Carlos esquivou-se dela.
- No, Guadalupe. No estou bem. No quero fazer amor agora.
Ela irritou-se sobremaneira. De temperamento voluntarioso, mesmo com o plano traado estava difcil chegar at l. Estava cansada de Luis Carlos e no iria botar 
tudo a perder por conta de um mal-estar passageiro do playboy.
- Voc vai me amar, corazn!  sentenciou ela. 
- No! - gritou ele. - No quero. Vamos sair daqui.
Luis Carlos abaixou-se, pegou a toalha e meteu-a na cesta. Guadalupe assoviou, levando os dedos  boca, e o rapaz percebeu que algo muito estranho estava por acontecer. 
Tudo foi muito rpido. Luis Carlos viu o brutamonte se aproximar, viu o cano metlico apontado em sua direo e, por instinto de proteo, jogou-se na represa. Cabeo 
mirou e atirou, duas vezes. Guadalupe estava apreensiva. Estava muito escuro. O motorista chegou com uma lanterna e comeou a vasculhar a rea. Logo, apontou com 
o dedo e mirou a lanterna.
- Veja, ali.
Guadalupe viu o corpo boiando sobre a gua. Levou a mo ao peito, aliviada e com a sensao de misso cumprida.
- Vamos embora. Acabamos com o infeliz.
Ela, o motorista e mais Cabeo dirigiram-se ao carro, entraram e partiram. No notaram que uma moa aflita e nervosa, conseguira anotar mentalmente a placa do carro. 
To logo fixou o nmero, ela correu at a margem da represa e, com muito esforo, conseguiu puxar o corpo de Luis Carlos para a beirada. No momento do tiro, Guilhermina 
sentiu um aperto sem igual no peito. Soltou as mos e desfez a corrente. Durval ordenou:
- Por favor, Guilhermina, entre na roda.
- Eu?!
- Sim. Neste momento precisamos intensificar a nossa vibrao por Luis Carlos.
- Meu filho est bem? - a indagou, nervosa.
- Ao invs de me fazer essa pergunta, imagine seu filho bem.
- No sei se consigo.
- Entre na roda e imagine os momentos alegres ao lado de seu filho. No creio que lhe seja tarefa difcil.
Ela assentiu com a cabea. Entrou na roda, fechou os olhos e imaginou os momentos felizes ao lado de Luis Carlos: o nascimento, a infncia, o orgulho que sentia 
do menino. Logo vieram as festas, as fotos nas colunas sociais. Guilhermina sentiu um amor sem igual brotar de seu peito. Durval aproveitou o momento e avivou a 
corrente. Minutos depois, os espritos o informaram que a corrente poderia ser desfeita. No havia mais o que fazer, por ora. 
- Os espritos pediram que oremos e confiemos.
- O que faremos agora? - perguntou Ana Paula, apreensiva.
- Vamos aguardar por notcias.
- Estou muito angustiada.
Durval pegou a jarra que estava sobre a mesa, despejou um pouco da gua fluidificada e entregou o copo a Guilhermina.
- Beba, por favor.
A um sinal dele, Tnia e Claudete aproximaram-se e ministraram um passe em Guilhermina. Aps receber a transfuso de energia, Guilhermina sentiu-se bem.
- Sente-se melhor? - inquiriu Durval.
- Sim - respondeu Guilhermina -, estou melhor. Muito obrigada.
Miguel acostumara-se com o trabalho nos cemitrios. Ele aprendeu uma srie de tarefas. Aprendeu a fazer vibrao em velrios, ajudava a desligar os ltimos fios 
que prendiam o perisprito ao corpo fsico e tambm tentava a seu modo ajudar aqueles que ficavam presos ao corpo fsico, recusando-se a acreditar estarem mortos. 
Ele precisava e queria se sentir til de alguma maneira. Havia aprendido que, no estado emocional em que se encontrava, no podia aproximar-se de seus entes queridos. 
E tambm ainda tinha muita raiva de Guilhermina, pela traio sofrida. Isso o atrapalhava bastante. Joo Caveira aproximou-se e tocou-lhe o ombro com delicadeza.
- Como vai?
- Tenho passado muito bem, Joo. Adoro este servio. Afeioei-me ao cemitrio. Gosto daqui e sinto muita paz.
- Isso  bom. O chefe est gostando bastante de seu trabalho.
- Mesmo?
- Sim. Se continuar desse jeito, vai haver possibilidade de nova oportunidade.
- O que mais quero  trabalhar, ajudar os outros. Assim eu tambm melhoro e creso.
Cansei de ficar preso ao passado.
- Isso no faz bem. O passado acabou. Voc precisa aprender a perdoar e esquecer.
- No consigo. Amo meus filhos, mas Guilhermina foi muito vil.
- Vocs nunca se amaram; consorciaram-se por outros interesses. Voc aproveitou as amizades influentes de Guilhermina. No me diga que foi um santo.
Miguel baixou a cabea.
- Isso  verdade. Mas ela no precisava me trair dessa maneira e sempre me chamar de fraco.
- E voc no foi?
- Eu?! - indagou Miguel, estupefato.
- Sim. Voc tirou a prpria vida, cometeu ato tresloucado. No o estou julgando, Miguel, mas poderia fazer tudo diferente.
- Como?
- Poderia ficar do seu lado. Enfrentar a situao de cabea erguida. Perdeu o dinheiro? Ento recomeasse. Acabou o prestgio? Comeasse a construir outro ao seu 
redor. Voc teve tudo na vida, inclusive amor.
- No foi tanto assim.
- E sua filha? E o amor de Ana Paula? E o amor de sua me?
Miguel deixou que uma lgrima escorresse pelo canto do olho.
- Se eu tivesse minha me por perto, tudo seria diferente.
- E quem disse que ela nunca esteve por perto?
- Eu nunca a senti. Nunca a vi. Para falar a verdade, porque agora eu no a vejo?
- Por sintonia. Voc ainda no est em equilbrio.
- Se visse minha me, no sei como seria. Tenho tantas saudades!
- Logo vocs vo se reencontrar. Tenho certeza.
- Mas quero ficar mais tempo aqui. Gostei de voc, Joo.
- Eu tambm tenho apreo pela sua pessoa, Miguel.
- H quanto tempo trabalha aqui?
- Eu? - Sim. Vejo que as pessoas o respeitam. Voc deve ser velho de casa, e no   toa que carrega Caveira no sobrenome.
Joo riu. Vislumbrou um ponto indefinido  sua frente. Seu arquivo mental viajou no tempo, muitas encarnaes atrs.
- Sabe, Miguel, a vida que mais me marcou foi no Egito, h mais ou menos mil e duzentos anos. Eu era nobre e minha aldeia muito pequena. Um dia fomos atacados de 
surpresa, e sobramos eu e mais quarenta e oito pessoas.
- Deve ter sido pesaroso.
- E foi. Fomos trados. Na verdade, meu irmo me traiu, para ascender ao trono. Fui queimado vivo, eu e os companheiros que sobraram.
Miguel fez um esgar de incredulidade.
- Isso  horrvel. Imagino a dor de ser queimado vivo.
- A dor do fogo no doeu tanto quanto a da traio. Fui trado pelo meu irmo. Isso me marcou profundamente. Ento, no astral, muito tempo depois, fui convidado 
a trabalhar nos cemitrios, e aqui estou.
- Voc  do bem. Entretanto, qual a sua verdadeira funo aqui?
- Fao parte de uma legio que serve de intermediria entre os homens e as foras naturais e sobrenaturais.
- Eu posso fazer parte dessa legio?
Joo riu.
- Poderia, mas parece que a vida est lhe concedendo outra oportunidade.
- Como assim?
- O chefe disse que voc vai poder reencarnar em breve.
- Voc diz voltar a Terra?  perguntou Miguel, excitado.
- Sim. Primeiramente vai fazer um tratamento, e em seguida voltar.
- Mas, pelo que os companheiros aqui dizem o suicida amarga anos e anos no umbral. Por que isso no acontece comigo?
- Porque cada caso  nico. Voc entendeu e tomou conscincia de seu ato. Arrependeu-se e sente vontade de crescer e mudar. Ora, por que a vida iria mant-lo nas 
trevas se h pessoas que o amam na Terra e que estariam dispostas a receb-lo como filho?
- Me querem?
- Parece que sim. E  para breve.
- No posso acreditar! - ele exclamou.
Depois se entristeceu.
- O que foi? No quer voltar?
- No  isso. E que adoro a vida aqui no cemitrio. Acostumei-me.
- Na Terra h vrios.
- Mas esta dimenso  diferente. Aqui trabalhamos para ajudar os outros. Na Terra, vamos ao cemitrio em momentos de dor e tristeza. Consegue perceber a diferena? 
Aqui eu venho com alegria. Ser que na Terra ocorreria o mesmo?
- Questo de ponto de vista. Se for educado em um ambiente espiritualista, provavelmente vai crescer com outra viso acerca de um cemitrio.
- . Isso  verdade.
- Ento, o que acha da possibilidade de reencarnar?
- Posso pensar?
Joo riu-se.
- Pode Miguel, pode. Voc tem todo o tempo do mundo para pensar. Mas, para este caso em particular, so s alguns meses. Depois, vai ter de decidir, caso contrrio 
a vaga vai para outro. Est difcil conseguir vaga para reencarnar, nos dias de hoje.
- Sei disso. Passei pelo Departamento de Reencarnao outro dia e vi uma fila imensa.
- Voc est com sorte. No vai precisar pegar fila.
- Prometo que vou pensar no assunto.
- Entretanto - pigarreou Joo - preciso que voc faa um servio.
- Que tipo de servio?
- Poderia me acompanhar at um centro esprita?
- Acompanh-lo a um centro? Voc mesmo me disse que no pode dar mensagem.
- Eu no vou dar mensagem. Preciso que voc venha comigo. Alguns amigos solicitaram sua presena.
- Para qu? 
- Voc precisa primeiro se livrar dessa raiva que tem de Guilhermina. Se ela persistir, vai atrasar seu processo de restabelecimento e, por conseguinte, seu reencarne.
Miguel balanou os ombros, fazendo pouco caso em relao  esposa.
- Ela s pensa nela. Por que me livrar da raiva?
- Guilhermina mudou bastante. As coisas na Terra esto bem diferentes.
- Ela est metida com aquele pulha. Se fosse outro homem, eu estaria mais tranqilo. Mas um gngster dentro de casa? Isso  impossvel de aceitar.
- Voc pode fazer com que ela se separe do gngster.
- Impossvel Joo. Ela o ama.
- Impresso sua. Fogo de palha. Guilhermina estava cansada do casamento sem sal que vocs viviam. Ramrez foi uma vlvula de escape, algum que ela atraiu para se 
sentir viva, voltar a ter gosto pela vida.
- Tem certeza? - perguntou Miguel, indeciso.
- Tenho. Voc precisa ajud-la.
- O que tenho de fazer? Se for para voltar a viver ao lado daqueles que me amam, sou capaz de qualquer coisa, inclusive ajudar Guilhermina.
Joo sorriu.
- Ento venha comigo. Acompanhe-me, por favor.
Miguel assentiu com a cabea e logo eles estavam na porta do centro esprita.
- Agora voc vai seguir Guilhermina.
- Segui-la?
- Isso mesmo. Vai segui-la at sua casa. Venha, vou lhe dizer o que fazer.
Guilhermina estava mais calma, mas a sensao desagradvel persistia em seu peito.
Ana Paula e Fernando quiseram acompanh-la at em casa. Ela retrucou:
- No  necessrio.
- Vamos, sim. Tambm quero saber sobre Luis Carlos.
Os trs se dirigiram  casa de Guilhermina. A um sinal de Joo, Miguel foi at eles. Estava estupefato. Ana Paula e Guilhermina estavam de mos dadas! Isso era algo 
que ele jamais poderia pensar que um dia pudesse ver. Miguel entrou no carro e sentou-se ao lado da esposa. Perscrutou a mente dela e ficou pasmo. Guilhermina pensava 
em Luis Carlos com amor e, s vezes, quando no pensamento vinha a figura de Ana Paula, ela vibrava ternura. Algo muito estranho estava acontecendo. A mulher nunca 
fora to amvel assim. Curioso e atento, Miguel seguiu Guilhermina, Ana Paula e Fernando. Entretanto, uma fora o puxava para fora do carro. Ele incomodou-se e, 
por mais que tentasse se mantiver fixo no banco do carro, foi atirado  grande distncia. Caiu dentro de uma sala. O ambiente era-lhe familiar. Otto chegou  casa 
muito nervoso. Zara acabara ele chegar, carregada ele sacolas. Mulher estou com um pressentimento de que as coisas vo piorar para o nosso lado.
- Por qu? - perguntou ela, apreensiva.
- Ramrez est aprontando para cima de mim. Estou temeroso. Talvez seja melhor mudarmos para Buenos Aires. Por uns tempos.
- Partir assim?
- . Sinto que vamos nos meter numa enrascada. Muitos querem o controle elo trfico. Temo por nossa segurana. Precisamos partir imediatamente.
A empregada adentrou a sala e entregou um bilhete a Otto.
- O que  isso? - o indagou.
-  de Maria Cndida.
Otto abriu e leu. Pela fisionomia elo marido, Zara percebeu que Maria Cndida havia aprontado alguma.
- O que foi?
Otto terminou ele ler a carta e a amassou.
- Maria Cndida viajou para Uberaba com seu primo Ernani.
- Mas como? Fui fazer algumas compras. Esperava receb-lo aqui amanh.
- Voc se enganou. Ele veio agora  tarde. Maria Cndida resolveu partir para tratamento.
- Pensei que ela fosse resistir, e, no entanto nos surpreendeu. 
- Ela no podia ter feito isso conosco, Zara. Nunca!
- Foi melhor assim, Otto.
- Nos abandonar sem mais nem menos?
- Ernani vai cuidar bem dela. Voc vai ver.
- Confia demais em seu primo.
- Sim, confio.
- No gosto de espiritismo. Ele pode fazer uma lavagem cerebral em nossa filha.
- Deixe de drama, Otto. Voc sempre superprotegeu Maria Cndida. Ela  adulta, deixe que conduza sua vida.
- Ser?
- Sim, querido. Assim podemos fazer nossas malas e viajar mais tranqilos. Ningum imagina que Maria Cndida esteja com Ernani. Voc no se preocupa com o bem-estar 
de nossa filha? Pois bem, temos um problema a menos para resolver.
- A polcia andou investigando alguns de meus assistentes. Eles esto apertando o cerco.
- Vou subir e fazer as malas.
- Enquanto isso vou ligar para o Teles. Ele vai nos arrumar as passagens a tempo.
Naquele mesmo final de tarde, Lurdinha chegou  sede da metalrgica Marzolla. Cumprimentou o porteiro.
- Vim buscar um pacote deixado pela Suzana. O rapaz a atendeu prontamente.
- Aqui est.
- Obrigada.
Lurdinha perpassou o olhar pelo ptio e recolheu o carro de Bruno. Perguntou de supeto:
- O Bruno ainda est trabalhando?
- Sim, senhora. Vai sair bem tarde.
- Poderia falar com ele?
- No sei - respondeu o porteiro, hesitante.
- Tenho um recado de Suzana para ele - mentiu.
- Se  recado da secretria do patro, ento pode deixar comigo.
Lurdinha baixou o tom de voz.
-  particular. Em todo caso, se quiser pode deixar, eu o aviso outra hora. Mas, depois, se a Dona Rafaela ficar brava porque no lhe passei a mensagem, vou botar 
a culpa em voc. Sabe que pode perder emprego por conta disso, no sabe?
- Bom...
- Qual seu nome? Vou botar a culpa em voc.
O porteiro titubeou.
- Pode subir. Ele est no segundo andar. Terceira porta  esquerda. 
Lurdinha sorriu feliz.
- Obrigada.
Ela adentrou o ptio, contornou uma alameda ajardinada e chegou  recepo. Subiu as escadas, alcanou o andar indicado. Viu luz saindo de uma sala no fundo do corredor. 
S podia ser a de Bruno. Lurdinha correu at l. Parou na soleira. Respirou fundo e entrou. 
- Com licena.
Bruno estava com os olhos voltados para baixo, analisando alguns papis. No notou quem era. Disse, sem mexer a sobrancelha:
- O que ?
- Queria saber se precisa de mais alguma coisa.
Assim que Bruno levantou os olhos, teve estranha sensao. Ao fixar os seus olhos nos de Lurdinha, um calor apoderou-se de seu corpo. Ele se sentiu hipnotizado pela 
garota. Olhos arregalados levantou-se rpido e foi ter com ela.
- Quem  voc?
- No se lembra de mim?
- No.
- Estive na festa de seu pai.
- Impossvel no ter notado tamanha beleza.
Lurdinha fez beicinho.
- Estava preocupado demais com a Suzana.
Ele fez um gesto vago com as mos.
- Suzana? Eu no gosto dela. Na verdade, nunca tive nada com a Suzana. 
- Mas estava interessado nela.
- Passou. Meu corao parece que tem outra dona.
Lurdinha riu. Intimamente agradeceu a Pai Thomas e seus espritos pela ajuda recebida. Agora Bruno no escaparia mais de suas mos. Nunca mais, ela jurou. Miguel 
olhou ao redor. Onde estava? Havia pouco, estava no carro, sentado ao lado de Guilhermina, e num piscar de olhos foi parar naquela sala? Por que mudara de ambiente 
to rpido? Aps passar a tontura, examinou melhor o local. Ouviu vozes e, ainda com as impresses do mundo fsico, escondeu-se atrs da porta. Guadalupe entrou 
na sala acompanhada de Ramrez. Os dois gargalhavam a valer.
- Servio feito. O tonto nem desconfiou.
- Tem certeza, Guadalupe?
- Absoluta. Cabeo no erra o alvo. Eu mesma vi o corpo de Luis Carlos boiando na represa.
Ao ouvir isso, Miguel sentiu as pernas falsearem. Estavam falando de seu filho. Teriam matado Luis Carlos? Ele precisava escutar melhor e, tomado de coragem, aproximou-se 
dos dois. Ramrez e Guadalupe nem notaram sua presena. Ramrez tornou eufrico:
- Agora vamos  melhor parte do plano: fazer uma cpia da fita e enviar para a polcia as ameaas de Otto, gravadas! Cabeo vai ligar para l e comunicar que h 
um corpo boiando na represa Billings. Vai dar tudo certo. Otto vai ser preso esta noite e ns vamos assumir todo o controle do trfico de drogas.
Guadalupe gargalhava.
- Vamos nos livrar definitivamente de Guilhermina.
- Ela nos foi til at agora, meu amor. Se no fosse Guilhermina, no teramos chegado at aqui.
- Voc a manipulou com maestria. Achegou-se da famlia, fez amizade com Miguel.
- O tonto no percebeu nada. Torrou todo o dinheiro na compra daquelas aes fajutas. Caiu feito um pato.
- E a boba da Guilhermina no percebeu que estava sendo usada. - Guadalupe suspirou.
- Ah, corazn, voc  um homem brilhante. Arruinamos a famlia Gouveia Penteado sem d nem piedade. Entretanto, tenho medo de Guilhermina. Ela era doida pelo filho. 
Morria de amores por ele. 
- Bobagens. Guilhermina provavelmente vai ter um derrame. E, se ela der com a lngua nos dentes, o Cabeo d conta do recado de novo.
- Estou preocupada com a fita original. No acha melhor tirar do escritrio?
Ramrez sorriu ar triunfante.
- A fita est num local onde ningum poderia sequer imaginar.
- Onde?
- Dentro de um palet de Miguel.
- Voc escondeu a fita num dos palets do falecido? No posso crer!
- Verdade. Os empregados levaram suas roupas para o sto, quando me mudei para l. Ningum nem se lembra das roupas. Quando forem procurar, anos l na frente, a 
fila estar mofada, envelhecida. Vo jogar fora, com certeza. Mas logo mais vou at a casa, pego a fita, fao a cpia e talvez at jogue a original no lixo.
- Jamais iriam procurar ali. Voc  brilhante!
Guadalupe atirou-se nos braos do amante. Estava extasiada. O que mais queria era chegar ao poder. Estava quase l. Faltava muito pouco, talvez algumas horas, para 
ela se tornar a nova rainha da contraveno de toda a Amrica do Sul. Miguel ficou estarrecido. Num primeiro momento no sabia o que fazer, como agir. Seu filho 
havia sido morto por aqueles salafrrios. No entanto, iriam incriminar outra pessoa e se safar de um crime hediondo. Ao mesmo tempo em que tentava concatenar seus 
pensamentos, tomara conscincia do quanto sua mulher havia sido usada pelo casal de contraventores. Estava indignado. Miguel avanou sobre Guadalupe com fora descomunal.
- Sua pilantra! Matou meu filho. Quero que morra!
O dio era tanto que Guadalupe afastou-se de Ramrez e sentiu tremenda dor de cabea, seguida de forte enjo.
- O que foi? - perguntou Ramrez.  Voc est plida.
- No sei. Um mal-estar sem igual. Acho que as emoes foram muito fortes. Preciso de um calmante.
Miguel continuava a atac-la. Joo chegou e o afastou da moa.
- No precisa fazer isso. Deixe que a vida se encarregue de ambos.
- Mas eles mataram meu filho, vai incriminar outro e voc acha que est tudo bem?
- Voc est cego de dio. No consegue enxergar alm.
- E o que mais tenho de enxergar?
- Eles no esconderam uma fita?
- Sim.
- Ento v e inspire sua mulher.
- Como, Joo?
- Chegue prximo, inspire nela o forte desejo de remexer em suas roupas.
- Guilhermina jamais faria isso. Ela nunca deu a mnima para mim.
- Mas aproveite. Sua filha est junto. Voc pode fazer alguma coisa para mudar o rumo da histria.
- Eu?!
- Sim, Miguel. V at sua casa e ajude sua famlia a encontrar essa fita. No temos muito tempo.
- Mas e meu filho?
- H espritos amigos e mais amigos encarnados que esto cuidando dele. No se preocupe. Confie. Miguel, auxiliado por Joo Caveira, foi transportado num instante 
para sua casa.
Assim que se certificou de que estava em sua antiga residncia, foi direto ter com os seus. A moa que presenciou os tiros, amparada pela espiritualidade maior, 
foi inspirada a anotar a chapa do carro e socorrer Luis Carlos. Meia hora depois dos disparos, o rapaz fora encaminhado para um hospital pblico na cidade de So 
Bernardo do Campo. O hospital no era bem aparelhado, contudo os mdicos puderam prestar auxlio emergencial a Luis Carlos e, uma hora depois, uma ambulncia o conduzia 
at o Hospital das Clnicas. L chegando, foi imediatamente levado  sala de cirurgia. Os mdicos vasculharam seus documentos e, to logo descobriram de quem se 
tratava, ligaram para sua residncia. Guilhermina chegou a casa e jogou-se pesadamente sobre o sof. Aps meditar por alguns instantes, percebeu o olhar inquietante 
da filha. 
- O que foi?
- No tenho nada com sua vida, mas o Ramrez no est aqui, no ?
Guilhermina fez um gesto com as mos.
- Esse homem no pra mais em casa. Diz que tem trabalho e mais trabalho. Ramrez mudou muito o comportamento.
- Voc o ama, me?
Guilhermina ficou parada por um momento. Estava cansada, e o tempo mostrara que a convivncia diria com Ramrez no era l um mar de rosas. Tambm notara o afastamento 
dele, no a procurando mais. De uns tempos para c, ela pensava somente no bem-estar do filho. Ela amava Luis Carlos de verdade; no tinha dvidas. Mas ser que 
amava Ramrez? No seria uma paixo passageira, que surgiu no momento em que seu casamento atravessava uma grande crise? Guilhermina hesitou, por fim respondeu:
- Eu gosto dele, mas no o amo. Nossa relao no anda muito boa.
- Fiquei sabendo que Guadalupe est morando aqui.
 - Essa no vejo h tempos. Fica muito pouco em casa. Diz que esta casa a aprisiona.
Ana Paula sentou-se ao lado da me. Pousou as suas mos sobre as dela.
- Por que permite que essa gente viva aqui nesta casa?
- Gratido, Ana Paula. Se no fosse o Ramrez, eu estaria agora sabe Deus onde. Talvez no olho da rua. Ele arrematou em leilo esta casa, me deu um teto. E, alm 
disso, sustenta seu irmo.
- No acha que est na hora de mudar?
- Como assim?
- De viver com as prprias pernas?
- Ora, Ana Paula, no tenho mais idade para isso.
- Idade no conta, me. Voc pode fazer o que quiser. No precisa do Ramrez para nada. De que adianta ter luxo? Voc est infeliz.
Guilhermina nada disse. Sua filha tinha razo. Ela estava profundamente infeliz. De que adiantava ter dinheiro se estava vazia, completamente oca por dentro? Ela 
parou para refletir sobre sua vida. Ficou ali sentada, cabea baixa, relembrando toda a sua vida, desde os tempos de princesa na adolescncia, passando pela falncia 
da famlia, depois o casamento com Miguel, os anos de casada. Miguel ficou acompanhando o fluxo de seus pensamentos. Conforme notava a reflexo de Guilhermina, percebia 
que tambm ele contribura, e muito, para a infelicidade de ambos. S quiseram fazer dinheiro e mais dinheiro. Nunca pararam para sentir, nunca pensaram sobre o 
que queriam fazer de verdade na vida. S viveram em funo do dinheiro e da sociedade. Abandonaram-se em prol das colunas sociais. O pensamento de ambos foi desviado 
assim que o telefone tocou. Maria atendeu e chamou a patroa, aflita. Guilhermina pegou no fone e, conforme ouvia um dos mdicos sentiu o sangue sumir de suas faces. 
Ela precisou sentar-se para no desmaiar. Ana Paula aproximou-se e a segurou pelos braos. Assim que pousou o fone no gancho, Guilhermina disse, com voz que procurou 
manter firme:
- Seu irmo est sendo operado no Hospital das Clnicas.
- Como? O que aconteceu?
- Levou dois tiros. Os mdicos removeram uma bala. A outra se alojou numa das vrtebras, prximo  coluna.
Guilhermina falou e tapou o rosto com as mos, em profundo desespero. Ana Paula abraou-se a ela.
- Calma! Ele est vivo. Isso  o que importa.
Fernando adiantou-se:
- Vou ligar para o Durval.
Miguel no conseguiu conter o pranto. Seu filho ainda estava vivo. Tudo poderia se reverter. Estava comovido tambm em ver me e filha abraadas, unidas naquele 
momento to triste e decisivo de suas vidas. Fernando pousou o fone no gancho. Ana Paula estava agoniada.
- E ento?
- Uma amiga de Durval estava assistindo a televiso e viu o noticirio. Quando Durval soube se tratar de Luis Carlos, foi ao hospital com Claudete e Tnia. Esto 
l, aguardando e orando pelo restabelecimento do seu irmo. 
- Eu quero ir para l - suplicou Guilhermina.
- Melhor ficar em casa, me. Vamos aguardar.
- No posso ficar aqui parada.
- E no hospital? Vai fazer o qu?
- Quero estar ao lado de meu filho.
- Vamos nos tranqilizar. Luis Carlos precisa de nossa vibrao. No vamos nos desequilibrar. Precisamos ser fortes  disse Ana Paula, firme.
Fernando admirou-se da postura da noiva. Guilhermina encarou a filha e assentiu com a cabea. De nada adiantava desesperar-se. Embora o momento exigisse confiana, 
Guilhermina sentia uma dor no peito sem igual. Por mais que tentasse, a agonia a consumia. Quando os primeiros raios de sol surgiram, o telefone tocou. Guilhermina 
teve medo de atender. Dirigiu olhar de splica a Fernando. 
- Poderia atender para ns?
Fernando fez "sim" com a cabea e atendeu. Era Durval. Assim que Fernando pousou o fone no gancho, sorriu aliviado. Guilhermina mordia os lbios, tomada de angstia.
- E ento?
- Seu filho foi operado e passa bem.
Guilhermina levantou as mos para o alto.
- Graas a Deus! Meu filho est vivo!
- Durval conversou com um dos mdicos que o operaram. Luis Carlos teve muita perda de sangue, mas est fora de risco de morte. Por enquanto no sabem como seu corpo 
vai reagir, visto que uma das balas ainda est alojada prximo da coluna. Eles temem que ele possa ficar com alguma leso  afirmou ele, preocupado.
- No tem importncia. Eu quero meu filho, vivo, ao meu lado, de qualquer jeito  bradou Guilhermina.
Ana Paula abraou-se  me.
- Calma. Estou aqui ao seu lado. Faremos tudo o que for possvel pelo pronto restabelecimento de Luis Carlos.
Fernando interveio:
- Durval pediu que levssemos algumas mudas de roupa. As que Luis Carlos estava usando foram rasgadas, por conta da emergncia.
- Vou providenciar - declarou Guilhermina.
Nesse momento Miguel aproximou-se da esposa. Dentro do pouco que sabia sobre manipulao mental, procurou induzida a lembrar-se de suas roupas. Passados alguns minutos, 
mais calma pela boa notcia, ela tornou:
- Luis Carlos precisa ficar bem agasalhado.
- Sim, me - replicou Ana Paula -, mas Luis Carlos no deve receber alta em pouco tempo. Poder ficar muitos dias no hospital.
- Eu sei, entretanto, quando for sair, no poder pegar um pingo de friagem.
- Levaremos roupas de l; pode deixar.
Guilhermina teve um lampejo.
- Poderamos levar aquele casaco que Luis Carlos comprou em Nova York.
- Aquele pesado, revestido de peles?
- Esse mesmo.
- Me, aquele casaco  muito pesado. No estamos passando por tanto frio assim.
- Temos de nos precaver. Vou procurar pelo casaco.
Guilhermina deixou Ana Paula e Fernando na sala. Subiu correndo as escadas. Adentrou o quarto do filho. Abriu o guarda-roupa e procurou pelo casaco. No o encontrou. 
Voltou at o beiral da escada e chamou Maria.
- Pois no, senhora?
- Cad os casacos de Luis Carlos?
- Est no sto, senhora.
- No sto? Quem os mandou para l?
- Luis Carlos comprou algumas peas no ms passado. O guarda-roupa estava entulhado de roupas e ele resolveu ganhar espao, enviando os casacos para o sto. Eu 
mesma os levei para l.
Maria baixou os olhos. Guilhermina perguntou:
- O que foi?
-  que no tive tempo de arrumar os casacos, Dona Guilhermina. Ento eu os deixei junto com as roupas do Dr. Miguel.
- Qual o problema?
- Deveria ajeitar tudo direitinho. Farei isso na prxima semana.
- No ser necessrio  retrucou Guilhermina, enquanto se dirigia  escada que conduzia ao sto. - Vou me desfazer das roupas de Miguel. Quero me livrar do passado, 
em definitivo.
Guilhermina subiu as escadas. Conforme foi vasculhando as roupas, encontrou o casaco. 
- Ah! - suspirou. - Ainda bem.
Miguel estava ao seu lado. Tentava de todas as formas faz-la remexer nas suas roupas. Guilhermina pegou alguns costumes que estavam sobre o casaco do filho e os 
quis colocar numa poltrona. Maria chegou para ajud-la e, assustada, Guilhermina desequilibrou-se e derrubou as roupas. Maria correu.
- Deixe que eu a ajudo, Dona Guilhermina.
Foram colocando as peas sobre a poltrona, quando um objeto escorregou do bolso de um dos palets de Miguel. Assim que viu a caixinha, Guilhermina ajoelhou-se e 
a pegou.
- O que  isso?
- Parece uma fita, Dona Guilhermina.
Vou levar para baixo. Semana que vem quero tudo isso arrumado, entendeu?
- Sim, senhora.
Guilhermina apanhou a fita e o casaco, desceu at a sala. Ana Paula havia tomado algumas providncias e estavam prontos para ir ao hospital. Assim que viu o casaco, 
ela sorriu.
- Me, esse casaco  pesado demais.  ideal para enfrentar neve. A temperatura l tora est baixa, mas suportvel. Vamos deix-lo aqui. Se precisar, o Fernando vem 
buscar. Garanto que Luis Carlos no vai passar frio. Confie em mim.
Guilhermina deu de ombros.
- Est certo. Vou deix-lo, por ora.
- O que  isso? - perguntou Ana Paula, apontando para o objeto na mo da me.
- Uma fita. Estava no bolso de um dos palets de seu pai.
- Uma fita? - indagou Ana Paula, curiosa.
- Sim. Uma fita cassete.
- Podemos ouvir a fita no caminho do hospital - tornou Fernando.
- tima ideia - ajuntou Ana Paula.
Entraram e ajeitaram-se no carro. Assim que ganhou a rua, Fernando colocou a fita.
Alguns rudos, e, em seguida, a voz de Otto:
- Eu juro que o mato. Voc no tenha dvida de minhas palavras, Ramrez - Se Luis Carlos se aproximar de Maria Cndida, eu o mato, entendeu?
Os trs estavam estupefatos. Guilhermina iria falar, todavia ouviram mais outro rudo, um zunzum, e surgiu nitidamente a voz de Ramrez:
- Otto vai ser responsabilizado pelo atentado e morte de Luis Carlos. Ser preso e a teremos caminho livre para assumirmos o nosso posto como reis do trfico. 
- Cabeo  de confiana, corazn?
- Totalmente. Ele nunca ganhou tanto dinheiro na vida. Vai fazer o servio direitinho.
- Que plano mais fantstico! Cabeo mata o Luis Carlos, e Otto leva a culpa.
- Isso mesmo, Guadalupe.
Guilhermina e Ana Paula levaram a mo  boca. Fernando estava pasmo.
- Os dois bolaram um plano tenebroso!
- Planejaram a morte de meu filho  dizia Guilhermina, tomada de assombro. - E eu os acolhi dentro de casa... Dois assassinos!
Guilhermina cobriu o rosto com as mos e chorou, chorou muito. Ana Paula, sentada no banco de trs, procurou confort-la, acariciando-lhe os cabelos.
- No fique triste assim, me. Vamos levar esta fita  polcia. Ramrez e Guadalupe sero presos.
- Eu farei de tudo, usarei de todas as minhas foras para meter esses dois na cadeia. Nem que seja a ltima coisa que eu faa na vida - bramiu Guilhermina, voz entrecortada 
pela raiva.
Miguel acompanhava tudo e sentiu-se sereno. Uma sensao de misso cumprida. Joo achegou-se: 
- O tempo urge. Precisamos partir.
- Agora quero ver o desenrolar dos acontecimentos.
- No. Voc iniciar seu tratamento. Sua raiva est mais branda. Logo vai reencarnar.
- Agora que minha famlia est bem, devo deix-los?
- Voc vai reencontr-los.
- Quando, Joo?
- Em breve, meu amigo, em breve. Agora se despea dos seus.
Miguel beijou a fronte de Guilhermina e lhe sussurrou nos ouvidos:
- Sou muito grato a voc. Obrigado por captar meu pensamento. Voc salvou nossa famlia.
Em seguida, ele passou as mos pelos cabelos de Fernando. Depois, beijou longamente a face de Ana Paula. Eu a amo muito. Tenho muito orgulho de ser seu pai. Lgrimas 
nos olhos, Miguel despediu-se e partiu com Joo Caveira. Ana Paula registrou as emoes do pai. Pensou com amor e carinho em Miguel, e uma lgrima de saudade escorreu 
pelo canto de seus olhos. Guilhermina sossegou somente no instante em que viu o filho. Mesmo sedado e controlado por aparelhos, Luis Carlos parecia que iria se recuperar 
do atentado. Tnia, Claudete e Suzana estavam no hospital, bem como Odcio e Adlia. Durval aproveitou a presena de todos e solicitou uma prece de agradecimento 
e nova vibrao por Luis Carlos. Guilhermina estava com dificuldade em se concentrar.
- Preciso levar a fita  delegacia. No posso deixar dois assassinos impunes.
- Tenha pacincia, Guilhermina - tornou Durval, com amabilidade na voz. - Primeiro precisamos agradecer aos bons espritos que nos ajudaram e queles que ainda ajudam 
seu filho para seu pronto restabelecimento da sade. A fita no caiu em suas mos ao acaso, portanto a espiritualidade maior est do nosso lado. Vamos confiar; tudo 
vai dar certo. Agora se concentre e vamos novamente orar pelo seu filho.
A melhora de Luis Carlos era tudo o que Guilhermina mais desejava. Sabia que mais cedo ou mais tarde Ramrez e Guadalupe seriam presos. Procurou concentrar-se na 
orao e vibrar positivamente pela melhora do filho. Albertina, comovida, estava presente. Um esprito amigo aproximou-se dela.
- Est feliz?
- Muito. Parece que nossa famlia vai ficar mais forte e unida de agora em diante.
- s vezes somos obrigados a passar por situaes desagradveis a fim de acordar, mudar e crescer.
- Confesso que, quando estamos encarnados, h uma linha muito tnue que nos mantm ora ligados no bem, ora no mal.
- Infelizmente temos forte tendncia  maledicncia.  a energia que paira no mundo. Grande parte da populao encarnada est ligada no bem, entretanto muitos meios 
de comunicao alardeiam a maldade.
- Parece que todos esto matando, corrompendo, quando, na verdade, muito poucos praticam o mal.
- Albertina - disse o esprito amigo -, quando o homem perceber que o mal  uma iluso, o mundo vai mudar. O futuro promete ser bem diferente.
- S o bem  verdadeiro - tornou ela, sorrindo.
Albertina dirigiu-se at Ana Paula. Beijou-lhe a fronte, agradecida. O esprito amigo declarou:
- Est pronta para voltar?
- Estou, mas no vou reencarnar.
- Ah, no?
- No. Miguel teve a oportunidade de novo reencarne e vai precisar muito de espritos amigos ao seu redor, em sua nova jornada. No momento no posso me aproximar 
dele, visto que vibramos em faixas energticas distintas.
- Hum, ento quer dizer que, se Miguel estiver encarnado, voc ter condies de se aproximar?
- Sim.  dessa forma poderei lhe prestar auxlio. Eu o amo muito. Ao lado de Miguel, como uma espcie de protetora, poderei lhe dar fora para que no cometa novamente 
esse ato tresloucado.
- Desejo-lhe muita sorte nessa nova empreitada.
- Muito obrigada.
Os espritos alaram vo e sumiram no espao. Durval tocou a mo de Suzana e a conduziu at o ptio do hospital. 
- Precisamos conversar.
- Pode contar comigo para quantas sesses forem necessrias. Desejo do fundo do corao que Luis Carlos melhore e possa aproveitar a nova chance que a vida lhe deu.
- Ele vai ficar bem. Soube que h certa afinidade espiritual entre ele e uma jovem. 
-  mesmo? - indagou Suzana, surpresa. 
Durval apontou para um canto do ptio. Suzana espremeu os olhos e reconheceu. Sentada num banco, mos entrelaadas, olhos fechados, l estava Tnia. Ela orava com 
fervor, pedindo ao plano espiritual que ajudasse Luis Carlos.
- Acha que... - retrucou Suzana.
- Acho, no. Tenho plena convico. Tnia e Luis Carlos tm laos de amor que os unem h muitas vidas. Eu fui alertado e sabia do possvel encontro. Entretanto ambos 
viviam em mundos to distantes, que eu acreditava ser praticamente impossvel esse reencontro.
- Fico feliz caso o interesse entre ambos se concretize. Tnia  excelente pessoa.
- E enfermeira. Quem vai cuidar de Luis Carlos assim que ele receber alta dos mdicos?
Suzana riu-se.
- A vida  mgica. Sempre h uma maneira de unir as pessoas.
- Na hora certa, e no momento certo - ajuntou Durval.
De repente os olhos de ambos se cruzaram. Sustentando o olhar, Durval disparou:
- Agora que est tudo bem, poderia lhe fazer uma pergunta?
- Pois que faa - replicou Suzana, sentindo o corao disparar.
Durval pigarreou, tocou-lhe delicadamente a fronte e indagou:
- Quer se casar comigo?
Suzana abriu e fechou a boca, mal conseguindo articular som.
- Casar?! - perguntou ela estupefata.
- Sim. Quer ser minha esposa?
- Mas voc mal me conhece! Comeamos a nos ver faz pouco tempo e...
Durval a cortou:
- O tempo no conta. O que sinto por voc  muito forte. Eu a amo, Suzana. No estou enganado. Voc  a mulher da minha vida.
Suzana no resistiu. Jogou a cabea para trs, fechou os olhos, abriu lentamente os lbios. Durval aproximou-se e a beijou com sofreguido. Ptalas de rosas, invisveis 
aos olhos humanos, foram derramadas sobre o casal, como manifestao da espiritualidade maior abenoando a unio dos dois. A jovem que presenciara os tiros disparados 
contra Luis Carlos deps na delegacia. No vira ningum, um rosto sequer. S escutara os disparos secos e apenas teve tempo de verificar a placa. 
- Como a viu, se estava tudo escuro? - indagou um dos policiais.
- Eu carregava uma lanterna comigo.
- O que fazia ali, quela hora da noite?
A moa remexeu-se na cadeira. O seu rosto corou. O policial insistiu:
- E ento?
- Bom, eu estava atrs de meu namorado, sabe? Uma amiga me disse que o Pricles iria at um bar no Riacho Grande com uma amiga e depois iriam at a represa. Ah, 
eu fiquei to fula da vida e fui at l, com a ajuda da Selma, porque ela tem carta de motorista e tudo. Eu sou menor ainda. Tenho s dezessete anos.
O policial exalou profundo suspiro. Suas rbitas deram voltas sobre os olhos. A garota falava pelos cotovelos.
- Mas no encontrei meu namorado. Fiquei vasculhando um pouco mais a rea, at que...
O policial a cortou:
- No precisamos saber da sua vida.
Ela baixou os olhos envergonhados.
- Desculpe. Eu carregava a lanterna para dar um flagra no Pricles. Foi quando ouvi os disparos, ouvi vozes, o carro derrapando e a placa: 22-40-34.
- Tem certeza?
- Absoluta. Sou muito boa em nmeros. Na escola, quando a professora nos d equaes para resolver, todo mundo pede a minha ajuda, e, ademais, eu tambm sou...
O policial a cortou novamente:
-  suficiente, minha filha. O nmero da placa j ajuda sobremaneira. Leia, confira e, se estiver tudo em ordem, assine a sua declarao e pode se retirar.
- Sim, senhor.
Quando Luis Carlos saiu da unidade de terapia intensiva e foi liberado para o quarto, alguns dias depois, Guilhermina fez questo de ir pessoalmente  delegacia. 
Amparada por Ana Paula e Fernando, entregou a fita aos policiais. A fita foi enviada para percia e, comprovada sua autenticidade, foi decretada a priso de Guadalupe 
e Ramrez. Assim que foram presos, os dois espumavam de dio. 
- Eu no vou ser presa sozinha! Otto tambm merece ser punido - bradava ela, completamente descontrolada, j colocada numa cela comum, ao lado de outras detentas.
A famosa carta sob as mangas que Guadalupe dizia ter contra Otto finalmente veio  tona. Quando morava no Rio de Janeiro, ela conheceu um alemo fugido da guerra. 
Durante o breve caso, descobriu que esse alemo fora amigo de Otto Henennann. Guadalupe ento foi  cata de informaes, e, atravs de contatos espalhados pelo mundo 
da contraveno, descobriu que Otto era um refugiado de guerra. Ele no era judeu. Pelo contrrio, ele fora o responsvel pela morte de muitos judeus nos campos 
de concentrao. Tatuou de propsito num dos pulsos as marcas e os nmeros iguais aos dos judeus presos nos campos. Na verdade, Otto se chamava Franz Bauer, um oficial 
nazista procurado pela polcia internacional. Dois meses depois de ser presa, Guadalupe entregou todos os documentos, tudo o que tinha em mos e que desmascaravam 
Otto. A polcia localizou o alemo e Zara em Buenos Aires. Foram presos e expatriados, julgados e condenados por crimes de guerra. Livre de Ramrez, Guilhermina 
deu novo curso  sua vida. Com o tempo, ela descobriu que seu ex-amante passara a casa do Pacaembu para o nome de Ana Paula. Em comum acordo, ela e os filhos venderam 
a propriedade. Com o dinheiro repartido igualmente entre os trs, Guilhermina pegou sua parte, comprou modesta casa num bairro afastado e recomeou sua vida, ao 
lado do filho e de Tnia, hm pouco tempo, uma sincera amizade nasceu entre ambas e, assim, ajudaram Lus Carlos a se recuperar das leses. Ele ficou dependente da 
ajuda de uma bengala para se locomover. Voltou a estudar, concluiu o curso de Direito e montou modesto escritrio no centro da cidade. Ana Paula, com a sua parte 
do dinheiro, comprou gracioso sobrado prximo dos sogros. Casou-se com Fernando. Seu Hiroshi, j velho e com vontade de voltar ao Japo, para junto de seus parentes, 
vendeu por quantia modesta a sua parte na tinturaria.  Com isso, Fernando ampliou o negcio e em poucos anos estava com lavanderias espalhadas por toda a cidade. 
Ele e Ana Paula tiveram um filho, Carlinhos. Desde a mais tenra idade, Carlinhos mostrava um gosto duvidoso por velrios e enterros. Sempre que algum parente ou 
amigo do casal morria, l estava o menino querendo ajudar a vestir o morto, a participar do velrio, querendo carregar o caixo. Era estranho, muito estranho. Entretanto 
Durval, agora cunhado de Ana Paula, a advertia de que aquilo tudo tinha a ver com o esprito do filho. Esse gosto fazia parte da essncia do menino, assegurava-lhes 
Durval, tentando tranqilizar o casal. Ana Paula procurava entender o gosto de Carlinhos. Ele preferia mil vezes passar  tarde num cemitrio do que brincar com 
os amiguinhos. Vai saber o porqu de tanta esquisitice...  Guiomar ficou  frente da penso at sua morte, em 1979. Aps seu desencarne, passou por tratamento num 
posto de socorro prximo da Terra e, assim que recebeu alta, foi morar com Albertina. Guiomar aos poucos foi tendo acesso s suas memrias passadas e teve conscincia 
de que, devido ao grande nmero de abortos feito nas duas ltimas vidas, veio ao mundo nesta ltima encarnao sem condies fsicas para gerar filhos. Claudete 
deixou de lecionar, casou-se com rico industrial e fixou residncia em Campinas, interior paulista. Teve quatro filhos e um lar harmonioso e feliz. Anos depois, 
com o apoio do marido e ajuda dos filhos, fundou um centro esprita at hoje muito procurado, inclusive por pessoas da capital. Lurdinha conseguiu o que tanto queria. 
Finalmente casou-se com Bruno. Na lua-de-mel comearam as desavenas. Numa noite, preparando-se para sair, Lurdinha colocou uma minissaia. Bruno a impediu, da veio 
 discusso, a briga, o tapa e a surra. Bruno tinha um cime doentio da mulher e, sempre desconfiado, a enchia de tabefes. Quanta e quanta vez Lurdinha apanhou! 
Quanta vez apareceu na casa de Ana Paula, lbios inchados, culos escuros cobrindo o roxo dos olhos. Durval a aconselhou a procurar Pai Thomas, mas era tarde demais. 
Convidado para ser guru exclusivo de uma condessa, o pai-de-santo arrumou as malas e se mandou para a Itlia. Lurdinha purgou por centros espritas, terreiros de 
umbanda e de candombl. Ningum podia desfazer a amarrao de Pai Thomas. Seus comparsas espirituais no permitiam que ningum desmanchasse o feitio. Talvez, mudando 
a atitude, reavaliando sua postura e suas crenas, Lurdinha pudesse um dia se livrar das garras do marido agressor. Ela at tentou fugir, mas Bruno sempre a encontrava. 
Quem sabe, um dia, ela poderia ter condies de mudar o destino e livrar-se da arapuca que criou para si mesma? Maria Cndida se beneficiou sobremaneira do tratamento 
no Sanatrio Esprita de Uberaba. Com a ajuda de profissionais, melhorou a auto-estima, mergulhou fundo nos seus medos, encarou-os de frente e tornou-se uma nova 
mulher. Ficou at mais bonitinha. J que no tinha beleza fsica, usou de seu charme para se tornar uma mulher interessante. E conseguiu. Ao descobrir a verdadeira 
origem de seu pai, Maria Cndida entristeceu-se alm da normalidade. Entretanto, Otto havia ceifado muitas vidas e tinha de arcar com as conseqncias. Ela mesma 
ajudou a polcia internacional a descobrir o dinheiro do pai escondido nos bancos suos. Maria Cndida no queria usufruir daquele dinheiro arrancado  custa de 
muita tortura e morte. Preferia recomear por si, ao lado de Ernani. Ela aprendeu o verdadeiro sentido do amor ao lado de Ernani. Ele a ajudou em demasia. Deu-lhe 
total apoio e formavam bonito casal. Otto e Zara passaram a ser assediados por espritos sedentos de dio, que os perseguiam havia muito tempo, culpando-os por 
terem desencarnado nos campos de concentrao. Enlouquecidos por tamanho assdio, Otto e Zara se mataram. Maria Cndida chorou muito a morte dos pais. Orou muito 
por eles, mas nada podia fazer. Cada um era responsvel pelo seu destino. Que Deus pudesse ter compaixo de seus pais. Eles haviam plantado. E agora estavam recebendo 
os frutos... Nessa poca, Maria Cndida teve de vir a So Paulo para tratar da assinatura de alguns papis para o desbloqueio de nova quantia, em nome de Otto, encontrada 
num banco chileno. Era pura burocracia, mas ela tinha de vir  cidade. Fazia anos que ela no retornava. Assim que o avio aterrissou em So Paulo, ela sentiu um 
friozinho no estmago. Ernani apertou sua mo, transmitindo-lhe segurana. 
- Est tudo bem o passado est l atrs. Voc hoje  outra mulher. Maria Cndida meneou a cabea para cima e para baixo. 
- Tem razo. Hoje vivo outra vida. 
Eles pegaram um txi, foram at o escritrio dos advogados que representavam o banco chileno no Pas. Maria Cndida assinou os papis. Sentiu-se aliviada. Definitivamente 
todo o passado estava morto. 
- Podemos almoar e ir direto ao aeroporto, se quiser - tornou Ernani, em tom amoroso.
- Sim, mas antes gostaria de dar uma volta num parque. Vamos dar uma passadinha no Parque do Ibirapuera?
- Por que no? tima ideia.
O casal saiu do prdio no centro da cidade. Pegaram outro txi e foram para o parque. Ao chegar, Maria Cndida sorriu.
- Como  lindo! Adoro as alamedas, as flores, os pssaros. Um pedacinho do paraso no meio da cidade.
Ernani concordou. Foram caminhando por entre as alamedas. Ao dobrar uma delas, Maria Cndida foi tomada de susto. Segurou-se em Ernani para no cair.
- O que foi? - perguntou ele, preocupado.
Ela apontou com o dedo, tremendo qual folha arrastada pelo vento. Ernani observou  volta e avistou o homem. Luis Carlos estava sentado num banco. Numa mo segurava 
uma bengala. Na outra, apertava a mo de Tnia. Ele estava envelhecido, os cabelos prateados. Mas era ele, tinha certeza. 
- Vamos voltar - declarou Ernani.
- No.
- Tem certeza, meu amor?
- Sim. Eu mudei, no quero mais sentir medo. Tenho voc, no sou mais aquela garota boba e insegura do passado.
Luis Carlos conversava amenidades com a esposa quando notou a presena de Maria Cndida. Ele arregalou os olhos. Ela estava diferente, corpo bem-feito, cabelos elegantemente 
penteados, belo vestido. A aparncia estava tima. Maria Cndida aproximou-se:
- Como vai, Luis Carlos?
- Vou bem - disse ele, voz entrecortada pela surpresa. Para disfarar, ele apontou: 
- Esta  minha esposa, Tnia.
- Muito prazer.
- O prazer  meu - replicou Tnia.
- Este  meu marido, Ernani.
Eles se cumprimentaram. Luis Carlos no sabia o que dizer. Ento mudou o tom de voz e disparou:
- Sinto muito pelos seus pais.
Maria Cndida baixou os olhos. Exalou profundo suspiro e tornou sincera:
- Eu tambm sinto todos os dias. No os julgo, no os condeno. A nica coisa que posso fazer  orar e pedir para que um dia eles acordem para a realidade, arquem 
com as conseqncias de suas atitudes e tenham, por misericrdia divina, nova oportunidade para amadurecer e crescer.
- Voc est mudada. No parece aquela moa que conheci anos atrs. Est madura, sua voz  firme, embora seus gestos sejam suaves.
Maria Cndida riu-se.
- Voc tambm no  mais aquele moo por quem me empolguei e me apaixonei um dia.
Ele baixou a cabea, envergonhado. Maria Cndida tornou:
- Tudo passa Luis Carlos. Estou bem.
- Fico feliz - respondeu ele. - Estes anos todo torci muito pela sua felicidade.
- Obrigada.
- Parece que voc a encontrou nos braos de Ernani.
- E parece que voc descobriu o verdadeiro amor nos braos de Tnia - ajuntou ela.
Os quatro riram. Maria Cndida pigarreou e por fim perguntou:
- Tem notcias de Guadalupe?
Luis Carlos deu de ombros. Maria Cndida aquiesceu:
- Desculpe-me. No quero remexer em feridas do passado. Perguntei por curiosidade.
Luis Carlos sorriu.
- Isso faz parte do passado. Estou bem. Casei-me com o meu verdadeiro amor - tornou ele, emocionado. E, aps beijar amorosamente a fronte de Tnia, tornou:
- Guadalupe e Ramrez continuam presos. A Espanha solicitou  embaixada brasileira que ambos sejam julgados por crimes de narcotrfico. Eles tambm esto colhendo 
o que plantaram.
Maria Cndida aproximou-se e tocou suas mos nas dele.
- Eu tambm toro por voc, Luis Carlos, de corao.
Foi com sinceridade que Maria Cndida lhe disse essas palavras. Luis Carlos sentiu a ternura em sua voz. Aps conversa aprazvel, despediram-se. Luis Carlos fez 
fora para se levantar. Ajudado por Tnia, ergueu o corpo, com extrema dificuldade. Auxiliado por sua bengala, voltou s costas ao casal e, amparado nos braos da 
esposa, foi caminhando lentamente pelo parque. Maria Cndida fitou Luis Carlos e Tnia at dobrarem a alameda e desaparecerem por entre as rvores. Ernani pegou 
suavemente em suas mos.
- Est tudo bem?
- Sim, est. Agora est tudo bem.
Maria Cndida fitou o cu azul e lmpido, fechou os olhos e agradeceu a Deus por estar viva. Aspirou o ar e suas narinas foram invadidas pelo delicado e suave perfume 
das flores ao seu redor. Sentiu incrvel bem-estar. De mos dadas com Ernani, foi caminhando por entre os bosques do formoso parque. Ela finalmente encontrara a 
verdadeira paz. 



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